Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 21 de junho de 2014

Milton Hatoum – “Dois Irmãos”


MILTON, Hatoum. Dois irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. (10ª reimpressão, Companhia de Bolso)

A resgatar o tema da cizânia entre irmãos, tão antigo quanto o que se narra em Caim x Abel ou Esaú x Jacó, “Dois Irmãos”, segundo romance de Milton Hatoum – de ascendência libanesa, como os personagens principais de sua história –, retrata a relação inconciliável entre os filhos de Halim e Zana, os gêmeos Omar e Yaqub, os quais, conjuntamente a outros personagens que lhes são próximos, compõem uma espécie de família culturalmente mista, na Manaus do século passado. O enredo, ambientado sob o peso ubíquo da flora e da fauna amazônicas, é narrado pelo personagem Nael, cujo pai lhe é desconhecido, pois sua mãe, Domingas, reluta em lhe contar, objetivamente, qual dos filhos de Zana é o seu genitor. Num fluxo de memória ao melhor estilo machadiano, Nael investiga as relações mantidas por cada uma das duplas mais próximas Halim e Yakub e, sobretudo, Zana e Omar, para, nas entrelinhas, perscrutar o sentido de sua própria existência, marcada pelo vazio e por incertezas: “Alguns de nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos”.

Súmula da Obra

A história tem início com o retorno de um dos filhos gêmeos do casal, Yakub, que havia sido enviado aos treze anos para o Líbano, pouco antes da 2GM, para que se atenuassem as intrigas manifestas em relação ao seu irmão caçula, Omar, considerado instável e de temperamento mais revolto.

Agora já mais amadurecido, sisudo e misterioso, Yakub parte para São Paulo, dispensando a provisão financeira dos pais, onde se forma em Engenharia Civil e se casa com Lívia, a mesma jovem que anos antes teria sido o motivo da briga que resultou num corte no rosto do seu agora esposo, em ação impulsiva de Omar, munido de um gargalo de garrafa.

Depois de uma sucessão de ações desregradas, bebedeiras e escarcéus, Omar é mandado a São Paulo, na tentativa de que trilhasse o bom caminho. Mas tal não aconteceu: tendo ciência do casamento do irmão com Lívia, danificou-lhe as fotos do álbum do matrimônio e, em seguida, subtrai-lhe algum dinheiro que lhe permitiu partir para os EUA.

Retornando a Manaus, e com o falecimento do pai, Omar faz amizade com o investidor indiano Rochiram, desejoso de construir um hotel na capital amazonense. Buscando reconciliar os filhos, Zana escreve a Yakub, que, contudo, vai até a capital amazonense de forma alheia aos interesses do irmão. Julgando-se traído, Omar agride Yaqub, fato que o leva à prisão por alguns anos.

Com o fracasso dos negócios, Rochiram exige que Rânia, a irmã dos gêmeos, venda a casa onde vivem para saldas as dívidas que restaram. No local, instala-se a “Casa Rochiram”, uma loja de importados de Miami e Panamá, no mesmo terreno em que, ao fundo, passou a residir Nael, num pequeno quarto que lhe foi reservado como “herança”.

Milton Hatoum
(n. 1952)

Seleção de Passagens

“Zana culpava Halim pela falta de mão firme na educação dos gêmeos. Ele discordava: “Nada disso, tu tratas o Omar como se ele fosse nosso único filho” (p. 22).

“Domingas aderiu ao ritual de cada noite. Minha mãe também queria o Omar de volta? Eu notava nela um desejo, uma ânsia que ela sabia esconder, uma sombra no sentimento. Ela me deixava na dúvida, me desnorteava quando lamentava a ausência do Caçula. Ah, a falta que lhe fazia o corpo do galã desmaiado na rede! O suor ralo dos drinques e coquetéis, e o suadouro espesso, com seu cheiro mareante de bebida forte e amarga, nhaca de pelame de jaguar. As mãos dela enxugando-lhe o rosto, o pescoço, o peito cabeludo. Ele, quase nu, esparramado na rede vermelha. Os chumaços de formigas-de-fogo, batalhões de amarelo vivo cercando as garrafas de rum e uísque no chão de cimento. O cheiro de arnica, banha de cacau e óleo de copaíba nos hematomas que manchavam o corpo de Omar. Esses cheiros e outros: o das folhas grandes da fruta-pão, semelhantes a abanos verdes; o do cupuaçu pesado e maduro, cofre de veludo ocre que protege a polpa prateada, fonte de raro perfume. As folhas molhadas com que ela cobria as partes roxas do corpo dele; o suco de cupuaçu com caroços para chupar que ela lhe preparava no meio da tarde, quando, revigorado, ele abria os braços para minha mãe e beijava-lhe o rosto com intimidade, antes de sorver a bebida espessa” (p. 110-111).

“Mas o teu filho [Omar] topa todas, Halim. Colha a orquídea mais rara, mas também arranca a aninga da lama” (p. 119).

No momento de passamento de Domingas, quando revela-se pela primeira e única vez o nome do narrador, Nael, seu filho, esta lhe murmura “(...) que gostava tanto de Yaqub... Desde o tempo em que brincavam, passeavam. Omar ficava enciumado quando via os dois juntos, no quarto, logo que o irmão voltou do Líbano. ‘Com o Omar eu não queria... Uma noite ele entrou no meu quarto, fazendo aquela algazarra, bêbado, abrutalhado... Ele me agarrou com força de homem. Nunca me pediu perdão” (p. 180).

“A loucura da paixão de Omar, suas atitudes desmesuradas contra tudo e todos neste mundo não foram menos danosas do que os projetos de Yaqub: o perigo e a sordidez de sua ambição calculada. Meus sentimentos de perda pertencem aos mortos. Halim, minha mãe. Hoje, penso: sou e não sou filho de Yaqub, e talvez ele tenha compartilhado comigo essa dúvida. O que Halim havia desejado com tanto ardor, os dois irmãos realizaram: nenhum teve filhos. Alguns de nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos” (p. 196).

“Ele ousou e veio avançando, os pés descalços no aguaçal. Um homem de meia-idade, o Caçula. E já quase velho. Ele me encarou. Eu esperei. Queria que ele confessasse a desonra, a humilhação. Uma palavra bastava, uma só. O perdão. Omar titubeou. Olhou para mim, emudecido. Assim ficou por um tempo, o olhar cortando a chuva e a janela, para além de qualquer ângulo ou ponto fixo. Era um olhar à deriva. Depois recuou lentamente, deu as costas e foi embora” (p. 198).

Comentários

É praticamente impossível não associar a história de Hatoum às passagens bíblicas a que faço referência na ementa da obra, no início desta postagem. Omar e Yakub são como os dois rios imiscíveis na confluência de Manaus, o Solimões e o Negro, cujas águas não se mesclam. É ali que o enredo, arquetipicamente universal, se desenrola em toda a sua sensualidade.

Omar – como se fosse Caim – e Yakub – como Abel – têm comportamentos muito distintos: o primeiro passa a vida enredado com consortes e amásias, sendo resgatado, a cada vez, pela atenção de Zana; o segundo, mais centrado, torna-se engenheiro em São Paulo, adotando um ar de mistério e, ao que se sabe, de certa vingança, em especial depois das agressões perpretadas por Omar.

Passaram-se três décadas, momento em que quase todos já estão mortos, quando então Nael – o “herdeiro” da família e, metaforicamente, de toda a Manaus decadente da época, depois do surto enriquecedor do “Ciclo da Borracha” – resolve revirar a memória, para nos trazer os fatos ora descritos, que não são mera alegoria, haja vista que tudo faz sentido dentro de um contexto histórico e cultural do país: referências ao ambiente político repressivo, com o advento da “Revolução de 64”, aparecem com vigor nas páginas do Capítulo 7 do romance, nas quais se descreve a morte de Laval, um dos personagens laterais da obra.

Há nas entrelinhas de “Dois Irmãos” quase que uma inevitabilidade trágica, de certo modo germana do determinismo naturalístico de um Inglês de Souza, em “O Missionário”, outra famosa obra também ambientada no coração da selva amazônica.

Mas o romance de Hatoum, sem os reducionismos da Escola Naturalista, pareceu-me melhor construído: ele “ensopa” a alma do leitor com o ambiente úmido da floresta; com as emoções, afetos e discórdias no âmbito familiar; com o letargo fluir do tempo, irreversível, onde todos estamos imersos e em cujo fluxo, num interregno no qual a memória ousa ser consciência, a história integral de nossas vidas ressurge numa síntese consistente, para logo depois extinguir-se como se uma névoa etérea e volátil fosse.

Para mim, que sou um amazônida, uma obra marcante, em especial porque fez-me rememorar o ambiente da vasta região, bem assim o linguajar com o seu vocabulário muito característico!

J.A.R. – H.C.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Copa do Mundo: Colômbia 2 x 1 Costa do Marfim

Ontem, 19 de junho de 2014, foi um dia soberanamente amarelo em Brasília. E não exatamente porque o Brasil jogou. Mas porque a Colômbia jogou e venceu bem a seleção de futebol da Costa do Marfim por 2 x 1.

Estive no Estádio Nacional Mané Garrincha, e pude presenciar todo o estímulo que os milhares de torcedores do país vizinho levaram à sua seleção, inclusive no belo momento em que o hino foi tocado e emocionadamente cantado!

Havia tantos torcedores colombianos em Brasília – penso que até mais do que equatorianos na semana anterior –, que o Correio Brasiliense estampou em sua manchete: “A capital da Colômbia é aqui!”: nada de Bogotá! (rs). Vejam abaixo:

Capa do Correio Brasiliense
(19/6/14)

E houve mais méritos na vitória porque o time da Costa do Marfim a valorizou: em determinados momentos, em especial depois que marcou o seu gol, a seleção africana chegou a ameaçar o êxito da Colômbia. Mas julgo que o resultado final não pode ser considerado injusto.

E para homenagear a grande torcida colombiana, deixo aqui um poema de seu conterrâneo poeta Francisco Antonio Balcázar: Minha Bandeira.

Um abraço fraternal aos coirmãos latino-americanos.

J.A.R. – H.C.

Mi Bandera
(Francisco Antonio Balcázar)

No alcanza el hombre, ni consigue el arte,
ni nobles cantos a mi ardor esquivos,
a proclamar en dísticos altivos
la gloria tricolor de mi estandarte.

Él es alma, es emblema y baluarte;
reinó siempre entre libres y cautivos,
así en la paz de tiempos fugitivos
como en el campo asolador de Marte.

Con él quisiera conquistar la altura
mientras corra la sangre en la llanura;
y aunque la muerte mi fazaña aguarde,

clavarlo arriba con impulso fiero,
saludar la victoria con mi acero
y así morir al declinar la tarde.

  
Minha Bandeira
(Francisco Antonio Balcázar)

Não alcança o homem, nem consegue a arte,
nem nobres cantos ao meu ardor esquivos,
proclamar em dísticos altivos
a glória tricolor do meu estandarte.

Ele é alma, é emblema e baluarte;
reinou sempre entre livres e cativos,
assim na paz de tempos fugitivos
como no campo assolador de Marte.

Com ele eu quisera conquistar a altura
enquanto corra o sangue na planura;
e ainda que a morte minha sentença aguarde,

fixá-lo acima com impulso galhardo,
saudar a vitória com meu dardo
e assim morrer ao declinar a tarde.

Referência:

BALCÁZAR, Francisco Antonio. Mi bandera. In: ORY, Eduardo de (ed.). Parnaso colombiano: selección de poesías de los líricos contemporáneos. Edición facsimilar de la impresión de 1914. Santafé de Bogotá: Instituto Caro y Cuervo, 1994. p. 52. (Série ‘La Granada Entreabierta’, 72)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Harper Lee – Monroeville, Alabama, EUA

Monroeville
Old Monroe Courthouse

Um dos poucos livros da autora norte-americana Harper Lee, se não for o único, “To Kill a Mockingbird” aparece com frequência em listas das obras literárias mais lidas nos EUA. Vencedor do Prêmio Pulitzer de 1961, é uma história que aborda o amadurecimento de crianças, em especial os filhos do advogado viúvo Atticus Finch – Jem, um garoto de 10 a 13 anos à época dos fatos, e Scout, uma pouco mais nova e que os narra –,  mas é, sobretudo, o enredo da discriminação contra os negros em uma cidadezinha hipotética no sul dos Estados Unidos, Maycomb (Alabama), lá pelos anos 30 do século passado.

O livro, escrito nos idos de 60, teve o título vertido ao português, no Brasil, como “O Sol É Para Todos”, obviamente não uma tradução literal da expressão em inglês, mas uma versão que retrata o sentido de interpretação que se extrai do enredo. A tradução literal seria como que “Matar um Rouxinol” (ou uma cotovia, ou melhor assim, um pássaro cuja espécie não é comum neste torrão).

Lee faz alusões ao pássaro a cada vez que procura denotar um sentido ético nos eventos que descreve pouco a pouco: decerto o negro Tom Robinson, o acusado do caso, é o exemplo mais nítido da alegoria configurada pelo pássaro, inocente e inofensivo.

O tema do racismo, embora hoje um pouco mais atenuado na sociedade americana – basta ver que Barack Obama, um presidente de cor, seria impensável no começo dos anos 30! –, mereceu incursões judiciárias candentes ao longo desse tempo, e, para quem tem interesses na seara legal, se poderia sugerir a leitura de obras que retratassem a ascensão dos “Movimentos dos Direitos Civis” nos EUA, de onde emergiram figuras negras de destaque como Luther King e Malcolm X, aliás, ambos assassinados, como o negro de Lee, ao tentar fugir da “gaiola” que o aprisionava.

O tema sempre leva a reflexões que engendram miríades de controvérsias aqui no Brasil, com alguns chegando a negar a existência de processos discriminatórios nestas plagas. Outros interpretam a concentração de renda pernóstica do país como uma questão de binômio “ricos x pobres” e não entre “brancos x negros” ou “homens x mulheres”. Contudo, o impacto estatístico é sobranceiramente desfavorável aos negros!

Argumentos de justiça, obviamente originários da filosofia política, sempre são avocados pelas partes para justificar determinadas linhas de ação, sejam elas de vocação liberal, libertária, neomarxista, feminista ou de outras tendências. 

Seja como for, neste momento, as políticas governamentais têm dado maior ênfase à implementação de ações afirmativas, em especial as voltadas à educação em instituições públicas de ensino superior. Penso que isso não seja nenhum favor para um componente de nossa população que supera a casa dos 50%, tanto mais se levarmos em consideração que tais políticas, conforme se depreende das convenções internacionais acolhidas pelo Brasil, não hão de se protrair indefinidamente no tempo.

Se não for despropositado o comentário, poderia descrever um pouco de minha experiência como jurado em doze sessões em que fui sorteado numa das varas do tribunal do júri, em Belém do Pará: seria por acaso que nove dos réus eram negros e sete moravam em bairros muito pobres da periferia da cidade? Que 100% deles eram homens entre vinte e trinta anos?

Tal evidência – a de que a Justiça brasileira, no âmbito penal, serve apenas para aprisionar, majoritariamente, homens negros e pobres –, em meados da primeira metade dos anos 90, firmou-me a convicção de que o ponto de partida para essas pessoas deveria ser melhorado, elevado, estruturado – e nunca peremptoriamente ignorado pelo Governo, em qualquer de suas três instâncias!

A igualdade que se deseja não é meramente uma igualdade legal, perante a lei, mas uma igualdade formal, material, com oportunidades reais para todos. Por isso, selecionei o excerto abaixo, da obra sob epígrafe, para ilustrar o que ora se propugna:

“Thomas Jefferson disse uma vez que todos os homens são criados iguais, uma frase que os ianques e certos membros do Executivo em Washington gostam muito de atirar em nossa cara. Neste ano da graça de 1935, determinadas pessoas estão com uma tendência para utilizar essa frase fora de propósito, aplicando-a em todas as situações. O exemplo mais ridículo que me ocorre agora é o dos indivíduos encarregados da educação pública que estão aprovando os estúpidos e os ociosos juntamente com os diligentes – porque todos os homens são criados iguais, dirão os educadores com ar solene, as crianças são promovidas de série sofrerão um terrível sentimento de inferioridade. Mas nós sabemos que todos os homens não nascem iguais, não no sentido que algumas pessoas querem nos impingir: alguns são mais espertos do que outros, alguns têm melhores oportunidades porque nasceram com elas, alguns homens fazem mais dinheiro do que outros, algumas senhoras fazem bolos mais gostosos do que outras, algumas pessoas nascem com talentos muito superiores aos do normal dos homens” (LEE, 2007, p. 263).

Para dar contornos finais a esta postagem, gostaria ainda de sugerir outra obra literária de destaque, a abordar também o problema da discriminação, seja esta sorrateira ou brutalmente explícita: “O Homem Invisível”, de Ralph Ellison, com toda a força de seu virtuosismo verbal, num retrato que enquadra a exploração, a manipulação e a hipocrisia no cerne da sociedade norte-americana.

Leia ambas as obras mencionadas, internauta. Depois me fale das suas impressões!

J.A.R. – H.C.

Nelle Harper Lee
(n. 1926)
Referência:

LEE, Harper. O sol é para todos. Tradução de Maria Aparecida Nóbrega de Moraes Rego. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Joaquín Restrepo Tamayo – Ao Meu Gato

Novo poema em forma de soneto, em honra a um gato de raça angorá, faz-se presente neste espaço. Neste caso, de autoria do historiador e poeta colombiano Joaquín Tamayo, recolhido à antologia “Parnaso Colombiano”.

Tamayo qualifica o seu bichano de “sibarita”, adotando, com isso, um sentido figurado para a palavra – voluptuoso, indolente, dado aos prazeres da vida –, em detrimento do seu sentido denotativo – impróprio no caso , a designar os habitantes da antiga cidade grega de Síbaris, na atual faixa meridional da Itália, voltados ao desfrute de luxos e prazeres.

J.A.R. – H.C. 

A Mi Gato

Decansas sibarita somnoliento,
sobre cogines, de plumón mullido.
De tu ronrón el cariñoso ruído
en el silencio de la noche siento.

Leve entreabres el párpado un momento
y el ojo de ónix fijas con descuido,
en el ir y venir del abatido
pie que recorre el lúgubre aposento.

¿En qué piensas, amigo, cuando triste
me ves pasear en las desiertas horas
en que las noches sus crespones viste?

Ah, que el misterio de la vida ignoras
y la amargura para tí no existe!
Tú, el más feliz de todos los angoras!

White Cat
Clement Burlison
(1815-1899)

Ao Meu Gato

Descansas sibarita sonolento,
sobre coxins, de plumas macias.
De teu ronrom o carinhoso ruído
no silêncio da noite sinto.

Leve entreabres a pálpebra um momento
e o olho de ônix fixas com descuido,
no ir e vir do abatido
pé que percorre o lúgubre aposento.

Em que pensas, amigo, quando triste
me vês passear nas desertas horas
em que as noites suas trevas viste?

Ah, que o mistério da vida ignoras
e a amargura para ti não existe!
Tu, o mais feliz de todos os angorás!

Referência:

TAMAYO, Joaquín Restrepo. A mi gato. In: ORY, Eduardo de (Sel.). Parnaso colombiano. Edición Facsimilar de la Impressión de 1914. Santa Fé de Bogotá: Instituto Caro e Cuervo, 1994. p. 210. (Serie ‘La Granada Entreabierta’, 72)
ö

terça-feira, 17 de junho de 2014

Virginia Woolf – Londres

Londres – Inglaterra

“To the Lighthouse” (“Rumo ao Farol” - 1927), uma das obras solares da britânica Virginia Woolf, impacta os seus leitores menos pelos efeitos de seu enredo, senão pelo poder da introspecção filosófica do qual está permeado. Ali estão os temas da complexidade da experiência humana e de seus inevitáveis relacionamentos. Raros são os diálogos. Em contraste, as divagações são muitas, partindo da mente de personagens distintos, como a que transcrevemos abaixo, a vaguear pela psique do Sr. Ramsay.

A passagem, de fato, é relatada por um narrador anônimo – no fundo, a própria autora , mas através do ponto de vista do personagem. Se a exposição em terceira pessoa introduz certo distanciamento, ao enfocar o Sr. Ramsay de uma mirada externa, o facho interno permite a aproximação, o mais possível, à percepção subjetiva do protagonista. O efeito deliberado é o desmanche ou a ausência de nitidez dos confins entre o mental e o resto do mundo, ou melhor, a psique é apresentada como elemento integrante do mundo natural no qual está imersa. Madame Woolf é mestra nesse tipo de recurso, pois o usa com prodigalidade em muitas de suas obras.

J.A.R. – H.C.
O Olho do Lagarto

“O olho do lagarto pestanejou de novo. As veias de sua testa intumesceram. O gerânio no vaso tornou-se surpreendentemente visível e destacado entre as folhas; podia ver, sem o desejar, a velha, a óbvia distinção entre as duas espécies de homens; de um lado os que avançam com força sobre-humana e, com esforço e perseverança, repetem o alfabeto inteiro, ordenadamente, vinte e seis letras ao todo, do começo ao fim; de outro lado os bem-dotados, os inspirados que, miraculosamente, vislumbram todas as letras de uma só vez, numa única visão – o caminho dos gênios. Ele não era genial; e não tinha nenhuma pretensão quanto a isso; mas tinha, ou poderia ter, a capacidade de repetir cada letra do alfabeto, de A a Z, primorosamente em ordem” (WOOLF, 2003, p. 39).

Virginia Woolf
(1882-1941)
Retrato de Roger Fry

Referência:

WOOLF, Virginia. Rumo ao farol. Tradução de Luiza Lobo. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Albert Camus – Dréan (Mondovi)

A Mesquita de Dréan (Mondovi) − Argélia

“L’Homme Révolté” (“O Homem Revoltado” - 1951), de autoria do escritor franco-argelino Albert Camus, é uma obra e tanto!

A força de sua permanência decorre, certamente, da capacidade de Camus em haver arregimentado as grandes linhas de força do pensamento europeu para ilustrar brilhantemente o arcabouço que houvera programado para desenvolver o tema da revolta, com suas derivações na história, na arte e na filosofia, ou melhor, neste último caso, mais especificamente na metafísica.

Os vários excertos a seguir transcritos, decerto, são traspassados das idiossincrasias deste que vos escreve, pois que revelam um modo particular de ler e assinalar aquilo que julgou relevante sob algum critério, seja estético, seja historiográfico, seja ainda filosófico ou outro qualquer. Obviamente, não há neutralidade nas escolhas. Fazer o quê? (rs).

J.A.R. – H.C. 
Albert Camus
(1913-1960)

O Homem Revoltado

“Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes” (CAMUS, 2011, p. 13).

“Sendo rara a força do amor, o crime continua excepcional, conservando desse modo o seu aspecto de transgressão. Mas a partir do momento em que, na falta do caráter, o homem corre para refugiar-se em uma doutrina, a partir do instante em que o crime é racionalizado, ele prolifera como a própria razão, assumindo todas as figuras do silogismo. Ele, que era solitário como o grito, ei-lo universal como a ciência. Ontem julgado, hoje faz a lei” (CAMUS, 2011, p. 13).

“Em outras palavras, o problema da revolta só parece assumir um sentido preciso no âmbito do pensamento ocidental. Poder-se-ia ainda ser mais explícito ao observar, com Scheler, que o espírito de revolta dificilmente se exprime nas sociedades em que as desigualdades são muito grandes (regime hindu de castas) ou, pelo contrário, naquelas em que a igualdade é absoluta (certas sociedades primitivas). Em sociedade, o espírito de revolta só é possível em grupos nos quais uma igualdade teórica encobre grandes desigualdades de fato. O problema da revolta, portanto, só faz sentido no interior de nossa sociedade ocidental” (CAMUS, 2011, p. 32-33).

“Na experiência do absurdo, o sofrimento é individual. A partir do movimento de revolta, ele ganha a consciência de ser coletivo, é a aventura de todos. O primeiro avanço da mente que se sente estranha é, portanto, reconhecer que ela compartilha esse sentimento com todos os homens, e que a realidade humana, em sua totalidade, sofre com esse distanciamento em relação a si mesma e ao mundo. O mal que apenas um homem sentia torna-se peste coletiva. Na nossa provação diária, a revolta desempenha o mesmo papel que o cogito na ordem do pensamento: ela é a primeira evidência. Mas essa evidência tira o indivíduo de sua solidão. Ela é um território comum que fundamenta o primeiro valor dos homens. Eu me revolto, logo existimos” (CAMUS, 2011, p. 35).

“O mundo é divino porque é fortuito. Por Isso, só a arte, por ser igualmente fortuita, é capaz de entendê-lo. Nenhum julgamento explica o mundo, mas a arte pode nos ensinar ii reproduzi-lo, assim como o mundo se reproduz ao longo dos retornos eternos. Na mesma beira de praia, o mar primordial repele incansavelmente as mesmas palavras e rejeita os mesmos seres espantados com a vida. Mas aquele que pelo menos consente em seu próprio retorno e no retorno de todas as coisas, que se faz eco e eco exaltado, participa da divindade do mundo” (CAMUS, 2011, p. 95).

“Aquele [Rimbaud] que exultava nos suplícios, que havia ofendido Deus e a beleza, que se armava contra a justiça e a esperança, que se fortalecia no duro ambiente do crime, quer apenas casar-se com alguém que “tenha futuro”. O mago, o vidente, o prisioneiro intratável, sobre o qual a prisão sempre volta a se fechar, o homem-rei da terra sem deuses, nunca deixa de carregar oito quilos de ouro em um cinto que lhe pesa no ventre e do qual se queixa, dizendo que provoca diarreia. Será esse o herói mítico que se propõe a tantos jovens, que não cospem no mundo, mas que morreriam de vergonha à simples ideia daquele cinto?” (CAMUS, 2011, p. 113).

“Quando se está seguro de que o amanhã, na própria ordem do mundo, será melhor do que hoje, é possível divertir-se em paz. O progresso, paradoxalmente, pode servir para justificar o conservantismo. Letra sacada contra a confiança no futuro, ele autoriza, desta forma, a boa consciência do senhor Ao escravo, àqueles cujo presente é miserável e que não têm nenhum consolo no céu, assegura-se que o futuro, pelo menos, é deles. O futuro é a única espécie de propriedade que os senhores concedem de bom grado aos escravos” (CAMUS, 2011, p. 226).

“Ele [Marx] colocou o trabalho, sua degradação injusta e sua dignidade profunda no centro de sua reflexão. Rebelou-se contra a redução do trabalho a uma mercadoria e do trabalhador a um objeto. Lembrou aos privilegiados que os seus privilégios não eram divinos, nem a propriedade um direito eterno. Ensejou um, sentimento de culpa àqueles que não tinham o direito de manter em paz a consciência e denunciou, com uma perspicácia inigualável, uma classe cujo crime não é tanto ter tido o poder, quanto tê-lo utilizado para os fins de uma sociedade medíocre e sem uma verdadeira nobreza” (CAMUS, 2011, p. 242).

Nós lhe [Marx] devemos uma ideia que é o desespero de nosso tempo – mas aqui o desespero vale mais do que qualquer esperança –, a ideia de que, quando o trabalho é uma degradação, ele não é vida, se bem que ocupe todo o tempo da vida. Quem, apesar das pretensões dessa sociedade, pode dormir em paz, sabendo que doravante ela tira seus prazeres medíocres do trabalho de milhões de almas mortas? Ao exigir para o trabalhador a verdadeira riqueza, que não é a do dinheiro, mas a do lazer ou da criação, ele reivindicou, a despeito das aparências, a qualidade do homem. Ao fazê-lo, podemos afirmar com convicção, ele não quis a degradação suplementar que foi imposta ao homem em seu nome. Uma de suas frases, clara e contundente, recusa para sempre aos seus discípulos triunfantes a grandeza e a humanidade que tinham sido suas: “Um fim que tem necessidade de meios injustos não é um fim justo” (CAMUS, 2011, p. 242-243).

“Neste sentido, cada qual procura fazer de sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor dure e sabemos que ele não dura; se até mesmo, por milagre, ele tivesse que durar toda uma vida, estaria ainda incompleto. Talvez, nesta insaciável necessidade de durar, compreenderíamos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que as grandes almas, às vezes, ficam menos apavoradas com o sofrimento do que com o fato de ele não durar Na falta de uma felicidade inesgotável, um longo sofrimento constituiria ao menos um destino. Mas não é assim, e nossas piores torturas um dia chegarão ao fim. Certa manhã, após tanto desespero, uma irreprimível vontade de viver vai nos anunciar que tudo acabou e que o sofrimento não tem mais sentido que a felicidade” (CAMUS, 2011, p. 300).

“Todos os grandes reformadores tentam construir na história o que Shakespeare, Cervantes, Molière e Tolstoi souberam criar: um mundo sempre pronto a satisfazer a fome de liberdade e de dignidade que existe no coração de cada homem. Sem dúvida, a beleza não faz revoluções. Mas chega um dia em que as revoluções têm necessidade dela. Sua regra, que contesta o real ao mesmo tempo em que lhe confere sua unidade, é também a da revolta. Pode-se recusar eternamente a injustiça sem deixar de saudar a natureza do homem e a beleza do mundo? Nossa resposta é sim. Esta moral, ao mesmo tempo insubmissa e fiel, é em todo o caso a única a iluminar o caminho de uma revolução verdadeiramente realista. Ao manter a beleza, preparamos o dia do renascimento em que a civilização colocará no centro de sua reflexão, longe dos princípios formais e dos valores degradados da história, essa virtude viva que fundamenta a dignidade comum do mundo e do homem, e que agora devemos definir diante de um mundo que a insulta” (CAMUS, 2011, p. 317).

“Não importa o que fizermos, a desmedida conservará sempre o seu lugar no coração do homem, no lugar da solidão. Carregamos todos, dentro de nós, as nossas masmorras, os nossos crimes e as nossas devastações. Mas nossa tarefa não é soltá-los pelo mundo, mas combatê-los em nós mesmos e nos outros” (CAMUS, 2011, p. 345).

Referência:

CAMUS, Albert. O homem revoltado. Tradução de Valerie Rumjanek. 9. ed. São Paulo: Record, 2011.

domingo, 15 de junho de 2014

Susan Sontag – Nova Iorque

Nova Iorque – EUA

Do ensaio referenciado mais abaixo, extraímos o seguinte excerto, de autoria da ensaísta norte-americana Susan Sontag, no qual ela sumaria um ponto de vista singular sobre a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, com mesclas de conceitos sobre o que sejam a modernidade, o provincianismo e a própria literatura.

J.A.R. – H.C.

Vidas póstumas: o caso de Machado de Assis

“Com tempo bastante, vida póstuma bastante, um grande livro termina por encontrar o seu lugar de justiça. E talvez alguns livros precisem ser redescobertos algumas vezes. Memórias Póstumas de Brás Cubas é pelo visto um desses livros, arrebatadoramente originais, radicalmente céticos, que sempre impressionarão os leitores com a força de uma descoberta particular. É pouco provável que soe como um grande elogio dizer que esse romance, escrito mais de um século atrás, parece bem... moderno. Acaso não estamos prontos a reconhecer toda obra que nos fale com originalidade e lucidez como uma das obras que desejamos alistar no que compreendemos como modernidade? Nossos critérios de modernidade são um sistema de ilusões lisonjeadoras, que nos permitem colonizar seletivamente o passado, assim como nossas ideias do que é provinciano permitem que certas partes do mundo desdenhem de todo o resto. Estar morto pode representar um ponto de vista que não pode ser acusado de ser provinciano. Sem dúvida, Memórias Póstumas de Brás Cubas é um dos livros mais divertidamente não provincianos já escritos. E amar esse livro é tornar a si mesmo um pouco menos provinciano a respeito da literatura, a respeito das possibilidades da literatura” (SONTAG, 2005, p. 59-60).

Susan Sontag
(1933-2004)

Referência:

SONTAG, Susan. Vidas póstumas: o caso de Machado de Assis. In: __________. Questão de ênfase: ensaios. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 47-60.

sábado, 14 de junho de 2014

Wisława Szymborska - Gato num Apartamento Vazio

Vamos a mais um poema em que a figura do gato emerge com toda a sua força, quer real quer alegórica: “Gato num Apartamento Vazio” tem por autora nada menos que a polonesa Wisława Szymborska (pronuncia-se ‘vissuáva xembórsca’), Nobel de Literatura em 1996. Szymborska, informe-se, faleceu mais ou menos recentemente, isto é, em 1º/2/12.

O poema, em tradução algo distinta em relação à transcrita abaixo – atribuída ao premiado escritor lusitano Manuel António Pina –, aparece recitada por um orador português no seguinte endereço.

Há nos meandros deste belo poema o extravasamento de uma sensação de perda, de vazio. Alguma saudade, decerto, de alguém que partiu e que já não pode oferecer os cuidados de que o gato é merecedor. É como se imputassem ao gato a tarefa de expirar, pelo que tão sem sentido se tornou a vida para ele.

E o bichano, obviamente, percebe as alterações na ordem das coisas: já não acendem a lâmpada à noite, os passos na escada não ressoam como antes; as mãos que lhe colocam o alimento não são as mesmas de sempre; algo deixa de ocorrer à hora habitual. Tal fato o leva a empreender buscas no apartamento para tomar ciência do que anda a ocorrer: nos armários, nas prateleiras, sob o tapete. Mas acaba por cair em desânimo. Nada há a fazer, senão dormir e esperar.

Bem se vê que o gato é, poderíamos dizer assim, um dos cônjuges que viu a sua relação rompida pela morte de seu par, tornando-se solitário como um felino. E inconsolável, parece não aceitar tal evento, como se o fim de alguém que muito amava tivesse o condão de girar a funesta insígnia do crânio despido em sua direção.

Um sublime poema, certamente, embora algo lúgubre.

J.A.R. – H.C.

Wisława Szymborska
(1923-2012)

Kot w Pustym Mieszkaniu

Umrzeć – tego nie robi się kotu.
Bo co ma począć kot
w pustym mieszkaniu.
Wdrapywać się na ściany.
Ocierać między meblami.
Nic niby tu nie zmienione,
a jednak pozamieniane.
Niby nie przesunięte,
a jednak porozsuwane.
I wieczorami lampa już nie świeci.

Słychać kroki na schodach,
ale to nie te.
Ręka, co kładzie rybę na talerzyk,
także nie ta, co kładła.

Coś się tu nie zaczyna
w swojej zwykłej porze.
Coś się tu nie odbywa
jak powinno.
Ktoś tutaj był i był,
a potem nagle zniknął
i uporczywie go nie ma.

Do wszystkich szaf się zajrzało.
Przez półki przebiegło.
Wcisnęło się pod dywan i sprawdziło.
Nawet złamało zakaz
i rozrzuciło papiery.
Co więcej jest do zrobienia.
Spać i czekać.

Niech no on tylko wróci,
niech no się pokaże.
Już on się dowie,
że tak z kotem nie można.
Będzie się szło w jego stronę
jakby się wcale nie chciało,
pomalutku,
na bardzo obrażonych łapach.
I żadnych skoków pisków na początek.  

Black and White Kitten
Charles H. Van den Eycken
(1859-1923)

Gato num Apartamento Vazio

Morrer – isso não se faz a um gato.
Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado,
e no entanto algo mudou.
Nada parece mexido,
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada,
mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho,
também já não é a mesma.

Algo aqui não começa
na hora costumeira.
Algo não acontece
como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repente desapareceu
e teima em não aparecer.

Cada armário foi vasculhado.
As prateleiras percorridas.
Explorações sobre o tapete nada mostraram.
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos.
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.

Espera só ele voltar,
espera ele aparecer.
Vai aprender,
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada,
devagarinho,
sobre patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.

Referência:

SZYMBORSKA, Wisława. Gato num apartamento vazio. In: __________. Poemas. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. Edição Bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 94-95 (port.); p. 156-157 (pol.).
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