Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um Gato sem Conflitos Existenciais e um Gajo com um Eu Descentrado

Entre os poetas amantes de gatos, é óbvio, não poderia faltar o lusitano Fernando Pessoa. E ora vejam: Pessoa vai buscar a figura de um bichano para deixar transparecer a proverbial perda de identidade que, de algum modo, vem a explicar a pluralidade de heterônomos em que ele próprio se esvaiu.

 

Tal como interpreto o poema em apreço, percebe-se que o gajo não vê como sejam possíveis conflitos ontológicos no felino, pois não há como este se expressar verbalmente para explicar o que lhe vai no íntimo, suas sensações, seus anseios e ansiedades [puxa!, expressei-me aqui como se fosse detentor de uma prosa elegante como a do sociólogo Octavio Ianni (rs)]. Sente o que sente, e isto lhe basta para externalizar o seu interno por meio de seus instintos. Nisso consiste a sua “felicidade”!

 

Mas o íntimo do poeta é muito mais complexo: nele, há um embate – e, em Fernando Pessoa, poder-se-ia dizer até mesmo uma desconexão! – entre o ser e o conhecer, entre o imanente e o explicável, entre o objeto de conhecimento e o sujeito da análise que, em última instância, é o próprio ente que busca se conhecer. Eis aí o eterno problema da autorreferência com que tanto se debatia outro grande sociólogo: o alemão Niklas Luhmann!

 

Mas, digam-me, por qual razão Fernando Pessoa escolheu falar de um gato para referir-lhe a posse plena de um nada que é todo seu, quando poderia ter optado, por exemplo, por um cão?! (rs).

 

J.A.R. – H.C.

 

Fernando Pessoa

Poeta Português (1888-1935)

 

Gato que Brincas na Rua

 

Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.

 

Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

Que tens instintos gerais

E sentes só o que sentes.

 

És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu.

 


Referência:

 

PESSOA, Fernando. Gato que brincas na rua. In: __________. Obra poética. 8. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1994. p. 156.

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