Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 17 de abril de 2014

João de Deus – A Uma Gata

 

Vimos presentear os leitores deste blog com mais um poema sobre gatos, ou melhor, sobre uma certa gata que entrou na história de vida do poeta e pedagogo português João de Deus de Nogueira Ramos, ou simplesmente João de Deus.

Ele, como muitos outros poetas e escritores ilustres, soube usufruir da companhia independente de um felino domesticado. Consigne-se que alguns gatos ficaram famosos na história pelos nomes próprios que lhes foram atribuídos por seus donos. Exemplos: Belaud, o gato do poeta francês Du Bellay; Marlamain, da duquesa du Maine; Grisette, da poetisa Mme. Deshoulières; Ménine, a gata da Mme. de Lesdiguières; Lucifer, Trèsbé e Serpolet, pertencentes a Richelieu; Polémon, de Saint Beuve; Fanfan, de Theodoro Barrière; Chamoine, de Victor Hugo etc.

Muitos desses nomes irromperam nas páginas da literatura, como o comprovaremos numa postagem vindoura, na qual faremos constar dois poemas de autoria de Joachim Du Bellay: um soneto para uma gata que, como a de Mme. de Lesdiguières, chamava-se Ménine, e um epitáfio ao seu gato Belaud. 


Guimarães Rosa e seus Gatos de Raça
(1908-1967)

Os gatos, entre nós, parecem ter sido objeto de predileção por parte do grande escritor, médico e diplomata mineiro Guimarães Rosa, pois em uma de suas mais famosas fotografias, a que reproduzimos acima, deixou-se capturar pela câmera em sua mesa de trabalho, abraçado com os seus gatos de raça.

Assim, pelos nomes das figuras que ora citamos, gente reputada e instruída, não deixam de ser enigmáticos os sentimentos de afeto e a atração que os bichanos logram despertar em seus amos. Freud ousaria explicá-los?! (rs).

J.A.R. – H.C.


 João de Deus de Nogueira Ramos
(1830-1896)

A Uma Gata

Tu só, pobre animal, beijas o triste!
Tu que o rato devoras, e que os dentes
Tens afiados para quanto existe!
Caprichosa exceção! Dize: que sentes?

Amas, pobre animal! e tens tu pena,
Sim, pode na tua alma entrar piedade?
Se pode entrar eu sei! Negar quem há-de
Amor ao tigre, coração à hiena!

Tudo no mundo sente: o ódio é prêmio
Dos condenados só que esconde o Inferno.
Tudo no mundo sente: a mão do Eterno
A tudo deu irmão, deu par, deu gêmeo.

A mim deu-me esta gata, a mim deu-me isto.
Esta fera, que as unhas encolhendo
Pelos ombros me trepa e vem, correndo,
Beijar-me… Só não vivo! Amado existo!

DEUS, João de. A uma gata. In: FARACO, Sérgio. Livro dos poemas. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2013. p. 584. (Série Ouro)
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