Este blog adota o nome de personagem do romance “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, em homenagem a um dos maiores escritores do Século XX. Conhecer a obra de Mann é navegar, intensamente, no melhor que a mente humana foi capaz de produzir, em termos literários, na primeira metade da centúria passada: da imersão em sua obra jamais você, leitor, sairá do mesmo jeito que entrou. Certamente, poucos autores estarão à mesma altura para lhe oferecer ideias e o encanto da beleza!
Em breve reflexão durante o experimentado período
de insônia, Sancho Pança pondera sobre quem seria o mais louco dos dois: se
ele, que persiste em amparar um insano, ou o seu amo, o próprio Dom Quixote?!
Sublinhe-se que a poesia desta postagem pertence ao
ciclo de poemas criado por Drummond sobre telas pintadas por Portinari, dentre
as quais sobressai a que mais abaixo reproduzimos.
J.A.R. – H.C.
Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)
Disquisição na Insônia
Que é loucura: ser
cavaleiro andante
ou segui-lo como
escudeiro?
De nós dois, quem o
louco verdadeiro?
O que, acordado,
sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o
sonho
de um doido pelas
bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o
único maluco,
e me sabendo tal, sem
grão de siso,
sou – que doideira –
um louco de juízo.
Dom Quixote e Sancho Pança
(Cândido Portinari:
pintor brasileiro)
Referência:
ANDRADE, Carlos
Drummond. Disquisição na insônia.
In: __________. As impurezas do branco. 6. ed. Rio de Janeiro, RJ:
Record, 1993. p. 73-74.
Ver-se completa como “uma flor ou pedra”: tal é a abordagem que a
poetisa norte-americana assume em relação à sua própria vida, distintamente do
modo de ser quando ela era jovem, fase durante a qual sentia a necessidade de
abrir-se com os que lhe achegavam.
Mas será possível uma autonomia tão radical assim? A metáfora da flor ou
da pedra representaria muito bem esse postulado estado de coisas? Ou por outra:
os botões das flores não seriam dependentes do solo, de onde extraem a potência
para desabrochar com mais brilho à vista de seus admiradores?!
J.A.R. – H.C.
Sara Teasdale
(1884-1933)
The Solitary
My heart has grown rich with the passing of years,
I have less need now than when I was young
To share myself with every comer
Or shape my thoughts into words with my tongue.
It is one to me that they come or go
If I have myself and the drive of my will,
And strength to climb on a summer night
And watch the stars swarm over the hill.
Let them think I love them more than I do,
Let them think I care, though I go alone;
If it lifts their pride, what is it to me
Who am self-complete as a flower or a stone?
Vaso de Flores
(Rachel Ruysch:
pintora holandesa)
A Solitária
Meu coração tem-se enriquecido
com o passar dos anos,
Tenho menos
necessidade agora do que quando era jovem
De franquear-me a
todo recém-chegado
Ou converter minhas
ideias em palavras por meio da língua.
Dá no mesmo que eles venham
ou partam
Se tenho a mim mesma e o comando de minha vontade,
E a força para
escalar a colina numa noite estival
E contemplar as
estrelas que ali abundam.
Deixe-os pensar que
os amo mais do que a mim,
Deixe-os pensar que
me importo, ainda que sozinha caminhe;
Se alimentam o orgulho
próprio, o que isso representa para mim
Que sou plena como
uma flor ou pedra?
Referência:
TEASDALE, Sara. The solitary. In: RATTINER, Susan L. (Ed.). Great poems by american women: an
anthology. Mineola, NY: Dover Publications Inc., 1998. p. 190.
Murilo Mendes lança mão da mais genuína troça para conceber este poema,
no qual um hipotético papagaio que existiria na esquadra lusitana que fugiu de
Portugal, invadido pelas tropas de Napoleão, nos conta parte do enredo da
história envolvendo D. João VI.
Juntamente ao efeito cômico, jocoso, que o poema busca empreender, sobressai
o impacto das onomatopeias empregadas, com a repetição dos cacarejos das
galinhas d’Angola ou de palavras ao embalo da letra de cantiga francesa parcialmente
vertida ao português.
J.A.R. – H.C.
Murilo Mendes
(1901-1975)
Embarque do papagaio real
Je suis pobre, pobre,
pobre,
Je m’en vais d’aqui.
Esse tal de Napoleão
Vem tomar conta da
minha quinta,
Vem tomar minhas
pipas de vinho,
Vem tomar meus p’rus,
Meus frangos,
Minhas galinhas
d’Angola.
Tô fraco, tô fraco,
tô fraco.
Vou-me embora, vou-me
embora,
Vou chupar laranjas,
Vou comer minhas
papas,
Vou gozar no Rio de
pijama...
Se Carlota minha
mulher deixar.
Em: “História do Brasil” (1932)
Papagaio
(Satish Verma:
artista indiano)
Referência:
MENDES, Murilo. Embarque do papagaio
real. In: __________. Poesia e prosa
completa. Organização de Luciana Stegagno Picchio. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 1994. p. 159.
I. Finda a 15ª rodada do Brasileirão
2016, é hora de reavaliarmos as projeções do “Modelo Esotérico-Matemático -
M.E.M.”. Afinal, muitas coisas aconteceram nestas últimas cinco rodadas, tal
como se resume nos parágrafos subsequentes.
II. De início, tal como prevíramos em
nosso comentário anterior, o Internacional não se manteve entre os primeiros e,
de lá para cá, despencou na tabela de classificação, da 2ª colocação para a
11ª.
III. O Cruzeiro ensaiou um trânsito pela
zona do rebaixamento, e o M.E.M. projeta-o na 18ª posição ao final do certame, ou
seja, na mesma posição em que, de fato, ora está posicionado na tabela.
IV. Houve apreciável melhora no
desempenho ofensivo recente do Sport, do Santos e do Botafogo. Idem, no
desempenho defensivo do Atlético-PR e do Coritiba.
V. Ocorreu, inversamente, piora relevante
no desempenho ofensivo recente do Santa Cruz e da Chapecoense. Idem, no
desempenho defensivo de um rol de times: Internacional, Sport, Botafogo,
Chapecoense, Flamengo e Grêmio.
VI. Quanto às elucubrações do M.E.M.,
persistem, nesta projeção, no G4 ou em suas imediações, o Palmeiras, o Santos e
o Corinthians. Já no Z4, houve muita oscilação da projeção da 10ª rodada para a
da 15ª, mantendo-se lá apenas o América-MG, que parece mesmo estar fadado ao
descenso.
Claudio Willer, considerando um dos melhores tradutores da obra de
Ginsberg ao português, apresenta esta versão de “On Burrough’s Work” (“Sobre a
Obra de Burroughs”), quer em em seu próprio blog, quer em “Uivo,
Kaddish e Outros Poemas”, versão pátria com vários poemas de “Howl and other
poems” (1956) (“Uivo e outros poemas), “Kaddish and other poems” (1961) (“Kaddish
e outros poemas”) e “Reality Sandwiches and other poems” (1963) (“Sanduíches de
Realidade e outros poemas”).
O poema, aparentemente, tece críticas às formas tradicionais de expressão
literária, que acabam por obscurecer a verdade, ácida que seja, a ser levada ao
público, por meio de linguagem retocada e airosa, quando uma linguagem mais
direta – nua e crua –, na visão do autor, seria mais eficaz para expor a “loucura”
da realidade.
J.A.R. – H.C.
Allen Ginsberg
(1926-1997)
On Burroughs’
Work
The method must be purest meat
and no symbolic dressing,
actual visions & actual prisons
as seen then and now.
Prisons and visions presented
with rare descriptions
corresponding exactly
to those
of Alcatraz and Rose.
A naked lunch is natural to us,
we eat reality sandwiches.
But allegories are so much lettuce.
Don’t hide the madness.
San Jose, 1954
Alcatraz
(Ryan Connolly: artista
norte-americano)
Sobre a Obra de Burroughs
O método deve ser a
mais pura carne
e nada de molho
simbólico,
verdadeiras visões
& verdadeiras prisões
assim como vistas vez
por outra.
Prisões e visões
mostradas
com raros relatos
crus
correspondendo
exatamente àqueles
de Alcatraz e Rose.
Um lanche nu nos é
natural,
comemos sanduíches de
realidade.
Porém alegorias não
passam de alface.
Não escondam a
loucura.
San Jose, 1954
Notas do Tradutor (WILLER, 2010, p. 207):
1. raros
relatos crus – a dupla tradução: no original, with rare descriptions. Rare é raro, diferente, especial, mas
também cru, malpassado, em rare done meat. Crus
faz um par com nu, dando nu e cru, expressão que significa
verdadeiro, realístico, acentuando o sentido do poema.
2. um
lanche nu – Este poema foi escrito na Califórnia em 1954, enquanto Ginsberg
ia recebendo por carta, de Tanger, trechos do que Burroughs denominava de routines, narrativas que, remontadas,
viriam a compor Naked Lunch,
terminada em Paris quatro anos mais tarde. O sanduíche da linha seguinte leva a
concluir que a tradução adequada desse título para o português é mesmo Lanche Nu, e não Almoço Nu, apesar de lunch,
em inglês, significar almoço, tanto quanto refeição leve. Ginsberg gostou da
metáfora ‘sanduíches de realidade’, ‘reality sandwiches’ e a usou como título
de seu terceiro livro de poemas.
Referências:
Em Inglês
GINSBERG, Allen. On Burroughs’ work. In: __________. Reality sandwiches: 1953-1960. 26th
Printing. San Francisco, CA: City Light Books, jun.2005. p. 40. (“The Pocket
Poets Series”; n. 18)
Em Português
GINSBERG, Allen. Sobre a obra de Burroughs. In: __________. Uivo, kaddish e outros poemas.
Tradução, seleção e notas de Claudio Willer. 2. ed. Porto Alegre, RS: L&PM,
2010. p. 207.
GINSBERG, Allen. Sobre a obra de Burroughs.
Tradução de Claudio Willer. Disponível neste
endereço. Acesso em: 2 jun. 2016.
Londres à noite, para Blake, não promete mais do que a maldição das
rameiras e o desespero estampado no rosto das pessoas, informe-se, nas
imediações do espaço urbano da capital inglesa por demais frequentado, hoje em
dia, por levas de turistas: o Tâmisa.
O poema é atravessado por referentes sonoros – gritos, maldições, vozes,
suspiros –, e isso nos permite associar o panorama londrino a um núcleo urbano
em transformação acelerada, com as suas consequentes mazelas, no âmbito da
revolução industrial então em curso.
J.A.R. – H.C.
William Blake
(1757-1827)
London
I wander thro’ each charter’d street
Near where the charter’d Thames does flow,
And mark in every face I meet
Marks of weakness, marks of woe.
In every cry of every Man,
In every Infant’s cry of fear,
In every voice, in every ban,
The mind-forg’d manacles I hear:
How the Chimney-sweeper’s cry
Every black’ning Church appalls,
And the hapless Soldier’s sigh
Runs in blood down Palace walls;
But most thro’ midnight streets I hear
How the youthful Harlot’s curse
Blasts the new-born Infant’s tear,
And blights with plagues the Marriage hearse.
Londres à Noite
(George Rossidis: pintor grego)
Londres
Em cada rua
escriturada em que ando,
Onde o Tâmisa
escriturado passa,
Eu nos rostos que
encontro vou notando
Os sinais da doença e
da desgraça.
Ouço nos gritos que
os adultos dão,
E nos gritos de medo
do inocente,
Em cada voz, em cada
interdição,
As algemas forjadas
pela mente
Se o Limpa-Chaminés
acaso grita,
Assusta a Igreja
escura pelos anos;
Se o Soldado suspira
de desdita,
O sangue mancha os
muros palacianos.
Mas o que mais à meia
noite é ouvido
É a rameira a lançar
praga fatal,
Que estanca o pranto
do recém-nascido
E empesteia a
mortalha conjugal.
Referência:
BLAKE, William. Londres. Tradução de
Paulo Vizioli. In: __________. William
Blake: poesia e prosa selecionadas. Edição bilíngue. Introdução, seleção e
tradução de Paulo Vizioli. São Paulo, SP: Nova Alexandria, 1993. Em inglês: p.
62; em português: p. 63.
Um soneto cujo tema é o próprio soneto: um metassoneto! E quem o concebe
é um clássico da fase simbolista da literatura brasileira, ou seja, Cruz e
Sousa, vate que o empregou na maior parte das obras que legou à posteridade.
Há, segundo o autor, morbidez, voluptuosidade e extravagância nas formas
do soneto que, muito a despeito, revela também beleza e capricho sob os seus
contornos de vetusta púrpura, por onde circulam os sonhos de almas dolorosas,
como, presume-se, a do próprio poeta!
J.A.R. – H.C.
Cruz e Sousa
(1861-1898)
O Soneto
Nas formas
voluptuosas o Soneto
Tem fascinante,
cálida fragrância
E as leves, langues
curvas de elegância
De extravagante e
mórbido esqueleto.
A graça nobre e grave
do quarteto
Recebe a original
intolerância,
Toda a subtil,
secreta extravagância
Que transborda
terceto por terceto.
E como um singular polichinelo
Ondula, ondeia,
curioso e belo.
O Soneto, nas formas
caprichosas.
As rimas dão-lhe a púrpura
vetusta
E na mais rara
procissão augusta
Surge o sonho das
almas dolorosas.
Poesia
(Gustave C. R.
Boulanger: pintor francês)
Referência:
SOUSA, Cruz e. O soneto. In:
__________. Últimos sonetos. Paris, FR: Typ. Aillaud & Cia., 1905. p. 83-84.
Ser bela não apenas no aspecto físico, mas sobretudo na “pátria do ser”;
não somente pela expressão ondulante do corpo – como num respirar de vela –,
senão pela completude de uma vontade realizadora.
Tal é o padrão que Andresen vislumbra para a mulher do presente: uma
beleza total, não vulgarizada pelos apelos fáceis – clássica como um Mantegna
e, ao mesmo tempo, vanguardista e provocadora, como uma tela de Picasso...
J.A.R. – H.C.
Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)
Sua Beleza
Sua beleza é total
Tem a nítida
esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso
de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o
respirar da vela
Seu corpo é solar e
frontal
Sua beleza à força de
ser bela
Promete mais do que
prazer
Promete um mundo mais
inteiro e mais real
Como pátria do ser
Madona da Vitória
(Andrea Mantegna:
pintor italiano)
Referência:
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O nome das coisas. Prefácio de Fernando Cabral Martins. Lisboa,
PT: Assírio & Alvim, 2015. p. 43.
Na voz de Amelinha (vide vídeo a seguir), lá pelos inícios dos
anos 80, este poema, do repentista pernambucano Otacílio Batista, fez muito
sucesso musical, com suas associações a histórias de mulheres que mudaram o
rumo das vidas de seus esposos.
Nele, Menelau, Alexandre, Cervantes e Lampião aparecem enredados pelo
feitiço feminino. Aliás, àquela mesma época, Gilberto Gil afirmaria: “Quem sabe
o super-homem venha nos restituir a glória, mudando curso da história por causa
da mulher!”.
J.A.R. – H.C.
Otacílio Batista
(1923-2003)
Mulher Nova, Bonita e Carinhosa
Numa luta de gregos e
troianos
Por Helena a mulher
de Menelau
Conta a história que
um cavalo de pau
Terminava uma guerra
de dez anos.
Menelau, o maior dos
espartanos
Venceu Paris o grande
sedutor,
Humilhando a família
de Heitor
Em defesa da honra
caprichosa
Mulher nova, bonita e
carinhosa
Faz o homem gemer sem
sentir dor
Alexandre figura
desumana
Fundador da famosa
Alexandria
Conquistava na Grécia
e destruía
Quase toda a
população tebana.
A beleza atrativa de
Roxana
Dominava o maior
conquistador
Que depois de
vencê-la o vencedor
Entregou-se à pagã
mais que formosa
Mulher nova, bonita e
carinhosa
Faz o homem gemer sem
sentir dor.
A mulher tem na face
dois brilhantes
Condutores fiéis do
seu destino,
Quem não ama o
sorriso feminino
Desconhece a poesia
de Cervantes.
A bravura dos grandes
navegantes
Enfrentando a procela
em seu furor,
Se não fosse a mulher
mimosa flor,
A história seria
mentirosa.
Mulher nova, bonita e
carinhosa
Faz o homem gemer sem
sentir dor.
Virgulino Ferreira o
Lampião,
Bandoleiro das selvas
nordestinas
Sem temer o perigo
nem ruínas,
Foi o rei do cangaço
no sertão,
Mas um dia sentiu no
coração
O feitiço atrativo do
amor.
A mulata da terra do
condor
Dominava uma fera
perigosa,
Mulher nova, bonita e
carinhosa
Faz o homem gemer sem
sentir dor.
Uma Bela Mulher
(Konstantin Razumov:
pintor russo)
(Interpretação de Amelinha)
Referência:
BATISTA, Otacílio. Mulher nova, bonita
e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor. In: PINTO, José Nêumanne (Sel.). Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do
Século. Ilustrações de Tide Hellmeister. 2. ed. São Paulo, SP: Geração
Editorial, 2001. p. 302-304.
Com um modo muito peculiar de se expressar, o francês Dupin teoriza
sobre a sua própria arte – a poesia –, que a julgar pelos argumentos
apresentados, cinge-se dominantemente à forma do poema, seja ela qual for.
Informe-se, por conveniente, que há lastro especializado o bastante em
Dupin para discorrer sobre o tema. Ele também foi autor de numerosos ensaios
sobre artistas modernos e contemporâneos, como Braque, Kandisky, Laurens e
muitos outros, assim como de estudos pessoais e bastante perceptivos sobre a
arte de Miró e Giacometti.
J.A.R. – H.C.
Jacques Dupin
(1927-2012)
Démesure de la poésie
Le poème est ce qui
n’a ni nom, ni repos, ni lieu, ni demeure : fissure à l’oeuvre se mouvant.
Inutile de le circonscrire hors de paysages connus dans quelque zone aux
pensées interdite, horizon d’antinature ou alors achevé au terme de son dépassement.
Il hante notre espace car il est notre temps.
Insaisissable en chacune de ses figures qui ne surgit que pour lier sa tendance
naissante à d’imprévisibles successions, le poème sécrète sa propre histoire
comme l’avion traceur ses spirales irréductibles dans leur lecture linéaire à
ce que fut dans l’azur ce point blanc. Prenant appui sur l’explosion étoilée du
langage, ressassant l’amorce naissante de l’événement, sortant le geste de ses
fonctionnels usages, le coupant de ses thématiques intentions, le poème fait
qu’après lui l’homme foudroyé demande aux pages l’abri et le repos d’une
histoire, le modèle entrevu parfait de la pierre bleue sur un visage,
l’impossible clef. Sans rémission.
Livro Azul
(Sharon McCarthy:
pintora norte-americana)
Excesso da poesia
O poema é aquilo que
não tem nome, nem repouso, nem lugar, nem lar: fissura que se move em direção à
obra. Inútil circunscrevê-lo para além de paisagens conhecidas, rumo a alguma
zona interditada aos pensamentos, horizonte da antinatureza ou então depois de
finda a sua transposição. Assombra o nosso espaço, pois ele é o nosso tempo. Inapreensível
em cada uma de suas figuras, que surgem apenas para vincular a sua tendência
ascendente à de imprevisíveis sucessões, o poema secreta a sua própria história
tal como o aeroplano traça irredutíveis espirais em sua leitura linear para o
que migra do azul a um ponto branco. Apoiando-se sobre a explosão estrelada da
linguagem, ruminando a aflorante isca do evento, apartando o gesto de seus usos
funcionais, de forma a desconectá-lo de suas intenções temáticas, o poema faz com
que alguém por ele surpreendido peça às suas páginas o abrigo e o descanso de
uma história, o modelo perfeito, apenas vislumbrado, da pedra azul sobre um
rosto, a impossível chave. Sem remissão.
Referência:
DUPIN, Jacques. Démesure de la poésie. In: CAWS, Mary Ann (Ed.). The Yale anthology of twentieth-century french poetry. English and
French on facing pages. New Haven, CT: Yale University Press, 2004. p. 390.