Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Anna Akhmátova: viver de um modo simples

Enquanto o clima eleitoral do momento segue pegando fogo, com denúncias e contradenúncias de ambos os lados – corrupção, incompetências, vãs promessas que não serão cumpridas –, este internauta a tudo assiste com a tranquilidade e o relaxamento de um felino: afinal, sou ou não do signo de Leão?! (rs).

E então, a aproveitar o mote, navegaremos nas páginas da poetisa russa – ou seria melhor dizer ucraniana, em vista das recentes cizânias entre russos e ucranianos? – Anna Akhmátova, para de lá extrairmos o intimista poema que ora postamos.

Anna faz menção à forma como a natureza pode nos ser reconfortante, em retorno a um modo de vida mais simples, talvez de desaceleração das ventoinhas que nos arrastam para além do ponto onde, originalmente, não havíamos planejado migrar.

Um doce fluir de existência, no qual cabem, com similar valoração, o afago das lambidelas de um gato fofo e o pousar ruidoso de uma cegonha no teto. Plantas, animais e outras menções a elementos da natureza se integram na mente da poetisa, de tal sorte que um singelo chamado à porta, diz-nos ela, com muita probabilidade, não será capaz de removê-la do estado de consciência em que se encontra. 

Um equilíbrio natural, portanto!

J.A.R. – H.C. 
Anna Akhmátova
(1889-1966)

Я научилась просто, мудро жить
А́нна Ахма́това

Я научилась просто, мудро жить,
Смотреть на небо и молиться Богу,
И долго перед вечером бродить,
Чтоб утомить ненужную тревогу.

Когда шуршат в овраге лопухи
И никнет гроздь рябины желто-красной,
Слагаю я веселые стихи
О жизни тленной, тленной и прекрасной.

Я возвращаюсь. Лижет мне ладонь
Пушистый кот, мурлыкает умильней,
И яркий загорается огонь
На башенке озерной лесопильни.

Лишь изредка прорезывает тишь
Крик аиста, слетевшего на крышу.
И если в дверь мою ты постучишь,
Мне кажется, я даже не услышу.

(1912)


Aprendi a Viver com Simplicidade, com Juízo
(Anna Akhmátova)

Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,
a olhar o céu, a fazer minhas orações,
a passear sozinha até a noite,
até ter esgotado esta angústia inútil.

Enquanto no penhasco murmuram as bardanas
e declina o alaranjado cacho da sorveira,
componho versos bem alegres
sobre a vida caduca, caduca e belíssima.

Volto para casa. Vem lamber a minha mão
o gato peludo, que ronrona docemente,
e um fogo resplandecente brilha
no topo da serraria, à beira do lago.

Só de vez em quando o silêncio é interrompido
pelo grito da cegonha pousando no telhado.
Se vieres bater à minha porta,
é bem possível que eu sequer te ouça.

(1912)

Referência:

AKHMÁTOVA, Anna. Aprendi a viver com simplicidade, com juízo. In: __________. Antologia Poética. Seleção, tradução, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2009. p. 60.
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