O poeta, na linhagem
do modernismo brasileiro, apresenta traços antropofágicos nestes versos,
propondo “devorar” todas as influências – europeias, africanas, indígenas –
para criar algo novo, singularmente pátrio: a democracia local, para o autor
alagoano, torna-se, sob tal mirada, um ato de canibalismo cultural, de abraço
total à contradição e à heterogeneidade.
Trata-se, de fato, de
uma declaração de identidade mestiça, delineada pelo sincretismo cultural,
racial e espiritual que conforma a essência do Brasil, profundamente arraigado no
corpo, nos hábitos, na ancestralidade, até mesmo nas enfermidades que são
características deste torrão natal, idem nas superstições nas quais, como que em
transe, a mente se liberta do racional para entrar em contato com forças
primitivas e sagradas.
J.A.R. – H.C.
Jorge de Lima
(1893-1953)
Democracia
Punhos de redes
embalaram o meu canto
para adoçar o meu
país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o
meu corpo contra os maus-olhados,
catecismo me ensinou
a abraçar os hóspedes,
carumã me alimentou
quando eu era criança,
Mãe-negra me contou
histórias de bicho,
moleque me ensinou
safadezas,
massoca, tapioca,
pipoca, tudo comi,
bebi cachaça com caju
para limpar-me,
tive maleita,
catapora e ínguas,
bicho-de-pé, saudade,
poesia;
fiquei aluado,
mal-assombrado, tocando maracá,
dizendo coisas,
brincando com as crioulas,
vendo espíritos,
abusões, mães-d’água,
conversando com os
malucos, conversando sozinho,
emprenhando tudo que encontrava,
abraçando as cobras
pelos matos,
me misturando, me
sumindo, me acabando,
para salvar a minha
alma benzida
e meu corpo pintado
de urucu,
tatuado de cruzes de
corações, de mãos-ligadas,
de nomes de amor em
todas as línguas de branco, de mouro
ou de pagão.
Em: “Poemas Negros”
(1947)
Miscigenação
(Dauri Nei Diogo: artista
paulista)
Referência:
LIMA, Jorge de.
Democracia. In: __________. Obra completa em dois volumes. V. I: Poesia
e ensaios. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1958. p. 355. (Biblioteca
“Luso-Brasileira”; Série “Brasileira”; n. 12)
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