Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Barbara Howes - Mistral

Segundo relata a própria autora na obra em referência (NEMEROV, 1968, p. 91), o poema abaixo foi redigido quanto ela voltava a pé para casa, retornando da aldeia de Lavandou, no sul da França, ensejo em que o Mistral soprava tão fortemente que a custo se podia divisar o caminho, e Howes diz ter sentido uma poderosa impressão do mal, transtornando a vida naquela região.

Mistral, importa dizer, é como se denomina o vento seco que sopra do norte pelo vale do Ródano, na França, a emular, como no presente caso, uma forte sensação ou ameaça de tribulação. Aliás, mais ou menos da mesma forma como Emily Dickinson intuiu neste poema já postado no bloguinho.

J.A.R. – H.C.

Barbara Howes
(1914-1996)

Mistral

Percussive, furious, this wind
Sweeps down the mountain, and
Under the pennon of skirling air
Blows through each red-tiled house as if
Nothing were there: Mistral,
Quartz-clear, spread-eagle,
Falls on the sea.
Gust upon gust batters
The surface – darkening blue –
Into a thousand scalloped fans. Where
Shall our noontime friends,
Cicada, hummingbird,
Who stitched the air vvith sound and speed,
Now hide? All rocks, islands, penínsulas
Draw near, hitch up their chairs,
Companions in this clearer, clean
Air, while inland fields arc stripped of soil.
As I start home, a coven
Of winds is let loose at every corner;
Alone in a howling 
Waste, figurehead sculptured in air,
Bent low, deafened, I plunge
On, blind in the eye of the storm.

Agay, a baía durante o Mistral
(Armand Guillaumin: pintor francês)

Mistral

Percussivo, furioso, esse vento
Desce a montanha,
E sob seu pendão de ar uivante
Sopra através de cada uma das casas de telhados vermelhos
Como se nada ali houvesse: o Mistral,
límpido como o quartzo, águia estendida,
Abate-se sobre o mar.
Rajada após rajada golpeia
A superfície – azul escura –
Transformando-a em milhares de leques recortados. Onde
Se esconderão agora nossos amigos do meio-dia,
A cigarra, o beija-flor,
Que ponteavam o ar com seus sons e movimentos?
Todas as rochas, as ilhas, as penínsulas
Aconchegam-se, apegam-se a seus postos,
Companheiros nesse ar mais claro, limpo,
Enquanto os campos do interior são devastados.
Quando volto a casa, um sabat
De ventos desprende-se a cada esquina;
Sozinha em um deserto
Uivante, carranca esculpida no ar,
Curvada, ensurdecida, eu mergulho,
Cega no meio da tempestade.

Referência:

HOWES, Barbara. Mistral / Mistral. Tradução de Marcos Santarrita. In: NEMEROV, Howard (Coord.). Poesia como criação. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro, GB: Edições GRD, 1968. Em inglês: p. 91; em português: p. 94.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Geir Campos - Praça Tiradentes

Num passeio poético pela cidade do Rio de Janeiro, Geir estaciona, neste ponto, na hoje denominada Praça Tiradentes, antes Campo da Lampadosa – onde Tiradentes foi morto –, Campo do Pelourinho, Rossio Pequeno, além de, embora não se faça menção, Praça da Constituição.

Em seu centro acha-se um monumento concebido pelo francês Louis Rochet (1813-1878), vale dizer, um belíssimo conjunto escultórico com a imagem de Dom Pedro I sobre o cavalo, num pedestal rodeado por figuras de indígenas, com alegorias às grandes bacias hidrográficas do país, além dos brasões das então vinte províncias imperiais.

É a esse monumento que o poeta alude em seu poema, a par de ainda mencionar outra praça famosa, não muito distante da primeira – a Praça Onze –, antigo Rossio Pequeno, célebre por ser um centro histórico onde costumam se reunir grande parte dos foliões do carnaval carioca.

J.A.R. – H.C.

Geir Campos
(1924-1999)

Praça Tiradentes

largo do rossio grande
por ser grande o seu caminho
ou só largo do rossio

foi campo da lampadosa
e campo do pelourinho

ali morreu tiradentes
por querer livre a nação
mas de outro é o monumento
que nela empina o seu bronze

largo do rossio grande
contra o rossio pequeno
que depois foi praça onze

Praça Tiradentes
(Virgílio Dias: pintor carioca)

Referência:

CAMPOS, Geir. Praça Tiradentes. In: __________. cantos do rio: roteiro lírico do rio de janeiro. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira; Instituto Municipal de Arte e Cultura (Rio Arte), 1982. p. 73. (‘Poesia Hoje’; v. 60)

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Miroslav Holub - Patologia

Inserto na obra “Denní služba” (“Serviço diário”), de 1958, este poema do autor tcheco reporta-se aos que lutaram em defesa de um ideário que se plasmou no lema da bandeira francesa – Liberté, Égalité, Fraternité –, cada uma dessas divisas representada por uma cor, a se considerar a trilogia composta pelo cineasta polonês Krzysztof Kieslowski (1941-1996): “A Liberdade é Azul” (1993), “A Igualdade é Branca” (1994) e “A Fraternidade é Vermelha” (1994).

E aos olhos de Holub tudo se passa como se vã fosse a experiência humana ao longo da história, pois lhe parece que tais divisas não têm capacidade para ressoar os seus clarins aos que se encontram na lida quotidiana: apenas em eventuais surtos é que se experimenta algo que possa se afigurar como o paraíso. Idem, o céu e o inferno. Eis aí o nosso estado patológico em porfiar no sonho!

J.A.R. – H.C.

Miroslav Holub
(1923-1998)

Pathology

Here in the Lord’s bosom rest
the tongues of beggars,
the lungs of generals,
the eyes of informers,
the skins of martyrs,

in the absolute
of the microscope’s lenses.

I leaf through Old Testament slices of liver,
in the white monuments of brain I read
the hieroglyphs
of decay.

Behold, Christians,
Heaven, Hell, and Paradise
in bottles.
And no wailing,
not even a sigh.
Only the dust moans.
Dumb is history
strained
through capillaries.

Equality dumb. Fraternity dumb.

And out of the tricolours of mortal suffering
we day after day
pull
threads of wisdom.

O Martírio de São Mateus
(Caravaggio: pintor italiano)

Patologia

Aqui, no seio do Senhor, jazem
as línguas dos mendigos,
os pulmões dos generais,
os olhos dos informantes,
as peles dos mártires,

no absoluto
das lâminas do microscópio.

Folheio fatias de fígado de uma ponta a outra
do Velho Testamento,
nas lápides brancas do cérebro leio
hieróglifos
da decomposição.

Olhai, Cristãos,
Céu, Inferno e Paraíso
em frascos.

E sem lamento,
nem mesmo um suspiro.
Somente geme a poeira.
Muda é a história
confrangida
através dos capilares.

Igualdade muda. Fraternidade muda.

E do tricolor de mortal aflição,
os fios de sabedoria,
dia após dia,
puxamos.

Referência:

HOLUB, Miroslav. Pathology. In: __________. Selected poems. Translated from Czech to English by Ian Milner and George Theiner. With an Introduction by A. Alvarez. 1st. publ. Middlesex, EN: Penguin Books, 1967. p. 30. (Penguin Modern European Poets)

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Vassar Miller - Para um Batizado

Miller recorre a inúmeras associações criadas pelo próprio imaginário humano, capazes de dar conta de um evento de plena significação para a continuidade da vida: não apenas nascer, num plano biológico, mas nascer para fazer diferença junto aos entes queridos, consagrando devotamente uma criança pelo nome.

Observam-se, desse modo, menções extraídas ao enredo bíblico sobre o ato de criação de Adão e Eva, da adoração dos pastores a Jesus, nascido em uma estrebaria, e do dogma de Deus único representado em uma Trindade. E a relembrar o feito de nomeação dos animais sobre a face da terra por parte do homem, aflora no poema uma soberana anáfora ao final de cada estrofe: o que denominamos também se revela como aquilo que amamos.

J.A.R. – H.C.

Vassar Miller
(1924-1998)

For a Christening

Like the first man to glance
Into a face and fathom
The word as welcome, dance
The common human rhythm;
Like ali fish or fawn that carne
At Adam’s cry, or dove –
So you are what we name,
And what we name we love.

Or like the stars recorded
By shepherds who had striven
With wonder and thus worded
The wildemess of heaven,
Shy creature growing tame,
Taken from womb s dense grove –
You now are what we name
When what we name we love.

One with ali precious things
Called from the dusk of death,
Rose-texture, whir of wings,
Garrisoned with our breath –
You wear its sheath of flame
Around, beneath, above
You, being what we name
For you are what we love.

One with the sacred powers
Man credles on his tongue
During time’s timeless hours
Whereon his heart is hung –
In the adoring frame
Made by our arms, you move;
For you are what we name,
And what we name we love.

In the Name of the Three in One,
More awesome still than ours,
From whence your mistery spun,
Wherein it yet endures,
Speaking, though holy shame
Would silence us, we prove
How what we love we name
How what we name we love!

O Batismo
(Julius L. Stewart: pintor norte-americano)

Para um Batizado

Como o primeiro homem a contemplar
Um rosto e procurar
a palavra como bem-vinda, dança
O ritmo humano comum;
Como todo peixe ou fauno que surgiram
Ao chamado de Adão, ou mergulharam –
Assim és tu aquilo que te denominamos,
E o que denominamos amamos.

Ou como as estrelas anunciadas
Por pastores que lutaram
Com a surpresa e emprestaram palavras
À desolação do céu,
Tímida criatura a domesticar-se,
Extraída da densa alameda do ventre –
És agora aquilo que te denominamos
Quando o que denominamos amamos.

Identificado com todas as coisas preciosas,
Convocadas da escuridão da morte,
Tessitura de rosa, adejar de asas,
Protegida por nosso hálito –
Usas a aura de chamas desse hálito
Ao redor de ti, por baixo de ti, por cima
De ti, sendo aquilo que te denominamos,
Pois que és o que amamos.

Identificado com os poderes sagrados
Que o homem embala em sua língua,
Durante as horas incontáveis do tempo,
Do qual pende seu coração –
Na moldura adorável
Feita com os nossos braços, moves-te;
Pois és aquilo que te denominamos,
E o que denominamos amamos.

Em nome dos Três em Um,
Mais terrível ainda que os nossos,
De onde teu mistério proveio,
E onde ainda perdura,
Falando, apesar de a santa vergonha
Dever calar-nos, provamos
Como quando amamos denominamos,
Como denominamos aquilo que amamos!

Referência:

MILLER, Vassar. For a christening / Para um batizado. Tradução de Marcos Santarrita. In: NEMEROV, Howard (Coord.). Poesia como criação. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro, GB: Edições GRD, 1968. Em inglês: p. 148-149; em português: p. 163.

domingo, 20 de outubro de 2019

Cassiano Nunes - Espera um pouco

Com um acento hilariante, Nunes dirige-se àqueles que, aparentemente, esperam por sua morte, que, tal como a contempla, não lhe parece definitiva, uma vez que será acompanhada pela necessária ressurreição. Portanto, nada de precipitações quanto ao assunto.

E para quem já se encontra nas regiões lindeiras da morte, pensar em aposentadoria é como confundir o amor – um sentimento mais amplo – com uma de suas manifestações – o prazer da sexualidade –, não se podendo tomar, por conseguinte, meros espectros de interseção entre as coisas como situações de plena equivalência entre elas, diz-nos o poeta.

J.A.R. – H.C.

Cassiano Nunes
(1921-2007)

Espera um pouco

Não dês o nome de amor
ao que não passa de desejo.
Ideal é uma palavra branca demais
para o teu apetite de aposentadoria.
Procura ser exato
ao definir as coisas.

A minha morte não denomines de morte.
Nem a consideres definitiva.
Espera um pouco, amigo!
Espera um pouco pela ressurreição.

Ressurreição
(Ulrich Osterloh: pintor alemão)

Referência:

NUNES, Cassiano. Espera um pouco. In: __________. Obra reunida: poesia; v. 1. Organização de Maria de Jesus Evangelista. Brasília, DF: Centro Editorial, 2015. p. 33.

sábado, 19 de outubro de 2019

Anne Sexton - Desta Casta

Encontrava-me no meio de uma versão ao português do poema abaixo, literalmente “Seu Tipo”, de Sexton, quando, passeando pela internet, abdiquei da tarefa, pois deparei com a tradução de Bernardo Beledeli Perin, que julguei um encanto, mantidas as rimas do original, embora fugindo um pouco da literalidade do texto da poetisa. Mas fazer o quê? Não estamos no melhor dos mundos possíveis!

O que vale é a beleza e a graça com que os versos exprimem ou subentendem os papéis femininos, impostos ou não pelas normas ditas sociais, restringindo ou não a expansão mais autêntica dessa bruxa dos subúrbios: de mãe valente à fêmea fatal, de esposa domesticada à irresignada que se insurge contra aqueles que a oprimem. Vejam qual é o tipo de Sexton!

J.A.R. – H.C.

Anne Sexton
(1928-1974)

Her Kind

I have gone out, a possessed witch,
haunting the black air, braver at night;
dreaming evil, I have done my hitch
over the plain houses, light by light:
lonely thing, twelve-fingered, out of mind.
A woman like that is not a woman, quite.
I have been her kind.

I have found the warm caves in the woods,
filled them with skillets, carvings, shelves,
closets, silks, innumerable goods;
fixed the suppers for the worms and the elves:
whining, rearranging the disaligned.
A woman like that is misunderstood.
I have been her kind.

I have ridden in your cart, driver,
waved my nude arms at villages going by,
learning the last bright routes, survivor
where your flames still bite my thigh
and my ribs crack where your wheels wind.
A woman like that is not ashamed to die.
I have been her kind.

Mulher com uma pérola
(Jean-Baptiste-Camille Corot: pintor francês)

Desta Casta

Tenho saído por aí, bruxa maldita,
assombrado no escuro, na noite bravia;
tramando o mal, minha espécie milita
sobre casas comuns onde a lanterna luzia:
sozinha, doze dedos, de loucura vasta.
Mulheres assim não são mulheres, eu sabia.
Eu tenho sido desta casta.

Tenho achado grutas mornas sob o céu,
enchido-as de potes, entalhes, estantes,
móveis, panos, incontável cacaréu;
para vermes e duendes preparo lanches:
enfileirando-os, queixosa, exausta.
Mulheres assim ninguém entendeu.
Eu tenho sido desta casta.

Tenho andado na sua caleça, cocheiro,
acenado braços nus às vilas que passam,
aprendendo as rotas finais, no fogareiro
sobrevivo às chamas que pernas assam
e fendem ossos, onde a carroça se arrasta.
Mulheres assim de morrer não se vexam.
Eu tenho sido desta casta.

Tradução de Bernardo Beledeli Perin

Referência:

SEXTON, Anne. Her kind. In: ASTLEY, Neil (Ed.). Staying alive: real poems for unreal times. 1st. ed. New York, NY: Miramax Books, 2003. p. 125.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Vielimir Khlébnikov - Uma vez mais, uma vez mais

Seguindo o poeta, como se este fosse uma estrela no firmamento, a sua senhora – metaforicamente um marujo sobre as águas em vórtice – poderá chocar-se contra as rochas que debruam o mar, caso decida experimentar levianamente o amor de seu par.

É que, provavelmente, o poeta já bem percebera que o relacionamento não sobreviveria ao inexorável estiolamento, razão por que vaticina: as rochas hão de rir da consorte, da mesma forma como esta rira dele, quem sabe humilhando os sinceros sentimentos que o vate lhe devotara.

J.A.R. – H.C.

Vielimir Khlébnikov
(1885-1922)

Еще раз, еще раз

Еще раз, еще раз,
Я для вас
Звезда.
Горе моряку, взявшему
Неверный угол своей ладьи
И звезды:
Он разобьется о камни,
О подводные мели.
Горе и Вам, взявшим
Неверный угол сердца ко мне:
Вы разобьетесь о камни,
И камни будут надсмехаться
Над Вами,
Как вы надсмехались
Надо мной.

A baixa das águas do dilúvio
(Thomas Cole: pintor anglo-americano)

Uma vez mais, uma vez mais

Uma vez mais, uma vez mais
Sou para você
Uma estrela.
Ai do marujo que tomar
O ângulo errado de marear
Por uma estrela:
Ele se despedaçará nas rochas,
Nos bancos sob o mar.
Ai de você, por tomar
O ângulo errado de amar
Comigo: você
Vai se despedaçar nas rochas
E as rochas hão de rir
Por fim
Como você riu
De mim.

(1919-1921)

Referências:

Em Russo

Хлебников, Велимир. Еще раз, еще раз. Disponível neste endereço. Acesso em: 30 set. 2019.

Em Português

KHLÉBNIKOV, Vielimir. Uma vez mais. Tradução de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; SCHNAIDERMAN, Boris. Poesia moderna russa: nova antologia. Traduções de Augusto e Haroldo de Campos, com a revisão ou colaboração de Boris Schnaiderman. 3. ed. São Paulo, SP: Brasiliense, 1985. p. 95.