Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

César Vallejo - Noite de Natal

César Vallejo, um dos mais importantes poetas peruanos, abrilhanta este espaço à véspera do Natal de 2015, num soneto em que menciona, de passagem, o nascimento do menino Jesus.

Vallejo descreve um clima de festa, sendo que a voz poética, ao fim, dirige-se à amada, com versos associados a referentes do presépio, haja vista que se empregam palavras como balar – que denota, no contexto, récita de versos semelhante a balidos de animais –, bronzes de sinos e o próprio nascimento de Cristo.

J.A.R. – H.C.

César Vallejo
(1892-1938)

Nochebuena

Al callar la orquesta, pasean veladas
sombras femeninas bajo los ramajes,
por cuya hojarasca se filtran heladas
quimeras de luna, pálidos celajes.

Hay labios que lloran arias olvidadas,
grandes lirios fingen los ebúrneos trajes.
Charlas y sonrisas en locas bandadas
perfuman de seda los rudos boscajes.

Espero que ría la luz de tu vuelta;
y en la epifanía de tu forma esbelta,
cantará la fiesta en oro mayor.

Balarán mis versos en tu predio entonces,
canturreando en todos sus místicos bronces
que ha nacido el niño-Jesús de tu amor.

Véspera de Natal
(Trisha Romance: pintora norte-americana)

Noite de Natal

Ao silenciar a orquestra, passeiam veladas
sombras femininas sob as ramagens,
por cuja folharada se filtram geladas
quimeras de lua, pálidos matizes.

Há lábios que choram árias esquecidas,
grandes lírios fingem os ebúrneos trajes.
Conversas e sorrisos em loucas hordas
perfumam de seda os agrestes bosques.

Espero que ria a luz à tua volta;
e na epifania de tua forma esbelta,
cantará a festa em ouro maior.

Balarão meus versos em teu prédio então,
cantarolando em todos os seus místicos bronzes
que nasceu o menino-Jesus de teu amor.

Referência:

VALLEJO, César. Nochebuena. In: __________. Obra poética completa. Edición com facsímiles. 1. ed.  Lima (PE): Francisco Moncloa Editores, 1968. p. 59. (Colección Piedra Negra sobre una Piedra Blanca)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

António Salvado - Poemas de Natal

Quatro poemas numa única postagem, cada qual com um título-ícone entre os muitos do Natal: musgo, sinos, manjedoira, noite branca. Reminiscências de Natais idos e vividos pelo poeta.

Em meio a essas lembranças, notam-se outros tantos símbolos caros às festas de fim de ano, como coros e filhós, de forma a caracterizar que o sarau se passa numa casa portuguesa, com certeza!

J.A.R. – H.C.

António Salvado
(n. 1936)

Poema de Natal (I - Musgo)
(SALVADO, 1999, p. 258-259)

Era verde   como os momentos quando
se abandonava a escola o professor o livro
e rua acima ou rua abaixo ardia
nos trotes de meus passos   (que distantes!)
em direcção à luz: anunciada,
reflectida no sonho há tanto tempo
e que em espera voltava regressava
a cintilar pausadamente lenta.

Porque o dia   – de cedo –   se vestia
ainda e tinha muito a caminhar:
as figuras   os rios   serras   iam
( também a neve ) alando os seus lugares.

Era macio o musgo do presépio
colocado   – em amor –   por entre pedras. 


Poema de Natal (II - Sinos)
(SALVADO, 1999, p. 259)

Em voz d’azeite os sinos badalavam
repercutindo no calor do cobre
apelos de fervor   felicidade
e risos d’harmonia:   fervorosas
preces caladas aguardando a hora.

Os astros derramavam o orvalho
da sua solidão por entre os coros
das vozes que entoavam pelos olhos
harpejos d’alegria   d’ostinatos
em cheiro de filhó com mais acordes.

Tão fria a noite na paixão das brasas:
os sinos a tocarem luminosos,
’strelas cadentes que se aproximavam,
o céu a dirigir-se a cada porta. 


Poema de Natal (III - Manjedoira)
(SALVADO, 1999, p. 259-260)

De longe que a manhã fora prescrita:
as armas recolheram aos museus
os campos   revestiram-se de trigo
o azul recente   coloriu o céu
d’além   da boca   e d’outros céus ainda,
aves voltaram   feitas peregrinas,
na terra acasalaram mais   os bichos,
no mar os peixes   destruíram breus.

Noite do caramelo   ameno dia
chegado ao lume do braseiro ardido:
véu rompido onde a paz vai reviver;
de boa e sã vontade se cobriu
o mundo:   os homens todos já se uniram!,

e nem um Deus precisa de nascer. 


Poema de Natal (IV - Noite Branca)
(SALVADO, 1999, p. 260)

Melodia macia   perfumada
a desta noite: bafo de surpresas,
odor dos troncos a resplandecerem
sabor do Encoberto regressado.

Os astros correm pela Terra acesa
ciciando palavras entre orvalho –
a directriz que denuncia os passos
por onde caminharmos sem receio.

Mistério d’encantado nascimento,
ela nos cobre com seu manto estranho
bordado a graça   a lar   a comunhão;

e nunca a voz do fogo foi mais viva:
a labareda cresce ao infinito
gestos d’amor surdindo em nossas mãos. 


Referência:

SALVADO, António. Obra III. A Plana Luz do Dia. Coimbra, PT: A Mar Arte, 1999.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Tomás Kim - Tempo de Natal

Hoje, 22/12, é o meu último dia de trabalho em 2015. Foi um ano bom, felizmente pautado por mais alegrias que tristezas. Um ano de mudanças na rotina laboral, com aprendizados importantes na área do serviço público.

Mas o serviço do bloguinho não tem data de descanso. Todo dia é dia para novas postagens. Então vamos a mais uma: um poema natalino, com a grafia tal como em seu original, de autoria do angolano Tomás Kim, nome abreviado de Joaquim Fernandes Tomás Monteiro Grilo.

J.A.R. – H.C.

Joaquim Monteiro Grilo
(1915-1967)

Tempo de Natal

Eis aqui a estalagem:
Escassa a palha na mangedoira
E morno o bafo dos animais.

Brilhante a estrela,
Brilhante o brocado
Dos Reis.

Oh, o fulgor, até, dos farrapos
Dos pastores!

Claro o silêncio:
Um murmúrio a prece
Na noite clara
De Graça plena.

Mas longe, longe... tão perto,
Afinal,
Que uivo de mau agoiro
A prometer o estupro do sol
E a sombra da carne viva
No chão
Gravada?

Tão negra a noite,
Agora,
Ó, Senhores do Mundo!,
Tão nua de Graça,
Agora,
A noite – a noite e os dias...

De: “Exercícios Temporais” (1967)

O Nascimento de Jesus
(Gerard van Honthorst: pintor holandês)

Referência:

KIM, Tomás. Tempo de Natal. In: MARÇAL, Iguamir Antônio Teixeira (Coord.). Antologia escolar. v. 2. Rio de Janeiro, RJ: Biblioteca do Exército Editora, 1996. p. 358-359. (Coleção Marechal Trompowski) 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Walter de la Mare - Visco

Em associação direta com a época natalina, este poema, do poeta inglês Walter de la Mare, tem apenas a menção ao visco, embora, indiretamente, possa também relacionar-se a algum folguedo da estação.

Sem citação específica a quem teria lhe beijado, em momento de fim de festa, o poeta, já cansado, foi contemplado gratuitamente pelo afeto de alguém, abreviando o seu aparente estado de carência.

J.A.R. – H.C.

Walter de la Mare
(1873-1956)

Mistletoe

Sitting under the mistletoe
(Pale-green, fairy mistletoe),
One last candle burning low,
All the sleepy dancers gone,
Just one candle burning on,
Shadows lurking everywhere:
Some one came, and kissed me there.

Tired I was; my head would go
Nodding under the mistletoe
(Pale-green, fairy mistletoe),
No footsteps came, no voice, but only,
Just as I sat there, sleepy, lonely,
Stooped in the still and shadowy air
Lips unseen – and kissed me there.

(1913)

Pendurando o Visco
(Dante Gabriel Rossetti: artista inglês)

Visco

Sentado sob o visco
(Verde-pálido, encantador visco),
Uma última vela a arder fracamente,
Todos os sonolentos dançarinos já ausentes,
Somente uma vela acesa,
E as sombras à espreita por toda parte:
Alguém veio, e ali me beijou.

Fatigado estava; minha cabeça como a sustentar-se
Pendente sob o visco
(Verde-pálido, encantador visco),
Não surgiram passos, nem voz, mas apenas,
Enquanto estava ali sentado, sonolento, sozinho,
No calmo ar em penumbra inclinaram-se
Lábios invisíveis – e me beijaram.

Referência:

MARE, Walter de la. Mistletoe. In: __________. Down-Adown-Derry: a book of fairy poems by Walter de la Mare. The world of dream. With illustrations by Dorothy P. Lathrop. South Carolina, US: Juniper Grove, 2007. p. 191-192.

 

domingo, 20 de dezembro de 2015

Emily Dickinson - O Salvador deve ter sido

Revisitando com leveza e sagacidade o tema da Natividade, Dickinson adjetiva Jesus como um “dócil cavalheiro”, que veio ao mundo num dia frio e local distante. A estrada até lá, segundo ela, foi nivelada por muito tempo em razão disso. De outra forma, teria se tornado um percurso com incontáveis milhas acidentadas.
             
Eis aí duas pequenas estrofes: a primeira a descrever o nascimento tão modesto de Jesus em Belém da Judeia; a segunda a ilustrar o fato de ele ter se tornado, desde então, uma referência entre as pessoas comuns do povo.

J.A.R. – H.C.

Emily Dickinson
(1830-1886)

The Savior must have been

The Savior must have been
A docile Gentleman −
To come so far so cold a Day
For little Fellowmen −

The Road to Bethlehem
Since He and I were Boys
Was leveled, but for that ’twould be
A rugged billion Miles –

(1880)

Natividade
(He Qi: pintor chinês)

O Salvador deve ter sido

O Salvador deve ter sido
Um dócil Cavalheiro –
Para vir assim distante num tão frio Dia
Aos seus modestos Semelhantes –

A Estrada para Belém
Desde quando Ele e eu éramos crianças
Foi nivelada, não fosse por isso seria
Um bilhão de acidentadas Milhas –

Referência:

DICKINSON, Emily. The Savior must have been. In: __________. The complete poems of Emily Dickinson. Edited by Thomas H. Johnson. Boston, MA: Little, Brown and Company, 1960. p. 627.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Geraldo Reis - Nenhum Natal

O poeta mineiro Geraldo Reis não evoca Natal algum que seja pleno de rosas e de beleza, senão apenas de espinhos e de desventuras, de abalos; tampouco coisas que lhe sejam próximas, como estrelas ou árias: nesse mundo em desencanto, lamenta a perda da magia do Natal à medida que o tempo passa e todos envelhecemos.

 

Lembra-se ele tão somente de hipotéticas caravelas heroicas a singrar mares que não vão além da estrutura dos armários da casa, de onde emerge a memória do grito suado dos garis, provavelmente vindo da rua: tais imagens, decerto, tencionam firmar um contraste entre a inocência e as ilusões da infância e a dura realidade diária da vida adulta.

 

Apesar das circunstâncias adversas – da ganância à avareza –, a vida e mesmo a beleza perduram, pondo-nos a salvo das ondas de desditas que teimam em obstruir as veredas humanas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Geraldo Reis

(n. 1949)

 

Nenhum Natal

 

Nenhum Natal nas roseiras

Só desejo de espinhos,

Intenções de naufrágio

Pendendo dos galhos.

 

E as rosas todas, embora,

Comidas na antemanhã

Da cobiça e do ouro,

Eis que anoitece, cantamos.

 

E não tem erva daninha,

Estrela, olhos longe, fado

Ama seca, pedra pome, ária

Na expressão desse abalo.

 

Para o menino sonhando caravelas

No mistério de mares embutidos

    e apenas

                   o grito suado dos garis

Brotando da memória dos armários.

 

Dezembro

(Paul Cornoyer: pintor norte-americano)

 

Referência:

 

REIS, Geraldo. Nenhum Natal. In: SAVARY, Olga (Organização, seleção, notas e apresentação). Antologia da nova poesia brasileira. Rio de Janeiro, RJ: Fundação Rio / Hipocampo, 1992. p. 118.

   

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Stella Leonardos - Surdina

Natal é sinônimo de sentir a vida como um pulso começando do zero. Uma experiência mais voltada a abrir o coração do que deslacrar a caixa de presentes. É tempo de tradição, mas também de doação e de perdão. E não importa que idade tenhamos, ele sempre desperta boas recordações e cria novas.

É nesse tom positivo que a poetisa carioca Stella Leonardos vivencia os seus Natais, mesmo que sinta certo desencanto no instante presente, pela ausência de luz em meio aos arranha-céus citadinos, a lhe trazer a impressão de afastamento de suas mais diletas paragens.

J.A.R. – H.C.

Stella Leonardos
(n. 1923)

Surdina

Este Natal retomo a ti, meu sempre
motivo de viver e curtir vida
– tu que à distância tornas o presente
um passado de passos revividos.

Pudesse te dizer que esta vivência
tão eco de Natais inesquecíveis
verdeja no mais verde dos pinheiros
alumbrado de sonhos redivivos.

Estou erma demais. Daqueles verdes
as luzes desertaram, vida minha.
Se me debruço sobre a rua queda

sem nenhum galo ou timbre de sol vivo
os vultos dos arranha-céus silentes
avultam como arcanjos desvividos.

Dezembro no Rio Wye
(Nigel Fletcher: pintor inglês)

Referência:

LEONARDOS, Stella. Surdina. In: CAMPOS, Milton de Godoy (Ed.). Antologia poética da geração de 45. 1ª série. São Paulo, SP: Clube de Poesia, 1966. p. 204.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Diógenes da Cunha Lima - Jesus, um nordestino

Sendo um potiguar, Diógenes da Cunha Linha tem todo o cabedal para fazer uma releitura da história de Jesus a partir de uma perspectiva nordestina, terra que sofre as agruras da seca, deixando muitos de seus filhos em situação de carência absoluta.

Vê-se no poema a reescrita de passagens caras ao Cristianismo, com interessantes paralelos entre os elementos de contingência local e aqueles mencionados na Bíblia, v.g., o referente aos três magos que visitaram o recém-nascido e as três raças que dominaram o povoamento da região: o negro, o índio e o branco português.

J.A.R. – H.C.

Diógenes da Cunha Lima
(n. 1937)

Jesus, um nordestino

Eu penso que Jesus
Devia de nascer em Belém
Na Paraíba, perto de Guarabira
E vizinho a Pirpirituba.
E se não bastasse a vizinhança
A indicar rima e caminho, Nova
Cruz.

Era filho caçula de Dona Maria
Uma mulher dona da beleza
E que germinava bondade nas
pessoas.
Era um menino moreno muito
esperto,
Embalado em rede de algodão
cru.
Tinha sandália com currulepo
entre os dedos
e cajus, em dezembro, a lhe
matar a sede.

O seu pastor fora um vaqueiro
nordestino
De gibão e perneira e
guarda-peito
Pra livrar as suas carnes da
jurema.

E vieram adorar o Deus-menino
Os Santos Reis, entrelaçados de
bom jeito
Um negro, um índio e um
branco português.

Seria fácil encontrar espinhos
para a fronte

Divina coroar, e um caminhão
Que ia por São José do Egito
Pra levar Jesus, o retirante,
Até São Paulo,
Um santo feito para as grandes
secas.

Meu Deus, meu Deus, por que
Nos abandonaste, exclamaria
Enquanto repartia com o povo
nu as suas vestes

Multiplicadas como pães ou
peixes.

Criança, era carpinteiro como seu
pai
Fazendo caixões azuis para os anjos do lugar.
Brincaria de castanha, um
castelo,
Como convém a sua alta
nobreza.

Academia, pulava num pé só
E proezas faria num cavalo de
pau.
O seu jumento era mais magro
certamente.

E nem serviria pra carne de
jabá
Era um menino desnutrido
como os outros

Da região a fazer o bem,
mudar.
Aqui as coisas só vão na base
do milagre

Ou da força parida da vontade.
Eu penso que Jesus
Devia de nascer em Belém
Na Paraíba.

De: “Natal, Poemas e Canções”

Pastor Nordestino
(Alexander Pacheco: pintor carioca)

Referência:


LIMA, Diógenes da Cunha. Jesus, um nordestino. In: ALVES, Henrique L. (Org.). Poetas contemporâneos. São Paulo, SP: Roswitha Kempf Editores, 1985. p. 43-45.