Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Mediações Hedonistas - Parsons e Poe - Muito Prazer em Conhecê-los !

Quando, ainda em 1975, Alan Parsons lançou o compacto de abertura de seu projeto para divulgação do "rock progressivo" - o denominado Alan Parsons Project -, jamais imaginaria que poderia criar um disco à altura da fama que lhe sobreveio por haver também produzido uma das mais inesquecíveis obras do grupo Pink Floyd, qual seja, The Dark Side of the Moon.

Referimo-nos a Tales of Mystery and Imagination, com letras e músicas livremente concebidas à luz dos contos de horror e de suspense de Allan Poe, que se mantém como um meritório contributo à memória do autor americano.

Percebe-se, já na própria apresentação da faixa inicial A Dream a Within a Dream, a pretensão de transformar em música certas "fantasias delicadas" que, por não constituírem pensamentos, são irredutíveis aos signos linguísticos, como se fossem, mesmo num plano de realidade, um sonho imbricado em outro sonho.



Outras duas faixas fazem referência direta a dois dos mais famosos contos de Poe - The Raven (O Corvo) e The Cash of Amontillado (O Barril de Amontilado) -, estando muito bem adaptadas às letras imaginosas, como a provar que literatura e música podem muito bem combinar-se para aumentar a estatura do prazer usufruível, por intermédio do incremento gestáltico de nossas experiências sinestésicas, experiências essas que, de outro modo, permaneceriam "estanques" ao que pudéssemos extrair, de cada vez, aos nossos "olhos ou ouvidos atentos".

Pena mesmo é que os sentidos do olfato e do paladar não tenham se juntado mais prontamente ao acervo cada vez mais sincrético das artes, ainda que, marginalmente, aqui ou ali, apareçam obras que os combinem maravilhosamente bem, para colocá-los em evidência.

A conjugar visão e audição, para produzir estímulos gustativos poderosos, mencionaria o filme A Festa de Babette, de Gabriel Axel (1987). Quanto ao impacto - positivo ou negativo - do olfato, quem poderia se esquecer de O Perfume, de Tom Tykwer (2006), com roteiro adaptado ao livro homônimo do escritor alemão Patrick Süskind, publicado em 1985 ?!

(JAR/HC)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Stanley Kubrick - De Olhos Bem Fechados

Outro filme a que assisti, no breve interregno que marcou o recesso do final de 2009, foi "De Olhos Bem Fechados" (Eyes Wide Shut, 1999), o último longa de Stanley Kubrick.

Trata-se de uma adaptação livre do romance "Breve Romance de Sonho" (Die Traumnovelle, 1926), do escritor austríaco Arthur Schnitzler, a quem Sigmund Freud denomina como sendo o seu "duplo", tanto é o paralelo entre ambos na busca de compreender - ou seria explicar ? - o inconsciente e as profundezas da alma humana.

A trama, centrada no relacionamento de um casal em crise - embora bem aquinhoado, seja pelos atributos físicos seja pelos dotes materiais, afinal, os atores são nada menos que Tom Cruise e Nicole Kidman -, transita por desejos e apelos sensuais reprimidos ou mal-resolvidos, misteriosas bacanais e vaticínios mortais.

A firme direção de Kubrick permitiu um alongamento algo desproporcional do roteiro frente ao próprio texto em que se inspirou, afirme-se, mais próximo da novela que do romance, no sentido lato do termo. Mas nada que deixe o espectador transido pelo tédio, pois a linguagem cinematográfica, apesar de suas limitações, fomenta, com mais propriedade, o voluptuoso despertar dos sentidos, tanto maior quando derivado de pulsões sexuais explicitamente filtradas pelo enredo.

Sob o "pecado" da pornografia, a história do autor austríaco foi por demais censurada na Viena ainda puritana da primeira metade do Século XX. Quanto à adaptação de Kubrick, a despeito das imagens impactantes, certamente não há escândalos que a película possa provocar em nossa sociedade sem contenções morais, sendo apenas mais uma no conjunto da obra do autor americano, permeada de polêmicas e controvérsias, pelo que bastam as menções de "A Laranja Mecânica" e de "Lolita", dois outros filmes também adaptados de renomados romances.

Ler os livros a que me referi ou ver os filmes de Kubrick são ganhos imperdíveis.

(JAR/HC)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Torcidas dos Principais Clubes Nacionais

O Datafolha divulgou, recentemente, o resultado de mais uma pesquisa sobre as preferências clubísticas dos torcedores pátrios. A princípio, cumpre informar que o resultado está atrelado ao universo de torcedores com dezesseis (16) anos ou mais - como se não houve fãs do futebol com idade menor a essa ! -, atribuindo-se margem de erro, em relação aos números assim obtidos, de apenas 2%.

Foram entrevistados 11.258 torcedores na mencionada faixa etária, entre os dias 14 e 18/12/09, acarretando a obtenção dos seguintes percentuais, por renda e por nível de instrução:





Sublinhe-se, de início, que os números sob a cor azul foram obtidos a partir do total de torcedores entrevistados, classificados em cada faixa de renda ou grau de instrução, conforme se pode consultar no endereço eletrônico do próprio Datafolha, indicado ao final desta postagem.

Verifica-se, no que tange à distribuição associada à renda familiar, que os resultados alcançados, de certa forma, refletem a concentração de renda no seio da própria sociedada brasileira. Números do último PNAD (2008) evidenciam que 59,7% da população do país encontra-se na classe "E", vale dizer, exatamente aquela que aufere renda de até dois (2) salários mínimos. Eis a razão pela qual o Brasil apresenta um dos piores coeficientes de Gini do mundo - 0,544 (valor de 2008, divulgado em 2009) -, sendo que o valor 1,0 representaria concentração absoluta de renda.

De todo modo, o que se revela pelas tabelas acima ratifica o que foi amplamente noticiado pelo "Estadão" (vide endereço eletrônico nas referências), segundo o qual a torcida do Flamengo pertenceria, majoritariamente às classes de renda "D" e "E", à luz de pesquisa empreendida pela firma Crowe Horwath RCS. Com efeito, 45% da torcida rubronegra detém renda de até dois salários mínimos - e nenhum outro clube brasileiro de expressão possui, individualmente, percentual maior. No quesito "nível de instrução", o percentual não é menos expressivo, ou seja, 44% com escolaridade fundamental - embora haja quem o possua maior -, no caso o Internacional (51%) e o Vasco da Gama (45%).

Os números falam por si mesmos, o que não significa que não sejam passíveis de rearranjos, especulações  ou críticas, haja vista que percentuais obtidos por alguns clubes ficam integralmente cobertos pela própria margem de erro da pesquisa, do que decorre ser contraproducente quaisquer inferências mais contundentes.

Outras conclusões que podem ser extraídas da pesquisa do Datafolha:
(i) o Flamengo é o time com maior torcida no universo pesquisado (19%), seguido pelo Corinthians (13%);
(ii) nas regiões Sudeste e Sul, entretanto, o Corinthians tem maior preferência que o clube carioca (19% a 15% no Sudeste; 10% a 7% no Sul);
(iii) Flamengo e Corinthians têm universo de fãs quase nulo em Porto Alegre (RS), onde Internacional (43%) e Grêmio (47%) dominam, seguidos pelos entrevistados que responderam não possuir atração por clube algum (8%);
(iv) Belo Horizonte é outra cidade em que a influência dos times de São Paulo e do Rio de Janeiro mostra-se menos acentuada, pois Cruzeiro (43%), Atlético-MG (30%) ou nenhum clube (19%) configuram a maioria das menções entre os pesquisados; e
(v) clubes paulistas têm baixa preferência na cidade do Rio de Janeiro e vice-versa, como era de se esperar.

(JAR/HC)

Referências:

Datafolha:
http://datafolha.folha.uol.com.br/po/tabelas.php?Tab_relatorio=936

Estadão:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091227/not_imp487321,0.php

O Globo:
http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Times/Flamengo/0,,MUL1434675-9865,00-TORCIDAS+FLA+LIDERA+TAMBEM+RANKING+DE+ESCOLARIDADE+E+RENDA+FAMILIAR.html

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Filme: Amantes ("Two Lovers" - EUA - 2008)

Ao assistir o filme "Amantes" de James Gray, ao final de 2009, fiquei com a sensação de haver presenciado reprises de alguns pontos já desenvolvidos por outros diretores, seja no melhor seja no pior do que se poderia reproduzir em termos cinematográficos.



A historinha de personagens que sofreram um trauma juvenil ou baque amoroso, sentimental ou de outra ordem é tão recorrente no cinema americano que o flerte destes com a morte, via tentativa de suicídio, já não causa qualquer sensação de espasmo no espectador mais experiente. Relembre-se, por exemplo, o papel interpretado por Timothy Hutton em "Gente como a Gente", filme ganhador do Oscar em 1981, dirigido por Robert Redford, a partir de roteiro adaptado ao livro "Ordinary People", de Judith Guest. Poder-se-ia, nesse caso, parodiar a chamada constante no cartaz de "Amantes": o melhor drama americano do ano ...



As alternâncias afetivas de Leonard (Joaquin Phoenix), ora com Michelle Rausch (Gwyneth Paltrow) ora com Sandra Cohen (Vinessa Shaw), tem tantas reviravoltas quantas as necessárias para levar o filme ao decurso de tempo requerido para fazer crer a quem o assiste de que Leonard terminará com Michelle. Mas não: terminará mesmo é com Sandra. Resenhando: duas mulheres em disputa por um homem indefinido e problemático, espécie eloquente de herói picaresco menor !

Paralelos ? Preferível a adaptação primorosa de Luchino Visconti para "Noites Brancas", do texto homônimo de Dostoiévski, com inversão no diferencial em disputa: dois homens - um dos quais nada menos que Marcelo Mastroianni - por uma mesma dama. E Mastroianni não levará a melhor, como se poderia supor a princípio.



Por conseguinte, não consegui inferir as razões pelas quais os críticos têm cotado a película em questão com quatro estrelas. Somente eles poderão dizê-lo ! Quanto a mim, no estoque considerável de filmes presenciados, apenas mais um !

(JAR/HC)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O Flâneur - Um Passeio pelos Paradoxos de Paris (Edmund White)

WHITE, Edmund. O Flâneur: Um passeio pelos Paradoxos de Paris. Tradução de Reinaldo Moraes. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.



Talvez, falar de Paris, hoje, já seja meio redundante, ainda que muitas sejam as belezas da capital francesa. Mas nunca é demais procurar enxergar o mundo sob ópticas inusitadas, como se buscássemos elucidar a quadratura do círculo.

Com o conhecimento de quem "flanou" bastante por Paris, uma vez que lá viveu por mais de uma década, White perscruta o universo às margens do Sena, fazendo sobressair em sua prosa um perfil meio "outside" da cidade, como o atrelado à cultura "gay", da qual não se escusa em dizer que toma parte.

Como o aclamado autor de "Um Jovem Americano" e do mais recente "O Homem Casado" - a descrever, neste último, as agruras de um relacionamento homossexual que resulta em contaminação virótica pela Aids e, por via de consequência, na morte nada venturosa de um dos amantes, no distante Marrocos -, não se poderá duvidar da capacidade de o autor americano descrever com fidedignidade desde o histórico por vezes bizarro de suas figuras históricas, de reis a artistas, como Luís XIV e Colette, até a influência cultural da cidade que, em meados da primeira metade do século XX, encontrava-se em seu esplendor, persistindo, desde então, no ideário da humanidade ou, como se diz mais hodiernamente, em nosso inconsciente coletivo.

Obviamente que o livro se presta a uma viagem introdutória pelos renomados recantos do universo parisiense. Por isso, o próprio White não ousa subtrair as necessárias referências ao leitor, quando, ao final de seu opúsculo, menciona obras que são mais contundentes e definitivas em sua pretensão de bem retratar o paraíso idílico parisiense.

Refiro-me, por exemplo, "À Procura dos Tempos Perdidos", de Marcel Proust, trabalho que, em seus sete volumes, contempla todo o universo das mediações gaulesas, constando, por isso mesmo, entre as cem obras referenciais da literatura universal, em seleção de renomados autores em Oslo, a capital do Prêmio Nobel.

(JAR/HC)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Último Dia de Trabalho em 2009

Hoje é meu último dia de trabalho em 2009. E como dificilmente terei tempo para acessar a internet até o começo do próximo ano, deixo aqui o meu abraço fraterno para todo(a)s o(a)s internautas que navegaram por este blog.

Desejo um grande Natal para todo(a)s e um Ano Novo que seja merecedor do termo "Novo", no sentido de que "renovemos a face da terra". Obviamente, para melhor, pois sou da turma do bem !

Retorno ao batente no dia 7/1/2010.


Noções
(Cecília Meireles)

Entre mim e mim, há vastidões bastantes para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.

Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza, só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a.

Minha virtude era esta errância por mares contraditórios, e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma: qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário, como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera ...

>>ooo-ooo<<

Deixo aqui um "link" que apresenta passagens de um terno filme de Frank Capra, a contemplar a magia do Natal: It's A Wonderful Life (A Felicidade Não se Compra), de 1946. Nenhum outro filme marcou minha juventude de modo mais indelével e inesquecível ...


(JAR/HC)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Ranking CBF do Futebol Nacional 2009

A CBF acabou de veicular, em seu "site", o ranking do futebol brasileiro ao final de 2009, o qual, como já dissemos na postagem imediatamente anterior, agrega pontuações da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro, segundo os critérios ali declinados. O rol com os 20 (vinte) primeiros colocados é o seguinte:


Segregando-se os dados acima, pela composição de cada uma das competições mencionadas, tem-se:



Nota-se, de plano, que, para subir em tal ranking, é preferível você participar da Copa do Brasil que da Libertadores, tendo em conta que esta última não conta para ele. Mas como a presença em ambos os eventos diz respeito a possibilidades mutuamente excludentes, deixará de ganhar pontos quem tão-somente disputar o mais importante torneio sul-americano.

Conclusão: o ranking da CBF é tão absurdo, que obviamente não pode ser levado a sério. Vejam também por onde anda o Cruzeiro, tetracampeão da Copa do Brasil, no quadro acima. Afora outras "bolas fora", além das já apresentadas por este comentador na postagem anterior !

Por exemplo: você concorda, leitor, que o São Paulo, campeão brasileiro em 2006, e fora da disputa pela Copa do Brasil daquele ano por encontrar-se na Libertadores, tenha agregado 60 pontos ao supramencionado ranking da CBF, e o Vasco da Gama, vice-campeão da Copa do Brasil e 6º lugar no Brasileiro naquele mesmo ano, haja agregado 75 (20 + 55) pontos ?!

Sinceramente, nem a mais sã racionalidade matemática, nem o mais "apurado" espírito esotérico (rs) poderão me convencer de tamanha sandice!

Daí porque a coisa menos errada seria apresentar os rankings dos dois certames separadamente, como os dispomos aqui. O leitor-torcedor que conclua por si!

(JAR/HC)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ranking CBF para o Campeonato Brasileiro

I. Informações Importantes
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A CBF veicula, ao final de cada ano, o seu ranking, que é elaborado para o Futebol Brasileiro Nacional, a envolver apenas duas competições: o Campeonato Brasileiro, disputado desde 1971, e a Copa do Brasil, levada a efeito desde 1989.

Os critérios por ela adotados podem ser obtidos em seu "site" (http://www.cbf.com.br/ranking/criterios.pdf) e são os seguintes:



Muito já se falou sobre tais critérios: a principal objeção é que eles misturam competições cuja participação dos clubes não é uniforme nos dois certames, senão que penaliza quem não participa da Copa do Brasil, e que, de outro modo, por tomar parte em certames muito mais importantes - como a Copa Libertadores -, acaba, ao fim, ficando para trás. Tal é o caso do São Paulo, que em 2010 participará de sua 7ª (sétima) Libertadores consecutiva e, por estipulação da própria CBF (ou da Conmebol), não vem disputando a mencionada Copa do Brasil.

II. Rankings do Camp. Brasileiro (Atualizados ao Fim de 2009)
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A fim de contornar as limitações do ranking da CBF, apontadas no parágrafo precedente, implementamos a atualização do ranking apenas para o Campeonato Brasileiro, já a considerar o resultado do Brasileirão 2009, à luz do mesmo critério de pontuação adotado pela confederação pátria:




Tudo o mais constante e adotando apenas os campeonatos de pontos corridos, disputados entre 2003 e 2009, o mesmo ranking ficaria assim:



Finalmente, apresentamos abaixo um outro quadro, a conter o aproveitamento de todos os times que chegaram entre os quatro primeiros na Série A, ao longo dos referidos campeonatos de pontos corridos:



Coincidentemente ou não, observa-se uma certa ordem de classificação neste último quadro, pelo menos entre os primeiros colocados, mais perto daquela apresentada no primeiro quadro (Brasileirão 1971-2009), desta mesma seção II, do que no segundo (Brasileirão 2003-2009).

Alguém ousaria explicar o porquê ?

(JAR/HC)

Outra fonte consultada:
http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Futebol/Brasileirao/Serie_A/0,,MUL918468-9827,00.html

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A Beleza Pungente da Música de Chopin: Mozart como Contraponto

Chopin, o grande compositor e pianista polônes, pode não ter sido o inventor do noturno - proeza associada ao nome do irlandês John Field -, mas conferiu a essa forma de composição tanta expressividade, que basta escutar apenas um deles para perceber o quanto a modulação meio melancólica das melodias são impressivas o suficiente, de modo a atingir o emocional dos ouvintes, sem quaisquer pieguices. Um dos noturnos que mais admiro é este: Noturno em E menor (Op. 72, nº 1).

Observa-se em Chopin uma forma intimista e quase inusitada de tocar ao piano, muito distinta da de outros grandes compositores. Mozart, por exemplo, compôs miríades de sonatas, além de quase três dezenas de concertos para esse instrumento. Entretanto, há muito mais rendilhado nas obras do austríaco, excesso que parece haver sido moderado em seus últimos trabalhos.


(Mozart à esquerda - Chopin à direita)

Sabe-se que Mozart tornou-se maçon, motivo por que muitos analistas veem a sua ópera "A Flauta Mágica" como um manancial de referências à Ordem. Com efeito, sem pretender defender tese, mas deduzindo apenas pela audição de muitas de suas composições, ousaria afirmar que as obras, coincidentemente ou não, posteriores ao seu ingresso na Maçonaria parecem mais sóbrias (ou seria apenas o reflexo de um autor em plena maturidade, sem as redundâncias juvenis ?).

Deixo aqui um outro "link", para os leitores apreciarem a abertura da ópera "Don Giovanni" - a "Ópera das Óperas" -, sob a regência do incensado maestro Hebert von Karajan:


(JAR/HC)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Brasileirão 2009 - Considerações Finais

I. INFORMAÇÕES GERAIS
Findo mais um Campeonato Brasileiro de futebol profissional, com o Flamengo do Rio de Janeiro sagrando-se campeão - diga-se extraoficialmente "hexacampeão" para alguns, oficialmente "pentacampeão" para outros, neste último caso em atenção à decisão judicial transitada em julgado relativamente ao título de 1987, atribuído ao Sport-PE -, sumariamos, a seguir, alguns pontos que julgamos importantes:
(i) o campeão Flamengo não foi nem o time com o melhor ataque (Grêmio - 1º - 67 gols / Flamengo - 6º - 58 gols), nem o de melhor defesa (São Paulo - 1º - 42 gols / Flamengo - 2º - 44 gols);
(ii) Grêmio e Internacional apuraram o melhor saldo de gols, ou seja, 21, sendo que o Colorado terminou em 2º e o Tricolor em 8º;
(iii) Flamengo e Internacional obtiveram o maior número de vitórias, 19 ao todo;
(iv) Flamengo e São Paulo foram os times com menor número de derrotas, 9 ao todo;
(v) o Flamengo tornou-se o campeão com o menor aproveitamento na época dos pontos corridos, vale dizer, 58,77%.;
(vi) considerando as dez últimas rodadas, o Flamengo teve o melhor aproveitamento, com 8 vitórias, 1 empate e 1 derrota (25 pontos), seguido pelo Fluminense, que nesse mesmo período permaneceu invicto, com 7 vitórias e 3 empates (24 pontos);
(vii) o Cruzeiro foi o melhor visitante, com 56,14% de aproveitamento (32 pontos), enquanto o Grêmio foi o de melhor desempenho em casa, com 82,46% (47 pontos); e
(viii) Palmeiras e Internacional apresentaram o melhor aproveitamento no turno, com 64,91% (37 pontos), enquanto Flamengo e Cruzeiro sobressaíram no returno, com 70,18% (40 pontos).

II. VALE A PENA TER UMA BOA ESTRUTURA
O quadro apresentado abaixo sintetiza o rol de todos os times que ficaram entre o 1º e o 4º lugares, ao longo de todos os campeonatos brasileiros, desde 1971 até 2009:



Por meio dele se observa um dado importante: São Paulo e Internacional, reconhecidamente os clubes com melhores estruturas do futebol brasileiro, posicionam-se, respectivamente, em primeiro e segundo lugares, seguidos por outros times que, de mesmo modo, também possuem estruturas consistentes, embora não comparáveis, num primeiro plano, às daqueles.
Consigne-se, por exemplo, que o São Paulo, em 2010, participará de sua 7ª Copa Libertadores consecutiva, fato inédito na história dos grandes clubes pátrios. Tal fato não poderia ser também atribuível à sua estrutura ?
Apresentando-se os mesmos dados anteriores, dispostos agora pelas Unidades da Federação, o que resulta é o seguinte:



Ou seja: uma supremacia dos times do Estado de São Paulo, com números totais que quase alçam ao dobro dos do Rio de Janeiro, os deste mais próximos dos do Rio Grande Sul e de Minas Gerais.

III. PELA MANUNTENÇÃO DA FORMA DE PONTOS CORRIDOS
Por fim, propugnamos pela manutenção da atual forma de pontos corridos para o Campeonato Brasileiro, pois ela reforça a necessidade de que os clubes se estruturem melhor, uma vez que se trata de certame longo e difícil, a exigir mais do que simples preparação circunstancial como as requeridas para torneios, como a Copa do Brasil, esta sim uma disputa que pode bem permanecer como está.
Muito já se disse que a forma de pontos corridos leva a um trânsito interminável de "malas" voando sobre o território do país, mas ponderemos que há uma falácia incontornável nos argumentos de que quem defende o contrário, senão vejamos: (1) para se fazer que um terceiro vença adversários diretos contra quem se luta, há de se abrir a denominada "mala branca" capaz de favorecer uma equipe inteira, coisa que, convenhamos, não é tão fácil assim, ainda mais com a estrutura deficitária de muitos dos clubes que participam do torneio; (2) de modo similar, caso se queira que o time contendor "amoleça" o jogo, a "mala negra" há de corromper alguns jogadores, como o o goleiro ou alguns zagueiros; (3) entretanto, se a regra é o mata-mata, basta se corromper apenas um partícipe do jogo, nada menos que o árbitro ! E então, pergunta-se, o que seria menos difícil ou oneroso e, portanto, mais fácil de ser levado avante: corromper um, corromper alguns ou estimular muitos ?
Alguns poderiam argumentar que os clubes com mais recursos disponíveis poderiam lançar mão das malas, com certa frequência, para favorecer-lhes no sistema de pontos corridos, em detrimento dos demais, os quais ficariam limitados em suas pretensões, em razão da escassez de seus recursos. Ora, ora: o negócio então seria "democratizar" a desfaçatez, com o sistema de mata-mata, estando praticamente todos ao alcance de manipular o resultado pela "compra" de um certo senhor juiz ! E então às favas o comportamento ético no esporte !
Claro está que não defendo, em absoluto, que tais fatos devam acontecer naturalmente, como se fosse um "produto" a ser obtido num mercado concorrencial de "demanda x oferta". Mas, de fato, a história de nosso futebol é farta de exemplos a demonstrar que "forças ocultas" - não digo "esotéricas" (rs) ! - sempre estiveram à ronda pela defesa dos interesses de quem ousou nelas apostar !
Para se pensar ...
Um grande abraço.
(JAR/HC)