Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 3 de agosto de 2014

Pangur Bán: Monge Irlandês Anônimo

Pangur Bán, um belo poema escrito por um monge, por volta do século VIII ou IX da era cristã, originalmente em irlandês antigo, à margem de sua cópia das Epístolas de São Paulo, foi encontrado próximo à abadia de Reichenau (Carinthia - Áustria).

Associa o seu autor, certamente um estudioso monástico, as atividades de seu gato – Pangur Bán, que significa “mais branco do que branco” –, quando vai à caça de camundongos, às suas próprias atividades como copista.

Entre as mais famosas traduções para o inglês moderno, está a do poeta Robin Flower (1881-1946), que abaixo transcrevemos, juntamente a uma versão em português, cujo autor, Ivan Justen Santana, esmerou-se em manter a estrutura de rimas da tradução de Flower.

Para um poema com mais de um milênio de existência, pode-se avaliar o longo transcurso de tempo no qual os felinos têm passado pelo aprendizado de conviver com os humanos, educando-se e/ou replicando, de algum modo, o nosso comportamento. E vice-versa: pela enorme quantidade de obras voltadas a apresentar ao público, leigo ou não sobre o assunto, todo o conhecimento que já se tem sobre os bichanos, suas raças, hábitos etc., hoje, como nunca, persistem eles como destinatários de nossa mais apurada afeição.

J.A.R. – H.C. 
Casper
Vicki Paull (Cambrige – UK)

The Scholar and his Cat Pangur Bán
(Robin Flower)

I and Pangur Bán my cat,
'Tis a like task we are at:
Hunting mice is his delight,
Hunting words I sit all night.

Better far than praise of men
'Tis to sit with book and pen;
Pangur bears me no ill-will,
He too plies his simple skill.

'Tis a merry task to see
At our tasks how glad are we,
When at home we sit and find
Entertainment to our mind.

Oftentimes a mouse will stray
In the hero Pangur's way;
Oftentimes my keen thought set
Takes a meaning in its net.

'Gainst the wall he sets his eye
Full and fierce and sharp and sly;
'Gainst the wall of knowledge I
All my little wisdom try.

When a mouse darts from its den,
O how glad is Pangur then!
O what gladness do I prove
When I solve the doubts I love!

So in peace our task we ply,
Pangur Bán, my cat, and I;
In our arts we find our bliss,
I have mine and he has his.

Practice every day has made
Pangur perfect in his trade;
I get wisdom day and night
Turning darkness into light. 



O Estudioso e o seu Gato Pangur Bán
(Robin Flower)

Eu e meu felino Pangur Bán,
Eis nossa filosofia vã:
Caçar ratinhos é seu deleite,
Caçando letras eu passo a noite.

Muito melhor que aplauso mortal
É estar aqui com livro e penal;
Pangur concorda que a escolha é boa:
Na caça também se aperfeiçoa.

Dá gosto ver a paixão feroz
Que dedicamos, os dois a sós,
Quando nos pomos alegremente
A contentar nosso corpo e mente.

Frequentemente um ratinho sói
Passar em frente a Pangur, o herói;
Frequentemente meu pensamento
Captura a ideia de um argumento.

Colado à parede, o gato vê
Com raro olho vivo, agudo em V;
Colado à parede do saber,
A percepção eu tento estender.

Quando um ratinho surge da fresta
Ah, que alegria Pangur infesta!
Mesma alegria infesta meu eu
Se alguma questão se resolveu!

Assim, tranquilos, em santa paz,
Eu e Pangur, meu felino audaz,
Fruímos nossa iluminação,
Eu, no silêncio; ele, na ação.

A prática diária do exercício
Fez Pangur perfeito em seu ofício;
E, noite e dia, o saber me aduz
A transformar as trevas em luz.

Referência:

FLOWER, Robin. The scholar and his cat Pangur Bán. In: MURPHY, Maureen O’Rourke; MACKILLOP, James. Irish literature: a reader. 7. ed. New York: Syracuse University Press, 2000. (Irish Studies). p. 22-23.
ö

Nenhum comentário:

Postar um comentário