Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Metapoética em Quintana

Não conheço outro autor que tenha escrito ou dito tantas coisas relativas ao próprio ofício da poesia quanto o gaúcho Mario Quintana. Há prodigalidade e inspiração em seus ‘insights’, originários de um espírito que planou nas instâncias do retraimento.

Para ilustrar, coligi inúmeras passagens contidas na recolha “Poesia Completa”, editada pela Nova Aguilar. Algumas são no formato de poemas, outras como máximas, outras ainda se parecem com ditirambos. E para atingir as alturas do Parnaso, nos moldes replicados por Nietzsche nas elucubrações de Zaratustra, “só louco, só poeta”.

E como Quintana não tangenciou a loucura absoluta – embora, de louco, como se diz, todos temos um pouco! –, restou a rubrica do poeta. E que poeta! E não se conhecem os motivos pelos quais não lhe conferiram o mérito de pertencer à Academia Brasileira de Letras. Aliás, tal qual Drummond! É possível entender ou aceitar essas desditas?!

J.A.R. – H.C. 
Mario Quintana
(1906-1994)
O POEMA
Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
(QUINTANA, 2006, p. 197)
ALMA & FORMA
Dizes que a beleza não é nada? Imagina um hipopótamo com alma de anjo... Sim, ele poderá convencer alguém da sua angelitude – mas que trabalheira!
(QUINTANA, 2006, p. 276)
RESSALVA
Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco por aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.
(QUINTANA, 2006, p. 279)
POESIA & MAGIA
A beleza de um verso não está no que diz, mas no poder encantatório das palavras que diz: um verso é uma fórmula mágica.
(QUINTANA, 2006, p. 281)
ÉPOCA
Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí...
Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!
(QUINTANA, 2006, p. 288)
A TRISTE BELEZA
Esse verso de pé-quebrado que atravessa a página de um lado a outro, como um pobre cachorro estropiado...
(QUINTANA, 2006, p. 352)
ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO
Ah! Os versos das línguas pouco lidas como a nossa – pouco lidas por nós mesmos e desconhecidas pelo resto do mundo...
Sua incomunicabilidade os torna de uma beleza única e irreparável.
Quando descubro um belo verso nosso, sempre me dá vontade de chorar, porque é escrito em português.
(QUINTANA, 2006, p. 353)
DA RELATIVA INSPIRAÇÃO
Inspiração? Sim... Mas convém não esquecer que a poesia, como todo verdadeiro jogo, é uma luta da astúcia contra o acaso.
(QUINTANA, 2006, p. 369)
CUIDADO!
A poesia não se entrega a quem a define.
(QUINTANA, 2006, p. 375)
SEM TÍTULO
Quem disse que a poesia é apenas
agreste avena?
A poesia é a eterna Tomada da Bastilha
o eterno quebra-quebra
o enforcar de Judas, executivos e catedráticos em todas as esquinas
e,
a um ruflar poderoso de asas,
entre cortinas incendiadas
os Anjos do Senhor estuprando as mais belas filhas dos mortais...
Deles, nascem os poetas.
Não todos... Os legítimos
espúrios:
um Rimbaud, um Poe, um Cruz e Souza...
(Rege-os, misteriosamente, o décimo terceiro signo do Zodíaco.)
(QUINTANA, 2006, p. 485-486)
2005
Com a decadência da arte da leitura, daqui a 30 anos os nossos romancistas serão reeditados exclusivamente em histórias de quadrinhos... A grande consolação é que jamais poderão fazer uma coisa dessas com os poetas. A poesia é irredutível.
(QUINTANA, 2006, p. 511)
O MENINO E O MILAGRE
O primeiro verso que um poeta faz é sempre o mais belo porque toda a poesia do mundo está em ser aquele o seu primeiro verso...
(QUINTANA, 2006, p. 524)
POESIA E EMOÇÃO
O palavrão é a mais espontânea forma da poesia. Brota do fundo d'alma e maravilhosamente ritmada. Se isto indigna o leitor e ele solta sem querer uma daquelas, veja o belo verso que lhe saiu, com as características do próprio: ritmo e emoção sem o que, meu caro senhor, não há Poesia. Escute, não perca discussão de rua, especialmente entre comadres italianas, e se verá então em plena poesia dramática de empalidecer de inveja o maravilhoso e refinado Racine, mas não o bárbaro Shakespeare, igualmente maravilhoso, embora destrambelhado de boca. Por isso é que não nos toca a poesia feita a frio, de fora para dentro, mas a que nos surge do coração como um grito, seja de amor, de dor, de ódio, espanto ou encantamento.
(QUINTANA, 2006, p. 525)
DE UMA ENTREVISTA PARA O BOLETIM DO INBA
Não pretendo que a poesia seja um antídoto para a tecnocracia atual. Mas sim um alívio. Como quem se livra de vez em quando de um sapato apertado e passeia descalço sobre a relva, ficando assim mais próximo da natureza, mas por dentro da vida. Porque as máquinas um dia viram sucata. A poesia, nunca.
(QUINTANA, 2006, p. 527)
A POESIA É NECESSÁRIA
Título de uma antiga seção do velho Braga na Manchete. Pois eu vou mais longe ainda do que ele. Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus. É preferível, para a alma humana, fazer maus versos a não fazer nenhum. O exercício da arte poética é sempre um esforço de autossuperação e, assim, o refinamento do estilo acaba trazendo a melhoria da alma.
E, mesmo para os simples leitores de poemas, que são todos eles uns poetas inéditos, a poesia é a única novidade possível. Pois tudo já está nas enciclopédias, que só repetem estupidamente, como robôs, o que lhes foi incutido. Ou embutido. Ah, mas um poema, um poema é outra coisa...
(QUINTANA, 2006, p. 564)
NOTAS DE UM LEITOR (I)
Os versos de Jorge Luis Borges são premeditados, implacavelmente lógicos. A sua prosa tem mais mistérios, isto é, mais poesia.
(QUINTANA, 2006, p. 641)
MISTÉRIOS
Um dos espantosos mistérios da poesia é que uma coisa só parece ela própria quando comparada a outra coisa.
(QUINTANA, 2006, p. 676)
LEITURAS
Não leia romances, leia poesias. Ou melhor, leia dicionários. Se poesia é sugestão – semente que germina e floresce na alma do leitor – vá lendo ao acaso um dicionário e nem pode imaginar o que lhe acontece. Ler um dicionário é até mais variado, poético e inspirativo do que olhar uma vitrine de bric.
(QUINTANA, 2006, p. 681)
POESIA PURA
A poesia pura? Coisa tão impossível como a imaginação pura. Ambas se compõem de resíduos, detritos, restos de maré vazante...
Mas sabe lá o que pode um mágico extrair daí! E a imponente, luzente cartola desses prestidigitadores de palco é apenas um pobre símbolo da maravilhosa lata de lixo dos Grandes e Verdadeiros Magos.
(QUINTANA, 2006, p. 681)
LIBERDADE
O preço da poesia é a eterna liberdade... E aderir a determinada escola poética é o mesmo que internar-se, Voluntariamente, num asilo de incuráveis.
(QUINTANA, 2006, p. 704)
POESIA
Impossível qualquer explicação: ou a gente aceita à primeira vista, ou não aceitará nunca: a poesia é o mistério evidente. Ela é óbvia, mas não é chata como um axioma. E, embora evidente, traz sempre um imprevisível, uma surpresa, um descobrimento.
(QUINTANA, 2006, p. 812)
A DIFERENÇA
A diferença entre um poeta e um louco é que o poeta sabe que é louco... Porque a poesia é uma loucura lúcida.
(QUINTANA, 2006, p. 828)
A PEDRA E O GRITO
Há cerca de mais de cinquenta anos foi para nos uma lição de poesia aquele poema da pedra no meio do caminho. Pelo seu despojamento. Pela Sua expressividade. Por si mesmo, sem mais explicações.
Ah! era um encanto e um gozo, na verdade vos digo, primeiro pela indiferença a todos os cânones e depois pela cara com que ficavam os canônicos.
Nem foi por outro motivo que eu disse, em resposta a inquérito, que aquela pedra foi um marco histórico na poesia brasileira. Desde então, Como depois da bomba atômica, nunca mais fomos os mesmos.
(QUINTANA, 2006, p. 829)
O IMAGISTA
Arte participante? Nem a dos cartazes! A beleza de um cartaz independe do que anuncia. A vida não passa de um livro de figuras, para o verdadeiro artista.
E até na poesia (que muitos julgam apenas um desfrute sentimental e outros um jogo do intelecto), até na poesia, se lhe tiram as imagens – que é que sobra? Não sobra nem a alma!
(QUINTANA, 2006, p. 807)
ORAÇÃO
Dai-me a alegria
Do poema de cada dia.
E que ao longo do caminho
As almas eu distribua
Minha porção de poesia
Sem que ela diminua...
Poesia tanta e tão minha
Que por uma eucaristia
Possa eu fazê-la sua
“Eis minha carne e meu sangue!”
A minha carne e meu sangue
Em toda a ardente impureza
Deste humano coração...
Mas, ó Coração Divino,
Deixai-me dar de meu vinho,
Deixai-me dar de meu pão!
Que mal faz uma canção?
Basta que tenha beleza...
(QUINTANA, 2006, p. 889)
Referência:

QUINTANA, Mario. Poesia completa. Primeira Reimpressão da Primeira Edição. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006. (Biblioteca Luso-Brasileira; Série Brasileira)

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