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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Boris Pasternak - Definição de Poesia

Desde que comecei a investigar, há algumas semanas, a definição que teóricos, poetas e escritores nos fornecem para o que seja a poesia, já encontrei muitas que me deixaram literalmente desconcertado, porque fogem ao parâmetro mediano do que se espera para a caracterização dessa, digamos assim, substância presente nos escritos com potencial para serem qualificados como efetivamente literários.

Há, como previa, uma proteica massa de definições caracteristicamente metapoéticas, a lançar mão dos recursos estéticos da escrita para expressar, num texto vezes sem conta vazado por conotações idiossincráticas, todo o sentimento que o autor é capaz de traduzir em palavras por estar neste mundo e ser um com seus pares.

Mas há também definições que, mesmo também grávidas de poesia, nem por superinterpretações ou assunções metafóricas tangenciam os elementos com que habitualmente nos deparamos ao compulsar os tratados de teoria literária.

Como exemplo, trago um poema de Boris Pasternak, com o exato título de “Definição de Poesia”, para que os leitores possam compreender aquilo que procuro exprimir no parágrafo precedente.

Informe-se que o russo Boris Pasternak é também o autor do famoso romance “Doutor Jivago”, de 1958, levado às telas do cinema em 1965 pelo diretor britânico David Lean, com Omar Sharif no papel de Jivago, Julie Christie como Lara e Geraldine Chaplin, filha do lendário Charles Chaplin, como Tonya.

Para os cinéfilos, neste endereço se encontra a primeira de quatro partes da película de Lean (as demais podem ser encontradas na aba à direita do mesmo ‘link’).

J.A.R. – H.C. 
Boris Pasternak
(1890-1960)

Definição de Poesia

Um risco maduro de assobio,
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.

Um doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas –
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E, no entanto, o universo está surdo.

(Tradução de Haroldo de Campos)

Referência:

PASTERNAK, Boris. Definição de poesia. In: CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; SCHNEIDERMAN, Boris. Poesia russa moderna: nova antologia. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 136).

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