Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Alberto da Costa e Silva - Soneto de Natal

Quem não tem uma lembrança boa – ou até mesmo não tão doce – dos Natais vividos na infância, quando estávamos à volta com outros guris, ostentando as últimas novidades em presentes que havíamos ganhado de nossos pais (não exatamente do Papai Noel)?!...

O diplomata e poeta paulistano lembra-se do que lhe estava ao redor naquelas circunstâncias – da natureza certamente mais luxuriante, o gado, os pássaros e os peixes numa provável fazenda –, e com isso é capaz de reviver o puro êxtase de uma época que permanece viva na memória.

J.A.R. – H.C.

Alberto da Costa e Silva
(n. 1931)

Soneto de Natal

Como esperar que o dia pequenino,
com a mesa, a cama, o copo, as cousas simples,
desate em nossas mãos os lenços cheios
de canções e trigais e ninfas tristes?

Menino já não sou. Como de novo
conversar com os pássaros, os peixes,
invejar o galope dos cavalos
e voltar a sentir os velhos êxtases?

A linguagem dos grãos, do manso pêssego,
a bem-amada ensina e novamente
sinto em mim o odor de esterco e leite

dos currais onde a infância tange as reses,
sorve a manhã e permanece neste
cantor da relva mínima e dos bois.

Véspera de Natal na Fazenda
(David Armstrong: pintor norte-americano)

Referência:

COSTA E SILVA, Alberto. Soneto de Natal. In: ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Antologias ABL: poesia / ABL’s Anthologies: poems. Idealização e apresentação de Ana Maria Machado. Organização de Domício Proença Filho e Marco Lucchesi. Edição bilíngue. Rio de Janeiro, RJ: ABL, 2013. p. 6.


domingo, 22 de dezembro de 2019

Rainer Maria Rilke - Natividade

O poema abaixo é um dos que compõem a obra “Das Marien-Leben” (“Vida de Maria”), de 1912, e se concentra no momento de nascimento de Cristo, como se a voz lírica – presume-se de Maria – se dirigisse ao menino, com ele dialogando e lhe informando das coisas que naquele momento lhe sucediam.

O enfoque do poema, apesar de ater-se em boa medida às descrições das Escrituras, não deixa de afastar-se do convencional, pois Rilke, enquanto dotado poeta, sabe como poucos engendrar conexões entre as ideias, fazendo-as entornar a poesia necessária para que o texto transmita algo capaz de perdurar no tempo.

J.A.R. – H.C.

Rainer Maria Rilke
(1875-1926)

Geburt Christi

Hättest du der Einfalt nicht, wie sollte
dir geschehn, was jetzt die Nacht erhellt?
Sieh, der Gott, der über Völkern grollte,
macht sich mild und kommt in dir zur Welt.

Hast du dir ihn größer vorgestellt?

Was ist Größe? Quer durch alle Maße,
die er durchstreicht, geht sein grades Los.
Selbst ein Stern hat keine solche Straße.
Siehst du, diese Könige sind groß,

und sie schleppen dir vor deinen Schoß

Schätze, die sie für die größten halten,
und du staunst vielleicht bei dieser Gift –:
aber schau in deines Tuches Falten,
wie er jetzt schon alles übertrifft.

Aller Amber, den man weit verschifft,

jeder Goldschmuck und das Luftgewürze,
das sich trübend in die Sinne streut:
alles dieses war von rascher Kürze,
und am Ende hat man es bereut.

Aber (du wirst sehen): Er erfreut.

(Duino, Januar 1912)

Virgem que Adora o Menino
(Correggio: pintor italiano)

Natividade

Se não tivesses a simplicidade, como isso poderia
haver-te sucedido, o que agora ilumina a noite?
Eis que o Deus que se exasperou ante as nações
se faz brando e vem ao mundo em ti.

Tu o havias imaginado maior?

O que é a grandeza? Através de todas as dimensões
pelas quais passa, segue ele em seu reto caminho.
Sequer uma estrela tem um percurso como o seu.
Olha o quão grandes são esses reis,

a trazerem para ti, em seus regaços,

tesouros que consideram os maiores,
e talvez te surpreendam tais presentes –:
mas repara nas dobras do teu manto,
como ele já a tudo supera.

Todo o âmbar, trazido de longe,

todo o ouro forjado e as especiarias aromáticas,
que toldam e entorpecem os sentidos:
Tudo isso foi breve e fugaz,
e, ao final, objeto de lamento.

Mas (verás): traz contentamento.

(Duíno, Janeiro de 1912)

Referência:

RILKE, Rainer Maria. Geburt Christi. In: __________. Das Marien-Leben. Leipzig, DE: Druck der Offizin W. Drugulin, 1912. s. 15. Disponível neste endereço. Acesso em: 12 dez. 2019.

sábado, 21 de dezembro de 2019

William Carlos Williams - Natal 1950

Apresento aqui uma tradução que, de fato, é uma interpretação do poema de WCW, pois revela mais ou menos como concebo a palavra “dinheiro”, no início da segunda estrofe. Afinal, ao se ler o poema, o leitor poderá entender, primeiramente, (i) que as lojas são guardadas quer, gratuitamente, pela figura do dragão, quer, onerosamente, por um hipotético vigilante, com quem se desembolsaria dinheiro pelos serviços, ou ainda (ii) que as flores da fortuna, humildemente oferecidas pelas lojas, é que são alienadas por dinheiro.

Como se vê, inclino-me pela segunda hipótese, pois apus vírgulas, pontos e termos preposicionais na versão ao português, não existentes no original em inglês, que poderiam muito bem explicitar a intenção do poeta e elidir quaisquer dúvidas. Ou quem sabe a ambivalência não seria a sua real intenção?!

Outro ponto: não estou certo se WCW, ao grafar a palavra “Kalenchios”, estivesse, de fato, se referindo às conhecidas flores da fortuna, pois estas, pelo que pude apurar na grande rede, parecem não ser originárias da Alemanha...

J.A.R. – H.C.

William Carlos Williams
(1883-1963)

Christmas 1950

The stores
guarded
by the lynx-eyed
dragon

money
humbly offer
their flowers.

Kalenchios.
Spanish?
No
they originated

in Germany.
They
bloom so
Iong!

They’re
very easy
to take care of
too.

In spring
you
can put them
out

side
and they’ll
thrive
there also.

In: “Poems: 1949-1953”

Flores da Fortuna
(Elmira Herren-Muzafarova: pintora suíça)

Natal 1950

As lojas,
vigiadas
pelo dragão
de olhos de lince,

por dinheiro,
humildemente oferecem
suas flores.

Flores da fortuna.
Espanholas?
Não,
são originárias

da Alemanha.
Elas
florescem por tanto
tempo!

São
muito fáceis
de cuidar,
também.

Na primavera,
você
pode colocá-las
do lado

de fora
e elas
prosperarão
lá da mesma forma.

Referência:

WILLIAMS, William Carlos. Christmas 1950. In: __________. The collected poems of William Carlos Williams. Volume II: 1939-1962. Edited by Christopher MacGowan. Seventh Paperbound Printing. New York, NY: New Directions, 2001. p. 234.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Marianne Moore - Alecrim

Um poema permeado por camadas de significados diversos, embora incontroversamente dedicado ao alecrim, planta que exala um aroma agradável, mas que acaba por se tornar uma pequena árvore de Natal, dada a sua forma facilmente adaptável a uma base ou recipiente.

Os versos aludem a uma lenda cristã sobre a planta, como se pode verificar neste endereço, muito embora ao alecrim se façam inúmeras associações simbólicas, desde o amor erótico, a lembrança e a fidelidade até a amizade e a sobredita lenda que vai a par com outra: o padrão de crescimento da planta seria tal que, ao atingir a altura de Cristo, somente se expandiria em largura, tomando mais ou menos a forma larga e limitada das árvores natalinas.

J.A.R. – H.C.

Marianne Moore
(1887-1972)

Rosemary

Beauty and Beauty’s son and rosemary –
Venus and Love, her son, to speak plainly –
born of the sea supposedly,
at Christmas each, in company,
braids a garland of festivity.
Not always rosemary –

since the flight to Egypt, blooming indifferently.
With lancelike leaf, green but silver underneath,
its flowers – white originally –
turned blue. The herb of memory,
imitating the blue robe of Mary,
is not too legendary

to flower both as symbol and as pungency.
Springing from stones beside the sea,
the height of Christ when he was thirty-three –
it feeds on dew and to the bee
“hath a dumb language”; is in reality
a kind of Christmas tree.

A Madona e o Menino
(Joos van Cleve: pintor flamengo)

Alecrim

A Beleza e o filho da Beleza e o alecrim –
para falar claro, Vênus e Amor, seu filho –,
supostamente do mar nativos,
cada qual no Natal, em convívio,
engrinalda festão festivo.
Nem sempre alecrim –

desde a fuga para o Egito, é diferente o viço.
De folha lanciforme, verde mas argentina
por baixo, as flores – brancas no início –
são hoje azuis. Não é tão lendária
esta erva da memória, que imita o
manto azul de Maria.

a ponto de florescer como símbolo ou pique.
Medrando em pedras junto ao mar, de Cristo
aos trinta
e três a estatura – de rocio
se nutre e como a abelha fala a “língua
do silêncio”; é na verdade um tipo
de árvore de Natal.

Referência:

MOORE, Marianne. Rosemary / Alecrim. Tradução de José Antonio Arantes. In: __________. Poemas. Seleção de João Moura Júnior. Tradução e posfácio de José Antonio Arantes. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1991. Em inglês: p. 138; em português: p. 139.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Eunice de Souza - Alimentando os Pobres no Natal

Com um nome bem português, Eunice, oriunda de uma família católica de Goa, ensinou por muitos anos na Universidade de Mumbai, Índia. É dela o poema de hoje, a discorrer sobre os atos de caridade praticados por ela e, aparentemente, seu companheiro, alimentando os pobres na época natalina, num país onde a carência é reconhecidamente difusa.

Aliás, a situação social por que passa o Brasil, também vem acirrando, nos últimos anos, o seu lado “indiano”, já bem distante da vertente “belga”. Afinal, como já dissera certo economista há algumas décadas, seríamos uma “Belíndia”, combinação de indicadores belgas com outros indianos.

J.A.R. – H.C.

Eunice de Souza
(1940-2017)

Feeding the Poor at Christmas

Every Christmas we feed the poor.
We arrive an hour late: Poor dears,
Like children waiting for a treat.
Bring your plates. Don’t move.
Don’t try turning up for more.
No. Even if you don’t drink
you can’t take your share
for your husband. Say thank you
and a rosary for us every evening.

No. Not a towel and a shirt,
even if they’re old.
What’s that you said?
You’re a good man, Robert, yes,
beggars can’t be, exactly.

São Diego de Alcalá alimentando os pobres
(Bartolomé Esteban Murillo: pintor espanhol)

Alimentando os Pobres no Natal

Todo Natal alimentamos os pobres.
Chegamos uma hora atrasados: pobres queridos,
Como crianças à espera de um presente.
Tragam seus pratos. Não se movam.
Não tentem se apresentar para mais.
Não. Mesmo que não beba,
você não pode pegar a sua parte
para o seu esposo. Diga obrigado
e um rosário para nós todas as noites.

Não. Não uma toalha e uma camisa
mesmo que sejam velhas.
O que você disse?
És um bom homem, Robert, sim,
os mendigos não são capazes de o ser, exatamente.

Referência:

SOUZA, Eunice de. Feeding the poor at Christmas. In: LAZAR, Gillian. A window on literature. Cambridge, EN: Cambridge University Press, 1999. p. 4.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

James Welch - O Natal Chega à Planície Moccasin

Nesta descrição sombria do Natal em um dos arredores mais pobres da Reserva Indígena Blackfeet, nas planícies à volta das Montanhas Moccasin, no Estado de Montana (MT), nos EUA, Welch antepõe o passado heróico cheio de “honra e paixão” e o presente triste e carente dos atuais residentes da região.

A curandeira tem repulsa aos bens e mercadorias anunciadas pela televisão, pelos quais ninguém pode pagar: os orgulhosos ancestrais – “guerreiros de volta com carne e canto” – nas histórias dos anciãos, contrastam sobremaneira com os “guerreiros de bruços adormecidos pelo vinho” de hoje, homens arruinados e despojados de seus papéis tradicionais.

J.A.R. – H.C.

James Welch
(1940-2003)

Christmas Comes to Moccasin Flat

Christmas comes like this: Wise men
unhurried, candles bought on credit (poor price
for calves), warriors face down in wine sleep.
Winds cheat to pull heat from smoke.

Friends sit in chinked cabins, stare out
plastic windows and wait for commodities.
Charlie Blackbird, twenty miles from church
and bar, stabs his fire with flint.

When drunks drain radiators for love
or need, chiefs eat snow and talk of change,
an urge to laugh pounding in their ribs.
Elk play games in high country.

Medicine Woman, clay pipe and twist tobacco,
calls each blizzard by name and predicts
five o’clock by spitting at her television.
Children lean into her breath to beg a story.

Something about honor and passion,
warriors back with meat and song,
a peculiar evening star, quick vision of birth.
Blackbird feeds his fire. Outside, a quick 30 below.

Véspera de Natal em Nova York
(Hotel Plaza)
(Kidder Harvey: pintor norte-americano)

O Natal Chega à Planície Moccasin

O Natal chega assim: os sábios
sem pressa, as velas compradas a crédito (preço baixo
pelas vitelas), os guerreiros de bruços adormecidos pelo vinho.
Os ventos trapaceiam para extrair o calor da fumaça.

Os amigos se sentam em cabanas com frestas, olham pelas
janelas de plástico e esperam por mercadorias.
Charles Blackbird, a vinte milhas da igreja
e do bar, cutuca o seu fogo com pedernal.

No momento em que os bêbados drenam os radiadores por amor
ou necessidade, os chefes comem neve e falam de mudanças,
um ímpeto de rir batendo em suas costelas.
Os alces se divertem em terras altas.

A curandeira, com cachimbo de barro e tabaco retorcido,
chama cada nevasca pelo nome e prediz
cinco horas de cuspidelas em sua televisão.
As crianças se inclinam em seu alento para implorar uma história.

Algo sobre honra e paixão,
guerreiros de volta com carne e canto,
uma peculiar estrela da noite, rápida visão do nascimento.
Blackbird alimenta o seu fogo. Lá fora, já 30º negativos.

Referência:

WELCH, James. Christmas comes to moccasin flat. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 380.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Juana de Ibarbourou - Dezembro (Elegia de Natal)

Eis aqui não tipicamente um poema de Natal, mas um poema que expressa muitos dos sentimentos que as pessoas costumam ter ao longo dessa época tão luminosa: mágoas, solidão, saudades de entes queridos já falecidos, frustrações incontidas com os planos não cumpridos durante o ano que se encerra.

Dezembro é assim, um fim tão próximo de um começo, como é o mês de Janeiro. E é numa noite de Dezembro que a poetisa expõe-se à solidão, ouvindo as guitarras que acompanham a alegria que a outra metade do mundo faz tanger, enquanto põe-se a circular – real ou imaginosamente – em volta do leito, enquanto não se vê nos braços de Morfeu.

J.A.R. – H.C.

Juana de Ibarbourou
(1892-1979)

Diciembre
(Elegía de Navidad)

Mi noche de soledad
Mientras suenan las guitarras,
De la alegría del mundo,
Bajo las estrellas blancas;

Mi noche de soledad
Mal joyada y mal vestida,
De ensueños menesterosos
Y de esperanzas hendidas;

¡Mi noche de soledad
Coronadita de espinas!

¿No la viste, ronda tuya,
Cuando ya en paz te dormías?

Tenía la cara pálida,
Bien medida la sonrisa,
Y por el nardo del pecho
Un temblor le descendía.

¡Ay, recuerdos del espejo
Luna en el medio día!

Mi noche de soledad
¡Cómo te clamo en silencio!
Por no oírla suspirar
No quiso arrimarse el sueño.

¡Y hasta el alba anduve en ronda,
Alrededor de su lecho!

Casa georgiana de Oda
(Nino Chakvetadze: artista georgiano)

Dezembro
(Elegia de Natal)

Minha noite de solidão
Enquanto soam as guitarras,
Da alegria do mundo,
Sob as estrelas brancas;

Minha noite de solidão,
Mal adornada e mal vestida,
De ilusões indigentes
E de esperanças fendidas;

Minha noite de solidão
Pequena coroa de espinhos!

Não a viste, ronda tua,
Quando já em paz dormias?

Tinha o rosto pálido,
Bem medido o sorriso,
E pelo nardo do peito
Um tremor lhe descia.

Oh, lembranças do espelho
Lua no meio dia!

Minha noite de solidão
Como te clamo em silêncio!
Por não ouvi-la suspirar
Não quis aproximar-se o sonho.

E até o alvorecer andei em círculos,
Ao redor de seu leito!

Referência:

IBARBOUROU, Juana de. Dezembro (Elegia de Natal). In: __________. Poemas. Novena edición. Buenos Aires, AR: Espasa-Calpe Argentina, 1961. p. 28-29. (Colección ‘Austral’; n. 265)