Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 16 de abril de 2019

John Berryman - Ação de Graças de Minnesota

Berryman sintetiza o espírito de gratidão e congraçamento presente no Dia de Ação de Graças, nos Estados Unidos, cuja importância sobreleva-se a outros dias do ano que, costumeiramente, são celebrados com maior ênfase, por exemplo, neste país.

É quando se prepara uma refeição que acolhe pessoas de todas as convicções religiosas, políticas ou até mesmo étnicas, sendo a mesa o grande denominador comum, à volta da qual todos buscam entrar em concórdia com os seus e com os outros, ao som de músicas que reflitam esse propósito.

J.A.R. – H.C.

John Berryman
(1914-1972)

Minnesota Thanksgiving

For that free Grace bringing us past great risks
& thro’ great griefs surviving to this feast
sober & still, with the children unborn and born,
among brave friends, Lord, we stand again in debt
and find ourselves in the glad position: Gratitude.

We praise our ancestors who delivered us here
within warm walls all safe, aware of music,
likely toward ample & attractive meat
with whatever accompaniment
Kate in her kind ingenuity has seen fit to devise,

and we hope – across the most strange year to come –
continually to do them and You not sufficient honour
but such as we become able to devise
out of decent or joyful conscience & thanksgiving.
Yippee!
Bless then, as Thou wilt, this wilderness board.

A primeira de Ação de Graças: 1621
(Jean Leon Gerome Ferris: pintor norte-americano)

Ação de Graças de Minnesota

Por essa Graça pródiga que nos faz passar por grandes riscos,
em meio a aflições intensas, sobrevivendo a esta festa
sóbrios e tranquilos, com as crianças nascidas e não nascidas,
entre bravos amigos, Senhor, estamos novamente em dívida
e nos encontramos em jubilosa posição: Gratidão.

Louvamos nossos ancestrais que nos conduziram até aqui
dentro de tépidas paredes, todos a salvo, atentos à música,
provavelmente em busca da refeição atraente e abundante,
com qualquer tipo de acompanhamento
que Kate, em sua engenhosidade, achou por bem conceber,

e esperamos – ao longo do ano mais estranho por vir –
fazê-las continuamente mesmo sem Tua suficiente honra,
porém na medida em que sejamos capazes de as conceber
a partir de consciência digna ou exultante e agradecida.  
Hurra!
Bendize então, segundo o Teu desígnio, esta mesa deserta.

Referência:

BERRYMAN, John. Minnesota thanksgiving. In: KEILLOR, Garrison (Selection and Introduction). Good poems for hard times. New York, NY: Penguin Books, 2006. p. 163.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Stanley Kunitz - Considerações junto a uma caixa de correio

Provavelmente escrito no curso da 2GM, Kunitz enfatiza, neste poema, os horrores na Europa provocados pelo genocídio de Hitler, precipitando uma jornada imaginária ao tempo dos pogrons que levaram os seus pais a se deslocar da Rússia em direção à América.

O ato banal de se aguardar por correspondências vindas pelo correio tem, assim, um meditativo – embora explícito – sentido político: deplora o poeta, por meio de um elenco sinistro de detalhes, essa cidadania de um novo estado. E pergunta-se: “Como vamos desfazer essa energia sem lei?”. Presume-se que não haja resposta, uma vez que deus foi arrancado às máquinas, e não há deus ‘ex machina’ que possa vir em amparo.

J.A.R. – H.C.

Stanley Kunitz
(1905-2006)

Reflection by a Mailbox

When I stand in the center of that man’s madness,
Deep in his trauma, as in the crater of a wound,
My ancestors step from my American bones.
There’s mother in a woven shawl, and that,
No doubt, is father picking up his Pack
For the return voyage through those dreadful years
Into the winter of the raging eye.

One generation past, two days by plane away,
My house is dispossessed, my friends dispersed,
My teeth and pride knocked in, my people game
For the hunters of man-skins in the warrens of Europe,
The impossible creatures of an hysteriac’s dream
Advancing with hatchets sunk into their skulls
To rip the god out of the machine.

Are these the citizens of the new estate
To which the continental shelves aspire;
Or the powerful get of a dying age, corrupt
And passion-smeared, with fluid on their lips,
As if a soul had been given to petroleum?

How shall we uncreate that lawless energy?

Now I wait under the hemlock by the Road
For the red-haired postman with the smiling hand
To bring me my passport to the war.
Familiarly his car shifts into gear
Around the curve; he coasts up to my drive; the day
Strikes noon; I think of Pavlov and his dogs
And the motto carved on the broad lintel of his brain:
“Sequence, consequence, and again consequence.”

Caixa Postal de Havlik
(Sam Sidders: pintor norte-americano)

Considerações junto a uma caixa de correio

Quando eu me coloco no centro da loucura daquele homem,
Profundamente em seu trauma, como no fosso de uma chaga,
Meus ancestrais afastam-se de meus ossos Americanos.
Lá está minha mãe num xale trançado, e lá,
Sem dúvida, meu pai apanhando o seu fardo
Para a viagem de volta através daqueles terríveis anos
Rumo ao inverno do olhar em cólera.

Nossa geração se foi, há dois dias por avião,
Minha casa esbulhada, meus amigos dispersos,
Meus dentes e orgulho golpeados, meu povo joguete
Dos caçadores da humana pele nas pocilgas da Europa,
As incríveis criaturas de um histérico sonho
Avançando com machadinhas enterradas em seus crânios
Para arrancarem o deus às máquinas.

Serão estes os cidadãos do novo estado
Ao qual os escolhos do continente aspiram;
Ou a poderosa linhagem de uma geração à morte, corrupta
e untada de flama, com fluido em seus lábios,
como se houvesse sido uma alma entregue ao petróleo?

Como iremos nós não criar esta energia ilegítima?

Agora espero sob a cicuta à beira da estrada
Pelo carteiro ruivo com a sorridente mão
Que me irá trazer o passaporte para a guerra.
Com familiaridade seu carro muda a marcha
Na altura da curva; ele encosta no passeio ao meu lado; o dia
Faz soar a sua metade; penso em Pavlov e nos seus cães
E na inscrição gravada na ampla moldura do seu cérebro:
“Sequência, consequência, e uma outra vez consequência.”

Referências:

Em Inglês

KUNITZ, Stanley. Reflection by a Mailbox. Disponível neste endereço. Acesso em: 28.3.2019.

Em Português

KUNITZ, Stanley. Considerações junto a uma caixa de correio. Tradução de Zulmira Ribeiro Tavares. In: GUINSBURG, J.; TAVARES, Zulmira Ribeiro (Orgs.). Quatro mil anos de poesia. Desenhos de Paulina Rabinovich. São Paulo, SP: Perspectiva, 1960. p. 226-227. (Coleção “Judaica”; v. 12)

domingo, 14 de abril de 2019

Ribeiro Couto - Poesia

Aos que atentam contra a boa saúde da poesia, Couto reverbera o estado melancólico dessa senhora, que ainda assim “abençoa a trágica doçura da vida”, a lançar palavras sobre o jardim das obras que as recolhem, preservando os inúmeros ‘insights’ que atravessaram as mentes desses autênticos visionários: os poetas.

Já vezes sem conta anunciaram o fim da poesia. Mas ela assemelha-se a uma necessidade vital, sem a qual o espírito humano pode arruinar-se, tornando-se árido, incapaz de interagir com o inapreensível, o inaudito, o imperscrutável –aliás, a parte mais bela do mágico mundo onde estamos imersos!

J.A.R. – H.C.

Ribeiro Couto
(1898-1963)

Poesia

E te envolverão com atitudes sinistras.
E desejarão secretamente a tua morte.
E atirarão sobre a tua cabeça
O riso fácil das incompreensões.

Entretanto, dentro de ti, indiferentes,
Como a chuva mansa caindo num jardim,
As palavras melancólicas de poesia
Abençoarão a trágica doçura da vida.

Em: “Um Homem na Multidão” (1921-1924)

Ponte do Príncipe: Melbourne (AU)
(Frederick McCubbin: pintor australiano)

Referência:

COUTO, Ribeiro. A poesia. In: __________. Poesias reunidas. 1. ed. Rio de Janeiro, GB: José Olympio, 1960. p. 137.

sábado, 13 de abril de 2019

Roy Daniells - Noé

O professor e poeta canadense põe-se a imaginar a oposição que Noé teve que suportar de seus pares, por construir uma arca em que apenas aqueles que nela adentrassem se salvariam do dilúvio que cobriria toda a terra: o que a termo ocorreu, todos sabemos pela narrativa inserta no Gênesis.

Hoje se sabe que o enredo diluviano aparece vezes sem conta nas mitologias antigas, da Mesopotâmia à Índia, o que levou os cientistas a proporem hipóteses mais compatíveis com os achados da paleontologia, da geologia, da arqueologia e da história natural – haja vista que não há evidências que sustentem a hipótese de um dilúvio mundial, como a assente nas páginas bíblicas.

J.A.R. – H.C.

Roy Daniells
(1902-1979)

Noah

They gathered around and told him not to do it,
They formed a committee and tried to take control,
They cancelled his building permit and they stole
His plans. I sometimes wonder he got through it.
He told them wrath was coming, they would rue it,
He begged them to believe the tides would roll,
He offered them passage to his destined goal,
A new world. They were finished and he knew it.
All to no end.
And then the rain began.
A spatter at first that barely wet the soil,
Then showers, quick rivulets lacing the town,
Then deluge universal. The old man
Arthritic from his years of scorn and toil
Leaned from the admiral’s walk and watched them drown.

A Arca de Noé
(Cajetan Roos: pintor ítalo-germânico)

Noé

Reuniram-se e lhe disseram que não a fizesse,
Formaram um comitê e tentaram assumir o controle,
Cancelaram sua permissão de construção e lhe roubaram
Os planos. Às vezes pergunto-me se conseguiu erigi-la inteira.
Ele lhes disse que a ira chegaria, que a lamentariam,
Implorou-lhes que acreditassem que as marés irromperiam,
Ofereceu-lhes passagem à meta que lhe destinaram,
Um novo mundo. Estavam liquidados e ele sabia disso.
Todos sem ressalva.
E então começou a chuva.
A princípio um respingar que mal umedecia o solo,
Depois aguaceiros, rápidos córregos enlaçando a cidade,
E logo um dilúvio universal. O velho homem,
Artrítico por seus anos sob escárnio e em labuta,
Inclinou-se sobre o eirado do almirante e os viu afogar-se.

Referência:

DANIELLS, Roy. Noah. In: KEILLOR, Garrison (Selector and Introducer). Good poems. New York, NY: Penguin Books, 2003. p. 90.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

D. H. Lawrence - A Indecência Pode Ser Saudável

Lawrence parece querer lançar invectivas aos puritanos de sua Inglaterra natal, neste poema explicitamente erótico: afirma-nos ele que uma “putaria” de vez em quando é saudável, normal. Até mesmo a sodomia. Desde que não subam para o cérebro, neste caso, imagino eu, porque pode levar a censuras que extrapolam a natural expressão da sexualidade.

E aquilo que muitos veem como mórbido nas manifestações do sexo, tanto pior se revela na mente dos que detectam indecência nas mais genuínas manifestações de amor. Afinal, esperar que todo amor se revele ascético, quase platônico, é esperar demais de quem veio do pó e ao pó há de retornar...

J.A.R. – H.C.

D. H. Lawrence
(1885-1930)

Bawdy Can Be Sane

Bawdy can be sane and wholesome,
in fact a little bawdy is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.

And a little whoring can be sane and wholesome.
In fact a little whoring is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.

Even sodomy can be sane and wholesome
grandet there is an exchange of genuine feeling.

But get any of them on the brain, and they become
pernicious:
bawdy on the brain becomes obscenity, vicious.
Whoring on the brain becomes really syphilitic
and sodomy on the brain becomes a mission,
all the lot of them, vice, missions, etc., insanely
unhealthy.

In the same way, chastity in its hour is sweet and
wholesome.
But chastity on the brain is a vice, a pervesion.
And rigid suppression of all bawdy, whoring or
other such commerce
is a straight way to raving insanity.
The fifth generation of puritans, when it isn’t
obscenely profligate,
is idiot. So you’ve got to choose.

O triunfo de Pã
(Nicolas Poussin: pintor francês)

A Indecência Pode Ser Saudável

A indecência pode ser normal, saudável;
na verdade, um pouco de indecência é necessário
em toda vida
para a manter normal, saudável.

E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário
em toda vida
para a manter normal, saudável.

Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.

Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna
perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo, vício, missão, insanamente mórbido.

Do mesmo modo, a castidade na hora própria
é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência,
putaria e relações assim
leva direto à furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for
obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.

Referência:

LAWRENCE, D. H. Bawdy can be sane / A indecência pode ser saudável. Tradução de José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo (Seleção, tradução, introdução e notas). Poesia erótica em tradução. Edição bilíngue. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2006. Em inglês: p. 168; em português: p. 169.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Guilherme de Campos - Dialética

Nada se tem na internet de mais detalhado sobre o autor do infratranscrito poema, embora se possa deduzir, pelos poucos indícios presentes aqui e ali, que se trata de um poeta paulista, dada a menção, infrequente mas indicativa, à cidade de Campinas.

O poema trata do fenômeno expansionista das palavras em razão da disseminação das ideias, até que possam elas dar conta de toda a expressão da vida. Mas ao fim e ao cabo, o que sob tal perspectiva há de ser mais bem elucidado é que o homem não pode dispensar-se de compreender a si próprio.

J.A.R. – H.C.

Invasão Dialética
(Adrian Koutoupidis: pintor ítalo-australiano)

Dialética

As ideias cresceram demais
e as palavras começaram a crescer
pra alcançar as ideias

A vida cresceu demais
e as ideias começaram a crescer
pra alcançar a vida

Isso foi no começo
do meio pro fim
e do fim pro começo

Antes de o homem compreender
que ele também precisava crescer
mais do que as palavras
bem mais do que as ideias

Em: “O Homem da Encosta”

Relógio
(Gerald Murphy: pintor norte-americano)

Referência:

CAMPOS, Guilherme de. Dialética. In: __________. A procura do autêntico. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1958. p. 146.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Geof Hewitt - O Marinheiro

O poeta faz as vezes de um roteirista e nos conta uma história insólita: um marinheiro que luta pela vida, depois de seu barco afundar no oceano, consegue atingir a praia e, de tão cansado, acaba dormindo, circunstância que o expõe à maré, que o leva de volta para o meio do oceano.

A moral da história assemelha-se à de quem trabalha tanto para atingir um objetivo e, tendo-o alcançado, acaba por vê-lo arrebatado ladinamente por quem só esteve surfando, até então, em maré mansa. Triste fim para quem lutou isoladamente contra uma desventura e foi tragado, logo em seguida, por outra.

J.A.R. – H.C.

Geof Hewitt
(n. 1943)

The Sailor

In my movie the boat goes under
And he alone survives the night in the cold ocean,
Swimming he hopes in a shoreward direction.
Daylight and he’s still afloat, pawing the water
And doesn’t yet know he’s only fifty feet from shore.
He goes under for what will be the last time
But only a few feet down scrapes the bottom.
He’s suddenly a changed man and half hops, half swims
The remaining distance, hauls himself waterlogged
Partway up the beach before collapsing into sleep.
As he dreams the tide comes in
And rolls him back to sea.

Sinbad, o Marujo
(Paul Klee: pintor suíço-alemão)

O Marinheiro

Em meu filme, o barco vai a pique
E sozinho ele sobrevive à noite no frio oceano.
Nadando, acena em direção ao litoral.
Rompe a aurora e ainda flutua, a bracejar na água,
Sem se dar conta de que está a apenas cinquenta pés
da costa.
Ele imerge para o que será o seu derradeiro momento,
Entretanto só mais alguns pés e já dá com o fundo.
De repente é um homem mudado e, meio aos saltos
meio a nado,
Cobre a distância restante, arrasta-se encharcado
Um bocado pela praia, antes de cair no sono.
Enquanto sonha, a maré sobe
E o leva de volta ao mar.

Referência:

HEWITT, Geof. The sailor. In: KEILLOR, Garrison (Selector and Introducer). Good poems. New York, NY: Penguin Books, 2003. p. 259.

terça-feira, 9 de abril de 2019

William Carlos Williams - A Mente Indecisa

Eis a imaginação do poeta para enfatizar, por meio de metáfora, o fato de que jamais paramos de pensar enquanto acordados, sem interrupções: um fluxo de rio capaz de englobar volume de água suficiente para levantar inúmeros embaraços – quase uma mixórdia de pensamentos, às vezes contraditórios até.

Como a mente realmente funciona e enceta os seus processos é, em última instância, a dúvida maior de Williams: haveria ondas e o marulho, como que a relacionar-se a progressões de pensamentos?! Ou tudo não passaria de sensações ou impressões que logram atravessar o filtro ocular, para encontrar verossimilhança em outras imagens anteriormente fixadas pela mente?!

J.A.R. – H.C.

William Carlos Williams
(1883-1963)

The Mind Hesitant

Sometimes the river
becomes a river in the mind
or of the mind
or in and of the mind

Its banks snow
the tide falling a dark
run lies between
the water and the shore

And the mind hesitant
regarding the stream
senses
a likeness which it

will find – a complex
image: something
of white brows
bound by a ribbon

of sooty thought
beyond, yes well beyond
the mobile features
of swiftly

flowing waters, before
this tide will
change
and rise again, maybe

In: “The Clouds” (1948)

A foz do rio Shrewsbury
(Sanford R. Gifford: pintor norte-americano)

A Mente Indecisa

Às vezes o rio
torna-se um rio na mente
ou da mente
ou na e da mente.

Suas margens nevam
a maré, caindo uma escura
borda estendida entre
a água e a praia.

E a mente indecisa
mirando o curso
sente
uma semelhança que

há de colher – uma complexa
imagem: qualquer coisa
de sobrancelhas brancas
atadas por uma fita

de um pensamento imerso
além, sim, bem além
dos traços móveis
de ligeiras

águas fluentes, antes
que a maré
mude
e erga-se novamente, talvez.

Em: “As Nuvens” (1948)

(Tradução publicada em
“Folhetim” em 11.9.1983)

Referências:

Em Inglês

WILLIAMS, William Carlos. The mind hesitant. In: __________. The collected poems of William Carlos Williams. Volume II: 1939-1962. Edited by Christopher MacGowan. New York, NY: New Directions, 2001. p. 168.

Em Português

WILLIAMS, William Carlos. A mente indecisa. Tradução de José Lino Grunewald. In: SUZUKI JR., Matinas; ASCHER, Nelson (Organizadores). Folhetim: poemas traduzidos. São Paulo, SP: Folha de São Paulo, 1987. p. 101.