Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Neftalí Beltrán - A Poesia Existe ‎

Partindo da premissa de que a poesia existe – quem haveria de duvidá-lo? –, o poeta afirma que um dia haveremos de compreendê-la, quer estejamos imersos em anos de escuridão quer em anos de luz, quer experimentando uma vida em turbilhão que nos impede de senti-la quer nos dando conta de que ela, de fato, atravessa a nossa lida.

Mas parece que Beltrán duvida de tudo, pois os seus versos terminam indefectivelmente no advérbio “talvez”, duplicado e ressonante. E quem sabe ele não estará correto ao empregá-lo, se ao fim e ao cabo se percebe suficiente incerteza e contingência nos fatos que marcam a história de cada um de nós?!

J.A.R. – H.C.

Neftalí Beltrán
(1916-1996)

La Poesía Existe

La poesía existe.
Tal vez no sepamos entenderla
tal vez la vida que llevamos
no nos deje sentirla
tal vez la vivimos sin darnos cuenta
o dándonos cuenta,
tal vez, tal vez.
La poesía existe
así como existe la violência
lo mismo que existe el amor.
Vivimos entre años-oscuridad y años luz
y sin embargo la poesía existe
y un dia tendremos que comprenderla,
tal vez, tal vez.

Milán, 1977.

Ao ar livre
(Ramón Casas: pintor espanhol)

A Poesia Existe

A poesia existe.
Talvez não saibamos entendê-la
talvez a vida que levamos
não nos deixe senti-la
talvez a vivemos sem dar-nos conta
ou dando-nos conta,
talvez, talvez.
A poesia existe
assim como existe a violência
do mesmo modo que existe o amor.
Vivemos entre anos-escuridão e ano luz
e ainda assim a poesia existe
e um dia teremos que compreendê-la,
talvez, talvez.

Milão, 1977.

Referência:

BELTRÁN, Neftalí. La poesía existe. In: __________. Poesía: 1936-1977. México, DF: Fondo de Cultura Económica, marzo 1978. p. 189. (“Letras Mexicanas”)

quinta-feira, 5 de abril de 2018

François Coppée - Abril

Com o ano chegando ao final do primeiro quadrimestre, chega-se, no hemisfério norte, à estação mais colorida dentre todas, durante a qual voltam as andorinhas a povoar os céus e os dias ganham vivacidade: aí está a primavera, tão decantada pelos poetas!

E Coppée é um desses poetas, para quem a primavera significa, também, esperança, amor e promessas de um jardim repleto de desejos manifestos, explico-me melhor, enquanto metáfora das forças espirituais que se encontravam em hibernação, mas que agora rompem os seus casulos, partindo em busca de outras individualidades.

J.A.R. – H.C.

François Coppée
(1842-1908)

Avril

Lorsqu’un homme n’a pas d’amour,
Rien du printemps ne l’intéresse;
Il voit même sans allégresse,
Hirondelles, votre retour;

Et, devant vos troupes légères
Qui traversent le ciel du soir,
II songe que d’aucun espoir
Vous n’êtes pour lui messagères.

Chez moi, ce spleen a trop duré,
Et quand je voyais dans les nues
Les hirondelles revenues,
Chaque printemps, j’ai bien pleuré.

Mais, depuis que toute ma vie
A subi ton charme subtil,
Mignonne, aux promesses d’Avril
Je m’abandonne et me confie.

Depuis qu’un regard bien aimé
A fait refleurir tout mon être,
Je vous attends à ma fenêtre,
Chères voyageuses de Mai.

Venez, venez vite, hirondelles,
Repeupler l’azur calme et doux,
Car mon désir qui va vers vous
S’accuse de n’avoir pas d’ailes.

Cipreste
(Henri-Edmond Cross: pintor francês)

Abril

Só quem não ama, não sente
Da primavera a emoção,
Assistindo indiferente
Das aves à imigração;

E vendo o bando ligeiro,
Que no céu da tarde avança.
Não vê nele o mensageiro
Da mais ligeira esperança.

Assim meus dias corriam;
De outros céus a regressar,
As andorinhas me viam
Na primavera a chorar.

Mas desde que a minha vida
Teu domínio foi sentindo
De Abril, aos beijos, querida,
Abandonei-me sorrindo.

Des’que ao teu olhar, estrela,
Todo o meu ser floresceu
Eu vos espero à janela
Ó peregrinas do céu!

Povoai de novo a face
Do azul, fulgurosa e calma...
Se o meu desejo voasse!
Se eu asas tivesse n’alma!

(7 de maio de 1881)

Referência:

COPPÉE, François. Avril / Abril. Tradução de Raimundo Correia e Valentim Magalhães. In: ‎‎__________. Poesias completas de Raimundo Correia. Vol. II. Organização, prefácio e notas de Múcio Leão. São Paulo, SP: Companhia Editora Nacional, ‎‎1948. Em francês: p. 450-451; em português: p. 375-376.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Renata Pallottini - Gato em Volutas

Façamos a descrição sumária dos fatos descritos no poema: o gato da poetisa dela se aproxima e lhe roça o corpo, partindo, então em outra direção – nada mais. Contudo, há na mente humana o pervagar de sentidos que vão muito além dos simples movimentos que se poderiam considerar naturais.

Seria mesmo de se esperar que o felino conhecesse da “essência morta” que habita as entranhas de Pallottini? Ou mesmo o denominado “tempo morto”? Como haveria de o bichano saber que o desejo da poetisa – convertido em amor não expresso – era o de tornar em sangue vivo a carne já esmaecida?!

Monólogos, monólogos. Deles nascem os poemas!

J.A.R. – H.C.

Renata Pallottini
(n. 1931)

Gato em Volutas

Chegou-se a mim, com pés forrados de silêncio.
Seu rastro sinuoso marcara-se com plumas.
Ei-lo que roça no ser humano
sua egoísta subserviência.
Recolhe as unhas, como quem guardasse
um íntimo segredo invulnerável.

Ó gato, quanto mais eu te amaria
se me houvessem rasgado tuas unhas
a frágil carne, a de afeição canina!

Afasta-se, seus olhos impossíveis
fitos em alguma outra parte.

Quedo, à distância ignora o tempo morto.
E em mim a essência morta.

Em: “O Monólogo Vivo” (1956) 

Espreguiçando II
(Diane Hoeptner: pintora norte-americana)

Referência:

PALLOTTINI, Renata. Gato em volutas. In: __________. Obra poética. São Paulo, SP: Hucitec, 1995. p. 75.
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terça-feira, 3 de abril de 2018

Antonio Machado - As Moscas ‎

Este poema de Machado mostra-se deveras inusitado, ao dedicar-se a escrever sobre moscas, coletivo de um inseto que quase sempre tomamos em sua perspectiva desagradável, capturando-o em imagens nostálgicas advindas de acontecimentos que lhe marcaram indelevelmente o passado.

As moscas, aqui, surgem como presumível metáfora para os episódios indesejáveis por que passamos em vida, mas que são tão marcantes quanto aqueles a que tanto aspiramos, por sua distinção ou valor positivo que lhes atribuímos. E o poeta sabe bem enfatizar a natureza “familiar” do contato diário que temos com esses inconvenientes miúdos que, a varejo, nos fortalecem para uma luta contra um meio ambiente nem sempre acolhedor.

J.A.R. – H.C.

Antonio Machado
(1875-1939)
Retrato de Joaquín Sorolla(Dez.1917)

Las Moscas

Vosotras, las familiares,
inevitables golosas,
vosotras, moscas vulgares,
me evocáis todas las cosas.
İOh, viejas moscas voraces
como abejas en abril,
viejas moscas pertinaces
sobre mi calva infantil!
İMoscas dei primer hastío
en el salón familiar,
las claras tardes de estío
en que yo empecé a sonar!
Y en la aborrecida escuela,
raudas moscas divertidas,
perseguidas
por amor de lo que vuela,
– que todo es volar –, sonoras
rebotando en los cristales
en los días otoñales...
Moscas de todas las horas,
de infancia y adolescencia,
de mi juventud dorada;
de esta segunda inocencia,
que da en no creer en nada,
de siempre... Moscas vulgares,
que de puro familiares
no tendréis digno cantor:
yo sé que os habéis posado
sobre el juguete encantado,
sobre el librote cerrado,
sobre la carta de amor,
sobre los párpados yertos
de los muertos.
Inevitables golosas,
que ni labráis como abejas,
ni brilláis cual mariposas;
pequenitas, revoltosas,
vosotras, amigas viejas,
me evocáis todas las cosas.

En: “Soledades” (1899-1907)

Moscas - 01
(Laraine Armenti: pintora norte-americana)

As Moscas

Vós, as familiares,
inevitáveis gulosas,
vós, moscas vulgares,
me evocais todas a coisas.
Oh, velhas moscas vorazes
como abelhas em abril,
velhas moscas pertinazes
sobre minha calva infantil!
Moscas do primeiro fastio
na sala familiar,
nas claras tardes de estio
em que comecei a sonhar!
E na aborrecida escola,
velozes moscas divertidas,
perseguidas
por amor do que voa,
– que tudo é voar –, sonoras
ricocheteando nas vidraças
nos dias outonais...
Moscas de todas as horas,
de infância e adolescência,
de minha juventude dourada;
desta segunda inocência,
que dá em não crer em nada,
de sempre... Moscas vulgares,
que de tão familiares
não tereis digno cantor:
eu sei que tendes pousado
sobre o brinquedo encantado,
sobre o tomo fechado,
sobre a carta de amor
sobre as pálpebras hirtas
dos mortos.
Inevitáveis gulosas,
que nem laborais como abelhas,
nem brilhais qual borboletas;
pequeninas, revoltosas,
vós, amigas velhas,
Me evocais todas as coisas.

Em: “Solidões” (1899-1907)

Referência:

MACHADO, Antonio. Las moscas. In: __________. Antología poética. Introducción de Carlos Ayala. Madrid, ES: Agrupación Nacional del Comercio del Libro, Navidad 1975. p. 32-33.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Hermann Hesse - Linguagem ‎

Embora as palavras tenham os seus limites e apenas alcancem meros conceitos ou aproximações do que seja a realidade – ou melhor, a natureza em suas múltiplas manifestações –, por meio delas é que os poetas e escritores atingem, mediante suas obras, o reconhecimento público e os louros da arte literária.

São eles capazes de atribuir sentido a um mundo que, não raro, se mostra incompreensível ou desconexo: com simplicidade e clareza, afiança-nos Hesse, as metáforas de que lançam mão reorientam as linhas de força dentro de um campo ou domínio onde tudo passa a se mostrar mais congruente e sublime.

J.A.R. – H.C.

Hermann Hesse
(1877-1962)

Sprache

Die Sonne spricht zu uns mit Licht,
Mit Duft und Farbe spricht die Blume,
Mit Wolken, Schnee und Regen spricht
Die Luft. Es lebt im Heiligtume
Der Welt ein unstillbarer Drang,
Der Dinge Stummheit zu durchbrechen,
In Wort, Gebärde, Farbe, Klang
Des Seins Geheimnis auszusprechen.
Hier strömt der Künste lichter Quell,
Es ringt nach Wort, nach Offenbarung,
Nach Geist die Welt und kündet hell
Aus Menschenlippen ewige Erfahrung.
Nach Sprache sehnt sich alles Leben,
In Wort und Zahl, in Farbe, Linie, Ton
Beschwört sich unser dumpfes Streben
Und baut des Sinnes immer höhern Thron.

In einer Blume Rot und Blau,
In eines Dichters Worte wendet
Nach innen sich der Schöpfung Bau,
Der stets beginnt und niemals endet.
Und wo sich Wort und Ton gesellt,
Wo Lied erklingt, Kunst sich entfaltet,
Wird jedesmal der Sinn der Welt,
Des ganzen Daseins neu gestaltet,
Und jedes Lied und jedes Buch
Und jedes Bild ist ein Enthüllen,
Ein neuer, tausendster Versuch,
Des Lebens Einheit zu erfüllen.
In diese Einheit einzugehn
Lockt euch die Dichtung, die Musik,
Der Schöpfung Vielfalt zu verstehn
Genügt ein einziger Spiegelblick.
Was uns Verworrenes begegnet,
Wird klar und einfach im Gedicht:
Die Blume lacht, die Wolke regnet,
Die Welt hat Sinn, das Stumme spricht.

Unidade com a Natureza
(Leonid Afremov: pintor israelense)

Linguagem

O sol nos fala com luz; com cor
e com perfume nos fala a flor;
com nuvens, chuva e neve nos fala
o ar. Há no sacrário do mundo
um incontido afã de romper
com a mudez das coisas e expor
em gesto e som, em palavra e cor,
todo o mistério que envolve o ser.
A clara fonte das artes flui
para a palavra, a revelação;
para o mental flui o mundo, e aclara
em lábio humano um saber eterno.
Pela linguagem a vida anseia:
em verbo, cifra, cor, linha, som,
conjura-se a nossa aspiração
e um alto trono aos sentidos ergue.

Como na flor o vermelho e o azul,
na palavra do poeta volta-se
para dentro a obra de criação,
sempre a iniciar-se e a acabar jamais.
Onde palavra e som se combinam,
e soa o canto, a arte se revela,
e cada cântico e cada livro,
cada imagem, é uma descoberta
– uma milésima tentativa
de cumprimento da vida una.
A penetrar nessa vida una
vos chama a música, a poesia:
para entender a criação vária,
já é bastante um olhar no espelho.
O que confuso antes parecia,
é claro e simples na poesia:
a nuvem chove, a flor ri, o mudo
fala – o mundo faz sentido em tudo.

Referências:

Em Alemão

HESSE, Herman. SpracheIn: __________. Die gedichte. 2. Auflage. Zürich, CH: Fretz & Wasmuth Verlag Ag. Zürich, 1942. s. 359-360

Em Português

HESSE, Hermann. Linguagem. Tradução de Geir Campos. In: __________. Andares: antologia poética. Tradução e prólogo de Geir Campos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, jan. 1976. p. 161.

domingo, 1 de abril de 2018

Péricles Eugênio da Silva Ramos - Teoria da Permanência ‎

Tudo são símbolos neste poema de Ramos, das flores do ipê e da papoula à serpente – que, pelo momento, ainda não instila o seu veneno, ela que representa os estados transgressivos, hetéricos ou sacrílegos, digamos assim –, e de quem devemos nos afastar, para que possamos nos manter puros no ocaso, quando então as sombras do espírito se fundirão às das folhagens e às da noite.

Tal é a permanência possível, no correr da jornada, a nos fazer arder o desejo e a esperança que, mas à frente, os sonhos derramem em pétalas, antes que se materializem no horizonte – metáfora dimensional a nos alertar de que a fortuna de tudo quanto existe é a finitude.

J.A.R. – H.C.

Pérciles Eugênio da Silva Ramos
(1919-1992)

Teoria da Permanência

A tarde, resplendor de pêssegos maduros,
atira, céu abaixo, as suas redes de ouro,
e, éguas sagradas agitando crinas brancas,
relincham na montanha as cataratas:
calada, ó profetisa de olhos doces,
deixa cair sobre teu rosto a flor do ipê,
e sente nessa tarde concentrada
o dia que se esvai e roça a tua pele
como que a oferecer-te o augúrio de teu fim.

Ou colhe, se preferes, a papoula em chamas,
e vê como esse fogo de esperança
é ao mesmo passo, aquém dos horizontes,
o próprio sono transformado em pétalas.

Não, não esmagues a teus pés a cascavel,
nem sofras que o terror te empalideça
quando escutares os seus crótalos fatais:
a hora não chegou, ela não morderá;
mas não a enfrentes, nem confundas esse guizo
com o ébrio craquejar das castanholas,
nem com o tinir dos outros guizos
de qualquer rei Momo:
a taça está repleta, não a vires,
nem queiras temerária provocar os fados.

Os dias já contados, não conjures
os elementos contra a luz que te rodeia:
colhe a papoula em chamas ou a flor do ipê,
contempla a tarde como esplende
igual a um fruto diáfano de mel.
Ipê ou tarde, faze a tua vida
brilhar intensamente como o sol:
depois, que a tua luz se apague;
há de ficar ao menos a lembrança de um clarão
em tua sombra que se fundirá
na sombra das folhagens e da noite.

Em: “Lua de Ontem” (1960)

Paris à noite
(Charles C. Curran: pintor norte-americano)

Referência:

RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Teoria da permanência. In: __________. Poesia quase completa. Rio de Janeiro, GB: Livraria José Olympio Editora, 1972. p. 118-119.

sábado, 31 de março de 2018

Marilyn Nelson - Como descobri a poesia ‎

As palavras têm poder, como se costuma afirmar aqui como alhures! E tanto mais se arranjadas de forma elegante para desconstruir preconceitos, intolerâncias, hostilidades, discriminações – assim como a poesia compromissada, de alto poder de transformação, a reverberar fundo na mente de quem a espreita.

Foi com um desses poemas que a escritora negra norte-americana conheceu a própria poesia, ela cuja mãe era professora e que agora se dedica a escrever livros para crianças e adolescentes, didáticos e autoexplicativos, com toda a sutileza para fazer fluir temas relevantes entre o lúdico e o sério.

J.A.R. – H.C.

Marilyn Nelson
(n. 1946)

How I discovered poetry

It was like soul-kissing, the way the words
filled my mouth as Mrs. Purdy read from her desk.
All the other kids zoned an hour ahead to 3:15,
but Mrs. Purdy and I wandered lonely as clouds borne
by a breeze off Mount Parnassus. She must have seen
the darkest eyes in the room brim: The next day
she gave me a poem she’d chosen especially for me
to read to the all except for me white class.
She smiled when she told me to read it, smiled harder,
said oh yes I could. She smiled harder and harder
until I stood and opened my mouth to banjo playing
darkies, pickaninnies, disses and dats. When I finished
my classmates stared at the floor. We walked silent
to the buses, awed by the power of words.

O poder das palavras
(Alejandra Sieder: pintora venezuelana)

Como descobri a poesia

Foi como um beijo n’alma, o modo como as palavras impregnaram
os meus lábios tão logo a Sra. Purdy passou a lê-las em sua secretária.
Todas as crianças já haviam se dispersado uma hora depois das 3:15,
mas a Sra. Purdy e eu vagamos solitariamente como nuvens levadas
por uma brisa do Monte Parnaso. Ela deve ter divisado os olhos
mais nebulosos nas extremidades do recinto. No dia seguinte,
deu-me um poema que havia selecionado especialmente para que
eu o lesse para toda a classe branca ali presente, à minha exceção.
Ela sorriu quando me disse para recitá-lo, sorriu mais ainda quando
me assegurou de que eu o seria capaz. Sorriu cada vez mais forte,
até que me pus de pé e abri minha boca ao banjo para desagravar
os escuros, os negrinhos, os insultos e as cretinices. Quando terminei,
meus colegas de classe miravam o chão. Caminhamos silenciosamente
em direção aos ônibus, impressionados pelo poder das palavras.

Referência:

NELSON, Marilyn. How I discovered poetry. Higgins School of Humanities, Clark University, Worcester (MA), calendar of events: spring 2013, p. 13. Disponível neste endereço. Acesso em: 25 fev. 2018.