Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Charles Bukowski - pequenos tigres por toda parte

Bebedeiras, mulherio e... gatos por toda parte: o tema deste poema de Bukowski não poderia fugir ao roteiro pré-estabelecido pelo escritor, sob a mesma forma caudal, espontânea e descritiva de sempre.

Bukowski relaciona Sam – administrador de um bordel – e sua inescusável vida noturna, ao deambular de “pequenos tigres” noctívagos por entre as instalações de sua casa, lá onde tais gatos fazem suas necessidades debaixo da cama e circulam pela cozinha sem pedir licença.

J.A.R. – H.C.

Charles Bukowski
(1920-1994)

little tigers everywhere

Sam the whorehouse man
has squeaky shoes
and he walks up and down
the court
squeaking and talking to
the cats.
he’s 310 pounds,
a killer
and he talks to the cats.
he sees the women at the massage
parlor and has no girlfriends
no automobile
he doesn’t drink or dope
his biggest vices are
chewing on a cigar and
feeding all the cats in
the neighborhood.
some of the cats get
pregnant
and so finally there are
more and more cats and
everytime I open my door
one or two cats will
run in and sometimes I’ll
forget they are there and
they’ll shit under the bed
or I’ll awaken at night
hearing sounds
leap up with my blade
sneak into the kitchen and
find one of Sam the whorehouse
man’s cats walking around on
the sink or sitting on top
of the refrigerator.
Sam runs the love parlor
around the corner
and his girls stand in the
doorway in the sun
and the traffic signals go
red and green and red and green
and all of Sam’s cats
possess some of the meaning
as do the days and the nights.

(1975)

Os Gatos
(Charles Wysocki: pintor norte-americano)

pequenos tigres por toda parte

Sam, o putanheiro,
tem sapatos que estalam
e ele caminha pra lá e pra cá
pelo quintal
estalando e conversando com
os gatos.
pesa 140 quilos,
um assassino
e conversa com os gatos.
ele frequenta as mulheres na casa
de massagem e não tem namoradas
ou automóvel
não bebe ou se chapa
seus maiores vícios são
mastigar um charuto e
alimentar todos os gatos
da vizinhança.
algumas das gatas ficam
prenhes
e depois por fim aparecem
mais e mais gatos e
toda a vez que abro minha porta
um ou dois gatos entram
correndo e algumas vezes acabo
esquecendo que eles estão ali e
eles cagam debaixo da cama
ou me desperto no meio da noite
com sons estranhos
pulo da cama com minha faca
entro na cozinha e lá
está um dos gatos de Sam, o putanheiro,
circulando em volta
da pia ou sentado sobre
a geladeira.
Sam administra o puteiro
da esquina
e suas garotas ficam paradas
na varanda ao sol
e o semáforo vai do
vermelho ao verde e do vermelho ao verde
e todos os gatos do Sam
possuem parte do significado
assim como fazem os dias e as noites.

(1975)

Referência:

Em Inglês

BUKOWSKI, Charles. little tigers everywhere. In: __________. Love is a dog from hell: poems, 1974-1977. Santa Barbara, CA: Black Sparrow Press, 1977. p. 297-298.

Em Português

BUKOWSKI, Charles. pequenos tigres por toda parte. Tradução de Pedro Gonzaga. In: __________. O amor é um cão dos diabos. Tradução de Pedro Gonzaga. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014. p. 293-294. (Coleção ‘L&PM Pocket’, v. 888)
ö

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Pablo Neruda - Ode às meias

Neruda nos fala em sua ode do carinho com que cuidava das meias que Maru Mori – esposa do pintor Camilo Mori, seu conterrâneo – lhes dera, a tal ponto de haver pensado em colocá-las numa gaiola para admirá-las, não propriamente usá-las. Afinal, pareceram-lhe tão belas que se as usasse poderiam rapidamente se estropiar.

O poeta, ao final, compõe um jogo de palavras para defender a ideia de que, no inverno, as meias de lã se tornam duplamente mais belas e aprazíveis que os demais objetos, porquanto só se apresentam aos pares...

J.A.R. – H.C.

Pablo Neruda
(1904-1973)

Oda a los calcetines

Me trajo Maru Mori
un par
de calcetines
que tejió con sus manos
de pastora,
dos calcetines suaves
como liebres.
En ellos
metí los pies
como en
dos estuches
tejidos
con hebras del
crepúsculo
y pellejos de ovejas.

Violentos calcetines,
mis pies fueron
dos pescados
de lana,
dos largos tiburones
de azul ultramarino
atravesados
por una trenza de oro,
dos gigantescos mirlos,
dos cañones:
mis pies
fueron honrados
de este modo
por
estos
celestiales
calcetines.
Eran
tan hermosos
que por primera vez
mis pies me parecieron
inaceptables
como dos decrépitos
bomberos, bomberos
indignos
de aquel fuego
bordado,
de aquellos luminosos
calcetines.

Sin embargo
resistí
la tentación aguda
de guardarlos
como los colegiales
preservan
las luciérnagas,
como los eruditos
coleccionan
documentos sagrados,
resistí
el impulso furioso
de ponerlos
en una jaula
de oro
y darles cada día
alpiste
y pulpa de melón rosado.
Como descubridores
que en la selva
entregan el rarísimo
venado verde
al asador
y se lo comen
con remordimiento,
estiré
los pies
y me enfundé
los
bellos
calcetines
y luego los zapatos.

Y es ésta
la moral de mi oda:
dos veces es belleza
la belleza
y lo que es bueno es doblemente
bueno
cuando se trata de dos calcetines
de lana
en el invierno.

De: “Nuevas odas elementales” (1956)

Meias Aprazíveis
(David Agenjo: pintor espanhol)

Ode às meias

Maru Mori me trouxe
um par
de meias
que teceu com suas mãos
de pastora,
duas meias macias
como lebres.
Nelas
meti os pés
como em
dois estojos
tecidos
com fios
de crepúsculo
e peles de ovelhas.

Meias violentas,
meus pés eram
dois peixes
de lã,
dois longos tubarões
de azul marinho
atravessados
por uma trança de ouro,
dois gigantescos melros,
dois canhões:
meus pés
foram homenageados
deste modo
por
estas
celestiais
meias.
Eram
tão bonitas
que pela primeira vez
meus pés me pareceram
inaceitáveis
como dois decrépitos
bombeiros, bombeiros
indignos
daquele fogo
bordado,
daquelas luminosas
meias.

Mesmo assim
resisti
à aguda tentação
de guardá-las
como os colegiais
preservam
os vagalumes,
como os eruditos
colecionam
documentos sagrados,
resisti
ao impulso furioso
de pô-las
numa gaiola
de ouro
e dar-lhes a cada dia
alpiste
e polpa de melão rosado.
Como descobridores
que na selva
entregam o raríssimo
cervo verde
ao espeto
e o comem
com remorso,
estiquei
os pés
e os enfronhei
nas
belas meias
e, em seguida, nos sapatos.

E esta é
a moral de minha ode:
duas vezes é beleza
a beleza
e o que bom é duplamente
bom
quando se trata de duas meias
de lã
no inverno.

De: “Novas odes elementares” (1956)

Referência:

NERUDA, Pablo. Oda a los calcetines. In: __________. Antología fundamental. Prólogo de Jaime Quezada. Selección de Jorge Barros. Santiago, CL: Editorial Andrés Bello, 1997. p. 253-256.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

John Ashbery - Paradoxos e Oximoros

Eis mais um poema cujo tema é a própria arte poética, simplificada a ponto de se poder associar a relação autor-leitor como a de dois amantes, com o leitor ideal equiparado a um paradoxo divino, a fustigar o poeta para levar o poema ao seu nível. Pois, como afirma Ashbery: o poema é você (o leitor)!

Assim, independentemente da mensagem concebida pelo poeta, o leitor apreciará o poema a seu modo e, dessa forma, formulará o seu “próprio poema”, não cabendo mais ao autor, por conseguinte, a tarefa de “controlar” a interpretação que do texto porventura se extraia.

J.A.R. – H.C.

John Ashbery
(n. 1927)

Paradoxes and Oxymorons

This poem is concerned with language on a very plain level.
Look at it talking to you. You look out a window
Or pretend to fidget. You have it but you don’t have it.
You miss it, it misses you. You miss each other.

The poem is sad because it wants to be yours, and cannot be.
What’s a plain level? It is that and other things,
Bringing a system of them into play. Play?
Well, actually, yes, but I consider play to be

A deeper outside thing, a dreamed role-pattern,
As in the division of grace these long August days
Without proof. Open-ended. And before you know it
It gets lost in the steam and chatter of typewriters.

It has been played once more. I think you exist only
To tease me into doing it, on your level, and then you aren’t there
Or have adopted a different attitude. And the poem
Has set me softly down beside you. The poem is you.

Abandonado como as docas
no alvorecer
(Verónica Leiton: artista chilena)

Paradoxos e Oximoros

Este poema diz respeito num nível muito simples à linguagem.
Ei-lo falando com você. Você olha pela janela
Ou finge nervosismo. Você o possui mas não possui.
Você não o encontra, nem ele a você. Vocês se desencontram.

O poema está triste, pois quer e não lhe pode pertencer.
O que é um nível simples? É isso e mais aquilo,
Pondo um sistema disso tudo em jogo. Jogo?
Bom, de fato, sim, mas considero o jogo

Algo externo e mais profundo, um papel sonhado a cumprir,
Como na graça dividida sem verificação nesses longos
Dias de agosto. Com o final em aberto. E antes de que você se dê conta
Ele se perde no calor e no matraquear das máquinas de escrever.

Foi novamente posto em jogo. Creio que você existe só
Para me provocar-me a fazê-lo, no seu nível, e então você já foi embora
Ou assumiu uma postura diferente. E o poema
depôs-me suavemente do seu lado. O poema é você.

Referência:

ASHBERY, John. Paradoxes and oxymorons / Paradoxos e oximoros. Tradução de Nelson Ascher. In: ASCHER, Nelson (Tradução e Organização). Poesia alheia: 124 poemas traduzidos. Edição bilíngue. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1998. Em inglês: p. 172; em português: p. 173. (Coleção ‘Lazuli’)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Modelo Esotérico-Matemático - Fim do 1º Turno do Brasileirão 2016

Prezado(a)s amantes do futebol,

1. Foi-se o primeiro turno do Brasileirão 2016, na série “A”. Vai aqui, por conseguinte, uma projeção para o final, considerando o fato de que, neste momento, Grêmio e Botafogo têm um jogo a menos.

2. Os números apontam queda vertiginosa no desempenho do Internacional que, apesar de não aparecer no rol abaixo, relativo a rebaixamento – haja vista que nele estão listados os times em ordem inversa de classificação na disputa –, apresenta chance média de cair, considerados os ‘sites’ ali mencionados, da ordem de 30% a 40%. Também pudera: nas últimas dez rodadas, sete derrotas e três empates, ou seja, aproveitamento de 10%.

3. No outro lado, surge o Atlético-MG, com um aproveitamento excepcional de 83,3% nas mesmas dez rodadas, equivalentes a 25 pontos de 30 possíveis: se me for permitido um aparte, diria que o time das alterosas aparece como favorito ao título, e não só porque o M.E.M. o coloca neste momento no topo da projeção, mas principalmente pelo futebol envolvente que vem praticando, com ressalvas apenas para o seu sistema defensivo, meio lento nas reações de combate.

4. Aliás, quanto a esse mister, é meritório o desempenho do Atlético-PR ao longo do mesmo número de rodadas, pois tomou apenas cinco gols, distintamente das defesas da Chapecoense (20) e do Cruzeiro (18), as mais vazadas nesse ínterim.

5. Quanto aos ataques, Santos (21) e Atlético-MG (20) estão na dianteira, enquanto América-MG (3), Figueirense (6) e Santa Cruz (7) são os mais fracos ofensivamente.

6. Um rápido esclarecimento: como a projeção do M.E.M. resultou em totais de pontos muito próximos ao final do certame, resolvi apresentá-los com uma casa decimal. Assim, percebe-se o quanto a competição está indefinida, quer na parte de baixo – onde o Internacional já começa a despontar –, quer na de cima, a apresentar diferença de apenas 4,6 pontos entre o primeiro e o sexto colocados, isso num momento em que ainda há 3 x 19 = 57 pontos em disputa, vale dizer, menos de 10% de margem, circunstância que torna perfeitamente possível uma reviravolta de posições no topo da tabela.

Um abraço a todo(a)s,

J.A.R. - H.C.

Fontes:





Wisława Szymborska - Alguns gostam de poesia

A poesia, como muitos já o fizeram em postagens anteriores deste bloguinho, admite definições e definições, e, mesmo assim, persiste indefinida. Mas, talvez, bastem para ela a expressão do autor e a sensibilidade do leitor...

Szymborska pouco se importa em racionalizá-la ou teorizá-la, a isso se agarrando como uma tábua de salvação. Para ela, há suficiência na escrita, onde bem pode estar encerrada a sua essência e significado.

J.A.R. – H.C.

Wisława Szymborska
(1923-2012)

Niektórzy lubią poezję

Niektórzy –
czyli nie wszyscy.
Nawet nie większość wszystkich ale mniejszość.
Nie licząc szkół, gdzie się musi,
i samych poetów,
będzie tych osób chyba dwie na tysiąc.

Lubią
ale lubi się także rosół z makaronem,
lubi się komplementy i kolor niebieski,
lubi się stary szalik,
lubi się stawiać na swoim,
lubi sie głaskać psa.

Poezje –
tylko co to takiego poezja.
Niejedna chwiejna odpowiedź
na to pytanie już padła.
A ja nie wiem i nie wiem i trzymam się tego
jak zbawiennej poręczy.

In: “Koniec i początek” (1993)

Jovem negro com cesta de frutas
e moça a acariciar um cão
(Antoine Coypel: pintor francês)

Alguns gostam de poesia

Alguns –
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam –
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia –
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

Em: “Fim e começo” (1993)

Referência:

SZYMBORSKA, Wisława. Niektórzy lubią poezję / Alguns gostam de poesia. In: __________. Poemas. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. Edição Bilíngue. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2011. Em português: p. 91; em polonês: p. 154.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Wallace Stevens - Último Solilóquio do Amante Interior

Temos aqui mais um poema, como tantos os que Stevens legou à posteridade, no qual o poeta se debruça sobre o tema da vida, de suas formas e, caso existam, suas finalidades: volta-se ele ao lugar interior, dentro de nós, no qual se manifestam o pensamento, o conhecimento e a imaginação.

O fluxo da experiência consciente e o discurso interno sobre tal experiência povoam o que Stevens concebe como “mente central”, capaz até mesmo de idealizar a figura divina, enquanto fundamento do eterno a amparar todas os portentos que nos rodeiam.

J.A.R. – H.C.

Wallace Stevens
(1879-1955)

Final Soliloquy of the Interior Paramour

Light the first light of evening, as in a room
In which we rest and, for small reason, think
The world imagined is the ultimate good.

This is, therefore, the intensest rendezvous.
It is in that thought that we collect ourselves,
Out of all the indifferences, into one thing:

Within a single thing, a single shawl
Wrapped tightly round us, since we are poor, a warmth,
A light, a power, the miraculous influence.

Here, now, we forget each other and ourselves.
We feel the obscurity of an order, a whole,
A knowledge, that which arranged the rendezvous

Within its vital boundary, in the mind.
We say God and the imagination are one…
How high that highest candle lights the dark.

Out of this same light, out of the central mind,
We make a dwelling in the evening air,
In which being there together is enough. 

Casa na Colina
(Leonid Afremov: pintor israelense)

Último Solilóquio do Amante Interior

Acende a primeira luz noturna, como num quarto
No qual repousamos e, por muito pouco, cogitamos
Que o mundo imaginado é o bem supremo.

Este é, por conseguinte, o mais intenso encontro.
Tal é o pensamento em que nos recolhemos,
Longe de todas as indiferenças, em uma coisa:

Em meio a uma única coisa, uma única manta
A nos cingir firmemente, pois pobres somos, um calor,
Uma luz, um poder, a influência milagrosa.

Aqui, agora, podemos esquecer os outros e nós mesmos.
Sentimos a obscuridade de uma ordem, uma totalidade,
Um conhecimento, que organizou o encontro

Dentro de suas fronteiras vitais, na mente.
Nós afirmamos que Deus e a imaginação são um...
Quão elevada é essa vela que tão alta alumia a escuridão.

Fora desta mesma luz, fora da mente central,
Erigimos nossa morada ao ar noturno,
Onde lá estarmos os dois juntos é o quanto basta.

Referência:

STEVENS, Wallace. Final soliloquy of the interior paramour. In: __________. The collected poems. Eleventh printing. New York, NY: Alfred A. Knopf Inc., 1971. p. 524.