Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Cleonice Rainho - Mandarinato

A poetisa mineira, num exercício de identificação lírica com uma figura histórica e cultural distante – o mandarim chinês –, lança mão do imaginário imperial sínico para refletir sobre a função desse representante estatal em preservar e transmitir a cultura de seu país, sobretudo o idioma – enquanto pilar de uma civilização já milenar –, ao mesmo tempo que exteriorizar os atributos de sabedoria, da tradição e do poder.

 

Poder-se-iam correlacionar os referentes compendiados por Rainho em sua descrição da identidade desse agente público oriental – a de erudito, mestre, conselheiro político, mas, sobretudo, de sábio e artista –, com os de todos aqueles que se dedicam ao ofício da escrita – o poeta aí incluso –, os quais, “sabendo escolher conceitos”, buscam dar ordem ao mundo através da palavra, com sensibilidade e beleza.

 

J.A.R. – H.C.

 

Cleonice Rainho

(1919-2012)

 

Mandarinato

 

Sou um mandarim:

fui astrólogo da corte,

aprendi a ver estrelas

(fascinavam-me os quartos de lua)

e fui um dos grandes letrados,

sabendo escolher conceitos.

Perlustrei livros sagrados,

dei-me ao culto de Confúcio,

escrevi ternos poemas.

Enfrentei a fragmentação feudal,

circulei entre vários reinos,

disputando a hegemonia.

Fui honroso conselheiro,

redigi apreciados sutras,

percorri, como professor,

distantes vilas e aldeias,

treinando letras ideográficas.

Ensinei a olhar a Natureza,

a distinguir a ordem cósmica

e, doce privilégio!

– amei bela mandarina.

 

Rolam no tempo reinos guerreiros,

política e religião se aninham

no valor e força da linguagem escrita.

E me ergo, camada dirigente,

na administração do Estado,

funcionários burocráticos,

tradicionalistas religiosos,

audaciosos inovadores políticos

identificados com

 a Unidade Chinesa.

 

Um Mandarim Chinês

(George Chinnery: pintor inglês)

 

Referência:

 

RAINHO, Cleonice. Mandarinato. In: __________. Poemas chineses. Brasília, DF: Editora Códice, 1997. p. 22-23.

Um comentário:

  1. Querido J.A.R, agora que você que nos devolve a presença de Cleonice Rainho, consigo senti-la, posso dizer, respirando aqui, bem perto de mim Trazê-la de volta através desse poema (que eu não conhecia) é uma missão que lhe foi confiada pelos deuses da poesia. Minas agradece. A Poesia de Minas agradece esse carinho. Cleonice Rainha está viva na emoção dessa lembrança que recebemos como um presente. Obrigado por divulgar essa importante figura de Minas. Cleonice Rainho merece, de fato, ser lembrada e festejada. Um abraço poético e barroco de seu amigo e admirador, GR (26/09/2026).

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