Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 26 de junho de 2022

Angélica Freitas - família vende tudo

Tudo se vende na família de quem se fala no poema, de pessoas a animais, de plantas a elementos decorativos, a bem dizer, por preços bem módicos – abaixo dos de mercado –, porque a necessidade de recursos é premente, haja vista o notório processo de empobrecimento ou de insolvência em que a parentela incorrera.

 

Trazendo o poema para a realidade do país, frise-se o elevado nível de endividamento dos consumidores pátrios, a atingir 72% deles ou algo da ordem de 62 milhões de pessoas, em jul/21. Ademais, na linha de “extrema pobreza”, em consequente insegurança alimentar, há outras 19 milhões, catastroficamente num país que está entre os líderes mundiais na produção de grãos.

 

Tem-se aí um cenário que se amolda à letra da canção “A Novidade”, do Paralamas do Sucesso: “De um lado, esse carnaval; do outro, a fome total”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Angélica Freitas

(n. 1973)

 

família vende tudo

 

família vende tudo

um avô com muito uso

um limoeiro

um cachorro cego de um olho

família vende tudo

por bem pouco dinheiro

um sofá de três lugares

três molduras circulares

família vende tudo

um pai engravatado

depois desempregado

e uma mãe cada vez mais gorda

do seu lado

família vende tudo

um número de telefone

tantas vezes cortado

um carrinho de supermercado

família vende tudo

uma empregada batista

uma prima surrealista

uma ascendência italiana & golpista

família vende tudo

trinta carcaças de peru (do natal)

e a fitinha que amarraram no pé do júnior

no hospital

família vende tudo

as crianças se formaram

o pai faliu

deve grana para o banco do brasil

vai ser uma grande desova

a casa era do avô

mas o avô tá com o pé na cova

família vende tudo

então já viu

no fim dá quinhentos contos

pra cada um

o júnior vai reformar a piscina

o pai vai abrir um negócio escuso

e pagar a vila alpina

pro seu pai com muito uso

família vende tudo

preços abaixo do mercado

 

Deixando o lar

(William Gilbert Gaul: pintor norte-americano)

 

Referência:

 

FREITAS, Angélica. família vende tudo. In: __________. Rilke shake. São Paulo, SP: Cosac Naify; Rio de Janeiro, RJ: 7Letras, 2007. p. 17-18. (Coleção ‘Ás de Colete’; v. 15)

sábado, 25 de junho de 2022

Robert Graves - O Castelo

O falante se vê imerso em fantasmagorias, num pátio de castelo invulnerável de onde pretende sair de qualquer modo, mas que, ao fim, inúteis resultam seus esforços, físicos ou mentais, permanecendo ele insone e banhado pela luz da lua: não há fuga sequer por meio do sonho e o ente lírico há de suportar o medo, a febre, a angústia e mesmo o risco de morte.

 

A esse “pesadelo” suscitado pelo castelo – verdadeiro arquétipo do mal – não se propõem saídas, antes, declara-se desde logo que “não há escapatórias”, tanto assim que o cenário se destaca bem mais vinculado ao conteúdo psicológico que ao cronológico do tempo, denotando desse modo um padecimento do autor que, se não é físico, tende a ser espiritual.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Graves

(1895-1985)

 

The Castle

 

Walls, mounds, enclosing corrugations

Of darkness, moonlight on dry grass.

Walking this courtyard, sleepless, in fever;

Planning to use – but by definition

There’s no way out, no way out –

Rope ladders, baulks of timber, pulleys,

A rocket whizzing over the walls and moat –

Machines easy to improvise.

No escape.

No such thing; to dream of new dimensions,

Cheating checkmate by painting the king’s robe

So that he slides like a queen;

Or to cry, ‘Nightmare, nightmare!’

Like a corpse in the cholera-pit

Under a load of corpses;

Or to run the head against these blind walls,

Enter the dungeon, torment the eyes

With apparitions chained two and two,

And go frantic with fear –

To die and wake up sweating by moonlight

In the same courtyard, sleepless as before.

 

Uma vista do castelo de Doorwerth

(Cornelis Kuypers: pintor holandês)

 

O Castelo

 

Muros, montes, delimitando corrugações

Da escuridão, luar sobre a relva seca.

Caminhando por este pátio, insone, com febre;

Planejando utilizar – embora por definição

Não haja saída, nenhuma saída –

Escadas de corda, andaimes, roldanas,

Um rojão a zunir sobre as paredes e o fosso –

Máquinas fáceis de improvisar.

Nenhum ponto de fuga.

Nada que se lhe pareça; sonhar com novas dimensões,

Trapacear com o xeque-mate pintando o manto do rei

Para que possa se arrastar como uma rainha;

Gritar ‘Pesadelo, pesadelo!’,

Como um cadáver na fossa do cólera

Sob uma carga de cadáveres;

Ou apontar a cabeça contra esses muros cegos;

Entrar na masmorra, atormentar os olhos

Com fantasmas acorrentados aos pares,

E ficar frenético de medo –

Morrer e acordar suando ao luar

No mesmo pátio, insone como antes.

 

Referência:

 

GRAVES, Robert. The castle. In: __________. Collected poems. New York, NY: Anchor Books, 1966. p. 51.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Paul Verlaine - Nevermore

Incluído entre os “Poèmes Saturniens” (“Poemas Saturnianos”), de 1866, este “pantoum” malaio, de conteúdo e forma a revelar franca influência baudelairiana, torna explícita, do mesmo modo, combinações frasais ou ideias muito caras ao norte-americano Allan Poe, a exemplo de “nevermore”, “sinos” ou “fatalidade”.

 

Consigne-se que, com o mesmo título (“Nevermore”), na mesma obra (“Poemas Saturnianos”), mantido o mesmo padrão de elegância e  de refinamento, há um outro poema de Verlaine, em forma de soneto, já aqui postado, dando razões a quem o inserta no conhecido grupo dos “poetas malditos”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Paul Verlaine

(1844-1896)

 

Nevermore

 

Allons, mon pauvre coeur, allons, mon vieux complice,

Redresse et peins à neuf tous tes arcs triomphaux;

Brûle un encens ranci sur tes autels d’or faux;

Sème de fleurs les bords béants du précipice;

Allons, mon pauvre coeur, allons, mon vieux complice!

 

Pousse à Dieu ton cantique, ô chantre rajeuni;

Entonne, orgue enroué, des Te Deum splendides;

Vieillard prématuré, mets du fard sur tes rides;

Couvre-toi de tapis mordorés, mur jauni;

Pousse à Dieu ton cantique, ô chantre rajeuni.

 

Sonnez, grelots; sonnez, clochettes; sonnez, cloches!

Car mon rêve impossible a pris corps, et je l’ai

Entre mes bras pressé: le Bonheur, cet ailé

Voyageur qui de l’Homme évite les approches,

--Sonnez, grelots; sonnez, clochettes; sonnez, cloches!

 

Le Bonheur a marché côte à côte avec moi;

Mais la FATALITÉ ne connaît point de trêve:

Le ver est dans le fruit, le réveil dans le rêve,

Et le remords est dans l’amour: telle est la loi.

– Le Bonheur a marché côte à côte avec moi.

 

O jardim florido

(Claude Monet: pintor francês)

 

Nervermore

 

Vamos, meu coração, meu velho camarada,

Aos arcos de triunfo dá novos capitéis,

Queima rançoso incenso no altar de ouropéis;

E semeia de flor o precipício e o nada;

Vamos, meu coração, meu velho camarada!

 

Ergue o cântico a Deus, chantre jovem e belo;

Teus fúlgidos Te Deum entoa, ó órgão rouco;

Ó velho prematuro, as rugas cobre um pouco;

Põe a tapeçaria, longe muro amarelo;

Ergue o cântico a Deus, chantre jovem e belo.

 

Guizos, soai! Soai, sinetas; soai, sinos!

Pois meu sonho impossível tomou corpo ao lado,

Ei-lo seguro, enfim, o Sossego, este alado

Viajor a evitar o Homem e os desatinos,

– Guizos, soai! Soai, sinetas; soai, sinos!

 

Caminhou a Ventura, de mãos dadas comigo;

Mas a FATALIDADE é perene, eu suponho;

O verme está no fruto e o despertar no sonho,

E o remorso no amor; esta é a lei e o castigo.

Caminhou a Ventura de mãos dadas comigo.

 

Referências:

 

Em Francês

 

VERLAINE, Paul. Nevermore. Disponível neste endereço. Acesso em: 12 jun. 2022.

 

Em Português

 

VERLAINE, Paul. Nevermore. Tradução de Jamil Almansur Haddad. In: __________. Passeio sentimental: poemas. Seleção, tradução, prefácio e notas de Jamil Almansur Haddad. São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1989. p. 60.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Orides Fontela - Fala

Tudo o que se expressa por meio da realidade se converte em palavras que ressoam pesadas, “duras”, “difíceis”, “impiedosas”, “ferinas” aos ouvidos da falante, em sua consciência, em seus sentidos, tornando a fala um exercício sem suavidade, agressivo até, de tanta lucidez impregnada em seus densos signos.

 

Nesse contexto, “toda palavra é crueldade”: se tal modo de ser, devotado a uma alocução inclemente, revela o seu poder “despedaçador”, o que diria a poetisa sobre a mensagem do “silêncio”, tanto mais se se revestir da mesma crueldade, entenda-se melhor, da mesma gravidade que, agora, tenderá a morrer insepulta em seu próprio íntimo?

 

J.A.R. – H.C.

 

Orides Fontela

(1940-1998)

 

Fala

 

Tudo

será difícil de dizer:

a palavra real

nunca é suave.

 

Tudo será duro:

luz impiedosa

excessiva vivência

consciência demais do ser.

 

Tudo será

capaz de ferir. Será

agressivamente real.

Tão real que nos despedaça.

 

Não há piedade nos signos

e nem no amor: o ser

é excessivamente lúcido

e a palavra é densa e nos fere.

 

(Toda palavra é crueldade.)

 

Uma canção sem palavras

(George Hamilton Barrable: pintor inglês)

 

Referência:

 

FONTELA, Orides. Fala. In: __________. Poesia reunida: 1969-1996. São Paulo, SP: Cosac Naify; Rio de Janeiro, RJ: 7Letras, 2006. p. 31. (Coleção ‘Ás de Colete’; v. 12)

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Archibald MacLeish - Homens

Embora não se saiba, exatamente, a frase a que diz respeito a epígrafe deste poema de MacLeish, imagino que deva pertencer à obra “Caligramas”, de Apollinaire, pois que, pelo teor de suas linhas, associado a atividades desenvolvidas em períodos particularmente belicosos, acaba por se concatenar, de algum modo, ao subtítulo “Poemas da paz e da guerra: 1913-1916”.

 

Seja dito de passagem que é de Apollinaire uma frase bastante controvertida: “Ai, meu Deus! Como é bonita a guerra!”. Talvez porque a guerra confira um sentido de urgência àqueles que nela estão envolvidos, uma sensação de que tudo pode findar de uma hora para outra, de se estar tão inseguro quanto com a espada de Dâmocles na iminência de seu golpe letal, tornando impostergáveis as ações a adotar em relação ao aqui e ao agora.

 

J.A.R. – H.C.

 

Archibald MacLeish

(1892-1982)

 

Men

 

(on a phrase of Apollinaire)

 

Our history is grave noble and tragic.

We trusted the look of the sun on the green leaves.

We built our towns of stone with enduring ornaments.

We worked the hard flint for basins of water.

 

We believed in the feel of the earth under us.

We planted corn grapes apple-trees rhubarb.

Nevertheless we knew others had died.

Everything we have done has been faithful and dangerous.

 

We believed in the promises made by the brows of women.

We begot children at night in the warm wool.

We comforted those who wept in fear on our shoulders.

Those who comforted us had themselves vanished.

 

We fought at the dikes in the bright sun for the pride of it.

We beat drums and marched with music and laughter.

We were drunk and lay with our fine dreams in the straw.

We saw the stars through the hair of lewd women.

 

Our history is grave noble and tragic.

Many of us have died and are not remembered.

Many cities are gone and their channels broken.

We have lived a long time in this land and with honor.

 

In: “New Found Land” (1930)

 

Uma batalha de cavalaria

(Salvator Rosa: pintor italiano)

 

Homens


(sobre uma frase de Apollinaire)

 

Nossa história é grave, nobre e trágica.

Confiamos na aparência do sol sobre as folhas verdes.

Construímos nossas cidades de pedra com ornamentos perduráveis.

Trabalhamos o duro pedernal para obter gamelas de água.

 

Acreditamos na sensação da terra sob nossos pés.

Plantamos milharais, videiras, macieiras, rizomas de ruibarbos.

Ainda que soubéssemos que outros haviam morrido.

Tudo quanto fizemos foi íntegro e arriscado.

 

Acreditamos nas promessas feitas pelas frentes das mulheres.

Geramos crianças durante a noite envoltos na lã quente.

Confortamos em nossos ombros aqueles que choravam de medo.

Aqueles que nos confortavam haviam desaparecido.

 

Lutamos nas trincheiras, sob o sol brilhante, pelo orgulho de o fazer.

Tocamos tambores e marchamos entre músicas e risadas.

Embriagamo-nos e recostamo-nos com nossos belos sonhos sobre

a palha.

Vimos as estrelas através dos cabelos de lascivas mulheres.

 

Nossa história é grave, nobre e trágica.

Muitos de nós já morreram e jazem esquecidos.

Muitas cidades desapareceram e seus canais foram destroçados.

Vivemos por muito tempo nesta terra e com honra.

 

Em: “Terra Nova” (1930)

 

Referência:

 

Macleish, Archibald. Men. In: Collected poems: 1917-1952. Boston, MA: The Riverside Press Cambridge / Houghton Mifflin Company, 1952. p. 60.