Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Lawrence Ferlinghetti - Cristo Abandonou

O hoje já quase centenário Ferlinghetti, um dos últimos representantes vivos da denominada “Geração Beat”, ironiza distintas paisagens extraídas ao trato norte-americano com a temporada natalina, claro está, quase sempre impregnadas pelo indefectível apelo comercial.

A situação, aos olhos do poeta, é tão descomedida que até o enaltecido – o próprio Cristo – resolve se retirar do aduzido cenário, para um local bem apartado, onde as chances de as circunstâncias e fatos retratados virem a ocorrer mostrem-se remotas.

J.A.R. – H.C.

Lawrence Ferlinghetti
(n. 1919)

Christ Climbed Down

Christ climbed down
from His bare Tree
this year
and ran away to where
there were no rootless Christmas trees
hung with candycanes and breakable stars

Christ climbed down
from His bare Tree
this year
and ran away to where
there were no gilded Christmas trees
and no tinsel Christmas trees
and no tinfoil Christmas trees
and no pink plastic Christmas trees
and no gold Christmas trees
and no black Christmas trees
and no powderblue Christmas trees
hung with electric candles
and encircled by tin electric trains
and clever cornball relatives

Christ climbed down
from His bare Tree
this year
and ran away to where
no intrepid Bible salesmen
covered the territory
in two-tone cadillacs
and where no Sears Roebuck crèches
complete with plastic babe in manger
arrived by parcel post
the babe by special delivery
and where no televised Wise Men
praised the Lord Calvert Whiskey

Christ climbed down
from His bare Tree
this year
and ran away to where
no fat handshaking stranger
in a red flannel suit
and a fake white beard
went around passing himself off
as some sort of North Pole saint
crossing the desert to Bethlehem
Pennsylvania
in a Volkswagen sled
drawn by rollicking Adirondack reindeer
with German names
and bearing sacks of Humble Gifts
from Saks Fifth Avenue
for everybody’s imagined Christ child

Christ climbed down
from His bare Tree
this year
and ran away to where
no Bing Crosby carolers
groaned of a tight Christmas
and where no Radio City angels
iceskated wingless
thru a winter wonderland
into a jinglebell heaven
daily at 8:30
with Midnight Mass matinees

Christ climbed down
from His bare Tree
this year
and softly stole away into
some anonymous Mary’s womb again
where in the darkest night
of everybody’s anonymous soul
He awaits again
an unimaginable
and impossibly
Immaculate Reconception
the very craziest
of Second Comings

Papai Noel
(William Holbrook Beard: pintor norte-americano)

Cristo Abandonou

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há árvores de Natal desenraizadas
e com penduricalhos pendurados pelos galhos

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há árvores de Natal luminescentes
ou árvores de Natal de estanho folheado
ou árvores de Natal de estranhos floreados
ou árvores de Natal de plástico rosa
ou árvores de Natal douradas
ou árvores de Natal negras
ou árvores de Natal azul-esmalte
com velas elétricas
e trenzinhos elétricos rodando em volta
e parentes elegantes se empanturrando
de sarrabulho.

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há intrépidos vendedores de Bíblias
cobrindo a nação
em cadillacs obesos
nem presépios das lojas Sears
completos com bebê de plástico na manjedoura
e tudo
enviados pelo correio
e bebê vem pela entrega rápida
nem Sábios televisivos
entoando cânticos de louvor ao uísque
Lord Calvert

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
nenhum gordo estranho apertando as mãos
metido numa roupa vermelha de flanela
com uma barba branca falsa
fica circulando
como se fosse uma espécie de santo do
Pólo Norte
cruzando o deserto até Belém
na Pennsylvania
num trenó
puxado por renas tilintantes de Adirondack
com nomes alemães
transportando sacos cheios de presentes
da Saks da Quinta Avenida
para que todos celebrem Cristo criança

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
Bing Crosby nenhum recita
canções de Feliz Natal
nem anjos da Radio City
patinam desasados
por um gélido País das Maravilhas
em direção ao Paraíso do jinglebell
diariamente às 8:30
com matinês da Missa do Galo

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e furtivamente fugiu rumo
ao útero anônimo de Maria outra vez
onde na escuridão da noite
das almas anônimas de nós todos
Ele aguarda novamente
uma inimaginável
e impossível
Reconcepção Imaculada
na mais doida de todas
as Segundas Vindas

Referência:

FERLINGHETTI, Lawrence. Christ climbed down / Cristo abandonou. Tradução de Eduardo Bueno. In: __________. Um parque de diversões da cabeça. Tradução de Eduardo Bueno e Leonardo Fróes. Edição bilíngue. 2. ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2007. Em inglês: p. 138, 140 e 142; em português: p. 139, 141 e 143. (L&PM Pocket Beat; nº 661)


segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Aloysio de Castro - Natal ‎

Sob a forma de um esquema, um roteiro, um programa, o poeta dirige-se ao leitor, com sugestões de como usufruir a mensagem cuja luz paira sobre o presépio, essa metáfora de iluminação para quem deseja ser divino em sua própria humanidade.

E como para tudo, em termos de poesia, há correlatos no significante ou no significado, basta recorrer à anamnese para evocar, no momento presente, passagens de semelhante beleza, como aquela de Whitman em “Salut au Monde”, cuja seção completa ainda hei de aqui postar: “Cada um de nós inevitável; cada um ilimitado – cada um com o seu direito neste mundo; cada um com acesso aos eternos sentidos do mundo; cada um aqui tão divino quanto tudo”. (Whitman, 1903, p. 118-119)

J.A.R. – H.C.

Aloysio de Castro
(1881-1959)

Natal

Chegado o tempo, o sol se abriu dentro da noite,
Luz da palavra nova, esperança e verdade.
E os cânticos do mar e os cânticos da terra
Disseram para os céus: Glória a Deus neste Cristo!
Lá no escuro da noite e no escuro da gruta
O Enviado do Senhor era o sol que brilhava.

Homem de hoje, que em vão, na vida, entre vertigens,
Queres fazer do mundo a só felicidade,
E por mar de naufrágio abres ao vento as velas,
Sem âncora nem leme, ao léu num mar de culpas,
O dúbio coração, incerto e desgarrado,
Muda-o, buscando além a paz, a força, a glória.
No teu suado lidar terás frescor e alívio.
A vida – prece e amor – vive-a contente e canta
Com a terra e o mar aos céus: Glória a Deus neste Cristo!

Por que buscas lá fora as púrpuras e as pérolas,
Quando em ti a riqueza e a beleza das coisas?
Alenta-te na fé, com o cálice da humildade.
Levanta ao alto o olhar, ergue as mãos fatigadas,
No campo azul do céu colhe a flor das alturas,
A incomutável flor das divinas essências,
E na alma inquieta instila os místicos eflúvios,
Perfume da piedade e do perdão que salva.
Homem de hoje, insofrido, em turbação constante,
Abraça teu irmão, foge à guerra e ao seu fogo.
Vive só para o bem, crê na voz das promessas,
Prantos e desespero, abafa-os num sorriso.
Despe o sudário doloroso da tristeza,
Corre à tua alegria! Homem, sê imortal,
Deixa que hoje esta luz te entre a jorros na casa,
Neste dia de sol, que nunca terá noite:
Luz de Deus, sol de Deus, no dia do Natal.

Adoração dos Pastores
(Caravaggio: pintor italiano)

Referências:

CASTRO, Aloysio. Natal. In: __________. Poesias completas. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi Ltda., 1951. p. 170-171.

WHITMAN, Walt. Salut au monde!, part 11, in fine. In: __________. Leaves of grass. London, EN: G. P. Putnam’s Sons; Boston, MA: Small, Maynard & Company, 1903.

  

domingo, 24 de dezembro de 2017

Juan Antonio Massone - Natal de um Velho à Espera do Menino ‎

O poeta chileno relata o que ocorre consigo na sequência veloz dos dias, quando mal tem tempo para agradecer pelos favores pródigos da vida e, por extensão, da própria natureza. Somente quando se encontra com água à volta do pescoço é que lhe vem à mente essa potência latente, em perene fluir.

Não sucede apenas ao poeta tais deslembranças, mas a muitos de nós, que apenas acorremos às bordas da manjedoura a esta época do ano, quando então percebemos quão distante da idealidade do Verbo estamos, ao não reverenciarmos o espírito que, em sua constância, nos franqueia a renovação da face da terra.

J.A.R. – H.C.

Juan Antonio Massone
(n. 1950)

Navidad de un Viejo en Espera del Niño

No ha sabido la sonrisa
festejar el rocío del amanecer.
La nocturna sed me atrapa
con el agua al cuello. A veces
atiendo tu llamado; ocasiones,
nada más, cuando adivina
la sonrisa que eres Tú
y escucha, cuesta abajo, el agua.
Quebranto de no saber quererte.
Hay tantas lágrimas, ahora mismo,
de qué dar cuenta. Aroma de tierra
mojada por la niebla. Aún así, recoges
lo que ignoro decir, y me abrazas,
Niño-Verbo nacido entre animales.

Adoração dos Pastores
(Carlo Maratta: pintor italiano)

Natal de um Velho à Espera do Menino

O sorriso não soube
festejar o orvalho do amanhecer.
A noturna sede me alcança
com a água ao pescoço. Às vezes
atendo ao teu chamado; ocasiões,
nada mais, quando o sorriso
advinha que és Tu
e escuta, encosta abaixo, a água.
Pesar por não saber querer-te.
Há tantas lágrimas, agora mesmo,
a levar em conta. Aroma de terra
molhada pela névoa. Ainda assim, recolhes
o que ignoro dizer, e me abraças,
Menino-Verbo nascido entre animais.

Referência:

MASSONE, Juan Antonio. Navidad de un viejo en espera del niño. In: ALENCART, A. P.; CRUZ-VILLALOBOS, Luis (Eds.). Carne del cielo: versos de navidad. Antología de poetas iberoamericanos de hoy. Pinturas de Miguel Elías. Santiago, CL: Hebel Ediciones, 2015. p. 72. Disponível neste endereço.
  

sábado, 23 de dezembro de 2017

Geoffrey Hill - Árvores de Natal

Hill, poeta inglês, saúda o exemplo do teólogo e pastor luterano alemão Dietrich Bonhoeffer, que, por se posicionar frontalmente contrário à política nazista, foi levado à prisão de Tegel, em Berlim, e posteriormente morto, num “sacrifício” que, aos olhos de Hill, teve o condão de restaurar “os temas interrompidos de louvor” num mundo incrédulo.

Bonhoeffer foi detido em razão de a Gestapo suspeitar que estivesse envolvido na ajuda a judeus para escapar ao 3º Reich, o que era suspeita bem fundada. Contudo, depois do plano falhado de assassinar Hitler em 20 de julho de 1944, veio a se tornar claro que também estava envolvido naquela conspiração, razão por que foi sumariamente executado em 9 de abril de 1945, em Flossenbürg.

Muito provavelmente o título concedido pelo inglês ao poema tenha a ver com o nascimento de Cristo e a alegoria conexa da Palavra que se tornou carne, a teor da versão do Evangelho de João ao português: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1: 14).

J.A.R. – H.C.

Geoffrey Hill
(1932-2016)

Christmas Trees

Bonhoeffer in his skylit cell
bleached by the flares’ candescent fall,
pacing out his own citadel,

restores the broken themes of praise,
encourages our borrowed days,
by logic of his sacrifice.

Against wild reasons of the state
his words are quiet but not too quiet.
We hear too late or not too late.

Oh Árvore de Natal
(Richard Klingbeil: artista norte-americano)

Árvores de Natal

Bonhoeffer em sua cela com fenestra
clareada pelo evolar candente das chamas,
passeando por sua própria cidadela,

restaura os temas interrompidos de louvor,
encoraja os nossos dias emprestados,
pela lógica de seu sacrifício.

Contra as razões selvagens do Estado,
suas palavras são tranquilas, mas nem tanto.
Escutamo-las tão tardiamente ou nem tanto.

Referência:

HILL, Geoffrey. Christmas trees. In: HOLLANDER, John; McCLATCHY, J. D. (Sel. & Ed.). Christmas poems. New York, NY: Alfred A. Knopf, 1999. p. 153. (‘Everyman’s Library: Pocket Poets’)


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

John Suckling - Sobre Cristo e Seu Nascimento

Mais que uma necessidade física de um lugar para descanso, o sujeito lírico, identificado com o próprio Cristo, procura abrigo nos corações dos homens, ali onde a sua palavra busca reverberar, para transportá-los até a plena luz da espiritualidade, em seus pensamentos, ações e emoções.

Suckling refere-se a homens que não acolhem a palavra de Cristo como possuidores de um coração de barro e não de carne, portanto, com o seu eixo de empatia enrijecido o suficiente para que uma palavra de fraternidade possa encontrar acolhida.

J.A.R. – H.C.

John Suckling
(1609-1641)
Pintura de Antoon van Dyck

Upon Christ His Birth

Strange news! a city full? will none give way
To lodge a guest that comes not every day?
No inn, nor tavern void? yet I descry
One empty place alone, where we may lie:
In too much fullness is some want: but where?
Men’s empty hearts: let’s ask for lodging there.
But if they not admit us, then we’ll say
Their hearts, as well as inns, are made of clay.

Anjos anunciam o nascimento
de Cristo aos pastores
(Govert Teunisz Flinck: pintor holandês)

Sobre Cristo e Seu Nascimento

Notícias estranhas! uma cidade cheia? Ninguém se disporá
A alojar um hóspede que não aparece todos os dias?
Nenhum albergue, nem taberna vazia? Porém eu descubro
Um lugar vago e retirado, onde poderemos repousar:
Em tanta plenitude alguma carência remanesce: mas onde?
Nos vazios corações dos homens: pediremos abrigo lá.
Mas se eles não nos admitirem, então lhes diremos que
Nada mais são do que barro os seus corações e albergues.

Referência:

SUCKLING, John. Upon Christ his birth. In: HOLLANDER, John; McCLATCHY, J. D. (Sel. & Ed.). Christmas poems. New York, NY: Alfred A. Knopf, 1999. p. 45. (‘Everyman’s Library: Pocket Poets’)


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Paul Claudel - São José

Claudel, grande acadêmico e literato francês, é autor de escritos que se detêm a refletir sobre a vida de alguns santos da Igreja – como São Jorge, Santa Teresa, São Luís e, obviamente, São José, dentre outros –, os quais foram recolhidos à obra “Feuilles de saints” (“Folhas de santos”), de 1925. Trata-se, portanto, de um poeta religioso, a abraçar perspectivas teológicas sem rodeios: um autêntico vate litúrgico!

O excerto abaixo, dela extraído, diz respeito à meditação sobre São José, esposo de Maria, de quem se aprecia o amor vivenciado no silêncio, o autêntico mentor da palavra. Um silêncio expresso de modo eloquente por meio do labor, da consciência da responsabilidade paternal e do equilíbrio interior.

J.A.R. – H.C.

Paul Claudel
(1858-1955)

Saint Joseph

Quand les outils
sont rangés à leur place
et que le travail du jour est fini,
Quand du Carmel au Jourdain
Israël s’endort dans le blé
et dans la nuit,
Comme jadis
quand il était jeune garçon
et qu’il commençait à faire
trop sombre pour lire,
Il a préféré la Sagesse et c’est elle
qu’on lui amène pour l’épouser.
Il est silencieux comme la terre
à l’heure de la rosée,
Il est dans l’abondance
et dans la nuit;
il est bien dans la joie;
il est bien avec la vérité,
Marie est en sa possession
et il l’entoure de tous côtés…
De nouveau il est dans le Paradis
avec Ève.
Ce visage dont tous les hommes
ont besoin, il se tourne avec amour et
soumission vers Joseph.
Ce n’est plus la même prière et
ce n’est plus l’ancienne attente depuis qu’il sent
un bras tout à coup sans haine,
l’appuiement de cet être profond et innocent.
Ce n’est plus la foi toute nue dans
la nuit, c’est l’amour qui explique et qui opère.
Joseph est avec Marie et Marie est avec le Père.

O Sonho de São José
(Anton Raphael Mengs: pintor alemão)

Saint Joseph

Quando as ferramentas estão arrumadas,
em seu lugar, e terminou o trabalho do dia.
Quando, do Carmelo ao Jordão, Israel dorme
no meio das searas e da noite.
Como outrora, quando era criança e começara
a ficar muito escuro para ler,
José, com um grande suspiro,
entra em conversação com Deus.
Ele preferiu a sabedoria, e ela é trazida para que
a despose.
Ele está silencioso, como terra
quando tudo se faz róseo.
Ele está na abundância da noite,
está de bem com a verdade.
Maria é sua posse, e ele a rodeia
por todos os lados.
Não foi num só dia que aprendeu
a não estar só.
Uma mulher conquistou cada parte
desse coração, agora prudente e paternal.
E de novo está no Paraíso com Eva!
Este rosto, do qual todos os homens
têm necessidade, volta-se com amor e
submissão para José.
Esta já não é a mesma prece e
esta já não é a antiga espera depois que se
sente, como um braço repentinamente sem ódio,
o apoio deste ser profundo e inocente.
Já não é a fé totalmente nua
na noite, é o amor que explica e que opera.
José está com Maria, e Maria
está com o Pai.

Referências:

Em Francês

CLAUDEL, Paul. Saint Joseph. In: __________. Feuilles de saints. 2. éd. Paris, FR: Gallimard, 1925. p. 39 sq.

Em Português

CLAUDEL, Paul. Saint Joseph. Tradução presumida de João Paulo dos Reis Velloso. In: VELLOSO, João Paulo dos Reis. A comunidade do amor. Rio de Janeiro, RJ: Livros do Futuro, 2016. p. 195-196.