Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A Condição de Ser Judeu - Parte II

Aqui entro num terreno extremamente delicado. Qualquer argumento que se possa considerar será por força não mais do que intuitivo e aproximativo. Será inevitavelmente pessoal e composto de um mosaico de fragmentos narrativos e de impressões. Haverá uma “judeidade” que não seja uma contingência relativa às circunstâncias históricas e ao meio social, resultando de reflexos de comportamento ou do registro de tradições em grande parte mitológicas? Haverá qualquer coisa de mais profundo? Esta pergunta, que é também a do antissemita, não se limita a suscitar um certo mal-estar no debate. É possível que, em última análise, seja irrespondível.
Tanto quanto é possível demonstrar, só uma outra grande comunidade, a dos chineses, continua, a despeito das transformações e contribuições da história, a falar a língua das suas origens conhecidas. Uma língua-nascente. O hebraico constitui o eixo e o tecido vital do judaísmo ao longo de milênios. Sentimo-nos tentados a equacionar a sobrevivência do judeu com a do hebraico, sobrevivência reiterada pelo renascimento da língua em Israel. O gênio da língua alimenta e encarna as relações do judeu consigo próprio, com os judeus seus companheiros, mas fundamentalmente com Deus. A definição grega clássica dos seres humanos como “animais de linguagem” (zoon phonanta) é a antítese do judaísmo. Separa Atenas de Jerusalém. É a palavra que, na concepção judaica, torna as mulheres e os homens ontologicamente únicos, que os distingue do reino animal. É o dom insondável da linguagem feito a Adão que torna possíveis, que torna forçosas a consciência e a resposta diante de Deus. É o diálogo com uma divindade presente ou ausente, e sem que o “diálogo” garanta a resposta, que determina a história, a identidade herdada do judeu. “Ouve-me, Deus”. “Escuta-me, Israel”. O caso decisivo é o vocativo. Mas muito mais do que num sentido gramatical. O hebraico é um chamamento de Deus, uma injunção de Deus, uma interpelação dirigida a Deus. O mandamento e a prece são inseparáveis de um imperativo da comunicação. Por vezes, o hebraico quase cede sob a pressão de um chamamento incessante: “Esgoto-me a gritar: a minha garganta está seca” (Salmos 69, 3). Mas, inextinguivelmente, a voz irrompe, incendeia-se de novo: “Ouve a minha voz, ó Deus” (Salmos 64, 1). De gratidão, de júbilo, de temor. Mas também de lamentação, de desconcerto, de recriminação. Que outro povo se encolerizou assim com o seu deus? “É bem feito que te zangues?”, pergunta Deus a Jonas no que interpretamos como uma inflexão de ironia branda. O “apelo”, no sentido em que é usado em Job num duelo com Deus, é um caso sem paralelo na literatura mundial. O mesmo se diga da titânica falta de a-propósito da réplica de Deus. Que é tudo menos uma resposta: “Será pela tua sabedoria que o falcão levanta voo e bate as asas para Sul?” (Job 39, 26). Como se Deus revelasse na Sua própria retórica incomparável, o Seu virtuosismo da metáfora. (Quer ser humano mortal terá composto estes capítulos, tendo ido a seguir almoçar?) Se o hebraico fosse alvo de extinção, como aconteceu com milhares de outras línguas não menos dotadas de recursos nem menos eloquentes, se o silêncio se tivesse interposto entre Deus e os judeus, o próprio judaísmo teria acabado. A Shoah feriu o judaísmo até às fronteiras de cinzas do silêncio. Mas a língua manteve-se. Numa inversão de abismo, era agora o judeu quem rezava não a Deus, mas por ele. É o que nos diz Paul Celan no seu Salmo:
Gelobt seist du, Niemand.
Dir zulieb wollen
wir blühn.
Dir entgegen.
(Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direção a ti*).
* Cf. Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde – Antologia Poética, seleção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, Lisboa, Cotovia, 2.a edição, 1996 (N. do T.).
Também num registro mais ligeiro, o judaísmo continua a ser uma conversa com Deus. “Porque se deu o Todo-Poderoso ao trabalho de criar os homens?”, pergunta o hassid: “Para que eles possam contar-Lhe histórias”.
Até mesmo os judeus que não conhecem o hebraico – condição que está, segundo suspeito, na origem de uma dúvida recorrente acerca de si próprios – dão provas de uma imersão particular na linguagem e nas línguas. É algo mais do que o exílio e do que a necessidade de aquisição da língua dos estrangeiros, aquilo que está em causa nos dotes linguísticos do judeu. Na sua capacidade de transformarem a tribulação de Babel em colheita. Há até mesmo entre os judeus agnósticos e secularizados, entre os porta-vozes judeus da modernidade, uma intuição de que a identidade é discurso, um discurso cuja sanção última é a da voz articulada que sai da Sarça Ardente e do sopro do vento. O ator judeu, o empresário judeu da comunicação de massa e dos media, o linguista judeu – de Roman Jakobson e Walter Benjamin a Noam Chomsky e à negação à maneira de Derrida – está ligado, como que pelos raios de uma grande roda, à centralidade da palavra. Testemunha o papel axial do ato de linguagem, e um pacto entre o ser e o sentido. Apesar do seu gênio escriturário, apesar da sua soberania generativa sobre outros gêneros, poéticos, narrativos, visionários, legislativos – soberania nunca superada e sem a qual é difícil concebermos a existência das literaturas ocidentais –, a Bíblia hebraica é o registro, sem dúvida redutor, de uma forma de vida oral. Codifica, com maiores ou menores economia e generalidade, um registro, uma recolha de discurso direto. A agonia e a prece, a celebração e a lamentação, o mandamento e a revolta são falados. Ouvimos, precisamente porque o hebraico encarna o prodígio e o fardo do ouvido, essas letras de fogo ditadas a Moisés no Monte do Sinai, essas palavras de retaliação que ardem nas paredes do palácio de Nabucodonosor. E o sionismo, por seu turno, está gravado na sintaxe do verbo hebraico. Gramatical e metafisicamente, o hebraico não dissocia passado, presente e futuro. A flexão do futuro pertence ao presente. É esta a verdadeira literalidade e o verdadeiro paradoxo do messiânico. Dispersa, quase arrancada pelas raízes, a língua hebraica nunca deixou de proclamar um regresso ferozmente inverossímil ao seu chão natal. Tornou manifestos os meios formais e existenciais de um renascer. Hoje, os romancistas e poetas de Israel são os contemporâneos e os herdeiros transformadores do salmista e do profeta. “Para o próximo ano em Jerusalém” é agora. De que outras línguas, de que outras nações podemos dizê-lo?
O fato surpreendente é o seguinte: chamados ao ser pela voz, sustentados por um ininterrupto comércio de palavras com o seu Deus, os judeus tornaram-se “o povo do Livro”. Este estereótipo é extraordinariamente significativo. Define uma autenticidade duradoura. A dependência da textualidade caracterizou e continua a caracterizar a prática e a sensibilidade do judeu. A tabuinha, o rolo, o manuscrito e a página impressa tornaram-se a terra natal e a festa móvel do judaísmo. Arrancado ao solo natal da sua oralidade, ao santuário da interpelação direta, o judeu fez da palavra escrita o seu passaporte ao longo de séculos de deslocações e de exílio. Ela serviu-lhe de refúgio e de morada indestrutível. Daí a sentença formulada por alguns rabis e segundo a qual a leitura diária da Torah é mais importante do que o amor de Deus, uma vez que engloba esse amor. Além disso, é nela que se inscreve, termo eloquente, a sobrevivência efetiva dos judeus. Clandestinamente, o ensino da Torah prolongou-se até ao limiar imediato da extinção nos campos de morte. Necessariamente, esta imersão no escrito engendra um comentário interminável e o comentário do comentário, como se as margens e o fundo da página fossem o mundo. Os padres da Igreja, os Escolásticos, imitarão esta linha de montagem da elucidação secundária. Mas nem o cristianismo nem o islão podem competir com a densidade, as torções e os engenhosos trabalhos de filigrana da exegese do Talmude e da hermenêutica no terceiro grau que ele engendra. Como diz o Qohelet, no judaísmo não tem fim o fazer de livros e de livros sobre os livros. Ou como esse político ilustrado que é Richard Crossman me disse no final de um debate: “um judeu é aquele que lê agarrado a um lápis porque tenciona escrever um livro melhor”. Mais ainda do que o “sofrimento”, foram a textualidade e o livro que compuseram “a insígnia da tribo”.
A saturação produzida pelo comentário, por textos que parasitam formulações anteriores, pode, indiscutivelmente, ser um factor que inibe a criação autônoma. Nada é mais judeu do que o projeto de Walter Benjamin de um livro composto exclusivamente de citações. O judeu é um analista, expõe, poderá ser quando muito um crítico, mas não é um criador, decidiu Wittgenstein num impulso irritado de autodepreciação. Houve entre os judeus e os  escritores de origem judaica poetas inspirados. Yehudah Samuel Ben Halevi é só um nome entre a constelação de poetas judeus da Espanha medieval. E podemos pensar, depois, em Heine, em Mandelstam, em Pasternak, ou Paul Celan. Os mestres judeus da arte narrativa estiveram perto de dominar a ficção americana dos finais do século xx. Há judeus dramaturgos como Arthur Miller e Harold Pinter. Israel produz hoje poesia e prosa de primeira ordem. Não deixa de ser interessante notar que entre os clássicos se incluem alguns semijudeus: Montaigne, Proust. Haverá escritor maior do que Franz Kafka?
No entanto, em termos gerais, a questão tem razão de ser. Talvez não seja necessário procurar uma explicação muito longe. A prodigalidade da realização, o fôlego inventivo da Bíblia Hebraica são de tal ordem, que a narrativa ou as formas dramática e poética posteriores parecem relevar da quase impertinência ou, no melhor dos casos, do ato gratuito. Que autor deste mundo está em condições de rivalizar – para já não falarmos de superar – com a construção do Gênesis, com a inspiração épica de Samuel e dos Reis, com a eloquência de Jeremias, com a musicalidade erótica do Cântico de Salomão ou com o pathos altivo dos Salmos? O que é que em qualquer literatura, incluindo o Gilgamesh e Homero, vai mais longe do que a lamentação de David por Jônatas ou a predição alucinatória da destruição de Jerusalém no livro dos Profetas? Que texto sobre a morte, como se tem muitas vezes perguntado, não empalidece, não é superado nos termos do ideal que se propôs ser, quando comparado com o Salmo 23 ou com a litania das estações do ano no Eclesiastes? Mas a questão decisiva talvez seja mais profunda. Lidos como sendo de inspiração divina, como ecoando, embora de modos para nós ocultos, a voz real de Deus, estes textos enunciam verdades que tornam fictícia toda a escrita literária, que a reduzem à condição de belles lettres. O que introduz em todos os restantes contos, poemas, romances uma espécie de falsidade orgânica e de oportunismo contingente. São o seu confronto implacável com esta possibilidade e a sua capacidade de a transformar em parábolas, que se aproximam da polissemia inesgotável dos seus antecedentes escriturários e talmúdicos, que tornam Kafka incomparável. A “Parábola da Lei” no Processo talvez seja a única verdadeira adenda da literatura secular à Torah (e foi lida como tal nalgumas sinagogas liberais). Em contrapartida, a propensão do judaísmo para o texto produziu obras magistrais de prosa histórica, filosófica, sociológica e científica. Que argumentos filosóficos não parecem presunçosos e um tanto desordenados quando comparados com Espinosa ou, na realidade, com Wittgenstein? Freud e Gershom Scholem situam-se a par dos mais destacados artífices da língua alemã. O caso do marxismo e do socialismo marxista é ainda mais impressionante. Não houve doutrina e programa político-sociais mais presos ao livro, mais talmúdicos, ao nível das estratégias de argumentação. O marxismo cita incessantemente. Os seus debates, muitas vezes literalmente homicidas, sobre a interpretação correta de Hegel, dos pais fundadores, de Lenine, mimam rigorosamente o odium filológico, o rancor ad hominem das controvérsias rabínicas. Trotski foi um publicista brilhante; o próprio Estaline se sentiu obrigado a produzir uma monografia erudita (de modo nenhum desinteressante). A psicologia, o pensamento social, a antropologia social atuais – consideremos a estatura literária de Claude Lévi-Strauss – têm uma dívida de todos os momentos para com as feições imediatamente textuais da tradição judaica, para com o seu apetite instintivo de clareza normativa. Como um político austríaco que odiava os judeus chegou a dizer: “A erudição é simplesmente aquilo que um judeu copia de outro”. Quando se queimam livros, é uma fibra vital do judaísmo que se consome. Assim, entra em jogo na desconstrução, cujos acrobatas são tão frequentemente judeus, uma lógica da revolta. A desconstrução é uma tentativa (que a psicanálise dirá edipiana) de derrubar o peso canônico do texto, de emancipar o sentido da auctoritas patriarcal. “Aqui nós não citamos”, disparou um agitador derridasiano durante uma lição minha, em 1968. Ou como um palhaço (bem dotado) afirmou: “A própria linguagem é fascista”. Para o judeu, a textualidade foi ao mesmo tempo sobrevivência e servidão, libertação e constrangimento. A ambiguidade comparece desde o início. Que sentença poderia ser mais obsediante e presciente do que a do Qohelet 11, 4: “Quem observa o vento, não semeia”?
Este modo de habitar a palavra escrita estará associado à considerável, e alguns dirão excepcional, contribuição que os judeus fizeram para a vida do espírito, tanto nos domínios das humanidades como nos das ciências? Explicará a opinião muito difundida – que se exprime quer em termos de sarcasmo e inveja, quer de admiração – segundo a qual os judeus são “mais perspicazes”, “mais cerebrais”, “mais inteligentes” do que os gentios seus vizinhos? Se há alguma matéria verificável que confira substância a estas ideias, continua a ser difícil de avaliar. judeus estúpidos. Há judeus subinstruídos, embora poucos. Há judias e judeus inocentes de qualquer paixão intelectual ou aspiração cultural. Todavia, é verossímil que as energias intelectuais dos judeus sejam maiores do que o asseguraria uma distribuição estocástica ou a probabilidade estatística. A proporção de judeus laureados com o Nobel nas áreas da medicina e das ciências naturais, bem como nas da economia, é muito superior à que seria normal. Os judeus quase dominaram certos ramos das matemáticas e da lógica matemática. A par de um punhado de exceções notáveis, têm o monopólio dos níveis superiores do xadrez. Estão por toda a parte presentes e em lugares destacados na interpretação musical. Darwin é o grande “elemento estranho” no pequeno grupo dos pensadores que moldaram a modernidade e que, como Marx, Freud e Einstein definiram o “clima” da consciência europeia (a expressão é de Auden). Numa ordem subalterna, o papei dos judeus nos media, no mundo da diversão, em todos os sectores das finanças internacionais, foi prodigioso. Na realidade, a metrópole do dinamismo cultural e financeiro, a polis sortílega que é Nova Iorque, com Woody Allen por seu bardo, é também a capital do judaísmo. Estes resultados e estas posições destacadas desafiaram a opressão política, a discriminação social e o massacre direto. Apesar de gerações de ódio aos judeus e de relegação, do Império Russo à União Soviética, os judeus continuaram obstinadamente a produzir obras de primeira grandeza na ciência, na música e na literatura russas. Intervém aqui a operação de uma força primordial.
Qualquer tentativa de diagnóstico desemboca imediata e inevitavelmente na discussão sobre os papéis causais respectivamente desempenhados pelo equipamento genético, o legado cultural e o meio social e histórico. Sendo-lhes vedadas outras ambições mais comuns, políticas, militares ou, durante um longo período, também universitárias (só depois da Segunda Guerra Mundial desapareceram as quotas estritas que doseavam nos Estados Unidos o acesso de judeus ao ensino superior e às escolas médicas), os judeus eram impelidos refugiar-se num mundo interior próprio. A memorização, a disciplina das técnicas de análise, a cultura de uma dialética abstrata e simbólica, tornaram-se instrumentos privilegiados de comunicação da experiência no âmbito do bairro judeu e das suas casas de oração.  Concentrava-se assim uma atividade cerebral implosiva em espaços sociais confinados e pragmáticos. O café da Europa Central é o herdeiro secular da Schul. Com o advento da emancipação, sempre relutante e condicionada, a força contida dos recursos intelectuais assim exercitados irrompeu no exterior. A veneração endereçada ao mestre talmúdico, ao erudito do shtetel, a continuidade ininterrupta do ensino, litúrgico e secular, no seio da família – que outro credo abençoa formalmente a família que conta com um sábio entre os seus filhos? –, passaram a investir os meios da intelligentsia. E a alimentar as instituições acadêmicas, os centros de ensino livre e gratuito, os laboratórios das sociedades abertas. Uma impaciência prolongadamente refreada dava agora os seus frutos. De paramos em Heine com um testemunho incisivo deste movimento.
Tal é a hipótese razoável, “politicamente correta”. Mas será inteiramente satisfatória?
No momento atual, a discussão do problema pende claramente para o lado genético. A análise identificou a recorrência de traços e competências altamente específicas entre gerações temporalmente distantes. A medicina, a biologia social, a etnografia põem a descoberto um número crescente de situações em que os genes parecem sobrepor-se ao meio ambiente. Como já assinalei, a simples ideia de uma herança genética mantida ao longo do tempo e apesar das miscigenações é fortemente especulativa, e até mesmo suspeita. Todavia, estamos diante de uma comunidade que viveu em condições de apartheid bastante caracterizadas, ao mesmo tempo que se esforçava por excluir a exogamia. Pode, por conseguinte, ser arbitrário negar inteiramente a possibilidade de um certo grau de hereditariedade genética, não conceber que possa existir nalgumas linhagens da excelência judaica, mas também em certos traços de mediocridade e abstenção dos judeus, uma componente biogenética. No final da sua vida, Freud foi um lamarckiano convicto, embora o dissimulasse de certo modo. Hoje, o paradigma de Lamarck tornou-se claramente inaceitável. Não pode invocar-se em seu favor qualquer mecanismo genético. Mas continua a ser muito, aquilo que não sabemos. A sugestão da existência de caracteres adquiridos continua a rondar, como um fantasma irônico, no limiar da respeitabilidade científica e do bom senso liberal. Não poderemos temperar a nossa arrogância ai imitindo que sabemos pouco acerca das interações generativas entre o inato e o adquirido e que talvez venhamos a ser confrontados, nesse domínio, com surpresas “iliberais”? Alta noite, durante os anos adversos, saí discretamente do meu hotel de Kiev para a rua. Um homem aproximou-se de mim e perguntou-me num ídiche deficiente: “Você é judeu, não é verdade?” Perguntei-lhe como o sabia ele. “Mas vê-se logo, é evidente. Pela sua maneira de andar”. Como alguém, penso eu, com dois mil anos de perseguições atrás de si.

[Continua aqui: http://blogdocastorp.blogspot.com.br/2012/05/condicao-de-ser-judeu-parte-iii.html]

H.C./ J.A.R.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Condição de Ser Judeu – Parte I

George Steiner – francês de origem judaica ou judeu de origem francesa? –, um dos maiores críticos literários do século XX, discorre, no ensaio a seguir transcrito em três partes, sobre o que ele interpreta ser a condição do judeu.
Da leitura atenta do texto sobressai a impressão de que se trata da aposição de loas aos judeus de todo mundo – salvo algumas inflexões menos encomiásticas aqui e acolá – que, indiscutivelmente, têm-se sobressaído do mar de mesmice em que paira a “pós-modernidade”. Ocorrem exageros é claro – “Haverá escritor maior do que Franz Kafka?” –, embora muito do que ele retrate demarca o que se pode perceber até num plano empírico bem terra-a-terra: “Mais do que nunca, não há justificação sustentável para seja que definição for dos judeus como raça”.
Boa leitura!
H. C. / J. A. R.

Referência: STEINER, George. Sião. In: Os livros que não escrevi. Tradução de Serras Pereira. 1. ed. Lisboa: Gradiva, 2008. p. 135-178.

SIÃO
QUE MULHER ou HOMEM pensante não procura, nalgum momento da sua vida, chegar a uma imagem clara, a uma ideia verificável da sua própria identidade? A pergunta “Quem sou eu?” é um reflexo primeiro da consciência humana. “Posso definir-me a mim próprio para mim próprio” e, ou imediata ou indiretamente, definir-me a mim próprio para os outros? Estes dois modos de autodefinição coincidem ou há entre eles um fosso intransponível? Que “eu”, que “ego” está conceptual e existencialmente implícito na asserção, filosófica ou trivial, interior ou declarada, de que “eu sou”, ou, mais precisamente, de que “eu sou eu” – descoberta sempre vulnerável aos desafios da esquizofrenia, do autismo ou da demência? O ergo sum cartesiano esquiva uma incerteza intrínseca. É uma expressão de orgulho mais do que uma verdade evidente por si própria.
A minha impressão é que, para os judeus, homens e mulheres, e sendo o simples termo “judeu” de molde a suscitar complicações persistentes, tanto este auto-questionamento como a questão geral que é o seu ponto de partida, assumem uma acutilância particular. Só ao Deus de Moisés é dado afirmar para além de toda a dúvida “Eu sou o que sou” (a tradução vacila). As relações de um judeu ou de uma judia com a sua identidade podem ser tão opacas, tão atribuladas e tão cheias de ambiguidades históricas, sociais e psicológicas, que sejam elas a definir – se a definição puder comportar a indecidibilidade – a própria condição judaica. A nomeação, como garantia da substância real e da presença real, é um dos dons iniciais de Deus a Adão: “E o que Adão chamava a cada criatura viva, tal era o seu nome”. Um poder fantástico de impor uma função de verdade. A queda do homem no lamaçal e na licença do indefinido, no fosso que é por vezes abismo, entre a palavra e o objeto, entre o nome e a essência: eis o primeiro exílio. Numa medida maior ou menor, todos os seres humanos compartilham este ostracismo, e são numerosas as mitologias que o refletem. O pecado original inscreve-se na gramática. Na experiência do judeu, todavia, este exílio assume um papel determinante. Para um judeu, a consciência de si, um ato de equilíbrio difícil de realizar ou de manter, comporta c banimento, ou antes um esforço, muitas vezes desesperado, de levar a cabo uma certa maneira de regresso ao lar. Adorno insistia numa máxima profundamente judaica segundo a qual nenhum homem ou mulher que se sinta em seu lar está no seu lar. A qual – num movimento pendular incessante – Samuel 2, 14 responde: “Deus não respeitou pessoa alguma, contudo estabelece meio de o Seu banido não ser Dele expulso”. O Seu banido, a inflexão é altiva. A distinção rigorosa entre “banimento” e “expulsão” caracteriza o espaço onde transcorre a história dos judeus. Se o Deus de Israel está, segundo uma exultante definição, em toda a parte, não pode haver expulsão ontológica da Sua presença. Mas, no interior desta ubiquidade, pode haver banimento. De si e em si próprio, em primeiro lugar e fundamentalmente. Mais, talvez, do que qualquer outro tipo étnico, social ou até mesmo mitológico, o judeu pode ser um estrangeiro para si próprio. A sua errância célebre é a representação alegórico-empírica de uma busca, de uma incessante peregrinação interior. O judeu é estranho a si próprio, antes de ser estranho aos outros. Estes, pelo seu lado, evitam o sem eira nem beira, que carrega consigo uma aura estranha e perturbante. Conscientemente ou não, o judeu é, no seu modo de ser mais fundo, alguém que não sossega. Em que outro credo, em que outro cânone, poderíamos encontrar esta injunção: “O amor não dorme” (Provérbios 20, 13)? Uma exortação cujo alcance imenso, cuja singularidade não devemos considerar ligeiramente. Freud despojá-la-á do que lhe restava de inocência. Também ele, como antes dele os profetas judeus, foi um “vigilante na noite”. Qualquer ser humano que se olhe como “judeu” – e “olhar-se” pode incluir aqui um sem-número de cambiantes de orgulho ou de vergonha, de prestação de testemunho ou de dissimulação, de autenticidade ou de artifício, de risco ou de oportunismo – terá de pôr uma questão inicial e fundamental: porque foi que a autodesignação e a designação pelo exterior de certas comunidades e indivíduos como “judeus”, por mais controversas que possam ser, perduraram no tempo? Que significações associar à sobrevivência desta identificação ao longo de mais de três milênios? Outras constelações étnicas e outras sociedades, outras coletividades não menos distintivamente marcadas, não menos dotadas, acabaram por perecer. Porque continua presente “Jerusalém” quando a Tebas egípcia, a Atenas de Péricles e a Roma Imperial se tornaram arqueológicas? Como podem existir ainda judeus (aqui o termo grego e teológico apropriado é o de “escândalo”)?
Para o leitor crente da Torah, para os literalistas que incluem os cristãos com fé das Escrituras, a resposta é manifesta. A sua fórmula desmedida encontra-se no Gênesis 22, 18: “Farei a tua descendência tão múltipla como estrelas do céu, como a areia das praias do mar [...]. E na tua descendência todas as nações da Terra serão abençoadas”. É uma promessa de cortar a respiração, cujo efeito excede o alcance das palavras. Para o crente, trata-se de uma garantia e de uma garantia renovada da própria vida. Que homem ouviu ou escreveu semelhantes palavras? Se Deus falou verdade a Abraão – e como poderia Ele não ter falado verdade? –, não há massacres, nem Shoah, nem deportações, nem dispersão nos ventos negros e mortíferos, que possam extinguir os judeus. Eles renascerão das suas cinzas para de novo se multiplicarem e de novo reivindicarem Sião. A sua herança é um pacto como nenhum outro alguma vez celebrado com outro povo. Em breve, existirão no planeta tantos judeus como os que nele viviam antes da Shoah. Sob certos aspectos, trata-se de um fato chocante e estarrecedor; sob outros, trata-se simplesmente do legado inelutável prometido por Deus ao patriarca. Outras crenças, outras nações sucumbem ao tempo e à destruição. Não é o caso do judaísmo. Dessa pequena pedra contundente no sapato da humanidade. “Nesses dias, porei de pé o tabernáculo caído de David, e repararei as suas brechas; e levantarei as suas ruínas, e edificá-lo-ei como nos dias de outrora” (Amos 9, 11). Eis, uma vez mais, a promessa devastadora que Deus faz ao seu pobre servo ferido Israel. Tão absurdamente improvável e “contrafactual” tanto junto às águas de Babilônia como aos campos de extermínio nazis. Uma promessa, contra todas as aparências e toda a razão. Mas cumprida.
Tal é o enigma que se põe ao não-crente, ao racionalista e ao agnóstico, aos que leem a Bíblia hebraica como o acervo dos mitos de um povo, de rituais arcaicos, de propaganda tribal, de minuciosas prescrições alimentares absurdas e de imagens morais e metafóricas inspiradas. Que, na esteira de Espinosa, têm a impressão de se confrontar com uma produção inteiramente humana, atravessada de contradições e de maneira nenhuma inocente de selvajaria (consulte-se o livro de Josué). E, contudo, não há ceticismo argumentativo nem crítica textual que possam negar, refutar ou anular o pacto de sobrevivência estabelecido no livro de Moisés, celebrado nos livros dos Salmos e dos Profetas. Os recursos da refutação racional, ainda que reformados pelos contributos da antropologia e da desconstrução da composição do texto, não podem refutar o que os crentes, que não são necessariamente fundamentalistas, consideram ser a palavra de Deus, ainda que limitada pela linguagem e pelo entendimento finito dos seres humanos. Para pensadores como Leo Strauss, este enigma da irrefutabilidade é ao mesmo tempo ofuscante e insolúvel. A revelação não é vulnerável perante a razão. Até hoje, e apesar ou toda a espécie de múltiplos obstáculos, a história tem corroborado a mensagem bíblica. Depois de Auschwitz, Sião está a ser reconstruída. Há judeus.
Mas o que os faz ser assim? A questão mostra-se extraordinariamente difícil e controversa. A resposta de Sartre segundo a qual é o antissemita que define o judeu é uma hábil meia verdade, perfeitamente em consonância com a declaração de um dos presidentes da municipalidade de Viena, hostil aos judeus: “Sou eu que decido quem é e quem não é judeu”. Para os ortodoxos, a solução do problema é óbvia, um judeu, um verdadeiro judeu, é alguém que observa as várias centenas de instruções, prescrições, proibições rituais, normas dietéticas e de indumentária que regulam cada hora, todas as circunstâncias e exigências concebíveis da vida quotidiana entre um e outro sabat. É alguém, e fundamentalmente um homem, que “disporá na devida ordem as lâmpadas no candelabro puro e as manterá permanentemente diante do Senhor” (Levítico 24, 4); que não comerá “o mocho, a coruja, o íbis” (Deuterônimo 14, 16); que sabe que nenhum utensílio de ferro deverá ser utilizado para erigir um altar de pedra a Deus (Deuterônimo 27, 5); e que compreende porque é que, no seio do matrimônio, a esposa deve cuidar constantemente de não “afligir a alma do seu marido”, para que este não anule o casamento de ambos (Números 30, 13). A esta prodigalidade das prescrições mosaicas e levíticas, as interpretações talmúdicas e a tradição halachica (normativa e jurídica) acrescentaram um sem-número de outras práticas e fórmulas consagradas. Essencialmente de certo modo, a observância pesa mais do que a crença, uma vez que estabelece o judeu ortodoxo à parte, incontaminado pelo mundo dos gentios. Para o judeu “liberal”, moderno, para já não falarmos do que se coloca à margem do judaísmo, muitas destas injunções e tabus raiam o absurdo. E o mesmo se aplica às mímicas e gestos quase histéricos de adoração, de recitação interminável e monótona na escola ortodoxa e na casa de oração. Que tem ele em comum com a matilha fanatizada vestida de negro que lhe atira pedras para o expulsar do santuário que é o ghetto?
Indiscutivelmente, todavia, é o judeu ortodoxo, na sua fortaleza de Jerusalém ou de Williamsburg, que se sente mais à vontade na sua identidade, que se sente mais seguro da promessa endereçada a Abraão, que espera paciente, mas confiante, a vinda do Messias. São ele, a sua mulher e o seu rancho de filhos que saem dos banhos rituais ao pôr do Sol de sexta-feira, com as roupas a ressumar de renovação, e os seus rostos iluminados como são os dos judeus que não aceitam compromissos. É o ortodoxo que corre menos riscos de assimilação. E uma observância rigorosa e estrita, e não uma aquiescência especulativa, o que garante a eleição e a sobrevivência do povo judeu. Não é, paradoxo assustador, a fé em Deus, mas a leitura diária da Torah, ou a recusa de quebrar o jejum quando a alternativa é morrer de fome. Ele, que conhece, sem o interrogar, o preceito segundo o qual nenhum homem com “o pé partido ou a mão partida” pode aproximar-se do tabernáculo para ofertar o seu pão a Deus (Levítico 21, 19), nunca será apóstata, por maiores que sejam as seduções da tolerância ou do senso comum. Este literalismo pragmático é profundamente clarividente. A identidade, familiar e comunitária, compõe-se de movimentos e reiterações partilhados, e não de abstrações filosóficas ou de intimidade. Uma fé segura é um estilo de vida.
Os custos, apesar disso, podem ser enormes. Como os outros fundamentalistas, os ortodoxos cultivam o desprezo e até a abominação dos elementos exteriores. Consideram os judeus reformados abjetos. Os que vivem em Israel condenam o seu Estado por este não ter sido validado pelo Messias. Uma turba ortodoxa, que procura anular pela intimidação ou pela violência qualquer sinal de liberdade secular, é uma paródia dos valores ético-filosóficos dos judeus, ainda que ao mesmo tempo garanta o prodígio da sobrevivência. Para o ortodoxo que gesticula diante do muro (mítico) do Templo ou assedia o turista com apelos estridentes ao arrependimento, um Espinosa ou um Freud são tão estranhos e tão insuportáveis (ou, na realidade, mais ainda) como os seus perseguidores de origem cristã ou islâmica. Os fundamentalistas judeus ortodoxos e os muçulmanos são primos carnais. Mas foram os rabis ortodoxos e os seus acólitos que entoaram salmos ao mesmo tempo de luto e de júbilo à beira das valas comuns.
Para os “reformados”, os “liberais”, para os que são judeus a título ocasional e respeitem, talvez, uma vez por ano, as festividades santificadas por piedade filial – para o judeu ignorante do hebraico ou ateu, o problema da identidade é uma questão conturbada. Cada vez mais judeus, em particular no clima de aceitação da indiferença dos Estados Unidos, tendem a abandonar por completo a questão. Os casamentos mistos abrem o caminho à amnésia. Só quando o veneno antissemita irrompe num novo surto, ameaçando, por exemplo, os seus filhos que andam na escola, este judeu secular e não-observante desperta para a sua condição. Encontramos aqui o grão de verdade da tese de Sartre. Dadas as múltiplas combinações, sempre instáveis, que ocorrem entre a não-ortodoxia e a automarginalização, que fator comum, vinculativo, podemos apontar no judaísmo atual?
Desde a Antiguidade, a ideia de “raça” esteve fatalmente (fatutn) associada ao destino do judeu. Em boa parte, esta fixação tem origem no interior do próprio judaísmo. A proclamação de que os judeus são um “povo eleito”, um núcleo étnico à parte na sua singularidade, é veiculada pelo Pentateuco e retomada em diversas passagens capitais das escrituras hebraicas. Esta proclamação enfureceu outros povos e nações. Houve sábios e moralistas judeus que se esforçaram por combater esse ressentimento, caracterizando a “eleição” a uma luz trágica e quase masoquista. Deus singularizou o judeu não para que este se vangloriasse ou para que os outros o invejassem, mas para sua perpétua aflição. O judeu foi escolhido por Deus como para-raios, foi o bode expiatório que a exasperação divina designou perante uma humanidade renitente e pecadora. Mas nem esta leitura um pouco forçada atenua o ressentimento perante a condição isolada autoproclamada pelos judeus, perante o orgulho que os judeus, muitas vezes ostensivamente, extraem do seu sofrimento. O judeu não se insere no lugar-comum – e devemos ter bem presente este termo. Terá este “racismo” psíquico e emblemático uma qualquer concebível base biológica no plano dos fatos? Haverá, quer em termos de autodefinição, quer em termos de definição por outros, alguma coisa que se pareça com uma “raça” do judeu?
O recurso demente e homicida a uma classificação racial sob o nazismo e ao longo de toda a monstruosa história dos pogroms e expulsões tornou praticamente impossível e indefensável qualquer discussão independente do problema. O “racismo”, ainda que metafórico, é um motivo repugnante e inadmissível. Além disso, como insistem a biologia e a genética atuais, a simples ideia de impureza ou pureza racial não é senão um contra-senso perigoso. Podem existir algumas pequenas bolsas étnicas, insulares e em condições de isolamento prolongado, cuja herança genética talvez exiba um certo grau de hereditariedade invariante. Mas nem isso, em todo o caso, é certo. A rejeição pelas outras comunidades, uma forte tendência para o casamento endogâmico, a concentração no interior de espaços ou castas circunscritos, podem preservar e transmitir uma herança genética identificável. Mas semelhante identificação é altamente duvidosa. Só a susceptibilidade relativa a certas enfermidades específicas parece proporcionar algum elemento de prova consistente. Até mesmo um ghetto está exposto a receber contributos genéticos híbridos. Ao longo de milênios, e através da simbiose ativa da migração, os judeus, como os outros povos, “miscigenaram-se”. As medidas políticas e legislativas que visam impedir esta miscigenação, determinar proporções exatas de “sangue” e laços de parentesco judeus, refletem a loucura, o tribalismo invertido e as neuroses do inquisidor espanhol ou do esbirro fascista. O mesmo se diga das descrições, que uma vez mais remontam à Antiguidade Clássica, que pretendem estabelecer traços físicos distintivos para os judeus (o  “nariz judeu”  é conhecido entre todos). Há judeus louros e de olhos azuis, do mesmo modo que os há de pele escura e hirsutos. Que ligação genética direta e controlável existe entre o judeu que vem de Marrocos e o judeu da Lituânia? Que há em comum entre Maimônides e os bandidos de Odessa, entre o pugilista peso-pesado Max Baer e a figura espectral de Kafka? Os casamentos mistos do Ocidente agnóstico contemporâneo aceleram a hibridização. Quase sem esforço, os jovens judeus americanos podem desligar-se do seu legado histórico e familiar. Ao cabo de uma ou duas gerações, o seu judaísmo ancestral é uma memória esbatida, um rasto folclórico. Mais do que nunca, não há justificação sustentável para seja que definição for dos judeus como raça. Assim seja.
E contudo.

terça-feira, 15 de maio de 2012

De Cérebros, Advogados, Vitórias e Verdades

Abaixo, um excerto do livro The moral animal, do neurobiólogo americano Robert Wright. A associação do cérebro com as atividades de um advogado não é sem intenção: subrepticiamente coloca-se em dúvida a honestidade dos rábulas (rs)!

“The proposition here is that the human brain is, in large part, a machine for winning arguments, a machine for convincing others that its owner is in the right – and thus a machine for convincing its owner of the same thing. The brain is like a good lawyer: given any set of interests to defend, it sets about convincing the world of their moral and logical worth, regardless of whether they in fact have any of either. Like a lawyer, the human brain wants victory, not truth; and, like a lawyer, it is sometimes more admirable for skill than for virtue” (WRIGHT, 1994, p. 280).

“[...] O cérebro humano é, em grande parte, uma máquina para vencer discussões, uma máquina para convencer os outros de que o seu dono está correto - e, portanto, uma máquina para convencer o próprio dono de semelhante pretensão. O cérebro é como um bom advogado: dado um conjunto qualquer de interesses a defender, ele se põe a convencer o mundo de sua correção lógica e moral, ainda que, de fato, nenhuma das duas possam estar presentes. Como um advogado, o cérebro humano quer vitória, não verdade; e, como um advogado, ele às vezes é mais admirável por sua habilidade do que por sua virtude” (WRIGHT, 1994, p. 280).

WRIGHT, Robert. The moral animal: why we are the way we are. New York, NY: Vintage, 1994.

H.C. - J.A.R.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Brasileirão 2011: Projeções para o Final Depois da 33ª Rodada

Sem mais delongas: apenas os números obtidos pelo Modelo Esotérico-Matemático (MEM). Vejam que os estatísticos calculam probabilidades maiores de título para o Corinthians, mas o MEM aponta o Vasco da Gama como vencedor, a considerar intervalos de tempo menores ou igual ao próprio segundo turno. Clique em cima das planilhas abaixo, para melhor visualizá-las.






Ou seja: há métricas para todos os gostos! Mas apenas uma observação: o MEM exibe sempre os mesmos times com "pretensão" de fazer um passeio pelas águas profundas da Segundona em 2012, a saber, Cruzeiro, Atlético-PR, Avaí e América-MG.

Veremos o que, de fato, ocorre lá no fim.

Um grande abraço a todo(a)s.

P.s.: A postagem anterior, sobre as projeções tendo por histórico o horizonte das trinta rodadas até então realizadas, apresenta algumas considerações de ordem metodológica sobre os cálculos que realizo por meio do MEM. Ok?!

H.C. - J.A.R.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Brasileirão 2011: Projeções para o Final Depois da 30ª Rodada

Finalizada a 30ª rodada do Brasileirão 2011, bastante indefinido em relação a quem vai ficar com o título, apresento aqui as projeções para o final, a partir do Modelo Esotérico-Matemático (MEM) - que de esotérico não tem nada!

Ao contrário dos cálculos probabilísticos - os quais, de todo modo, apresento mais abaixo -, o MEM leva em consideração três variáveis para a definição de ordem: número de gols marcados, número de gols sofridos e percentual de passes corretos de cada time.

Nos quatro anos em que o venho empregando, pude perceber alguns pontos relevantes: (i) o histórico que mais se aproxima com o que efetivamente ocorre - e com grande número de acerto - é o das últimas dez rodadas; e (ii) se um time tem uma grande defesa e um grande ataque, provavelmente, estará nas cabeças, mas a prevalência para subir é o maior domínio do desempenho das defesas em relação ao dos ataques. Então, vamos aos resultados, observando que, entre as três projeções abaixo, a do MEM é exatamente a que se encontra mais à esquerda:


A tabela a seguir mostra o histórico das projeções do MEM, para o final do campeonato, considerando o desempenho dos times ao longo das trinta rodadas já realizadas:


Quanto às probabilidades calculadas por vários "sites", ao final desta trigésima rodada, apresento-as no quadro subsequente:


Idem, para as chances de se abraçar à causa da segundona no ano que vem:


E, finalmente, as chances de participação na Libertadores de 2012:


É isso aí: como diria a Ana Carolina (essa foi mal, não?!). Agora, apenas um exercício de imaginação: última rodada, quem vencer fica na primeirona. Estadinho de Sete Lagoas cheio para ver Atlético Mineiro e Cruzeiro! Ou do outro lado da tabela: Engenhão lotado, para assistir ao clássico Botafogo x Fluminense, ou São Januário abarrotado para presenciar Vasco da Gama x Flamengo! Haja coração (outra vez, muito mal! Essa doeu em regiões irremediáveis (rs)).

Uma derradeira observação: daqui a cinco rodadas, na 35ª portanto, postarei estas mesmas projeções, para os números consolidados naquele momento. Ok?!

Um abração a todos.

H.C./Augusto

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Brasileirão 2011: Resultados da 29ª Rodada e Palpites para a 30ª Rodada

Vão aqui os resultados obtidos por cada equipe na 29ª rodada, cotejados aos respectivos palpites obtidos pela métrica que ando empregando. Mais abaixo, novos palpites, desta vez para a 30ª rodada.

Ao final dessa 30ª rodada, apresento a projeção da classificação para o final do campeonato, obtida por meio do Modelo Esotérico-Matemático (MEM). Mas atenção: o referido não tem absolutamente nada de esotérico, pois tudo é história dos times ao longo destas quase trinta rodadas já realizadas: gols marcados e sofridos, além do percentual de passes certos. O resto são probabilidades calculadas por inúmeros "sites" especializados em estatística e econometria.



Um abração e até a próxima.

H.C./J.A.R.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Desempenho Comparado das Dez Primeiras Rodadas em Cada Turno do Brasileirão 2011

Terminados todos os jogos da 29ª Rodada do Brasileirão 2011, apresentamos, a seguir, um quadro comparativo do desempenho de cada um dos sete principais postulantes ao título, para as dez primeiras rodadas em cada turno.

Por meio dele se observa que a maioria dos times exibe declínio em seu desempenho, outros melhora - como é o caso do Fluminense. Percebe-se, ainda, piora nos números da defesa de alguns postulantes, sendo a mais expressiva a quantidade de gols tomados pela retaguarda do Flamengo.

Para ciência, observo que os dados estatísticos aglutinados dos campeonatos de 2008 a 2010 mostram que ter uma grande defesa guarda maior correlação com as primeiras posições - inclusive, é óbvio, com a conquista do troféu -, do que, por exemplo, possuir um grande ataque.

Não fossem a distância já meio substancial em que se encontra em relação ao líder (6 pontos) e o momento já avançado do campeonato, diria que o Internacional teria tudo para chegar ao topo, pois sua defesa melhorou e o ataque continua eficiente, mesmo com a ausência momentânea de seu centroavante Leandro Damião.

Ficamos aqui, por agora. Em breve apresentarei as projeções para o final do campeonato, à luz da métrica do Modelo Esotérico-Matemático (MEM), considerando os números até o final da mencionada 29ª rodada.


Um grande abraço a todos.

J.A.R./H.C.

domingo, 9 de outubro de 2011

Resultados da 28ª Rodada e Palpites para a 29ª Rodada do Brasileirão 2011

Sempre informando que os palpites que proponho têm a ver com a quantidade de gols feitos e tomados por cada time nas últimas dez rodadas, com ou sem mando de campo - e absolutamente nada a ver com a qualidade do futebol apresentado por cada preliante -, apresento os palpites para a vindoura 29ª rodada e os resultados obtidos pela métrica do Modelo Esotérico-Matemático, com respeito à finda 28ª rodada:

Sumário da 28ª Rodada


Palpites para a 29ª Rodada


Um abraço para todos e até a próxima.

J.A.R./H.C.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Brasileirão 2011 - Mais Palpites e Resultados - 27ª e 28ª Rodadas

Depois do vergonhoso desempenho da métrica do Modelo Esotérico-Matemático (MEM) para as previsões de resultados para a rodada anterior, a 27ª do Brasileirão 2011 – o qual se comparou ao das previsões do PVC da ESPN, a quem tanto critico (rs), bem assim ao do modelo "Porra Louca com Viés Corintiano", do colega Iatã, todos eles acertando apenas três resultados, ou seja, exatamente a média esperável –, apresento as previsões do MEM para a próxima rodada:

JOGOS DA 27 ª RODADA - PALPITES/RESULTADOS
Bahia 2 (3) x 1 (2) Avaí
Fluminense 2 (3) x 1 (2) Santos
Palmeiras 2 (1) x 1 América-MG
Atlético-MG 3 (1) x 0 (1) Ceará
Atlético-PR 1 (2) x 2 (0) Inter
Figueirense 2 (0) x 1 (0) Coritiba
São Paulo 2 (1) x 2 Flamengo
Vasco 2 x 1 (2) Corinthians
Atlético-GO 1 (2) x 1 (0) Botafogo
Grêmio 2 x 0 Cruzeiro

PRÓXIMOS JOGOS - PALPITES

Jogo Atrasado da 11ª Rodada
Grêmio 2 x 1 Santos

Jogos da 28 ª Rodada - Palpites
Cruzeiro 1 x 2 São Paulo
Botafogo 2 x 1 Bahia
Coritiba 2 x 0 Grêmio
América-MG 2 x 1 Atlético-MG
Santos 1 x 1 Palmeiras
Flamengo 1 x 2 Fluminense
Internacional 2 x 2 Vasco da Gama
Ceará 1 x 1 Figueirense
Corinthians 2 x 1 Atlético-GO
Avaí 1 x 1 Atlético-PR

Observo que quando ocorre erro, na previsão pelo MEM, no número de gols de um determinado time em uma partida, em 73,5% (esta é a média nas cinco rodadas em que houve projeção), ou seja, praticamente em 3 a cada 4 oportunidades, a diferença é de apenas um (1) gol.

Outra inferência que se extrai dos dados: nas partidas em que o MEM apontava a vitória de um dado time e errou o resultado, apenas em 16,7% a vitória foi de seu oponente, ocorrendo empate nos 83,3% casos restantes, ou seja, uma (1) a cada seis (6) oportunidades.

Vejamos o que ocorre na próxima rodada.

J.A.R./H.C.

Aquilo Que Não Se Pode Aceitar em Caeiro

Ao ler alguns dos belos poemas de Alberto Caeiro, o exímio heterônomo de Fernando Pessoa, encontramos passagens desoladoras, que apontam para a aceitação de planos da realidade de um modo quase determinístico. O que se haveria de comentar do seguinte excerto?

ONTEM O PREGADOR DE VERDADES DELE

(...)
Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria uma passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda.
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.
Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ser iguais.
Para qual fui injusto - eu, que as vou comer a ambas?

(Fernando Pessoa - Alberto Caeiro)

Não lhe parece, leitor, que o autor lusitano não estaria insinuando que nada vale tentar mudar no mundo, se, ao fim, o destino de cada um é o passamento? Não seria uma proposta à inação?

H.C./Augusto