Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS
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sexta-feira, 7 de julho de 2023

Jofre Rocha - Na morte de Langston Hughes

Já lá se vão cinco décadas e meia da morte de Hughes e, consequentemente, da elaboração deste poema do autor angolano, ambos de tez negra, cor destinatária prevalecente da discriminação que ainda grassa nos dias que correm, quer em Angola, quer nos EUA, quer ainda em Pindorama, digam o que digam os que a renegam, pois os dados estatísticos – sociológicos e econômicos – são muito mais eloquentes.

 

O poema se pauta pelo verso derradeiro, levemente reescrito, de “I, too”, de autoria de Hughes, em evidente diálogo com as ponderações contestatárias presentes em suas linhas, em especial, aquela que compendia toda a intolerância que atravessa o corpo social: “À entrada dos convidados, vá comer na cozinha!”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jofre Rocha

(n. 1941)

 

Na morte de Langston Hughes

 

l’m too America!...

 

Sim, eras também América

embora não o quisessem eles.

 

Mas eras América por direito próprio

América desde a Guerra de Secessão

até à do Vietnam

passando pela Coreia.

 

Eras América nos músculos

na voz e nos nervos

América na carne e no sangue, que juntaste à argamassa

da pátria que não queriam tua.

 

Do conformismo jamais soubeste

a cor, por isso

em voz onde reminiscências pairavam

de escravidões passadas,

gritaste:

 

l’m too America!

 

Eras América, sim, Hughes

eras América no corpo

e na alma

da cabeça aos pés América

embora te mandassem para a cozinha

à entrada dos convidados.

 

Eras América, Hughes, tão América

como eles!

 

(Maio/67)

 

Langston Hughes

(1901-1967)


Referência:

 

ROCHA, Jofre. Na morte de Langston Hughes. In: GARCÍA, Xosé Lois (Traducción, introducción, glosario y biografía). Poemas a la madre África: antología de la poesía angolana del siglo XX. Edición bilingüe: português x español. Sada (A Coruña, ES): Ediciós do Castro, 1997. p. 228.

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sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Langston Hughes - Trompetista

A estabelecer, de imediato, um profundo contexto histórico e emocional relacionado à experiência afro-americana nos EUA, este poema de Hughes, ao mesmo tempo que sugere uma busca de conformidade dos negros às expectativas sociais, evidencia a substancial riqueza cultural de que investidos e a importância da música para a sua própria identidade.

 

Com efeito, a música lhes serve como uma ardente paixão, como uma terapia com poder de transformação, a expressão de um desejo de liberdade e de escape à opressão social, a acenar com a possibilidade de uma vida melhor em terras que prezem por um sentido de igualdade não apenas formal – longe das incertezas que lhes assoberbam o quotidiano.

 

J.A.R. – H.C.

 

Langston Hughes

(1901-1967)

 

Trumpet Player

 

The Negro

with the trumpet at his lips

has dark moons of weariness

beneath his eyes

where the smoldering memory

of slave ships

blazed to the crack of whips

about thighs.

 

The negro

with the trumpet at his lips

has a head of vibrant hair

tamed down,

patent-leathered now

until it gleams

like jet –

were jet a crown.

 

The music

from the trumpet at his lips

is honey

mixed with liquid fire

the rhythm

from the trumpet at his lips

is ecstasy

distilled from old desire –

 

Desire

that is longing for the moon

where the moonlight’s but a spotlight

in his eyes,

desire

that is longing for the sea

where the sea’s a bar-glass

sucker size.

 

The Negro

with the trumpet at his lips

whose jacket

has a fine one-button roll,

does not know

upon what riff the music slips.

 

It’s hypodermic needle

to his soul

but softly

as the tune comes from his throat

trouble

mellows to a golden note.

 

O Trompetista

(Jean-Marc Janiaczyk: artista francês)

 

Trompetista

 

O negro

com o trompete nos lábios

tem luas negras de fadiga

por baixo dos olhos

onde a memória esfumaçada

de navios negreiros

chameja no estalar de chicotes

à altura das coxas.

 

O negro

com o trompete em seus lábios

tem um crânio de vibrantes cabelos

domesticados,

lustrados agora

até que brilhem

feito azeviche –

o azeviche a parecer uma coroa.

 

A música

do trompete em seus lábios

é mel

de mistura com fogo líquido.

O ritmo

do trompete em seus lábios

é êxtase

destilado do velho desejo –

 

Desejo

que é saudade da lua

onde o luar é um ponto de luz

em seus olhos.

Desejo

que é saudade do mar

onde o mar é um vidro com barras

tamanho chupeta.

 

O negro

com o trompete nos lábios

e cujo colete

tem um belo trespasse de um botão,

não sabe

sobre que ranhuras a música desliza

sua agulha hipodérmica

até o fundo d’alma –

 

Mas suavemente

enquanto a melodia brota-lhe da garganta

os problemas

abrandam-se numa nota dourada.

 

Nota:

 

A versão ao português da segunda estrofe do poema não consta na tradução de Hélio Pólvora, inserta na segunda referência abaixo, sendo, por conseguinte, de minha autoria.

 

Referências:

 

Em Inglês

 

HUGHES, Langston. Trumpet player. In: __________. The collected poems of Langston Hughes. Edited by Arnold Rampersad (Editor) and David Roessel (Associate Editor). 1st ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of Random House, Inc.), nov. 1995. p. 338-339.

 

Em Português

 

HUGHES, Langston. Trompetista. Tradução de Hélio Pólvora. NEAL, Larry. Langston Hughes: o poeta negro predileto da América. Tradução de Hélio Pólvora. In: KOSTELANETZ, Richard (Org.). Viagem à literatura americana contemporânea. Vários tradutores. Rio de Janeiro, RJ: Editorial Nórdica, 1985. p. 98-99.

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sexta-feira, 5 de julho de 2019

Langston Hughes - Trocistas

O poeta se dirige aos de sua cor: os negros afro-americanos, que, lá como aqui, constituem parte da sociedade que atua em profissões “laterais”, quase nunca atingindo os postos mais elevados da nação. Mas mesmo “invisíveis” aos olhos de quem se arroga importância, eles representam “boa parte da alegria existente no mundo”.

Os negros, conforme Hughes, vivem sob a mão do destino, plenos de um espírito “risonho”, dançando, cantando, fazendo-nos rir por meio de suas comédias ligeiras – enquanto vivem uma vida dura de discriminação e segregação, com limitado nível de instrução que acaba por perpetuar a sua condição de injustiçados na sociedade.

J.A.R. – H.C.

Langston Hughes
(1902-1967)

Laughers

Dream-singers,
Story-tellers,
Dancers,
Loud laughers in the hands of Fate –
My people.
Dish-washers,
Elevator-boys,
Ladies’ maids,
Crap-shooters,
Cooks,
Waiters,
Jazzers,
Nurses of babies,
Loaders of ships,
Rounders,
Number writers,
Comedians in vaudeville
And band-men in circuses –
Dream-singers all, –
My people.
Story-tellers all, –
My people.
Dancers –
God! What dancers!
Singers –
God! What singers!
Singers and dancers
Dancers and laughers.
Laughers?
Yes, laughers... laughers... laughers –
Loud-mouthed laughers in the hands
Of Fate.

Jimi Hendrix
(Debra Hurd: pintora norte-americana)

Trocistas

Cantores do sonho,
Contadores de histórias,
Dançarinos,
Rindo alto nas mãos do Destino
– Meu povo.
Lavadores de pratos,
Ascensoristas,
Criadas de senhoras,
Jogadores de dados,
Cozinheiros,
Garçons,
Jazzistas,
Babás,
Estivadores,
Leões de chácara,
Bicheiros,
Comediantes de teatro ligeiro
E músicos nos circos...
Cantores do sonho, todos eles
– Meu povo.
Contadores de histórias, todos eles
– Meu povo.
Dançarinos...
Meu Deus! Que dançarinos!
Cantores...
Meu Deus! Que cantores!
Cantores e dançarinos.
Dançarinos e risonhos.
Risonhos?
Sim, risonhos... risonhos... risonhos...
Gente que ri alto nas mãos
do Destino.

Referências:

Em Inglês

HUGHES, Langston. Laughers. In: __________. The collected works. Vol. 1. The poems: 1921-1940. Edited with an introduction by Arnold Rampersad. Columbia, MO: University of Missouri Press, 2001. p. 107-108.

Em Português

HUGHES, Langston. Trocistas. Tradução de Hélio Pólvora. Apud: NEAL, Larry. Langston Hughes: o poeta negro predileto da América. In: KOSTELANETZ, Richard (Org.). Viagem à literatura americana contemporânea. Tradução de Jaime Bernardes et al. Rio de Janeiro, RJ: Nórdica, 1985. p. 105-106.
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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Langston Hughes - Lênin

Hughes tece loas ao líder socialista soviético Vladimir Lênin (1870-1924), que estaria a dar voltas ao mundo com suas ideias revolucionárias, ele que já havia liderado a Revolução Russa de 1917, quando o Partido Bolchevique tomou o poder, ao depor o regime czarista de Nicolau II, com o propósito de materializar muitas das ideias do alemão Karl Marx (1818-1883).

Convém informar que Hughes esteve em 1938 na antiga URSS e, sob a perspectiva de seu particular interesse, via na figura de Lênin uma espécie de líder que poderia contribuir para a causa da igualdade social, em particular a que fosse capaz de levar à harmonia racial – sendo ele um negro −, ainda que a pauta maior do socialismo tivesse por ênfase, como se sabe, a paridade econômica, a teor da evocação de Marx no “Manifesto do Partido Comunista”: “Trabalhadores do mundo inteiro, uni-vos!”.

J.A.R. – H.C.

Langston Hughes
(1902-1967)

Lenin

Lenin walks around the world.
Frontiers cannot bar him.
Neither barracks nor barricades impede.
Nor does barbed wire scar him.

Lenin walks around the world.
Black, brown, and white receive him.
Language is no barrier.
The strangest tongues believe him.

Lenin walks around the world.
The sun sets like a scar.
Between the darkness and the dawn
There rises a red star.

Lênin proclama o poder soviético
(Vladimir Serov: artista russo)

Lênin

Lênin caminha ao redor do mundo.
Fronteiras não são capazes de o deter.
Não o impedem quartéis ou barricadas.
Tampouco o assusta o arame farpado.

Lênin caminha ao redor do mundo.
Negros, pardos e brancos o recebem.
O idioma não é um obstáculo.
Nele creem as mais diferentes línguas.

Lênin caminha ao redor do mundo.
O sol se põe como uma cicatriz.
Entre o ocaso e a alvorada
Desponta uma estrela vermelha.

Referência:

HUGHES, Langston. Lenin. In: __________. The collected poems of Langston Hughes. Arnold Rampersad, editor; David Roessel, associate editor. 1st. ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of Random House Inc.), nov. 1995. p. 318. (Vintage Classics)
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