Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 27 de março de 2024

Dante Gabriel Rossetti - Soneto é um monumento do momento

Segundo Rossetti, um poema – digo melhor, um soneto – seria um “memorial”, espécie de distintivo com vocação a perdurar para sempre, amálgama perfeito de pensamentos e sentimentos, capaz de dar conta a requisitos de ordem estética ou, ainda, de saldar compromissos para com a vida, o amor e a morte.

 

O poema principia a sequência de sonetos “House of Life” (“Casa da Vida”), em “Ballads and Sonnets” (“Baladas e Sonetos”), de 1881, estando aqui apresentado em sua disposição gráfica original: foi ele redigido por Rossetti para celebrar um evento familiar auspicioso, a saber, os oitenta anos de sua genitora.

 

J.A.R. – H.C.

 

Dante Gabriel Rossetti

(1828-1882)

 

A Sonnet is a moment’s monument

 

A Sonnet is a moment’s monument, –

Memorial from the Soul’s eternity

To one dead deathless hour. Look that it be,

Whether for lustral rite or dire portent,

Of its own arduous fulness reverent:

Carve it in ivory or in ebony,

As Day or Night may rule; and let Time see

Its flowering crest impearled and orient.

 

A Sonnet is a coin: its face reveals

The soul, – its converse, to what Power ’tis due: –

Whether for tribute to the august appeals

Of Life, or dower in Love’s high retinue,

It serve; or, ’mid the dark wharf’s cavernous breath,

In Charon’s palm it pay the toll to Death.

 

Caronte, o barqueiro

(Timothy Lissimore: artista britânico)

 

Soneto é um monumento do momento

 

Soneto é um monumento do momento, –

Da Alma, memorial da eternidade

Ao morto, hora imortal. Na integridade,

Que seja rito em luz ou só portento,

Dessa árdua plenitude reverente:

No mármore ou no ébano, cinzele-o,

Ditam a Noite e o Dia; e o Tempo a vê-lo:

Pérolas, crista em flor e o oriente.

 

O soneto é moeda: a cara dela

Mostra a alma, – e a coroa a que Senhor

Deve: – ou por taxa ou quem augusto apela

À Vida, ou dom na corte alta do Amor,

Serve: ou, no arfar poroso em cais sem norte,

Paga à mão de Caronte o som da Morte.

 

Referências:

 

ROSSETTI, Dante Gabriel. A sonnet is a moment’s monument / Soneto é um monumento do momento. Tradução de José Lino Grünewald. In: GRÜNEWALD, José Lino (Organização e Tradução). Grandes poetas da língua inglesa do século XIX. Edição bilíngue: inglês x português. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1988. Em inglês: p. 118; em português: p. 119. (‘Poesia de todos os tempos’)

 

ROSSETTI, Dante Gabriel. A sonnet is a moment’s monument. In: __________. The poetical works of Dante Gabriel Rossetti. Edited with prefacy by William M. Rossetti. A new edition in one volume. London, EN: Ellis and Elvey, 1891. p. 170. Disponível neste endereço. Acesso em: 20 mar. 2024.

terça-feira, 26 de março de 2024

Marina Colasanti - No exato momento

Marina nos fala do quanto é frágil a vida, esse trânsito que se passa enquanto o coração se compraz em pulsar em seu duplo movimento – sístole e diástole –, representação categórica para o que se expande e volta a ser reabsorvido por nosso corpo, até que a última das quatro válvulas cardíacas empreenda o seu derradeiro “esforço” – e tudo se vá pelos ares!

 

Cessando também a respiração, sobrevém a morte e, com ela, o sol se precipita na escuridão e entornam-se as estrelas da Via Láctea, tais palavras a sugerirem, graciosamente, muito mais a falência do mundo em derredor – extrínseca portanto ao corpo –, do que, verdadeiramente, a completa e privativa cessação do sopro vital.

 

J.A.R. – H.C.

 

Marina Colasanti

(n. 1937)

 

No exato momento

 

Tão passageira a vida,

e é só o que temos.

E a tudo o que nela cabe

damos importância,

quando o que conta é o trânsito

de ar e sangue

que sístole e diástole garantem.

Haverá adiante

um ponto de mudez

e o último esforço das válvulas

uma e outra

arremessando o sol na escuridão

e entornando as estrelas

da Via Láctea.

 

Vida Frágil

(Ivan Krasiuk: artista canadense)

 

Referência:

 

COLASANTI, Marina. No exato momento. In: __________. Mais longa vida: poesia. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2020. p. 57.

segunda-feira, 25 de março de 2024

Urszula Kozioł - Lição de polonês

Kozioł ensina a um jovem como se deve comportar frente àqueles que se dispõem a levar à frente estados políticos de exceção, implementando leis marciais coativas e inquirindo à exaustão os que procuram agir na clandestinidade, até o limite da cooperação imoral ou mesmo do aniquilamento físico.

 

Importante frisar que o poema, datado de nov.1982, em pleno período de vigência de uma lei marcial na Polônia, somente foi publicado no tomo “Żalnik” (“Litania de Lamentos”), de 1989: nele, podem-se perceber as sugestões que se alinham a um instinto de preservação do inquirido, capazes de reduzir o interrogatório a um contato abreviado dos atos de fala, por meio de reticências, pela assunção de não se ter as informações buscadas pelo inquisidor e pelo mais puro silêncio.

 

J.A.R. – H.C.

 

Urszula Kozioł

(n. 1931)

 

Lekcja z polskiego

 

(Do młodego człowieka)

 

Pomiędzy “wiem” i “nie wiem”

jest obszar możliwości usiany bezpiecznymi znakami

zwątpienia i zapytania

owych “klap bezpieczeństwa” albo drzwi zapasowych

które możesz wyważyć w razie katastrofy

 

ich ptasio wypukły grzbiet doradza odmowę

stawiania ostatecznych kropek

i przytwierdzania szpilką do miejsca

ulotnych motyli

 

naucz się mówić “nie wiem

naucz się mówić “nie znam” “nie pamiętam

naucz się nie mówić

 

ćwicz pamięć w ułomności

wiesz że masz prawo być istotą omylną

lub niemową

 

upieraj się przy szumie w uszach na skutek wiatru historii

i zmiany ciśnienia

która zdarzenia życia zmienia w przywidzenia.

 

Borboletas da Mente

(Oana Rinaldi: artista romena)

 

Lição de polonês

 

(A um jovem)

 

Entre o “sei” e o “não sei”

há um campo de possibilidades salpicado com sinais seguros

de dúvidas e de pontos de interrogação

essas “escotilhas de segurança” ou portas de emergência

que se podem abrir à força em caso de catástrofe

 

suas costas convexas parecidas a pássaros aconselham a recusa

em se aplicar pontos finais

e em se prender com um alfinete o lugar

das borboletas efêmeras

 

aprenda a dizer “não sei”

aprenda a dizer “não sei” “não me lembro”

aprenda a não dizer nada

 

exercite a sua memória para incorrer em lapsos

reconheça que tem o direito de ser falível

ou manter-se calado

 

insista que o ruído em seus ouvidos se deve aos ventos da história

e às mudanças de pressão

os quais convertem em ilusões os eventos da vida.


Referência:

 

KOZIOŁ, Urszula. Lekcja z polskiego. In: __________. Poems. A bilingual edition: polish x english. Translations by Regina Grol-Prokopczyk. Austin, TX: Host Publications, 1989. p. 100.

domingo, 24 de março de 2024

Aricy Curvello - correnteza

O poeta acerca-se da máxima heraclitiana, conferindo-lhe uma nova redação – “o princípio é o movimento, a correnteza do efêmero” –, enfatizando ainda o poder que temos de nomear as coisas por meio da linguagem, como se fora o modo de mantermos na memória aquilo que um dia nos acompanhou, mas que submergiu no rio fugaz da temporalidade.

 

Tal é a correnteza onde se dão os ritmos reiterados da vida; o caráter cíclico da evolução; a permanência do ser sob a fugacidade do movimento, nos interstícios entre uma gênese e um óbito. Entrementes, sentimos a sede do absoluto com tanta água ao nosso redor. “Homo humus; fama fumus; finis cinis”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Aricy Curvello

(n. 1945)

 

correnteza

 

o que sempre some,

tudo tem um nome,

mas sabemos pouquíssimo da dor,

do obscuro poder do destino,

do tempo que é matéria perecível.

 

muito que temos por conhecimento

é só linguagem, porém

 

nada é só palavra:

o jamais cessado,

o eterno fugaz,

 

o princípio é o movimento,

a correnteza do efêmero.

 

Nuvem baixa: costa de Sussex

(Hannah Ivory Baker: artista inglesa)

 

Referência:

 

CURVELLO, Aricy. correnteza. In: __________. 50 poemas escolhidos pelo autor: Aricy Curvello. Rio de Janeiro, RJ: Edições Galo Branco, 2007. p. 68. (Coleção ‘50 poemas escolhidos pelo autor’; v. 25)

sábado, 23 de março de 2024

Carlos Bousoño - Definição da Beleza

A beleza, já por si, é eternidade, senda do inesgotável, segundo o poeta, um meteoro que nos convoca a um encontro impossível num momento qualquer, difícil de se prever: o arquétipo da deambulação fatigante por uma noite escura, ao encalço dos sussurros que nos chegam aos ouvidos, arrima essa visão que se fixa num broquel de um amanhecer que se pretende doce e resplandecente, mas cujo sentido é de difícil apreensão.

 

Percebe-se o afã do poeta por uma paradisíaca comunhão com a beleza, em suas múltiplas formas, visando dar conteúdo ao seu ofício e, por extensão, à sua própria existência, para, por conjectura, protrair o quanto possa a continuidade de suas palavras, vale dizer, autêntico meio de condensação verbal do que lhe vai perante os olhos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Bousoño

(1923-2015)

 

Definición de la Belleza

 

Sí, la belleza es eternidad y trasciende por tanto

a la aparición de su meteoro, el instante

en que la nieve cae y el bosque resplandece

de blancura soñada, en el amanecer

dulcísimo. Trasciende el vasto espacio,

la soberana luz. Pues la belleza

es más un camino que un fin y no se agota,

como un sendero inconfortable que seguimos fatigados

en una noche escura,

impulsados por una ansiedad, por un llamamiento,

por una voz que nos tartamudea y convoca

a una reunión imposible

en una hora de difícil

cálculo. Es imposible conocer

el sentido de la llamada, oir com nitidez

los susurros de la oscuridad.

 

Reunindo-se com a Beleza

(Sherrie Lovler: artista norte-americana)

 

Definição da Beleza

 

Sim, a beleza é eternidade e, portanto, transcende

à aparição de seu meteoro, o instante

em que a neve cai e o bosque resplandece

com uma alvura de sonho, no mais doce

amanhecer. Transcende o vasto espaço,

a luz soberana. Pois a beleza

é mais um caminho que um fim, e não se esgota,

como uma trilha desconfortável que percorremos fatigados

numa noite escura,

movidos por uma ansiedade, por um chamamento,

por uma voz que nos balbucia e convoca

a um encontro impossível,

em uma hora difícil

de se prever. É impossível apreender

o sentido do chamado, ouvir com nitidez

os sussurros da escuridão.

 

Referência:

 

BOUSOÑO, Carlos. Definición de la belleza. In: __________. Poesía – Antología: 1945-1993. Edición de Alejandro Duque Amusco. 2. ed. Madrid, ES: Espasa Calpe, 1995. p. 251. (Colección ‘Austral’; v. 313)