Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Marly de Oliveira - A Vida Natural

Este excerto do poema de Marly é a sua Seção XVII, na qual a poetisa capixaba evoca contexto alusivo à biografia do poeta italiano Leopardi, nascido em Recanati – pequena cidade na costa do Mar Adriático, às proximidades de San Marino –, mencionada explicitamente no verso exordial da primeira estrofe.

No fundo, Marly imagina como seria o cenário interiorano do qual Leopardi primeiro teve ciência em vida, e o coteja ao panorama que vislumbra de sua própria janela, algo bucólico e idílico, como nos inúmeros poemas, embora com outros formatos, dos autores que abraçaram o Arcadismo.

J.A.R. – H.C.

Marly de Oliveira
(1935-2007)

A Vida Natural

Seria assim a Recanati
do melancólico poeta,
com dias de azuis violentos
e noites com frios de lua

sobre as casas? Sobre as montanhas
distantes, de perfil sereno,
e árvores próximas, limpas
de galhos no inverno.

A sua janela daria
como esta minha sobre um largo
com um igreja muito antiga,
onde um pássaro solitário

pousa às vezes? E mais adiante
uma sebe, e depois da sebe
um infinito que imaginava,
e que eu vejo andando no campo.

E que eu vejo de corpo inteiro,
O infinito que recrudesce
a cada olhar, a cada passo
que dou na direção do vivo.

Efeito da luz solar da manhã em Eragny
(Camille Pissarro: pintor francês)

Referência:

OLIVEIRA, Marly de. A vida natural. In: __________. Poesia e prosa. Organização e notas de Marco Lucchesi. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1996. p. 986. (‘Biblioteca Universa’)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

May Swenson - O segredo no gato

O gato da poetisa é um mistério para ela: mesmo tendo-o destrinchado, Swenson continuou com as dúvidas que lhe assaltavam acerca do chiado que o bichano emite ao ronronar, como se houvesse alguma coisa estranha debaixo de sua pelagem.

Seria um motor de um automóvel, uma linha elétrica ou telegráfica, um diapasão ou um amplificador? Nada disso: o fato é que a poetisa não é capaz de sintonizar o canal por onde o gato transmitiria as suas mensagens, de outro modo repassadas intuitivamente pelos seus olhos, verdadeiros “tubos elípticos”.

J.A.R. – H.C.

May Swenson
(1913-1989)

The secret in the cat

I took my cat apart
to see what made him purr.
Like an electric clock
or like the snore

of a warming kettle,
something fizzed and sizzled in him.
Was he a soft car,
the engine bubbling sound?

Was there a wire beneath his fur,
or humming throttle?
I undid his throat.
Within was no stir.

I opened his chest
as though it were a door:
no whisk or rattle there.
I lifted off his skull:

no hiss or murmur.
I halved his little belly
but found no gear,
no cause for static.

So I replaced his lid,
laced his little gut.
His heart into his vest I slid
and buttoned up his throat.

His tail rose to a rod
and beckoned to the air.
Some voltage made him vibrate
warmer than before.

Whiskers and a tail:
perhaps they caught
some radar code
emitted as a pip, a dot-and-dash

of woolen sound.
My cat a kind of tuning fork? –
amplifier? – telegraph? –
doing secret signal work?

His eyes elliptic tubes:
there’s a message in his stare.
I stroke him
but cannot find the dial.

O favorito
(Frederico Andreotti: pintor italiano)

O segredo no gato

Desmontei o meu gato
para ver o que o fazia ronronar.
Como um relógio elétrico
ou como o ronco

de uma chaleira aquecida,
algo nele zumbia e chiava.
Era um carro macio,
com o som do motor a borbulhar?

Havia uma linha elétrica sob seu pelo,
ou o zumbido do acelerador?
Descerrei-lhe a garganta.
Dentro não havia agitação.

Abri o seu peito
como se uma porta fosse:
nenhum estalido ou guizo lá.
Despeguei-lhe o crânio:

sem silvos nem murmúrios.
Cortei ao meio seu pequeno ventre,
mas não topei com mecanismo algum,
nenhuma causa para a estática.

Então lhe repus a cachola,
entrancei-lhe o diminuto intestino.
Seu coração no torso eu assentei
e voltei a confinar sua garganta.

Sua cauda empinou feito um tirante,
e fez acenos ao ar.
Alguma voltagem o fez vibrar
mais aquecido do que antes.

Os bigodes e a cauda
talvez tenham capturado
algum código de radar
emitido como um sinal, um ponto e traço

de um som lanoso.
Meu gato é uma espécie de diapasão? –
amplificador? – telégrafo? –
prestando serviço de sinal secreto?

Seus olhos são tubos elípticos:
há uma mensagem em seu olhar.
Eu o acaricio,
mas não consigo dar com o sintonizador.

Referência:

SWENSON, May. The secret in the cat. In: MOLLOY, Paul (Ed.). 100 plus american poems. 6th printing. New York, NY: Scholastic Book Services, 1973. p. 50-51.
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Friedrich Nietzsche - A Palavra

“As palavras têm poder”: assim costumamos atribuir força aos vocábulos. E, apesar de elas serem mera verbalização, encetam ações no plano real: esse é o mote principal que levou o grande filósofo da linguagem inglês John L. Austin (1911-1960) a redigir uma de suas principais obras, a saber, “How to Do Things with Words” (“Como Fazer Coisas com as Palavras”), de 1955.

Neste poema, outro grande filósofo, o alemão Friedrich Nietzsche tece loas às palavras, tantas vezes por ele empregadas para erigir a sua “filosofia às marteladas”, tal como ele próprio a caracterizou no subtítulo de um de seus mais comentados livros, qual seja, “Götzen-Dämmerung oder Wie man mit dem Hammer philosophirt” (“O Crepúsculo dos Ídolos ou como Filosofar com um Martelo”), de 1889.

J.A.R. – H.C.

Friedrich Nietzsche
(1844-1900)

Das Wort

Lebendgem Worte bin ich gut:
Das springt heran so wohlgemut,
Das grüsst mit artigem Genick,
Ist lieblich selbst im Ungeschick,
Hat Blut in sieh, kann herzhaft schnauben,
Kriecht dann zum Ohre selbst dem Tauben,
Und ringelt sieh und flattert jetzt,
Und was es tut – das Wort ergetzt.

Doch bleibt das Wort ein zartes Wesen,
Bald krank und aber bald genesen.
Willt ihm sein kleines Leben lassen,
Musst du es leicht und zierlich fassen,
Nicht plump betasten und bedrücken,
Es stirbt oft schon an bósen Blicken –
Und liegt dann da, so ungestalt,
So seelenlos, so arm und kalt,
Sein kleiner Leichnam arg verwandelt,
Von Tod und Sterben missgehandelt.

Ein totes Wort – ein hasslich Ding,
Ein klapperdürres Kling-Kling-Kling.
Pfui allen hdsslichen Gewerben,
An denen Wort und Wórtchen sterben!

Vale Dedham
(John Constable: pintor inglês)

A Palavra

À palavra viva é que eu tenho amor:
Salta tão jovial ao nosso encontro,
Saúda com gesto gracioso,
É bela mesmo sem jeito,
Tem sangue, é capaz de esbravejar com brio,
E então entra até nas orelhas de um surdo,
Encaracola-se e põe-se a voar,
E em tudo o que faz – a palavra encanta.

Mas a palavra é um ser delicado,
Ora doente, ora outra vez sadia.
Se lhe queres poupar a pequenina vida,
Tens de lhe pegar com leveza e graça,
Sem a apalpares nem a apertares à bruta,
Que ela morre por vezes já de um mau olhar –
E aí fica ela, tão desfigurada,
Tão sem alma, tão pobre e fria,
O seu corpinho a tal ponto transformado,
Da morte e da agonia mal-tratado.

Uma palavra morta – feia coisa,
Um chocalhante e seco cling-ling-ling.
Fora esses ofícios hediondos
Que fazem morrer as palavrinhas!

Referência:

NIETZSCHE, Friedrich. Das wort / A palavra. Tradução de Paulo Quintela. In: __________. Poemas. Selecção, versão portuguesa, prefácio e notas de Paulo Quintela. Edição bilíngue. 3. ed. revisada. Coimbra, PT: Centelha, 1986. Em alemão: p. 202; em português: p. 203.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Carlos Drummond de Andrade - A Outra Porta do Prazer

Qual seria a outra porta do prazer a que o poeta itabirano alude? Haveria dúvidas nessa metáfora? Julgo que não! Há quem faça visitas frequentes adentrando essa porta. Há quem, de modo algum, se permite visitas por essa via. Tudo é uma questão de apelo, convencimento, liberação ou resistência.

Mas veja-se lá se estou aqui a conjecturar sobre coisas íntimas que, em épocas de redes sociais desabridas, vêm à baila com certa frequência: volta e meia aparecem figuras a veicular suas preferências eróticas aos quatro ventos e, o pior, é que há audiência atenta a tais exposições. Mas haveria audiência às sensualíssimas palavras do poeta?

J.A.R. – H.C.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

A Outra Porta do Prazer

A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.

Amor não é completo se não sabe
coisas que só amor pode inventar.
Procura o estreito átrio do cubículo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente
fome de conhecimento pelo gozo.

O Espectro do Apelo Sexual
(Salvador Dalí: pintor espanhol)

Referência:

ANDRADE, Carlos Drummond. A outra porta do prazer. In: __________. O amor natural. São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1992. p. 56.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Ogden Nash - O Purista

Nem mesmo à vista de que a sua noiva havia sido comida por um “crocodilo”, o cientista purista, com um sorriso no rosto, deixou de retificar o seu guia quando este o informou, equivocadamente, de que a amada havia se transformado em suculento alimento para um “jacaré”.

O lado jocoso do poema levou-me a associá-lo, ainda que meio ao largo, àquelas pessoas que, sendo contrariadas em seus argumentos, recorrem à preciosidade ou à exatidão das terminologias (sem demérito, contudo, ao uso parcimonioso delas), para sustentar um ponto de vista infenso ao de seus interlocutores.

J.A.R. – H.C.

Ogden Nash
(1902-1971)

The Purist

I give you now Professor Twist,
A conscientious scientist,
Trustees exclaimed, “He never bungles!”
And sent him off to distant jungles.
Camped on a tropic riverside,
One day he missed his loving bride.
She had, the guide informed him later,
Been eaten by an alligator.
Professor Twist could not but smile.
“You mean,” he said, “a crocodile.”

Espantosa
(William B. Montgomery: pintor norte-americano)

O Purista

Confio-lhes agora o Professor Twist,
Um consciencioso cientista,
Pelo que exclamaram os mandatários:
“Ele nunca se equivoca!”
E o enviaram a selvas distantes.
Acampado em uma ribeira tropical,
Um dia ele sentiu falta de sua amada noiva.
Ela, informou-lhe o guia mais tarde,
Havia sido comida por um jacaré.
O Professor Twist não pôde evitar o sorriso.
“Queres dizer”, afirmou, “um crocodilo.”

Referência:

NASH, Ogden. The purist. In: MOLLOY, Paul (Ed.). 100 plus american poems. 6th printing. New York, NY: Scholastic Book Services, 1973. p. 156.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Nicanor Parra - Solilóquio do Indivíduo

Carregado de ironias, este poema de Parra aborda o quanto de contrassenso é capaz de se sublinhar no processo humano dito evolutivo: o ente lírico identifica-se como o próprio representante da humanidade, saído das cavernas, trilhando os passos da história de forma não exatamente afirmativa, senão imponderada, muitas vezes inconsequente.

É a caricatura do homem transitando da solidão dos primórdios rumo ao domínio da natureza, da integração com os seus pares, dos extremos da era da tecnologia – e do regresso a uma outra situação de solidão, na era da pós-modernidade, quando se duvida até mesmo da existência de algum sentido para a experiência humana sobre a terra.

J.A.R. – H.C.

Nicanor Parra
(1914-2018)

Soliloquio del Individuo

Yo soy el Individuo.
Primero viví en una roca
(Allí grabé algunas figuras).
Luego busqué un lugar más apropiado.
Yo soy el Individuo.
Primero tuve que procurarme alimentos,
Buscar peces, pájaros, buscar leña,
(Ya me preocuparía de los demás asuntos).
Hacer una fogata,
Leña, leña, dónde encontrar un poco de leña,
Algo de leña para hacer una fogata,
Yo soy el Individuo.
Al mismo tiempo me pregunté,
Fui a un abismo lleno de aire;
Me respondió una voz:
Yo soy el Individuo.
Después traté de cambiarme a otra roca,
Allí también grabé figuras,
Grabé un río, búfalos,
Grabé una serpiente,
Yo soy el Individuo.
Pero no. Me aburrí de las cosas que hacía,
El fuego me molestaba,
Quería ver más,
Yo soy el Individuo.
Bajé a un valle regado por un río,
Allí encontré lo que necesitaba,
Encontré un pueblo salvaje,
Una tribu,
Yo soy el Individuo.
Vi que allí se hacían algunas cosas,
Figuras grababan en las rocas,
Hacían fuego, ¡también hacían fuego!
Yo soy el Individuo.
Me preguntaron que de dónde venía.
Contesté que sí, que no tenía planes determinados,
Contesté que no, que de allí en adelante.
Bien.
Tomé entonces un trozo de piedra que encontré en un río
Y empecé a trabajar con ella,
Empecé a pulirla,
De ella hice una parte de mi propia vida.
Pero esto es demasiado largo.
Corté unos árboles para navegar,
Buscaba peces,
Buscaba diferentes cosas,
(Yo soy el Individuo).
Hasta que me empecé a aburrir nuevamente.
Las tempestades aburren,
Los truenos, los relámpagos,
Yo soy el Individuo.
Bien. Me puse a pensar un poco,
Preguntas estúpidas se me venían a la cabeza.
Falsos problemas.
Entonces empecé a vagar por unos bosques.
Llegué a un árbol y a otro árbol;
Llegué a una fuente,
A una fosa en que se veían algunas ratas:
Aquí vengo yo, dije entonces,
¿Habéis visto por aquí una tribu,
Un pueblo salvaje que hace fuego?
De este modo me desplacé hacia el oeste
Acompañado por otros seres,
O más bien solo.
Para ver hay que creer, me decían,
Yo soy el Individuo.
Formas veía en la obscuridad,
Nubes tal vez,
Tal vez veía nubes, veía relámpagos,
A todo esto habían pasado ya varios días,
Yo me sentía morir;
Inventé unas máquinas,
Construí relojes,
Armas, vehículos,
Yo soy el Individuo.
Apenas tenía tiempo para enterrar a mis muertos,
Apenas tenía tiempo para sembrar,
Yo soy el Individuo.
Años más tarde concebí unas cosas,
Unas formas,
Crucé las fronteras
y permanecí fijo en una especie de nicho,
En una barca que navegó cuarenta días,
Cuarenta noches,
Yo soy el Individuo.
Luego vinieron unas sequías,
Vinieron unas guerras,
Tipos de color entraron al valle,
Pero yo debía seguir adelante,
Debía producir.
Produje ciencia, verdades inmutables,
Produje tanagras,
Di a luz libros de miles de páginas,
Se me hinchó la cara,
Construí un fonógrafo,
La máquina de coser,
Empezaron a aparecer los primeros automóviles,
Yo soy el Individuo.
Alguien segregaba planetas,
¡Árboles segregaba!
Pero yo segregaba herramientas,
Muebles, útiles de escritorio,
Yo soy el Individuo.
Se construyeron también ciudades,
Rutas
Instituciones religiosas pasaron de moda,
Buscaban dicha, buscaban felicidad,
Yo soy el Individuo.
Después me dediqué mejor a viajar,
A practicar, a practicar idiomas,
Idiomas,
Yo soy el Individuo.
Miré por una cerradura,
Sí, miré, qué digo, miré,
Para salir de la duda miré,
Detrás de unas cortinas,
Yo soy el Individuo.
Bien.
Mejor es tal vez que vuelva a ese valle,
A esa roca que me sirvió de hogar,
Y empiece a grabar de nuevo,
De atrás para adelante grabar
El mundo al revés.
Pero no: la vida no tiene sentido.

En: “Poemas y antipoemas” (1954)

O Homem Primitivo
(Odilon Redon: pintor francês)

Solilóquio do Indivíduo

Eu sou o Indivíduo.
Primeiro vivi numa rocha
(Ali gravei algumas figuras).
Depois procurei um lugar mais apropriado.
Eu sou o Indivíduo.
Primeiro tive que procurar alimentos,
Procurar peixes, pássaros, buscar lenha
(Depois me preocuparia com os outros assuntos).
Fazer uma fogueira,
Lenha, lenha, onde encontrar um pouco de lenha,
Alguma lenha para fazer uma fogueira,
Eu sou o Indivíduo.
Ao mesmo tempo me perguntei,
Fui a um abismo cheio de ar;
Uma voz me respondeu:
Eu sou o Indivíduo.
Depois tratei de me mudar para outra rocha,
Ali também gravei figuras,
Gravei um rio, búfalos,
Gravei uma serpente,
Eu sou o Indivíduo.
Mas não. Me entediei com as coisas que fazia,
O fogo me incomodava,
Queria ver mais,
Eu sou o Indivíduo.
Desci até um vale banhado por um rio,
Ali encontrei o que necessitava,
Encontrei um povo selvagem,
Uma tribo,
Eu sou o Indivíduo.
Vi que ali faziam algumas coisas,
Figuras gravavam nas rochas,
Faziam fogo, também faziam fogo!,
Eu sou o Indivíduo.
Me perguntaram de onde eu vinha.
Respondi que sim, que não tinha planos determinados,
Respondi que não, que dali para a frente.
Bem.
Então peguei um pedaço de pedra que encontrei num rio
E comecei a trabalhar nela,
Comecei a poli-la,
Dela fiz uma parte de minha própria vida.
Mas isso é longo demais.
Cortei umas árvores para navegar,
Procurava peixes,
Procurava diferentes coisas
(Eu sou o Indivíduo).
Até que comecei a me entediar novamente.
As tempestades entediam,
Os trovões, os relâmpagos,
Eu sou o Indivíduo.
Bem. Me pus a pensar um pouco,
Perguntas estúpidas me vinham à cabeça,
Falsos problemas.
Então comecei a vagar pelos bosques.
Cheguei a uma árvore e a outra árvore,
Cheguei a uma fonte,
A um fosso onde se viam alguns ratos:
Aqui estou eu, disse então,
Vocês viram por aqui uma tribo,
Um povo selvagem que faz fogo?
Desse modo me desloquei para o oeste
Acompanhado por outros seres,
Ou melhor, sozinho.
Para ver é preciso crer, me diziam,
Eu sou o Indivíduo.
Via formas na escuridão,
Nuvens talvez,
Talvez visse nuvens, via relâmpagos,
Nisso já haviam passado vários dias,
Eu me sentia morrer;
Inventei umas máquinas,
Construí relógios,
Armas, veículos,
Eu sou o Indivíduo.
Mal tinha tempo para enterrar meus mortos,
Mal tinha tempo para semear,
Eu sou o Indivíduo.
Anos depois concebi algumas coisas,
Umas formas,
Cruzei as fronteiras
E permaneci fixo numa espécie de nicho,
Numa barca que navegou quarenta dias,
Quarenta noites,
Eu sou o Indivíduo.
Depois vieram umas secas,
Vieram umas guerras,
Pessoas de cor entraram no vale,
Mas eu precisava seguir em frente,
Precisava produzir.
Produzi ciência, verdades imutáveis,
Produzi tânagras,
Dei à luz livros de milhares de páginas,
Minha cara inchou,
Construí um fonógrafo,
A máquina de costurar,
Começaram a aparecer os primeiros automóveis,
Eu sou o Indivíduo.
Alguém segregava planetas,
Segregava árvores!,
Mas eu segregava ferramentas,
Móveis, apetrechos de escritório,
Eu sou o Indivíduo.
Cidades foram construídas,
Estradas,
Instituições religiosas saíram de moda,
Procuravam alegria, procuravam felicidade,
Eu sou o Indivíduo.
Depois me dediquei mais a viajar,
A praticar, a praticar idiomas,
Idiomas,
Eu sou o Indivíduo.
Olhei por uma fechadura,
Sim, olhei, fazer o quê, olhei,
Para tirar a dúvida olhei,
Por trás de umas cortinas,
Eu sou o Indivíduo.
Bem.
Talvez seja melhor voltar àquele vale,
Àquela rocha que me serviu de lar,
E começar a gravar de novo,
De trás para a frente gravar
O mundo ao revés.
Mas não: a vida não tem sentido.

Em: “Poemas e antipoemas” (1954)

Referência:

PARRA, Nicanor. Soliloquio del individuo / Solilóquio do indivíduo. Tradução de Joana Barossi e Cide Piquet. In: __________. Só para maiores de cem anos: antologia (anti)poética. Seleção e tradução de Joana Barossi e Cide Piquet. Edição bilíngue. 1. ed. São Paulo, SP: Editora 34, 2018. Em espanhol: p. 194-197; em português: p. 44-47.