Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Brasileirão 2016 - 36ª Rodada - Projeção para o Fim

Prezado(a)s,

1. Muita calma nesta hora: quem pensou que o “cheirinho” acabou, está redondamente enganado! Ele apenas mudou de dono: passou do Flamengo para o Santos. Afinal, o que seria uma chance de título de apenas 1,3% em média? Ora, pois: um “cheirinho”!

2. Afinal, nem se precisa de modelo para se chegar ao valor da probabilidade que tem o Santos para ser campeão! Vejam: suponhamos que as chances de vitória, derrota e empate de todos os times sejam idênticas, vale dizer, 1/3 para cada resultado.

3. Como para o time da Vila ser campeão somente uma combinação de resultados é possível, qual seja, duas derrotas do Palmeiras e duas vitórias do próprio Santos, tem-se então, enquanto eventos independentes: “Cheirinho” = (1/3)x(1/3)x(1/3)x(1/3) = 1,23%. Se estiver equivocado, os matemáticos que me corrijam...

4. Sem repetir o bordão da Ana Carolina, os números estão aí para demonstrar que o “Porco” só não será campeão se, amanhã, o sol não se levantar!

5. Quanto ao Z4, a coisa está muito feia para o Colorado! Disseram-me, há alguns dias – claro, um certo colega torcedor do Grêmio! –, que o Inter está irremediavelmente com um pé na Segundona. E como o mascote do time é um saci, ora ora, tendo só um pé, a coisa já não tem mais conserto!

6. Aliás, observe-se que o M.E.M. vem apresentando o Internacional dentro do Z4, ou em suas imediações, desde o final do 1º Turno, restando, por conseguinte, dezenove (19) rodadas para o fim do campeonato, tempo mais do que suficiente para se fazer algumas contratações e encorpar o elenco. Contudo, agora, Inês está semimorta! Só mesmo um milagre!

7. E ficamos por aqui: veremos o que nos trarão as próximas duas rodadas finais.

Um abração a todo(a)s,

J.A.R. – H.C.

Fontes:





Jaime Gil de Biedma - O jogo de fazer versos

Já se foram muitas postagens neste blog com criações metapoéticos, cada qual, à sua maneira, tentando definir ou conceituar o fazer poético, suas funções, suas formas de evidenciação, suas técnicas, seus efeitos, seus mistérios – se os há.

Eis aqui mais um: o poeta espanhol Biedma considera haver mais técnica que sentimento nesse “jogo de fazer versos”, nesse vício solitário no qual se adentra, no início, sem a malícia das criações plagiárias, mas que, em última instância, não passa da conjugação de vocação com algum trabalho.

J.A.R. – H.C.

Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)

El juego de hacer versos

El juego de hacer versos
– que no es un juego – es algo
parecido en principio
al placer solitario.

Con la primera muda,
en los años nostálgicos
de nuestra adolescencia,
a escribir empezamos.

Y son nuestros poemas
del todo imaginarios
– demasiado inexpertos,
ni siquiera plagiamos –

porque la Poesía
es un ángel abstracto
y, como todos ellos,
predispuesto a halagarnos.

El arte es otra cosa
distinta. El resultado
de mucha vocación
y un poco de trabajo.

Aprender a pensar
en renglones contados
– y no en los sentimientos
con que nos exaltábamos –,

tratar con el idioma
como si fuera mágico
es un buen ejercicio,
que llega a emborracharnos.

Luego está el instrumento
en su punto afinado:
la mejor poesía
es el verbo hecho tango.

Y los poemas son
un modo que adoptamos
para que nos entiendan
y que nos entendamos.

Lo que importa explicar
es la vida, los rasgos
de su filantropía,
las noches de sus sábados.

La manera que tiene
sobre todo en verano
de ser un paraíso.
aunque, de vez en cuando,

si alguna de esas noches
que las carga el diablo
uno piensa en la historia
de estos últimos años,

si piensa en esta vida
que nos hace pedazos
de madera podrida,
perdida en un naufragio,

la conciencia le pesa
– por estar intentando
persuadirse en secreto
de que aún es honrado.

El juego de hacer versos,
que no es un juego, es algo
que acaba pareciéndose
al vicio solitario.

En: “Moralidades” (1966)

Imersa na leitura: um retrato
de Sofia Kramskoya,
a esposa do pintor
(Ivan Kramskoi: pintor russo)

O jogo de fazer versos

O jogo de fazer versos
– que não é um jogo – é algo
parecido em princípio
ao prazer solitário.

Com a primeira muda,
nos anos nostálgicos
de nossa adolescência,
a escrever começamos.

E são nossos poemas
de todo imaginários
– demasiado inexpertos,
nem sequer plagiamos.

porque a Poesia
é um anjo abstrato
e, como todos eles,
predisposto a lisonjear-nos.

A arte é outra coisa
distinta. O resultado
de muita vocação
e um pouco de trabalho.

Aprender a pensar
em linhas contadas
– e não nos sentimentos
com que nos exaltávamos –

tratar com o idioma
como se fosse mágico
é um bom exercício,
que chega a inebriar-nos.

Logo está o instrumento
em seu ponto afinado:
a melhor poesia
é o verbo feito tango.

E os poemas são
um modo que adotamos
para que nos entendam
e que nos entendamos.

O que importa explicar
é a vida, os traços
de sua filantropia,
as noites de seus sábados.

A maneira que tem
sobretudo no verão
de ser um paraíso.
ainda que, vez por outra,

se alguma dessas noites
carregadas pelo diabo
alguém pensa na história
destes últimos anos,

se pensa nesta vida
que nos faz pedaços
de madeira apodrecida,
perdida num naufrágio,

pesa-lhe a consciência
– por estar tentando
persuadir-se em segredo
de que ainda é honrado.

O jogo de fazer versos,
que não é um  jogo, é algo
que acaba por se parecer
ao vício solitário.

Em: “Moralidades” (1966)

Referência:

BIEDMA, Jaime Gil de. El juego de hacer versos. In: VOUTSA, Styliani. Constantinos Cavafis y Jayme Gil de Biedma: dos poetas, una concepción vital y estética. 1. ed. Salamanca, ES: Ediciones Universidad de Salamanca, 2012. p. 256-258. (“Colección Vítor”; v. 316)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Paulo Henriques Britto - Sete Estudos para a Mão Esquerda: II

Em “Sete Estudos para a Mão Esquerda”, o poeta e tradutor carioca discorre sobre o soneto, em meio a ponderosas reflexões metalinguísticas: são, de fato, sete sonetos com formatação invertida – ao invés de 4-4-3-3, tem-se 3-3-4-4, a exemplo do abaixo transcrito.

O soneto selecionado expressa a ideia de que o seu autor pretende exaltar a lembrança de uma determinada tarde. Mas quando passa dessa ideia à redação propriamente dita do poema, o que se modifica é a própria ideia, subjugada aos conformes da inspiração e do trabalho poético.

Ao final, o poeta reconhece que, desde o início, tratava-se de causa perdida: seu afã de celebrar a graça de uma tarde resultou frustrado. Com a mão esquerda, terá ele contemplado a beleza de ponta-cabeça.

J.A.R. – H.C.

Paulo Henriques Britto
(n. 1951)

Sete Estudos para a Mão Esquerda

II

Tento dizer: a tarde tem o tom
exato de outra tarde que conheço,
mas qual? (Mas neste instante escuto o som

de uma outra voz, que é minha e desconheço,
e o que ela diz é belo, é certo e é bom.
Mas o que digo assim não reconheço.

É como um deus de bolso, esta presença
que o próprio gesto de negar evoca.
A voz é dela, embora me pertença
a música. E mais a mão que a toca.)

Naturalmente, enquanto isso a tarde
se apaga, anêmica, despercebida,
e vem a noite, com seu negro alarde.
Desde o começo a causa era perdida.

Uma Xícara de Chá
(Pierre-Auguste Renoir: pintor francês)

Referência:

BRITTO, Paulo Henriques. Sete estudos para a mão esquerda: II. In: ARIJÓN, Teresa (Coord.). Puentes / Pontes. Antología bilingüe / Antologia bilíngue. Poesía argentina y brasileña contemporánea / Poesia argentina e brasileira contemporânea. 1. ed. Buenos Aires, AR: Fondo de Cultura Económica, 2003. p. 480.

domingo, 20 de novembro de 2016

Samuel Johnson - Amizade

Que tal um poema sobre a amizade, da pena de um dos escritores que o crítico literário norte-americano Harold Bloom considera pertencer ao rol dos maiores gênios da literatura universal de todos os tempos?!

A amizade, de fato, é uma grande dádiva dos céus: como já afirmava o compositor e intérprete mineiro Milton Nascimento, em “Canção da América”, lá pelos anos 80 do século passado, “amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito”!

J.A.R. – H.C.

Samuel Johnson
(1709-1784)
Retrato de Sir Joshua Reynolds

Friendship

Friendship, peculiar boon of heaven,
The noble mind’s delight and pride,
To men and angels only given,
To all the lower world denied.

While love, unknown among the blest,
Parent of thousand wild desires,
The savage and the human breast
Torments alike with raging fires.

With bright, but oft destructive gleam,
Alike o’er all his lightnings fly,
Thy lambent glories only beam
Around the fav’rites of the sky.

Thy gentle flows of guiltless joys,
On fools and villains nev’er descend;
In vain for thee the tyrant sighs,
And hugs a flatterer for a friend.

Directress of the brave and just,
O guide us through life’s darksome way!
And let the tortures of mistrust
On selfish bosoms only prey.

Nor shall thine ardours cease to glow,
When souls to peaceful climes remove:
What rais’d our virtue here below,
Shall aid our happiness above.

Amigas sob a chuva
(Leonid Afremov: pintor israelense)

Amizade

Amizade, peculiar dádiva do céu,
Deleite e orgulho da mente nobre,
Somente concedida a homens e anjos,
Negada para os do mundo ínfero.

Enquanto amor, ignota entre benditos,
Origem de mil desejos indômitos,
O selvagem e o humano enfrentam
Tormentos semelhantes a intensas chamas.

Cintilante, mas às vezes com brilho destrutor,
Mesmo sobre todos os teus clarões flutuas,
Tuas vívidas glórias somente recendem
À volta dos que do céu são favoritos.

Teus fluxos suaves de inocentes alegrias,
Sobre tolos e vilões nunca descem,
Em vão por ti suspira o tirano,
A cingir um adulador como amigo.

Mentora dos bravos e dos justos,
Ó guia-nos pelas umbrosas sendas da vida!
E deixa que as torturas da suspeição
Somente inquietem os torsos ególatras.

Tampouco teu ardor deixará de luzir,
Quando as almas partirem a mansos climas:
O que soergueu nossa justiça aqui embaixo,
Há de prover a nossa ventura lá em cima.

Referência:

JOHNSON, Samuel. Friendship. In: MACKAY, Charles (Selector and arrangement). Thousand and one gems of english poetry. London, EN: George Routledge and Sons, 1867. p. 208-209.

sábado, 19 de novembro de 2016

Brasileirão 2016 - 35ª Rodada - Projeção para o Fim

Prezado(a)s,

1. Agora só faltam três rodadas para o fim do campeonato e permanece forte o “cheirinho” de leitão ao término da corrida.

2. Não há muito o que dizer pelo momento, pois as tendências apresentadas ao final da rodada 34 persistiram ao apagar das luzes da 35, quer no G6 quer no Z4 – como o internauta pode ratificar nas informações constantes nos quadros abaixo.

Um abração a todo(a)s,

J.A.R. – H.C.

Fontes:


  


José Hierro - Teoria e Alucinação de Dublin

O poeta teoriza sobre o fazer poético e a sua importância para preencher-nos de algum significado – se, de outro modo, não optarmos pela nostalgia ou pelo vinho –, caso nos dermos o tempo necessário para contemplar de modo sereno nossas vidas, por vezes saturada de ações que não passam de subterfúgios para... “matar o tempo”.

Ao recordar e imaginar as árvores de Dublin, Hierro preenche o seu próprio vazio, carente de nostalgia, vinho e ação. Mas o que vê, de fato, não é Dublin, a capital da Irlanda – conjecturada como pura “alucinação” –, senão Madrid, a sua própria cidade.

J.A.R. – H.C.

José Hierro
(1922-2002)

Teoría y Alucinación de Dublín

I. Teoría

Un instante vacío
de acción puede poblarse solamente
de nostalgia o de vino.
Hay quien lo llena de palabras vivas,
de poesía (acción
de espectros, vino con remordimiento).

Cuando la vida se detiene,
se escribe lo pasado o lo imposible
para que los demás vivan aquello
que ya vivió (o que no vivió) el poeta.
Él no puede dar vino,
nostalgia a los demás: sólo palabras.
Si les pudiese dar acción...

La poesía es como el viento,
o como el fuego, o como el mar.
Hace vibrar árboles, ropas,
abrasa espigas, hojas secas,
acuna en su oleaje los objetos
que duermen en la playa.

La poesía es como el viento,
o como el fuego, o como el mar:
da apariencia de vida
a lo inmóvil, a lo paralizado.
Y el leño que arde,
las conchas que las olas traen o llevan,
el papel que arrebata el viento,
destellan una vida momentánea
entre dos inmovilidades.

Pero los que están vivos,
los henchidos de acción,
los palpitantes de nostalgia o vino,
esos... felices, bienaventurados,
porque no necesitan las palabras,
como el caballo corre, aunque no sople el viento,
y vuela la gaviota, aunque esté seco el mar,
y el hombre llora, y canta,
proyecta y edifica, aun sin el fuego.

II. Alucinación

Me acuerdo de los árboles de Dublín.
(Imaginar y recordar
se superponen y confunden;
pueblan, entrelazados, un instante
vacío con idéntica emoción.
Imaginar y recordar...)

Me acuerdo de los árboles de Dublín...
Alguien los vive y los recuerdo yo.
De los árboles caen hojas doradas
sobre el asfalto de Madrid.
Crujen bajo mis pies, sobre mis hombros,
acarician mis manos,
quisieran exprimirme el corazón.
No sé si lo consiguen...

Imaginar y recordar...
Hay un momento que no es mío,
no sé si en el pasado, en el futuro,
si en lo imposible... Y lo acaricio, lo hago
presente, ardiente, con la poesía.

No sé si lo recuerdo o lo imagino.
(Imaginar y recordar me llenan
el instante vacío.)
Me asomo a la ventana.
Fuera no es Dublín lo que veo,
sino Madrid. Y, dentro, un hombre
sin nostalgia, sin vino, sin acción,
golpeando la puerta.

Es un espectro
que persigue a otro espectro del pasado:
el espectro del viento, de la mar,
del fuego – ya sabéis de qué hablo –, espectro
que pueda hacer que cante, hacer que vibre
su corazón, para sentirse vivo.

En: “Libro de las Alucinaciones” (1964)

Bewleys (Dublin) depois da chuva
(Olivia Hayes: pintora irlandesa)

Teoria e Alucinação de Dublin

I. Teoria

Um instante vazio
de ação pode ser povoado somente
por nostalgia ou vinho.
Há quem o preencha com palavras vivas,
de poesia (ação
de espectros, vinho com remorso).

Quando a vida se detém,
se escreve o passado ou o impossível
para que os demais vivam aquilo
que o poeta já viveu (ou que não viveu).
Ele não pode dar vinho,
nostalgia aos demais: apenas palavras.
Se lhes pudesse dar ação...

A poesia é como o vento,
ou como o fogo, ou como o mar.
Faz vibrar árvores, roupas,
abrasa espigas, folhas secas,
nina em seu marulho os objetos
que dormem na praia.

A poesia é como o vento,
ou como o fogo, ou como o mar:
dá aparência de vida
ao imóvel, ao paralisado.
E o lenho que arde,
as conchas que as ondas trazem ou levam,
o papel que o vento arrebata,
cintilam uma vida momentânea
entre duas imobilidades.

Porém os que estão vivos,
os cumulados por ação,
os que palpitam por nostalgia ou vinho,
esses... felizes, bem-aventurados,
porque não têm necessidade das palavras,
como o cavalo corre, mesmo que não sopre o vento,
e a gaivota voa, ainda que o mar esteja seco,
e o homem chora, e canta,
projeta e edifica, mesmo sem o fogo.

II. Alucinação

Lembro-me das árvores de Dublin.
(Imaginar e recordar
se superpõem e confundem;
povoam, entrelaçados, um instante
vazio com idêntica emoção.
Imaginar e recordar...)

Lembro-me das árvores de Dublin.
Alguém as vive e eu as recordo.
Das árvores caem folhas douradas
sobre o asfalto de Madrid.
Farfalham sob meus pés, sobre meus ombros,
acariciam minhas mãos,
talvez quisessem oprimir-me o coração
Não sei se o conseguem...

Imaginar e recordar...
Há um momento que não é meu,
não sei se no passado, no futuro,
se no impossível... Eu o acaricio, faço-o
presente, ardente, com a poesia.

Não sei se o recordo ou o imagino.
(Imaginar e recordar preenchem-me
o instante vazio.)
Projeto-me à janela.
Fora não é Dublin o que vejo,
senão Madrid. E, dentro, um homem
sem nostalgia, sem vinho, sem ação,
batendo a porta.

Em: “Livro das Alucinações” (1964)

Referência:

HIERRO, José. Teoría y alucinación de Dublín. In: RUBIO, Fanny; FALCÓ, José Luis (Sellección, estudio y notas). Poesia española contemporánea: historia y antología (1939-1980). 1. ed. Madrid (ES): Editorial Alhambra, 1981. p. 234-236.