Alpes Literários
Subtítulo
sexta-feira, 29 de junho de 2018
Jack Kerouac - 113º Coro
quinta-feira, 28 de junho de 2018
André Chénier - A Poesia
Extraído a um longo poema intitulado “L’Invention”, de 1787, este excerto contém passagem essencial da teoria estética defendida por Chénier – que sucumbiu guilhotinado no curso da Revolução Francesa –, por meio do qual pode-se ver como as palavras são conjugadas maravilhosamente para delas se extrair, nas linhas de cada verso, um efeito musical reiterado em rimas parelhas.
A imitação criativa – dizia-o Chénier – não é repetir indefinidamente as mesmas ideias de antigos poetas, senão usar a forma, estrutura e o estilo que eles empregavam para expressar, nos versos, novos pensamentos ou ideias, os quais, por óbvio, não teriam passado pela mente de um Virgílio ou de um Horácio, por exemplo.
J.A.R. – H.C.
La Poésie
Seule, et la lyre en main, et de fleurs couronnée,
De doux ravissements partout accompagnée,
Aux lieux les plus déserts, ses pas, ses jeunes pas,
Trouvent mille trésors qu’on ne soupçonnait pas.
Sur l’aride buisson que son regard se pose,
Le buisson à ses yeux rit et jette une rose.
Elle sait ne point voir, dans son juste dédain,
Les fleurs qui trop souvent, courant de main en main,
Ont perdu tout l’éclat de leurs fraîcheurs vermeilles;
Elle sait même encore, ô charmantes merveilles!
Sous ses doigts délicats réparer et cueillir
Celles qu’une autre main n’avait su que flétrir.
Elle seule connaît ces extases choisies,
D’un, esprit tout de feu mobiles fantaisies,
Ces rêves d’un moment, belles illusions,
D’un monde imaginaire aimables visions,
Qui ne frappent jamais, trop subtile lumière,
Des terrestres esprits l’oeil épais et vulgaire.
Seule, de mots heureux, faciles, transparents,
Elle sait revêtir ces fantômes errants...
A Poesia
Só, e a lira na mão, e de flores coroada,
De um doce enlevo a toda hora acompanhada,
Nos mais ermos confins, seus passos, jovens passos,
Vão tesouros achar, de que não vemos traços.
Quando na árida sarça ela repousa o olhar,
Ri a sarça e uma rosa atira-lhe, a brincar.
Com discreto desdém ela finge não ver
As flores que ali vão, já quase a fenecer,
De mão em mão passando, exânimes, pendidas;
Mas, doce inspiração! por seus dedos colhidas,
Essas que em outras mãos talvez emurchecessem
Renascem com vigor, e logo reflorescem.
Somente ela conhece os êxtases ardentes,
De um espírito em fogo os ideais moventes,
Os sonhos de um momento, as belas ilusões,
De um mundo imaginário alvas aparições
Que, como luz sutil, não podem alcançar
Do espírito terrestre o olho espesso e vulgar.
Só ela sabe, só, com felizes, clareantes
Palavras revestir essas visões errantes...
quarta-feira, 27 de junho de 2018
D. Francisco Manuel de Melo - Mundo é comédia
Há quem veja nas
experiências do mundo somente drama ou tragédia. Contudo, o poeta português a
tudo contempla como se fosse comédia, em cujo contexto os personagens se
equipam com máscaras ou, mais amplamente, com vestuário a que se atribui algum
sentido, objetivando projetar relevância e distinção, ou de outra forma, status
social.
Todavia Melo não se
deixa enganar: vê por baixo dessas maquinações somente imposturas – e o ar
eventualmente sisudo nada diz do que está por trás dessas figuras. Tramoias e
tramoias dos que ficam a tanto discursar e a fazer com que tudo se disponha
erradamente – a exemplo daqueles que, não muito longe daqui, tomam parte no
parlamento deste Pindorama!
J.A.R. – H.C.
D. Francisco Manuel de Melo
(1608-1666)
Mundo é comédia
Dez figas para vós,
pois com furtado
Consular nome vos
chamais Prudência,
Se, fazendo co’o
Mundo conferência,
Discursais,
revolveis, e eis tudo errado!
Quem vos vir, Apetite
disfarçado,
Digno vos julgará de
reverência,
E a vós, Ódio, por
homem de consciência,
Vendo-vos tão sesudo
e tão pesado.
Dois a dois, três a
três, e quatro a quatro,
Entram, de flamas
tácitas ardendo,
Astutos Paladiões em
simples Troias.
Quem enganas, ó
Mundo, em teu teatro?
A mim não pelo menos,
que estou vendo
Dentro do vestuário
estas tramoias.
Comediantes Italianos
(Antoine Watteau: pintor francês)
Referência:
MELO, D. Francisco
Manuel de. Mundo é comédia. In: TORRES, Alexandre Pinheiro (Introdução,
selecção e notas). Antologia da poesia portuguesa (séc. XII – séc. XX).
v. 2: sécs. XVII-XX. Porto: Lello & Irmão, 1977. p. 175.
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terça-feira, 26 de junho de 2018
E. E. Cummings - Impressão IX
São bastante
dominantes as imagens que o poeta emprega em seu poema para deixarem de ser
percebidas pelo leitor: as inversões nas duplas morte e vida, ascender e
descender, luz natural do alvorecer e luz de vela ao anoitecer, sonhos do sono
e os devaneios poéticos, a vida penosa da cidade e a vida melodiosa e estrelada
da mente, e por aí vai.
Poemas são como
estrelas que a presença ou não da luz natural sobre os céus ocultam ou
ressaltam: nesse vai e vem sucessivo de dias e noites, a poesia ora se passa
nos sonhos do poeta ora se decanta em poemas que rebrilham no firmamento
durante a noite, pois durante o dia somente há espaço para o árduo transcorrer
da lida.
J.A.R. – H.C.
E. E. Cummings
(1894-1962)
Impression IX
the hours rise up
putting off stars and it is
dawn
into the street of
the sky light walks scattering poems
on earth a candle is
extinguished the
city
wakes
with a song upon her
mouth having death in
her eyes
and it is dawn
the world
goes forth to murder
dreams...
i see in the street
where strong
men are digging bread
and i see the brutal
faces of
people contented
hideous hopeless cruel happy
and it is day,
in the mirror
i see a frail
man
dreaming
dreams
dreams in the mirror
and it
is dusk
on earth
a candle is lighted
and it is dark.
the people are in
their houses
the frail man is in
his bed
the city
sleeps with death
upon her mouth having a song
in her eyes
the hours descend,
putting on stars...
in the street of the
sky night walks scattering poems
Homem na Noite
(Maria Karalyos: pintor romena)
Impressão IX
As horas emergem
apagando as estrelas e é
madrugada
nas ruas do céu a luz
caminha a entornar poemas
na terra uma vela
se
extingue a cidade
desperta
com uma canção em sua
boca e a morte nos
olhos
e é madrugada
o mundo
sai para dizimar
sonhos...
vejo na rua homens
fortes cavando em
busca de pão
e observo os rostos
brutais de
gente satisfeita
medonha desesperançada cruel feliz
e já é dia,
no espelho
vejo um frágil
homem
a sonhar
sonhos
sonhos no espelho
e cai
o
crepúsculo sobre a terra
uma vela se acende
na escuridão.
as pessoas abrigam-se
em suas casas
o homem frágil está
sobre a cama
a cidade
adormece com a morte
em sua boca e uma canção
nos olhos
as horas imergem,
assentando
estrelas...
nas ruas do céu a luz
caminha a entornar poemas
Referência:
CUMMINGS, E. E.
Impression IX. In: __________. Complete poems: 1904-1962.
Edited by George James Firmage. New York, NY: Liveright Publishing Corporation,
1991. p. 67.
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segunda-feira, 25 de junho de 2018
Paul Auster - Viático
Se o título muito contém da mensagem que o poema
espera denotar, neste caso concreto, estaremos no limite da existência humana,
frente a frente com a morte, já moribundos e à espera da extrema unção, esse
sagra viático ao qual se atribui poderes para se empreender em estado de graça
a última viagem.
O título não deve, obviamente, ser tomado em sua
literalidade, senão em sua acepção simbólica, pois Auster encontra-se no sítio
da representação semítica, onde borbulham as crônicas de um povo obstinado que,
onde quer que se encontre, deixa-se levar pelas linhas de força orientadas às
pedras e ao muro nesse “país de falta”, às voltas com o não dizível que emerge
de um passado, remoto ou recente, de dor e de lamentações.
J.A.R. – H.C.
Paul Auster
(n. 1947)
Viaticum
You will not blame
the stones,
or look to yourself
beyond the stones,
and say
you did not long for
them
before your face
had turned to stone.
In front of you
and behind you, in
the darkness
that moves with day,
you almost
will have breathed.
And your eyes,
as though your life
were nothing more
than a bitter
pilgrimage
to this country of
want, will open
on the walls
that shut you in your
voice,
your other voice, leading
you
to the distances of
love,
where you lie, closer
to the second
and brighter terror
of living in your
death, and speaking
the stone
you will become.
In: “Wall Writing” (1971-1975)
Mar e Rocas
(Vasilij Belikov:
pintor russo)
Viático
Não culparás as
pedras,
nem te verás
além das pedras, por
dizer
que não esperaste por
elas
antes que teu rosto
fosse pedra.
Diante de ti
e atrás, no escuro
que se move com o
dia, terás
quase respirado. E
teus olhos,
como se tua vida
fosse nada mais
que amarga peregrinação
a este país de falta,
vão se abrir
para os muros
que te trancam a voz,
tua outra voz,
levando-te
às distâncias do
amor,
onde restarás, mais
perto
do segundo,
e mais claro, terror
de viver em tua
morte, e dizendo
a pedra
em que te tornarás.
Em: “Escritos na
Parede” (1971-1975)
Referência:
AUSTER, Paul.
Viaticum / Viático. Tradução de Caetano W. Galindo. In: __________. Todos os poemas. Edição bilíngue.
Tradução e prefácio de Caetano W. Galindo. Introdução de Norman Finkelstein. 1.
ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2013. Em inglês: p. 144; em português:
p. 145.
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