Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS
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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ferreira Gullar - Traduzir-se

Na década de 80, o cantor e compositor Fagner musicou belos poemas de alguns nomes da literatura, como, v.g., Fernando Pessoa, Florbela Espanca e Ferreira Gullar – sendo da autoria deste último o poema que a seguir se transcreve.

O poema, em sua temática, revela a inconstância do ser, que migrando de um polo a outro, põe em questão a estrutura mesma da realidade. Pergunta-se então no poema: será arte a habilidade de traduzir, de uma à outra ponta, as manifestações duais que nos assolam? Ou de outra forma: converter em linguagem aquilo que nos desassossega?

J.A.R. – H.C.

Ferreira Gullar
(n. 1930)

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
Será arte?

Traduzir-se
Fagner (1981)

Referência:

GULLAR, Ferreira. Traduzir-se. In: __________. Os melhores poemas de Ferreira Gullar. 2. ed. São Paulo, SP: Global, 1985. p. 144-145. (‘Os Melhores Poemas’; v. 3)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Edgar Morin – A Fonte de Poesia

Discorrer sobre a poesia é o que faz o sociólogo francês de origem judaica Edgar Morin, neste breve ensaio que transcrevemos a seguir. Nele, Morin percorre as linhas de força que logram conectar a ciência e a poesia, na medida em que a primeira, ao redescobrir problemas filosóficos fulcrais – ontológicos e teleológicos –, acaba por revelar um “universo fabulosamente poético”.

Contudo Morin vai mais longe, com todo o seu apuro de teórico que esteve na vanguarda do assim denominado “pensamento complexo”, mais propriamente, um método que procura açambarcar um dado problema nunca de modo reducionista – como quando se atenta para apenas alguns aspectos do objeto de pesquisa –, senão que tenha como ponto forte a busca de uma perspectiva hábil em focá-lo em toda a sua hipotética complexidade, considerando-se, ademais, as múltiplas interações com o meio no qual está imerso.

J.A.R. – H.C.

Edgar Morin
(n. 1921)

A Fonte de Poesia

Ensaiarei sustentar a seguinte tese: o futuro da poesia reside em sua própria fonte. Mas que fonte é essa? É difícil perceber. Ela se perde nas profundezas humanas tanto quanto nas profundezas da pré-história, onde surgiu a linguagem, nas profundezas dessa embalagem estranha que é o cérebro e o espírito humano. Gostaria de adiantar algumas ideias preliminares para falar de poesia.
Inicialmente, é preciso reconhecer que, qualquer que seja a cultura, o ser humano produz duas linguagens a partir de sua língua: uma, racional, empírica, prática, técnica; outra, simbólica, mítica, mágica. A primeira tende a precisar, denotar, definir, apoia-se sobre a lógica e ensaia objetivar o que ela mesma expressa. A segunda utiliza mais a conotação, a analogia, a metáfora, ou seja, esse halo de significações que circunda cada palavra, cada enunciado e que ensaia traduzir a verdade da subjetividade. Essas duas linguagens podem ser justapostas ou misturadas, podem ser separadas, opostas, e a cada uma delas correspondem dois estados. O primeiro, também chamado de prosaico, no qual nos esforçamos por perceber, raciocinar, e que é o estado que cobre uma grande parte de nossa vida cotidiana. O segundo estado, que se pode justamente chamar de “estado segundo”, é o estado poético.
O estado poético pode ser produzido pela dança, pelo canto, pelo culto, pelas cerimónias e, evidentemente, pelo poema. Fernando Pessoa dizia que, em cada um de nós, há dois seres. O primeiro, o verdadeiro, é o dos nossos sonhos, que nasce na infância e que continua pela vida toda. O segundo ser, o falso, é o das aparências, de nossos discursos, atos, gestos. Não diria que um é verdadeiro e o outro, falso, mas, efetivamente, a cada um desses dois estados correspondem dois seres em nós. A esse estado segundo corresponde o que o adolescente Rimbaud percebeu muito claramente, principalmente em sua famosa Carta do vidente, esse estado não é um estado de visão, mas um estado de vidência.
Poesia-prosa constituem, portanto, o tecido de nossa vida. Hölderlin afirmava: “O homem habita a terra poeticamente”. Acredito ser necessário dizer que o homem a habita, simultaneamente, poética e prosaicamente. Se não houvesse prosa, não haveria poesia, do mesmo modo que a poesia só poderia evidenciar-se em relação ao prosaísmo. Em nossas vidas, convivemos com essa dupla existência, essa dupla polaridade.
Nas sociedades arcaicas, injustamente chamadas de primitivas, que povoaram a terra e formaram a humanidade, e que estão sendo massacradas na Amazônia e em outras regiões, havia uma relação estreita entre esses dois estados, que se encontravam entrelaçados. Na vida cotidiana, o trabalho era acompanhado por cantos e ritmos, e enquanto preparava-se a farinha nos pilões, cantavam-se ou utilizavam-se esses mesmos ritmos.
Tomemos como exemplo a preparação da caça, testemunhada pelas pinturas pré-históricas, principalmente as da gruta de Lascaux, na França.
Essas pinturas indicam que os caçadores realizavam ritos de encantamento sobre a caça, pintados depois na rocha. Mas não se satisfaziam apenas com eles: utilizavam flechas reais, estratégias empíricas, ou misturando as duas. Em nossas sociedades contemporâneas ocidentais operou-se uma disjunção entre os estados da prosa e da poesia.
Houve duas rupturas. A primeira ocorreu a partir da Renascença, quando se desenvolveu uma poesia cada vez mais profana. Ocorreu, igualmente, a partir do século XVII, uma outra dissociação entre uma cultura dita científica e técnica e uma cultura humanista, literária, incluindo a poesia. Foi a partir dessas duas dissociações que a poesia autonomizou-se e tornou-se estritamente poesia. Separou-se da ciência, da técnica e, evidentemente, separou-se da prosa.
Separou-se dos mitos e, com isso, quero dizer que ela não é mais mito, embora sempre se nutra de sua fonte, que é o pensamento simbólico, mitológico, mágico. Em nossa cultura ocidental, tanto a poesia quanto a cultura humanista foram relegadas. Relegadas no lazer e no divertimento, relegadas por adolescentes e por mulheres, transformaram-se, de algum modo, num elemento inferiorizado em relação à prosa da vida.
Houve duas revoltas históricas da poesia. A primeira foi a do romantismo, principalmente o de origem alemã. Representou a revolta contra a invasão da prosaidade (*), do mundo utilitário, do mundo burguês, que se desenvolveu no início do século XIX.
A segunda revolta foi a do surrealismo, cuja ocorrência pode ser situada no início do século XX. O surrealismo representou a recusa da poesia em se deixar reduzir ao poema, quer dizer, a uma pura e simples expressão literária. Não se trata de uma negação ao poema, porque Breton, seguido por Péret, Eluard e outros, fizeram poemas admiráveis; mas a ideia surrealista é a de que a poesia extrai sua fonte da vida, com seus sonhos e acasos. Todos sabemos a importância que os surrealistas atribuíam ao acaso. O que ocorreu, então, foi uma desprosaização da vida cotidiana, que começou com Arthur Rimbaud, quando este se maravilhou com as tendas militares estrangeiras e com o latim das igrejas. Os surrealistas dignificaram o cinema e foram os primeiros a admirar Charlie Chaplin. Em resumo, a primeira mensagem surrealista foi desprosaizar a vida cotidiana, reintroduzir a poesia na vida. Havia também uma revolta com aspirações revolucionárias, não apenas contra o mundo prosaizado, mas contra os horrores produzidos pela Primeira Guerra Mundial. Breton pretendeu associar a fórmula política revolucionária “mudar o mundo” à fórmula poética surrealista “mudar a vida”. Mas essa aventura acarretou muitos equívocos, inclusive a autodestruição dos poetas, quando os mesmos pretenderam subordinar a poesia a um partido político. E aqui se encontra um dos paradoxos da poesia. O poeta não precisa se fechar no território restrito e confinado dos jogos de palavras e símbolos. O poeta possui uma competência total, multidimensional, que concerne à humanidade e à política, mas não pode se deixar submeter à organização política. Sua mensagem política implica ultrapassar o político. Localizamos, portanto, duas revoltas de poesia. E agora, qual é sua situação neste fim de século e de milênio?
Inicialmente, podemos nos referir a uma grande expansão da hiperprosa, que se articula à expansão de um modo de vida monetarizado, cronometrado, parcelarizado, compartimentado, atomizado e de um modo de pensamento no qual os especialistas consideraram-se competentes para todos os problemas, igualmente ligados à expansão econômico-tecnoburocrática. Diante dessas condições, penso que esta invasão da hiperprosa cria a necessidade de uma hiperpoesia.
Há outro fato que marca este final de século: a destruição, ou melhor, a autodestruição da ideia de salvação terrestre. Acreditou-se que o progresso estava automaticamente garantido pela evolução histórica. Acreditou-se que a ciência seria sempre progressiva, que a indústria sempre traria benefícios, que a técnica só traria melhorias. Acreditou-se que as leis históricas garantiriam o desenvolvimento da humanidade e, tomando por base esse argumento, acreditou-se ser possível atingir a salvação na terra, ou seja, o reino da felicidade que as religiões prometiam no céu. O que se constata hoje é o abandono da ideia de uma salvação na terra, o que não significa ser necessário renunciar à ideia de aperfeiçoar as relações humanas e civilizar a humanidade. O abandono da ideia de salvação encontra-se ligado à compreensão de que não existem leis históricas, que o progresso não é automático e nem se encontra garantido. O progresso deve não apenas ser conquistado, mas, uma vez conquistado, pode regredir, tornando-se sempre necessário regenerá-lo.
Hoje, como afirma o filósofo tcheco Patocka, “o futuro encontra-se problematizado e ficará assim para sempre”. Situamo-nos nesta aventura incerta e, a cada dia, os acontecimentos que se produzem no mundo indicam que nos encontramos na noite e na neblina. E por que é assim? Porque ingressamos plenamente na era planetária, uma era na qual ações múltiplas e incessantes encontram-se em todas as partes da Terra, e no que concerne aos poços de petróleo do Iraque e do Kuwait diz respeito à humanidade como um todo. Ao mesmo tempo, devemos compreender que nos encontramos nesse pequeno planeta, nessa casa comum, perdidos no cosmos, e que nossa missão deve ser efetivamente a de civilizar as relações humanas sobre o nosso planeta. As religiões e política salvacionistas reiteram: sejamos irmãos, porque seremos salvos. Acredito que hoje seja necessário dizer: sejamos irmãos porque estamos perdidos num planeta suburbano, de um sol suburbano, de uma galáxia periférica, de um mundo desprovido de centro. Mesmo assim, possuímos plantas, pássaros, flores, assim como a diversidade de vida, as possibilidades do espírito humano. Doravante, aqui residirão nosso único fundamento e nosso único recurso possível.
A descoberta de nossa situação de perdição num gigantesco cosmos adveio das descobertas da astrofísica. Isto significa que, atualmente, é possível um diálogo entre ciência e poesia, e isso porque a ciência nos revela um universo fabulosamente poético ao redescobrir problemas filosóficos capitais: “O que é o homem?” “Qual é o seu lugar?” “Qual é o seu destino?” “O que se pode esperar dele?” Com efeito, o antigo universo de ciência era uma máquina perfeita, inteiramente determinista, animado por um movimento perpétuo, um relógio permanente no qual nada ocorria, nada era criado, nada se alterava. Esta máquina, lamentavelmente pobre em sua perfeição, desintegrou-se. E o que vemos agora? Sabemos que o universo nasceu, talvez, há 15 bilhões de anos, de uma fantástica explosão, de onde bruscamente brotaram o tempo, a luz, a matéria, como se esse início fosse uma espécie de explosão desorganizadora a partir da qual o universo organizou-se. Encontramo-nos numa incrível aventura. A vida nos parecia banal, evidente, mas descobrimos que uma bactéria, com seus milhões de moléculas, é mais complexa do que todas as usinas do Ruhr reunidas. Demonos conta de que o real, que parecia tão sólido e evidente, dissipou-se sob o olhar da microfísica, e que, do ponto de vista do cosmos, o tempo e o espaço, que pareciam tão distintos, se misturaram. Muitos astrofísicos pressentem que esse mundo de separação do espaço e do tempo é como uma espuma constituída por algo diferente em que as separações do espaço e do tempo não existem mais.
Onde se encontra a poesia hoje? Na poesia e em outros domínios adquirimos a ideia de que não existe vanguarda, no sentido de que a vanguarda traz algo melhor do que aquilo que havia antes. Talvez a ideia pós-moderna consista em afirmar que o novo não é necessariamente o melhor. Fabricar o novo pelo novo é estéril. O problema não reside na produção sistemática e forçada do novo. A verdadeira novidade nasce sempre de uma volta às origens. Por que Jean-Jacques Rousseau é tão prodigiosamente novo? Porque pretendeu debruçar-se sobre a fonte da humanidade, a origem da propriedade e da civilização e, no fundo, toda novidade deve passar pelo recurso e pelo retorno ao antigo. Pode ser que essa ideia seja pós-moderna, ou mesmo pós-pós-moderna, mas tudo isso é secundário. O objetivo que permanece fundamental na poesia é o de nos colocar num estado segundo, ou, mais precisamente, fazer com que esse estado segundo converta-se num estado primeiro. O fim da poesia é o de nos colocar em estado poético.

Nota:

(*) Alguns neologismos criados pelo autor, como prosaïté, desprosaïzation, entre outros, foram traduzidos de forma semelhante, para permanecerem mais fiéis às ideias do próprio autor. (N. T.)

Referência:

MORIN, Edgard. A fonte de poesia. In: __________. Amor, poesia, sabedoria. Tradução de Edgar de Assis Carvalho. 7. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. p. 32-43.

sábado, 16 de outubro de 2021

Alastair Reid - O Que Se Perde

Centrado no famoso comentário de Robert Frost (1874-1963), no sentido de que a poesia seria, exatamente, aquilo que se perde na tradução, o poeta e tradutor escocês devota-se, aqui, em nos fazer ver que a versão a outros idiomas, de um poema originalmente grafado num dado idioma, implica perdas bem mais em razão de que nem sempre a representação de fatos no idioma original encontra plena equivalência nas palavras e representações do idioma destinatário.

A construção do poema de Reid combina tais ideias tanto no idioma inglês, falado pelo autor, quanto no idioma espanhol, neste caso, muito em razão de tratar-se de um renomado tradutor de poetas sul-americanos, como Borges e Neruda: a leitura dos versos, dispostos em sequência, resulta em melhor inteligibilidade se feita em separado, primeiro em inglês, sempre com letras normais (em azul), e depois em espanhol, com letras em itálico (em vermelho).

J.A.R. – H.C.

 

Alastair Reid

(1926-2014)

 

What Gets Lost / Lo Que Se Pierde

 

I keep translating traduzco continuamente

entre palabras words que no son las mías

into other words which are mine de palabras

a mi palabras.

Y finalmente de quién es el texto?

Who do words belong to?

Del escritor o del traductor writer, translator

o de los idiomas or to language itself?

Traductores, somos fantasmas que viven

entre aquel mundo y el nuestro

translators are ghosts who live

in a limbro between two worlds

pero poco a poco me ocorre

que el problema no es cuestión

de lo que se pierde en traducción

the problem is not a question

of what gets lost in translation

sino but rather lo que se pierde

what gets lost

entre la ocurrencia – sea de amor o de agonía

between the happening of love or pain

y el hecho de que llega

a existir en palabras

and their coming into words.

 

Para nosotros todos, amantes, habladores

for lovers or users of words

el problema es este this is the difficulty –

lo que se pierde what gets lost

no es lo que se pierde en traducción sino

is not what gets lost in translation but more

what gets lost in language itself lo que se pierde

en el hecho, en la lengua,

en la palabra misma.

 

O escritor Liev Tolstói em seu gabinete

(Ilya E. Repin: pintor russo)

 

O Que Se Perde / O Que Se Perde

 

Sigo a traduzir traduzo continuamente

entre palavras palavras que não são as minhas

em outras palavras que são minhas de palavras

a minhas palavras

E finalmente de quem é o texto?

A quem pertencem as palavras?

Ao escritor ou ao tradutor escritor tradutor

ou aos idiomas ou ao próprio idioma?

Tradutores, somos fantasmas que vivem

entre aquele mundo e o nosso

Tradutores são fantasmas que vivem

num limbo entre dois mundos

porém pouco a pouco me ocorre

que o problema não é questão

daquilo que se perde em tradução

o problema não é uma questão

daquilo que se perde na tradução

senão mas antes o que se perde

o que se perde

entre a ocorrência – seja de amor ou de agonia

entre a ocorrência de amor ou dor

e o fato de vir

a existir em palavras

e a sua chegada às palavras.

 

Para todos nós, amantes, falantes

para amantes ou usuários de palavras

o problema é este esta é a dificuldade

o que se perde o que se perde

não é o que se perde em tradução senão

não é o que se perde na tradução mas mais

o que se perde no próprio idioma o que se perde

no fato, no idioma,

na palavra mesma.


Referência:

REID, Alastair. What gets lost / Lo que se perde. In: __________. Weathering: poems & translations. Athens, GA: The University of Georgia Press, 1988. p. 93.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Sándor Márai - Escritor Húngaro

Košice - Eslováquia

“Os gêmeos, mesmo de longe, mesmo se adultos, conhecem tudo um do outro, e uma estranha lei biológica os obriga a adoecerem ao mesmo tempo e a sofrerem das mesmas doenças, mesmo se um vive em Londres e outro sabe-se lá onde, em algum país estrangeiro. Não se escrevem, não se falam, moram, vivem, se alimentam em condições diferentes, estão separados por milhares e milhares de quilômetros. E no entanto, na idade de trinta ou quarenta anos começam a sofrer, no mesmo momento e com as mesmas probabilidades de cura ou de triste desenlace, de uma doença idêntica, por exemplo uma icterícia ou uma apendicite. Os dois corpos fazem parte de uma unidade orgânica, como no passado no útero materno... E amam e odeiam a mesma pessoa. E às vezes me perguntei se a amizade não constitui um vínculo parecido com esse vínculo fatal que une os gêmeos. Uma identidade singular nos pendores, simpatias, gostos, cultura e paixões, liga dois homens – mesmo se um deles tenta se opor ao outro – em torno de um mesmo destino. É inútil que um dos dois fuja para longe, ainda assim continuarão a saber o essencial um do outro. Inútil que um dos dois escolha um novo amigo ou uma nova amante: sem o tácito acordo do outro não poderá se livrar desse vínculo. O destino desses homens se cumpre em paralelo, mesmo se um deles vai embora, se afasta muito do outro e acaba, por exemplo, nos trópicos” (MÁRAI, 1999, p. 91-92).

“A gente vai envelhecendo aos poucos: numa primeira fase, atenua-se a vontade de viver e de ver nossos semelhantes. Vai prevalecendo o sentido da realidade, vai se esclarecendo o significado das coisas, você acha que os acontecimentos se repetem monótona e fastidiosamente. Isso também é um sinal de velhice. Finalmente, você percebe que um corpo é apenas um corpo e que os homens, pouco importa o que façam, são apenas criaturas mortais. Depois, seu corpo envelhece; não todo de uma vez, é verdade, primeiro envelhecem os olhos ou as pernas, o estômago, o coração. A gente envelhece assim, pedaço por pedaço. E então, de repente, sua alma envelhece: mesmo sendo o corpo efêmero e mortal, a alma ainda é movida por desejos e recordações, ainda procura a alegria. E quando também desaparece esse desejo de alegria, só restam as recordações e a inutilidade de todas as coisas; nesse estágio, estamos irremediavelmente velhos. Um dia você acorda e esfrega os olhos e não sabe mais por que acordou. Já sabe exatamente o que o dia apresentará a seus olhos: a primavera ou o inverno, os cenários habituais, as condições atmosféricas, a ordem dos fatos. Nada de surpreendente pode acontecer: não o surpreendem nem sequer os fatos inesperados, insólitos ou horripilantes, porque você conhece todas as probabilidades, já previu tudo e não espera mais nada, nem para o bem nem para o mal... e esta é a verdadeira velhice. E no entanto, alguma coisa ainda vive em seu coração, uma lembrança, uma vaga e nebulosa esperança, há alguém que gostaria de ver, há algo que ainda gostaria de dizer ou saber. Um dia, você tem absoluta certeza, chegará esse momento, e então, de repente, saber e enfrentar a verdade já não lhe parecerá tremendamente importante como imaginara durante os anos de espera. O homem compreende o mundo um pouco de cada vez, e depois morre. Descobre as causas ocultas dos fenômenos e das ações humanas. A linguagem simbólica do inconsciente... pois os homens recorrem a uma linguagem simbólica para comunicar seus pensamentos, você nunca percebeu? Quando falam das coisas essenciais parece que usam uma língua estrangeira, que falam como os chineses, e é preciso traduzir essa língua para trazê-la ao plano da realidade. Os homens não sabem nada sobre si mesmos. Falam sempre de seus desejos e camuflam obstinadamente seus pensamentos mais secretos. Se você aprender a reconhecer as mentiras dos homens, notará que dizem sempre coisas diferentes do que pensam e querem realmente. E então a vida se torna quase divertida. Depois, um dia você consegue entender a verdade: isso quer dizer que a velhice e a morte chegaram. Mas nessas alturas já não sente dor” (MÁRAI, 1999, p. 150-151).

Sándor Márai
(1900-1989)

Apreciação de Samuel Thomas para
“As Velas Ardem Até Ao Fim” (Título em Portugal)
“As Brasas” (Título no Brasil)

As Velas Ardem Até Ao Fim é uma joia redescoberta da literatura da Europa central – originalmente publicado em Budapeste em 1942, mas desconhecido de um público mais vasto até a sua tradução para outras línguas no fim dos anos 90. Contra todas as probabilidades, o romance acabou por tornar-se um best-seller mundial, embora o autor, que se suicidou durante o exílio nos EUA, em 1989, nunca tenha chegado a testemunhar a sua inesperada popularidade.
O livro desenrola-se na Hungria, pouco depois do início da Segunda Guerra Mundial, num remoto castelo no sopé dos montes Cárpatos. Lá, Henrik, um general na reserva de 75 anos, janta com o seu velho amigo, Konrad, que não via há cerca de quarenta anos. Há muitas questões por resolver entre os dois homens, e o que se segue é uma altivez maravilhosamente controlada – uma esclarecedora série de anedotas, reminiscências, silêncios, réplicas, refutações e obscurecimentos. Márai cadencia a obra com talento e precisão, só permitindo que uma nova revelação aflore quando sentimos que uma espécie de reconciliação pode ser possível. Anos de azedo ressentimento são condensados numa única noite.
As Velas Ardem Até Ao Fim, uma obra curta e notável, é um romance ainda impregnado no saber e na atmosfera do império Austro-Húngaro. Trata-se de um livro com sombras compridas e excelentes vinhos, com candelabros, florestas antigas e estalidos de mogno. O autor mantém tal atmosfera sem nunca recorrer a truques baratos. Com todo o seu charme antiquado, o livro continua um estudo cuidadosamente observado – sobre classes sociais, amizade, traição e orgulho masculino.

Avaliação da obra pelo bloguinho (0-10): 9,0.

J.A.R.  H.C.

Referências:

THOMAS, Samuel. As velas ardem até ao fim. In: BOXALL, Peter (ed.). 1001 livros para ler antes de morrer. Tradução de Manuela Brazão et al. Editor da edição portuguesa Karl Heinz Petzler. Lisboa, PT: Lisma, 2007. p. 422.

MÁRAI, Sándor. As brasas. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1999.

terça-feira, 31 de março de 2015

Alexander Pope - Ensaio sobre a Crítica

Temos aqui uma extensa postagem com a primeira das três seções do “Ensaio sobre a Crítica”, do inglês Alexander Pope. A tradução que apresentamos – e o seu original –, podem ser obtidos integralmente neste endereço eletrônico.

O ensaio, a rigor, apesar de ter a forma de um longo poema, com rimas e métrica, expressa-se como se prosa fosse, o que não deixa de surpreender o leitor, haja vista que os ensaios, modo geral, costumam ter forma livre, alguns a configurar livros inteiros.

Mas o que importa mesmo é a pertinência dos argumentos de Pope, bem assim a maravilhosa transposição feita ao português pela lusitana Marquesa D’Alorna, que, como se afirma do frontispício da obra (LENCASTRE, 1844), era conhecida entre os poetas portugueses pelo nome de Alcipe.

J.A.R. – H.C.

Alexander Pope
Apresentação de Ary de Mesquita
(MESQUITA, 1988, p. 188-189)

Alexander Pope, ilustre poeta inglês, nasceu em Londres a 21 de maio de 1688, e morreu no dia 30 de maio de 1744 em Twickenham.
Aos oito anos de idade, sob a orientação de um padre, aprendeu os rudimentos de latim, grego e história. Sendo, desde criança, muito doente, e impossibilitado de traquinar com os meninos de sua idade, Pope, por índole amigo das letras, transformou os estudos em único entretenimento, Um dos seus passatempos favoritos era o de traduzir os grandes clássicos da antiguidade. Mais tarde, quando já literato, traduziu de Ovídio o episódio de Safo e Faon e a fábula de Dríope, e de Homero a Ilíada e a Odisseia etc.
Aos dezesseis anos escreveu quatro “Pastorais” cuja correção e elegância revelam a mão de um artista consumado ao invés de trair a pena de um adolescente. Aos vinte e um anos, isto é, no princípio da vida, compôs o Essay on Criticism (Ensaio sobre a Crítica), que é uma obra notável. Começou, por assim dizer, como outros acabaram, pois, tanto a Arte Poética de Horácio, como a de Boileau, e a de Vauquelin de La Fresnaye etc., são obras da maturidade. Os verdes anos com que Pope compôs a sua Arte Poética (esse nome também caberia ao seu Ensaio Sobre a Crítica) não o impediram de lhe dar uma forma elegante e corretíssima, e de recheá-la de mais graça e leveza do que, antes, Boileau fizera com a sua. No gênero lírico, que não era o seu forte, Pope deixou uma linda amostra: Eloisa to Abelard, poemeto em que a grande amorosa francesa narra poeticamente o seu desventurado amor, a sua revolta e os seus infortúnios.
Entre as mais célebres produções de Pope é necessário citar The Rape of the Locke (O Rapto da Madeixa), a que o próprio autor e os seus coetâneos deram uma importância que boja ninguém lhe concede, dada a futilidade do assunto. Desse poema já agora só lhe podemos elogiar a forma. Coisa semelhante acontece com outra composição do poeta: The Dunciad (O termo não tem tradução portuguesa, mas sem violentar a índole da língua poderíamos dizer A Parvoeira) que deliciava com as suas ninharias a alta roda fátua e superficial daquela época.
Das suas obras originais as mais sólidas são Essay on Man (Ensaio sobre o Homem) e Moral Essays (Ensaios Morais), ambas constituídas de epístolas. Nelas é que o autor apresentou as suas concepções filosóficas e morais. Digo obras originais porque não foram traduzidas nem confessadamente imitadas, como as suas admiráveis Imitations of Horacio, mas a verdade é que as ideias delas já se encontravam em Bolingbroke, e outros corifeus do deísmo inglês.
Como poeta, no sentido restrito da palavra, Pope foi pouco menos de medíocre. Como versificador teu incomparável. Nenhum inglês conseguiu rimar prosa nem melhor, nem mesmo tão bem como ele. Acontece, porém, que só raramente Pope conseguiu rimar poesia. Quase tudo o que saiu de sua pena era razoável, equilibrado, justo, cheio de bom senso, mas era prosaico. Só a magnificência, a correção excepcional da sua linguagem salvou o olvido mesmo o melhor da sua obra. Quanto ao resto – o que ele escreveu para se vingar dos inimigos – nem o estilo conseguiu salvar. Para que se tenha uma ideia da sua forma bastará dizer que até um escritor universalmente considerado corretíssimo, como Boileau, não atingiu um tão alto grau de perfeição como Alexander Pope.

Alexander Pope
Pintura de Michael Dahl
(1688-1744)

Ensaio Sobre a Crítica
­Tradução da Marquesa D’Alorna
(LENCASTRE, 1844, p. 69-83)

(I)

Não sei dizer qual mostra menos arte,
Se quem escreve mal, se quem mal julga;
Entre ambos, menos risco há, menos dana
O que me cansa que esse que me engana:
Dos primeiros há poucos, muitos destes;
Por um que escreve mal, dez mal censuram:
Um néscio a si somente expõe, rimando;
Mas este em verso, vale dez em prosa.

Gomo os relógios são nossos juízos;
Nenhum vai certo, e todos creem no próprio.
No vate engenho genuíno é raro;
É mais raro entre os Críticos o gosto:
Uns e outros do Céu precisam luzes;
Críticos nascem, bem como os Poetas.
Os excelentes só, outros ensinem;
E só quem bem compõe, livre censure.
Autores parciais do próprio gênio
Pode haver, é verdade; mas é menos
Parcial do que opina, quem critica?

Se de perto observarmos, acharemos
Que da Crítica o germe na alma existe:
Certo clarão despende a natureza;
Linhas ligeiras traça, mas direitas;
Esboço tênue, porém bem traçado,
Que se esperdiça mal iluminado.
Falso saber bom senso desfigura:
No labirinto das escolas quantos
Desvairando se perdem! quantos outros,
Que a natureza fez tolos somente,
Presumindo de si, mais asnos ficam!
Em busca de juízo a razão perdem,
E por desculpa, em Críticos se tornam:
Igual fogo os agita, os incendeia,
Ou possam, ou não possam, sempre escrevem,
Com a raiva de um rival, ou com o ciúme
De um custódio das belas do serralho.
Têm comichão d'escarnecer os tolos,
De estar da parte de quem ri, ou ladra.
Se Mévio escreve contra o jus de Apollo,
Há quem julgue pior do que ele escreve.

Alguns, antes de serem vates, foram
Por homens de juízo reputados;
Deram-se à Crítica, e asnos ser provaram.
Como as mulas, nem asnos nem cavalos,
Outros nem são sensatos, nem censores.
Esses pedantes, semissábios, praga
Que em cardumes abafa nossas ilhas,
Quais nas margens do Nilo esses insetos
Que encontramos informes, incompletos,
De equivoca estrutura; ninguém sabe
Que nome dar a tantas meias coisas:
Nomeá-las, requer umas cem línguas;
Mas a de um tolo há de estafar cem homens.

Ó vós, que buscais dar, merecer fama,
Alcançar de Censor o nobre nome,
Avistai os limites até onde
O gênio, o gosto, o saber vosso chega:
Não vos lanceis além, sede prudentes;
Fixai bem esse ponto em que se encontram
Senso e tolice, transgredindo a meta.
As coisas têm limites próprios, todas,
Com os quais sabiamente a Natureza
Quebra a esperteza vã do presumido.

Bem como em terras onde o mar, ganhando,
Deixa areais estéreis, noutras charcos;
Na alma onde a memória predomina,
O poder do intelecto desfalece;
Se a fantasia cálida vagueia,
Da memória as espécies brandas fogem.
Uma ciência pede um gênio inteiro:
Tão vasta é arte, e curta a mente humana;
Limitada não só a certas artes,
Mas nessas mesmas só capaz de partes.
Perdemos como os Reis, essas conquistas
Que fizeram vaidosos, só guiados
Pela estulta ambição de fazer muitas:
Manda bem cada qual sua província,
Se se acomoda àquilo só que entende.

Pelos marcos que pôs a Natureza
Formai vosso juízo, segui esta:
É sempre a mesma, certa, invariável;
Com luz universal em tudo brilha;
Vida, força e beleza nos reparte,
Que são origem, fim e prova da Arte.
Esta, só deste fundo se alimenta;
Preside às obras simples e singela:
Assim num corpo belo uma alma sabia
Nutre de espírito e vigor o todo,
Sustenta o nervo, guia os movimentos;
Não se vê, nos efeitos se percebe.
Alguns, a quem o Céu deu muito engenho,
Tanto mais devem consultá-lo atentos;
O juízo e a razão ás vezes brigam,
Intentando ajudar-se; assim disputam
Um marido e mulher, se ambos governam.
Não quer esporas o cavalo alado,
A rédea basta; e quando a Musa corre,
Contenha a fúria, mas provoque a pressa:
Pégaso, qual ginete generoso,
Mais brio mostra, se o reprime o freio.

Não legou, descobriu a Antiguidade
Essas regras que estão na Natureza;
São Natureza, o método a restringe;
Bem como se restringe a Liberdade
Com as mesmas leis que a Liberdade cria.

Observai como a sábia Grécia indica
As suas úteis regras; como e quando
Reprimir, animar se deve o voo:
Do tope do Parnaso aos filhos mostra
As difíceis veredas que trilharam;
Com os prêmios imortais do alto acena,
Força a subir esses degraus quem teme:
Tira preceitos só de exemplos grandes,
E deles colhe o que eles do Céu colhem.

O generoso Crítico ao Poeta
Somente abana o fogo; ao mundo ensina
A louvar com razão o que é louvável.
Serve a Crítica à Musa de criada,
Que a veste e adorna e faz parecer mais bela:
Mas se desta intenção alguém se aparta,
Se corteja a criada, e deixa a dama;
Se as armas viram só contra os Poetas,
Aborrecendo assim quem os ensina,
São como os Boticários, que estudando
A ciência que têm pelas receitas,
O papel de doutores representam;
Atrevidos na prática dos erros,
Receitam, matam, e dizem mal dos mestres
Alguns tasquinham, roem folhas antigas,
Nem o tempo, nem traça destrói tanto:
Privados de invenção, na insulsa forma
De planos pecos, outros nos fabricam
Receitas tolas de compor poemas;
De fofa erudição fazendo alarde,
Põem de parte o sentido quando explicam,
Ou de tal modo explicam, que este foge.

Vós cujo entendimento bem navega,
Julgai bem dos antigos o caráter;
Em cada folha discerni com gosto
A fábula, o assunto, o fim proposto;
Religião, paz, gênio da idade:
Sem ter nisto, a um tempo, os olhos fitos,
Invectivar podeis, criticar nunca.
Vosso estudo e deleite as obras sejam
Do vate Homero, do Parnaso gloria;
Lede-o de dia, á noite meditai-o;
Por ele modelai vosso juízo,
Tirai máximas dele que vos levem
Até á origem da Castália fonte.
Lede, relede o texto; comparai-o
Consigo mesmo; e logo depois seja
A Mantuana Musa seu comento.

Quando na mente imensa o moço Maro
Primeiro desenhou obra tão rara,
Que havia durar mais que a imortal Roma,
Parecia talvez que desprezando
Da Crítica os preceitos, só queria
As fontes esgotar da Natureza:
Mas depois, quando viu parte por parte
O que tinha composto, e a gentileza,
Viu que era o mesmo Homero e Natureza.
Convencido, o desígnio audaz reprime;
Estritamente ás regras se conforma,
E a trabalhosa empresa continua
Bem como se presente o Estagirita
Atento presidisse a cada linha.
A justa estima das antigas regras
Daqui se aprenda; Natureza imita
Só quem as segue, quem imita Homero.

Belezas há que as regras não declaram,
Que nascem de ventura e de cuidado.
Musica e Poesia se assemelham;
Graças sem nome e sem lições têm ambas,
Que só atinge mão de mestre, ás vezes.
Se onde as regras não chegam quanto basta,
(Pois são método só de encher assumptos)
Uma feliz licença corresponde
Ao intento, então é regra a licença.
Pégaso assim, para encurtar caminho,
Foge atrevido da trilhada senda,
Do limite vulgar audaz se afasta,
E ganha graça além do alcance da arte;
A qual, sem respeitar censuras, vence
Os corações, e chega ao fim de um salto.
Fora da ordem natural das coisas
Algumas há de que o prospecto agrada;
Informes rochas, precipícios, grutas.
Grandes gênios tombem erram com glória,
Fazem erros que a Crítica respeita.
Mas se os antigos às leis próprias faltam,
(Como Reis que revogam leis que fazem)
Vós, modernos, sentido! Se é preciso
Pecar contra o preceito, seu fim sempre
Vos esteja presente, em transgredindo:
Sejam raras as vezes, e forçadas,
Justificadas por exemplos grandes.
De outra sorte, sem freio, e sem remorso,
Da vossa fama a Crítica se apossa,
Prossegue, e suas leis com força alega.

Bem sei que alguns, com presumida ideia,
Esses rasgos sublimes erros chamam;
Que as figuras ao perto, ou destacadas,
Monstros e informes coisas lhes parecem,
Às quais, no seu lugar e luz expostas,
A devida distancia concilia,
Com a forma bela, graças e harmonia.
Nem sempre desenvolve um Chefe sábio
Igualmente nos renques poder e arreio;
Com seu tempo e lugar os proporciona;
Encobre a sua força; e mesmo às vezes,
Por mais dissimular, finge uma fuga.
Estratagemas há que erros parecem;
Não cabeceia Homero; nós sonhamos.

De louros verdes inda ornados vemos
Os antigos altares; não lhes chega
Nem sacrílega mão, nem voraz fogo;
Da cólera feroz da Inveja isentos,
Da Guerra e Tempo gastador seguros.
Vede os Sábios, que vem trazendo incensos
De cada clima: os Pæans aprovadores
Atentos escutai nas línguas varias!
Resoe em cada voz tão justo a p pia uso,
E do gênero humano o coro se encha.
Salve, ó Bardos sublimes, triunfantes,
Que nascestes em dias mais ditosos!
Herdeiros imortais do geral prêmio!
Cujas honras com o tempo vão crescendo,
Como engrossam torrentes que se aumentam
Á medida que as terras vão lavando:
Vossos nomes potentes, hão de ouvi-los
Nações que hão de nascer; hão de aplaudi-los
Mundos que inda não foram descobertos.
Desse fogo celeste uma faísca
Venha inflamar a débil, triste Alcipe,
Que adejando de longe quer seguir-vos;
Que arde quando vos lê, treme se escreve
Para ensinar aos gênios presumidos
A ciência, que pouco se conhece,
De apreciar talentos superiores,
E com modéstia duvidar dos próprios.

Referências:

LENCASTRE, D. Leonor D’Almeida P. L. (Marquesa D’Alorna, Condessa D’Assumar e D’Oeynhausen). Obras poéticas. Tomo V. Edição bilínguue. Lisboa, PT: Imprensa Nacional, 1844.

MESQUITA, Ary de (Seleção, prefácio e notas). O Livro de ouro da poesia universal: 30 séculos de poesia do século IX a.c. até o século XX. Antologia. Rio de Janeiro, RJ: Tecnoprint/Ediouro, 1988.