Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Philip Levine - Os Animais Estão Saindo de Nossas Vidas

Este poema dialoga, em boa medida, com a ideia da dignidade dos animais, objeto de análise e propostas nos campos do Direito e da Ética, a defender o reconhecimento do valor intrínseco que eles têm, não como mero recurso à disposição da humanidade, mas como seres sencientes, buscando protegê-los do sofrimento e do tratamento desnecessário.

 

 A voz poética é a de um porco a caminho do mercado, onde será sacrificado, esquartejado e colocado à venda para consumo dos usuários, incapazes de enfrentar o olhar do animal durante o seu abate, algo que, sob a perspectiva consciente do suíno, apenas reflete o propósito dos intervenientes humanos de a tudo tornar invisível, rotineiro e carente de subjetividade.

 

O verso final é um grito silencioso por autonomia, um recordatório de que, mesmo diante da inevitável aniquilação, a dignidade de dizer “não” e de ser “este” indivíduo, e não um clichê, funciona como uma negativa simbólica a questionar a lógica da exploração, um gesto supremo de resistência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Philip Levine

(1928-2015)

 

Animals Are Passing from Our Lives

 

It’s wonderful how I jog

on four honed-down ivory toes

my massive buttocks slipping

like oiled parts with each light step.

 

I’m to market. I can smell

the sour, grooved block, I can smell

the blade that opens the hole

and the pudgy white fingers

 

that shake out the intestines

like a hankie. In my dreams

the snouts drool on the marble,

suffering children, suffering flies,

 

suffering the consumers

who won’t meet their steady eyes

for fear they could see. The boy

who drives me along believes

 

that any moment I’ll fall

on my side and drum my toes

like a typewriter or squeal

and shit like a new housewife

 

discovering television,

or that I’ll turn like a beast

cleverly to hook his teeth

with my teeth. No. Not this pig.

 

In: “Not This Pig” (1968)

 

O criador de porcos

(Margaret Loxton: artista inglesa)

 

Os Animais Estão Saindo de Nossas Vidas

 

É maravilhoso o modo como troto

sobre quatro cascos polidos de marfim,

minhas robustas nádegas a roçarem

como peças lubrificadas a cada leve passo.

 

Estou a caminho do mercado. Sinto o cheiro

da mesa de abate, áspera e sulcada; o ranço

da lâmina que rasga o ventre;

os dedos brancos e roliços

 

que espanejam as entranhas

como um lenço. Em meus sonhos,

os focinhos babam sobre o mármore;

condoem-se as crianças, condoem-se as moscas,

 

condoem-se os consumidores,

que não se atrevem a encará-los

por medo do que possam ver. O rapaz

que me conduz acredita que,

 

a qualquer momento, posso tombar

de lado e tamborilar os cascos

como um datilógrafo, ou guinchar

e defecar como uma nova doméstica

 

que se depara com o televisor,

ou, ainda, que vou virar-me como uma fera

astuta, para cravar meus dentes

nos dele. Não. Não este porco.

 

Em: “Não Este Porco” (1968)

 

Referência:

 

LEVINE, Philip. Animals are passing from our lives. In: __________. New selected poems. New York, NY: Alfred A. Knopf, 1991. p. 36.

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