Este poema dialoga,
em boa medida, com a ideia da dignidade dos animais, objeto de análise e propostas
nos campos do Direito e da Ética, a defender o reconhecimento do valor
intrínseco que eles têm, não como mero recurso à disposição da humanidade, mas
como seres sencientes, buscando protegê-los do sofrimento e do tratamento
desnecessário.
A voz poética é a de um porco a caminho do
mercado, onde será sacrificado, esquartejado e colocado à venda para consumo
dos usuários, incapazes de enfrentar o olhar do animal durante o seu abate,
algo que, sob a perspectiva consciente do suíno, apenas reflete o propósito dos
intervenientes humanos de a tudo tornar invisível, rotineiro e carente de
subjetividade.
O verso final é um
grito silencioso por autonomia, um recordatório de que, mesmo diante da inevitável
aniquilação, a dignidade de dizer “não” e de ser “este” indivíduo, e não um
clichê, funciona como uma negativa simbólica a questionar a lógica da
exploração, um gesto supremo de resistência.
J.A.R. – H.C.
Philip Levine
(1928-2015)
Animals Are Passing
from Our Lives
It’s wonderful how I
jog
on four honed-down
ivory toes
my massive buttocks
slipping
like oiled parts with
each light step.
I’m to market. I can
smell
the sour, grooved
block, I can smell
the blade that opens
the hole
and the pudgy white
fingers
that shake out the
intestines
like a hankie. In my
dreams
the snouts drool on
the marble,
suffering children, suffering
flies,
suffering the
consumers
who won’t meet their
steady eyes
for fear they could
see. The boy
who drives me along
believes
that any moment I’ll
fall
on my side and drum
my toes
like a typewriter or
squeal
and shit like a new
housewife
discovering
television,
or that I’ll turn
like a beast
cleverly to hook his
teeth
with my teeth. No.
Not this pig.
In: “Not This Pig”
(1968)
O criador de porcos
(Margaret Loxton:
artista inglesa)
Os Animais Estão
Saindo de Nossas Vidas
É maravilhoso o modo
como troto
sobre quatro cascos polidos
de marfim,
minhas robustas
nádegas a roçarem
como peças
lubrificadas a cada leve passo.
Estou a caminho do
mercado. Sinto o cheiro
da mesa de abate,
áspera e sulcada; o ranço
da lâmina que rasga o
ventre;
os dedos brancos e roliços
que espanejam as
entranhas
como um lenço. Em
meus sonhos,
os focinhos babam
sobre o mármore;
condoem-se as
crianças, condoem-se as moscas,
condoem-se os
consumidores,
que não se atrevem a encará-los
por medo do que
possam ver. O rapaz
que me conduz acredita
que,
a qualquer momento, posso
tombar
de lado e tamborilar
os cascos
como um datilógrafo,
ou guinchar
e defecar como uma
nova doméstica
que se depara com o
televisor,
ou, ainda, que vou virar-me
como uma fera
astuta, para cravar
meus dentes
nos dele. Não. Não
este porco.
Em: “Não Este Porco”
(1968)
Referência:
LEVINE, Philip. Animals
are passing from our lives. In: __________. New selected poems. New
York, NY: Alfred A. Knopf, 1991. p. 36.
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