Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Boghdán Rubtchák - A asa de Ícaro

O poeta ucraniano elabora, nesta reescrita alegórica em duas seções, uma cosmogonia pessoal e trágica, entretecendo a narrativa bíblica da Criação e da Queda com o mito grego de Ícaro: Rubtchák contrapõe a harmonia do “sexto dia” – no qual a humanidade coexistiu, em estado paradisíaco, com anjos e animais – ao colapso do “sétimo dia” – em cujas horas o conhecimento e a ambição acabaram por convolar o voo numa queda, no contexto de um mundo saturado pela corrupção e pelos negócios dos “mercadores de sangue”.

 

Tem-se, assim, o “primeiro começo cristalino” – claramente Adão, mas também, penso eu, o ser humano arquetípico e, por extensão, o artista ou o visionário (Ícaro) –, tantas vezes reencontrado em fragmentos, em vestígios das malogradas iniciativas, como uma “asa partida”, logo transmutada em artefato mítico a comprovar a tentativa do voo empreendido em cada momento pela humanidade, passível de infinitas reinterpretações pelas gerações supervenientes.

 

J.A.R. – H.C.

 

Boghdán Rubtchák

(1935-2018)

 

Крило Ікарове

 

1

 

Кристальний первопочаток устав у шостому дні.

Хлопчик був: світ був. М’якостопо

світом новим ступав. Семизорий звір

правду йому співав, найближчу з усіх, без слів.

І ангел був ще молодий.

 

Кристальний первопочаток устав у шостому дні.

Юнак. Вовка від зла стеріг. Сарнам домівку дав.

Прибігали до нього дні, круг нього дні бігли, як діти,

і яблуня лету біло йому цвіла

– пречисто.

 

Кристальний первопочаток устав у шостому дні:

муж. Всесвіт знав. Перше слово добув.

Вибухло в ньому весілля сонця й сонних гадюк

на дюнах над юним морем. Хотів

на вітрі лишити карб свого доброго імени.

Летіти.

 

2

 

Кристальний первопочаток упав у сьомому дні.

Зло розлилося. Зливи ласкавих вод землю зривали.

Птиці сонцю закрили таємничі обличчя свої,

вітер емблеми лету зламав, і прийшли

карати кущі.

 

Кристальний первопочаток упав у сьомому дні,

і сьомий день упав. Зосталася ніч,

щоб спутати крила снами гарячих рук,

шалом шалвій, полоном полину. Зімкнулись

кущі, що прийшли. Темні кущі.

 

Кристальний первопочаток упав у сьомому дні:

до лжесвящеників, до крамарів кровистих пішов юнак,

первобажання своє глибоко в очах заховавша,

і був. А внуки рибалок знайшли

розбите крило в кущах.

 

Ícaro sobre as rochas

(Vlaho Bukovac: pintor croata)

 

A asa de Ícaro

 

1

 

Cristalino princípio surgiu no sexto dia.

Era o menino: era o mundo. De passo macio

pisava o mundo novo. A fera de sete olhos

cantava-lhe a verdade, mais próxima de todas, sem palavras.

E o anjo era jovem ainda.

 

Cristalino princípio surgiu no sexto dia.

Jovem. Defendia o lobo do mal. Dava nome às corças.

Os dias corriam a ele, em torno dele corriam os dias, como crianças,

branca do voo floria-lhe macieira –

imaculada.

 

Cristalino princípio surgiu no sexto dia:

Homem. O universo sabia. Tirou a primeira palavra.

Nele explodiram as bodas do sol e das serpentes do sonho,

sobre as dunas à beira do jovem mar. Ele queria

deixar no vento a gravura de seu bom nome.

Voar.

 

2

 

Cristalino princípio tombou no sétimo dia.

Derramou-se o mal. Enchentes de águas mansas arrancavam a terra.

Os pássaros escondiam ao sol seus semblantes misteriosos,

O vento quebrou os emblemas do voo e arbustos

vieram punir.

 

Cristalino princípio tombou no sétimo dia,

e o sétimo dia tombou. A noite sobrou

para amarrar as asas com sonhos de quentes mãos,

com a loucura de losna, com cativeiro de cana. Fecharam-se

os arbustos que vieram. Arbustos escuros.

 

Cristalino princípio caiu no sétimo dia:

aos falsos profetas, aos mercadores de sangue dirigiu-se o jovem,

[tendo ocultado o seu primeiro desejo no fundo dos olhos,] (*)

e foi. E os netos de pescadores acharam

nos arbustos a asa quebrada.

 

Nota:

 

(*). Este verso, em tradução ao português da mesma linha parelha em ucraniano, não consta na obra de referência em nosso idioma, talvez por um lapso de revisão.

 

Referências:

 

Em Ucraniano

 

Рубчак, Богдан. Крило Ікарове. In: __________. Крило Ікарове. Дніпро, УКР: Київ Видавництво художньої літератури, 1991. с. 153-154.

 

Em Português

 

RUBTCHÁK, Boghdán. A asa de Ícaro. Tradução de Wira Wowk Selanski. In: SELANSKI, Wira Wowk (Ed.). Sinos: antologia da poesia ucraniana. Traduções de Wira Wowk Selanski e Helena Kolody. 1. ed. Rio de Janeiro (RJ) & Lisboa (PT): Contraste Editora, 2009. p. 280-281.

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