O poeta ucraniano
elabora, nesta reescrita alegórica em duas seções, uma cosmogonia pessoal e trágica,
entretecendo a narrativa bíblica da Criação e da Queda com o mito grego de Ícaro:
Rubtchák contrapõe a harmonia do “sexto dia” – no qual a humanidade coexistiu, em estado paradisíaco, com anjos e animais – ao colapso do “sétimo dia” – em
cujas horas o conhecimento e a ambição acabaram por convolar o voo numa queda, no
contexto de um mundo saturado pela corrupção e pelos negócios dos “mercadores
de sangue”.
Tem-se, assim, o “primeiro
começo cristalino” – claramente Adão, mas também, penso eu, o ser humano
arquetípico e, por extensão, o artista ou o visionário (Ícaro) –, tantas vezes reencontrado
em fragmentos, em vestígios das malogradas iniciativas, como uma “asa partida”,
logo transmutada em artefato mítico a comprovar a tentativa do voo empreendido em
cada momento pela humanidade, passível de infinitas reinterpretações pelas
gerações supervenientes.
J.A.R. – H.C.
Boghdán Rubtchák
(1935-2018)
Крило Ікарове
1
Кристальний первопочаток устав у шостому дні.
Хлопчик був: світ був. М’якостопо
світом новим ступав. Семизорий звір
правду йому співав, найближчу з усіх, без слів.
І ангел був ще молодий.
Кристальний первопочаток устав у шостому дні.
Юнак. Вовка від зла стеріг. Сарнам домівку дав.
Прибігали до нього дні, круг нього дні бігли, як діти,
і яблуня лету біло йому цвіла
– пречисто.
Кристальний первопочаток устав у шостому дні:
муж. Всесвіт знав. Перше слово добув.
Вибухло в ньому весілля сонця й сонних гадюк
на дюнах над юним морем. Хотів
на вітрі лишити карб свого доброго імени.
Летіти.
2
Кристальний первопочаток упав у сьомому дні.
Зло розлилося. Зливи ласкавих вод землю зривали.
Птиці сонцю закрили таємничі обличчя свої,
вітер емблеми лету зламав, і прийшли
карати кущі.
Кристальний первопочаток упав у сьомому дні,
і сьомий день упав. Зосталася ніч,
щоб спутати крила снами гарячих рук,
шалом шалвій, полоном полину. Зімкнулись
кущі, що прийшли. Темні кущі.
Кристальний первопочаток упав у сьомому дні:
до лжесвящеників, до крамарів кровистих пішов юнак,
первобажання своє глибоко в очах заховавша,
і був. А внуки рибалок знайшли
розбите крило в кущах.
Ícaro sobre as rochas
(Vlaho Bukovac:
pintor croata)
A asa de Ícaro
1
Cristalino princípio
surgiu no sexto dia.
Era o menino: era o
mundo. De passo macio
pisava o mundo novo.
A fera de sete olhos
cantava-lhe a
verdade, mais próxima de todas, sem palavras.
E o anjo era jovem
ainda.
Cristalino princípio
surgiu no sexto dia.
Jovem. Defendia o
lobo do mal. Dava nome às corças.
Os dias corriam a
ele, em torno dele corriam os dias, como crianças,
branca do voo
floria-lhe macieira –
imaculada.
Cristalino princípio
surgiu no sexto dia:
Homem. O universo
sabia. Tirou a primeira palavra.
Nele explodiram as
bodas do sol e das serpentes do sonho,
sobre as dunas à
beira do jovem mar. Ele queria
deixar no vento a
gravura de seu bom nome.
Voar.
2
Cristalino princípio
tombou no sétimo dia.
Derramou-se o mal.
Enchentes de águas mansas arrancavam a terra.
Os pássaros escondiam
ao sol seus semblantes misteriosos,
O vento quebrou os emblemas
do voo e arbustos
vieram punir.
Cristalino princípio
tombou no sétimo dia,
e o sétimo dia
tombou. A noite sobrou
para amarrar as asas
com sonhos de quentes mãos,
com a loucura de
losna, com cativeiro de cana. Fecharam-se
os arbustos que
vieram. Arbustos escuros.
Cristalino princípio
caiu no sétimo dia:
aos falsos profetas,
aos mercadores de sangue dirigiu-se o jovem,
[tendo ocultado o seu
primeiro desejo no fundo dos olhos,] (*)
e foi. E os netos de
pescadores acharam
nos arbustos a asa quebrada.
Nota:
(*). Este verso, em
tradução ao português da mesma linha parelha em ucraniano, não consta na obra
de referência em nosso idioma, talvez por um lapso de revisão.
Referências:
Em Ucraniano
Рубчак, Богдан. Крило Ікарове. In:
__________. Крило Ікарове. Дніпро, УКР: Київ Видавництво художньої
літератури, 1991. с. 153-154.
Em Português
RUBTCHÁK, Boghdán. A asa de Ícaro. Tradução de Wira Wowk Selanski. In: SELANSKI, Wira Wowk (Ed.). Sinos: antologia da poesia ucraniana. Traduções de Wira Wowk Selanski e Helena Kolody. 1. ed. Rio de Janeiro (RJ) & Lisboa (PT): Contraste Editora, 2009. p. 280-281.
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