A lagoa de Tiscapa no
centro de Manágua (NI) – hoje, um parque memorial – segue a refletir a lua, as
luzes do poder, mas, nestas linhas de Cardenal, um dado momento restou congelado
sob a sua transparente superfície lírica, a pulsar sob os efeitos do amor, do
ciclo contínuo da vida e da luta, bem assim a refletir a sua longa e tirânica
sombra, digo melhor, a presença contingente de um poder autoritário e opressivo.
Diante da
descontinuidade da relação com a pessoa amada, apenas a natureza e a cidade mantiveram-se
incólumes à passagem do tempo: o espaço físico onde os protagonistas vivenciaram
momentos de intimidade – um singelo banco sob uma árvore de quelite, às margens
da sobredita lagoa – abriga, agora, um outro casal, e, quiçá, outras também devem
ser as condições políticas que pairam sobre a esfera da vida privada naquelas
paragens.
J.A.R. – H.C.
Ernesto Cardenal
(1925-2020)
Hay un lugar junto a
la laguna de Tiscapa
Hay un lugar junto a
la laguna de Tiscapa
– un banco debajo de
un árbol de quelite –
que tú conoces
(aquella a quien escribo
estos versos, sabrá
que son para ella).
Y tú recuerdas aquel
banco y aquel quelite;
la luna reflejada en
la laguna de Tiscapa,
las luces del palacio
del dictador,
las ranas cantando
abajo en la laguna.
Todavía está aquel
árbol de quelite;
todavía brillan las
mismas luces;
en la laguna de
Tiscapa se refleja Ia luna;
pero aquel banco esta
noche estará vacío,
o con otra pareja que
no somos nosotros.
Casais se beijando no
parque
(Friso da Família
Linde)
(Edvard Munch: pintor
norueguês)
Há um lugar junto à
lagoa de Tiscapa
Há um lugar junto à
lagoa de Tiscapa
– um banco sob uma
árvore de quelite –
que tu conheces
(aquela a quem escrevo
estes versos, saberá
que são para ela).
E lembras-te daquele
banco e daquela quelite;
da lua refletida na
lagoa de Tiscapa,
das luzes do palácio
do ditador,
das rãs a coaxar às
margens da lagoa.
Ainda lá está aquela
árvore de quelite;
ainda brilham as
mesmas luzes;
a lua a refletir-se na
lagoa de Tiscapa;
Mas aquele banco esta
noite estará vazio,
Ou com outro par que
não somos nós.
Referência:
CARDENAL, Ernesto. Hay
un lugar junto a la laguna de Tiscapa. In: __________. Poesía escogida.
1. ed. Barcelona, ES: Barral Editores, abr. 1975. p. 11. (“Insulae Poetarum”)
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