Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 7 de novembro de 2026

Ernesto Cardenal - Há um lugar junto à lagoa de Tiscapa

A lagoa de Tiscapa no centro de Manágua (NI) – hoje, um parque memorial – segue a refletir a lua, as luzes do poder, mas, nestas linhas de Cardenal, um dado momento restou congelado sob a sua transparente superfície lírica, a pulsar sob os efeitos do amor, do ciclo contínuo da vida e da luta, bem assim a refletir a sua longa e tirânica sombra, digo melhor, a presença contingente de um poder autoritário e opressivo.

 

Diante da descontinuidade da relação com a pessoa amada, apenas a natureza e a cidade mantiveram-se incólumes à passagem do tempo: o espaço físico onde os protagonistas vivenciaram momentos de intimidade – um singelo banco sob uma árvore de quelite, às margens da sobredita lagoa – abriga, agora, um outro casal, e, quiçá, outras também devem ser as condições políticas que pairam sobre a esfera da vida privada naquelas paragens.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ernesto Cardenal

(1925-2020)

 

Hay un lugar junto a la laguna de Tiscapa

 

Hay un lugar junto a la laguna de Tiscapa

– un banco debajo de un árbol de quelite –

que tú conoces (aquella a quien escribo

estos versos, sabrá que son para ella).

Y tú recuerdas aquel banco y aquel quelite;

la luna reflejada en la laguna de Tiscapa,

las luces del palacio del dictador,

las ranas cantando abajo en la laguna.

Todavía está aquel árbol de quelite;

todavía brillan las mismas luces;

en la laguna de Tiscapa se refleja Ia luna;

pero aquel banco esta noche estará vacío,

o con otra pareja que no somos nosotros.

 

Casais se beijando no parque

(Friso da Família Linde)

(Edvard Munch: pintor norueguês)

 

Há um lugar junto à lagoa de Tiscapa

 

Há um lugar junto à lagoa de Tiscapa

– um banco sob uma árvore de quelite –

que tu conheces (aquela a quem escrevo

estes versos, saberá que são para ela).

E lembras-te daquele banco e daquela quelite;

da lua refletida na lagoa de Tiscapa,

das luzes do palácio do ditador,

das rãs a coaxar às margens da lagoa.

Ainda lá está aquela árvore de quelite;

ainda brilham as mesmas luzes;

a lua a refletir-se na lagoa de Tiscapa;

Mas aquele banco esta noite estará vazio,

Ou com outro par que não somos nós.

 

Referência:

 

CARDENAL, Ernesto. Hay un lugar junto a la laguna de Tiscapa. In: __________. Poesía escogida. 1. ed. Barcelona, ES: Barral Editores, abr. 1975. p. 11. (“Insulae Poetarum”)

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