Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 1 de novembro de 2026

Giuseppe Belli - A embocadura

Belli nos oferece, em dialeto popular romano, um retrato surreal, algo animalesco, de um encontro amoroso marcado por intensa e caótica refrega física, digo melhor, pela energia bruta, meio violenta, da paixão, sob cujos efeitos os amantes buscam ampliar os limites do prazer alcançado, ansiando por uma fusão total.

 

A repetição de sons ásperos e guturais ao longo dos versos tenciona refletir o choque dos corpos como uma luta brincalhona entre dois gatos, num jogo instintivo e desenfreado, descrito pelo poeta numa sintaxe burlesca na qual o gozo se mescla com o cansaço e os atrapalhos para trazer ao leitor a sensação de um realismo exasperado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Giuseppe Belli

(1791-1863)

 

L’incisciature

 

Che sscenufreggi, ssciupi, strusci e ssciatti!

Che ssonajjera d’inzeppate a ssecco!

Iggni bbotta, peccrisse, annava ar lecco:

Soffiamio tutt’e ddua come ddu’ gatti.

 

L’occhi invetriti peggio de li matti:

Sempre pelo co ppelo, e bbecc’a bbecco.

Viè e nun vienì, fà e ppijja, ecco e nnun ecco;

E ddajje, e spiggne, e incarca, e striggni e sbatti.

 

Un po’ ppiù cche ddurava stamio grassi!

Ché ddoppo avé ffinito er giucarello

Restassimo intontiti com’e ssassi.

 

È un gran gusto er fregà! ma ppe ggodello

Più a cciccio, ce voría che ddiventassi

Giartruda tutta sorca, io tutt’uscello.

 

Erótico

(Ivan Vavpotič: pintor esloveno)

 

A embocadura (*)

 

Que esfregações, gemidos, desbaratos!

Que arremessos a seco, numa enfiada!

Todos no alvo, por Cristo, desde a entrada:

Ficam bufando os dois como dois gatos.

 

Olhos vidrados, pior que de insensatos:

Pelo com pelo, boca a boca atada,

E enfia e empurra e bate sem parada;

Vai e vem, põe e tira num só ato.

 

Descalabro se um pouco mais durasse!

Chegada a brincadeira ao seu final,

Ficamos feito pedras, inconscientes.

 

É muito bom foder! Mas o ideal

Seria nos tornarmos realmente

Gertrudes toda cona e eu todo pau.

 

Nota:

 

(*). Como o afirma o ensaísta e tradutor José Paulo Paes: “Na tradução, não se fez, por sabê-la antecipadamente fadada ao malogro, qualquer tentativa de preservar o mínimo que fosse do sabor dialetal da dicção belliana”. (PAES, 2006, p. 191)

 

Referência:

 

BELLI, Giuseppe. L’incisciature / A embocadura. Tradução de José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo (Seleção, tradução, introdução e notas). Poesia erótica em tradução. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2006. Em dialeto romano: p. 142; em português: p. 143. (Série “Companhia de Bolso”)

❁

Nenhum comentário:

Postar um comentário