Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Walt Whitman - Canção de mim mesmo: seção 20

Whitman vê o corpo – o próprio e dos outros – como um processo, uma troca contínua até mais além do óbito, pois, conforme se expressa, teria ele o dom de conhecer a “amplitude do tempo”. Somos, de fato, o que comemos, respiramos, tocamos, ouvimos e vemos, e, sob tal perspectiva, todas as coisas existiriam no céu, na terra, no mar e no ar, para que possamos experimentá-las.

Há certa mescla de materialismo e espiritualismo – ou seria mística? – nas palavras de Whitman, denotando licença de pensamento que, de certo modo, obscurece a mensagem final, muito embora se perceba o teor referente aos preparativos para a sua contingente ação privada, segundo o princípio da liberdade absoluta, ao jogar sobre o leito da natureza as mais íntimas pretensões da alma e do corpo humanos.

J.A.R. – H.C.

Walt Whitman
(1819-1892)

Song of Myself

20

Who goes there? hankering, gross, mystical, and nude;
How is it I extract strength from the beef I eat?
What is a man anyhow? what am I? what are you?

All I mark as my own you shall offset it with your own,
Else it were time lost listening to me.

I do not snivel that snivel the world over,
That months are vacuums and the ground but wallow and filth.

Whimpering and truckling fold with powders for invalids,
conformity goes to the fourth-remov’d,
I wear my hat as I please indoors or out.

Why should I pray? why should I venerate and be ceremonious?

Having pried through the strata, analyzed to a hair, counsel’d
with doctors and calculated close,
I find no sweeter fat than sticks to my own bones.

In all people I see myself, none more and not one a
barley-corn less,
And the good or bad I say of myself I say of them.

I know I am solid and sound,
To me the converging objects of the universe perpetually flow,
All are written to me, and I must get what the writing means.

I know I am deathless,
I know this orbit of mine cannot be swept by a carpenter’s
compass,
I know I shall not pass like a child’s carlacue cut with a burnt
stick at night.

I know I am august,
I do not trouble my spirit to vindicate itself or be understood,
I see that the elementary laws never apologize,
(I reckon I behave no prouder than the level I plant my
house by, after all.)

I exist as I am, that is enough,
If no other in the world be aware I sit content,
And if each and all be aware I sit content.

One world is aware and by far the largest to me, and that
is myself,
And whether I come to my own to-day or in ten thousand
or tem million years,
I can cheerfully take it now, or with equal cheerfulness
I can wait.

My foothold is tenon’d and mortis’d in granite,
I laugh at what you call dissolution,
And I know the amplitude of time.

Davos sob a neve
(Ernst Ludwig Kirchner: pintor alemão)

Canção de mim mesmo

20

Quem vai ali? Cheio de realizações, tosco místico, nu;
Como extraio energia da carne que consumo?
O que é um homem afinal? O que sou eu? O que és tu?

Tudo o que marco como sendo meu tu deves compensar
com o que é teu.
De outro modo seria perda de tempo me ouvir.

Não lanço a lamúria da minha lamúria pelo mundo inteiro,
De que os meses são vazios e o chão é lamaçal e sujeira.

Choradeira e servilismo são encontrados junto com os
remédios para inválidos, a conformidade polariza-se
no ordinário mais remoto.
Uso meu chapéu como bem entender dentro ou fora de casa.

Por que eu deveria orar? Por que deveria venerar e ser
cerimonioso?

Tendo inquirido todas as camadas, analisado as minúcias,
consultado os doutores e calculado com perícia,
Não encontro gordura mais doce do que aquela que
se prende aos meus próprios ossos.

Em todas as pessoas enxergo a mim mesmo, em nenhuma
vejo mais do que eu sou, ou um grão de cevada a menos.
E o bem e o mal que falo de mim mesmo eu falo delas.

Sei que sou sólido e sadio.
Para mim os objetos convergentes do universo
perpetuamente fluem,
Todos são escritos para mim, e eu devo entender o que a
escrita significa.

Sei que sou imortal,
Sei que a órbita do meu eu não pode ser varrida pelo
compasso de um carpinteiro,
Sei que não passarei como os círculos luminosos que as crianças
fazem à noite, com gravetos em brasa.

Sei que sou augusto.
Não perturbo meu próprio espírito para que se defenda ou
seja compreendido,
Vejo que as leis elementares nunca pedem desculpas,
(Reconheço que me comporto com um orgulho tão alto
quanto o do nível com que assento a minha casa, afinal).

Existo como sou, isso me basta,
Se ninguém mais no mundo está ciente, fico satisfeito.
E se cada um e todos estiverem cientes, satisfeito fico.

Um mundo está ciente e esse é incomparavelmente o maior
de todos para mim, e esse mundo sou eu mesmo,
E se venho para o que é meu, ainda hoje ou dentro de
dez mil anos, ou dez milhões de anos,
Posso alegremente recebê-lo agora, ou esperá-lo com
alegria igual.

Meus pés estão espigados e encaixados no granito,
Debocho daquilo que chamas de dissolução,
E conheço a amplitude do tempo.

Referências:

Em Inglês

WHITMAN, Walt. Song of myself: 20. Who goes there?. In: __________. The portable Walt Whitman. Edited with an introduction by Michael Warner. New York, NY: Penguin Books, 2004. p. 22-24.

Em Português

WHITMAN, Walt. Canção de mim mesmo: 20. Quem vai ali? Tradução de Luciano Alves Meira. In: __________. Folhas de relva. Texto integral. Tradução e introdução de Luciano Alves Meira. 2. ed. São Paulo (SP): Martin Claret, 2012. p. 66-68. (Série Ouro: Coleção A Obra-Prima de Cada Autor, n. 42)

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Walt Whitman - O gavião pintado mergulha e me acusa

Depois de exaurida as forças de Whitman, tudo quanto a ele disser respeito, uma vez transformado novamente no pó primordial, passará a pertencer aos vivos, que o celebrarão levando-o impregnado em suas botas: eis uma suma válida para este excerto de “Canção de mim mesmo”, vale dizer, a seção de nº 52, a dar termo ao poema.

De um corpo já incapaz de se traduzir diretamente pelo verbo, sobrevirá outras formas de matéria, vivas ou não – plantas, animais, água ou grama −, que lançarão mão de suas palavras, reciclando-as num fluxo interminável de memórias, ideias e pensamentos a serem reabsorvidos pelos intrépidos leitores do futuro, em busca de iluminação ou de sentido para as suas vidas.

J.A.R. – H.C.

Walt Whitman
(1819-1892)

The spotted hawk swoops by and accuses me

The spotted hawk swoops by and accuses me –
he complains of my gab and my loitering.
I too am not a bit tamed − I too am untranslatable;
I sound my barbaric yawp over the roofs of the world.

The last scud of day holds back for me;
It flings my likeness after the rest, and true as any,
on the shadow’d wilds;
It coaxes me to the vapor and the dusk.

I depart as air − I shake my white locks at the runaway sun;
I effuse my flesh in eddies, and drift it in lacy jags.

I bequeath myself to the dirt, to grow from the grass I love;
If you want me again, look for me under your boot-soles.

You will hardly know who I am, or what I mean;
But I shall be good health to you nevertheless,
And filter and fibre your blood.

Failing to fetch me at first, keep encouraged;
Missing me one place, search another;
I stop somewhere, waiting for you.

Falcão com cauda rubra
(Shirley Bell: pintora norte-americana)

O gavião pintado mergulha e me acusa

O gavião pintado mergulha e me acusa,
ele reclama de minha tagarelice e de minha vadiagem.
Eu também não sou muito domado, eu também
sou intraduzível,
Lanço no ar o meu urro bárbaro sobre os telhados do mundo.

A última sombra do dia espera por mim,
Ela arremessa minha imagem atrás das outras e, tão verdadeira
quanto qualquer coisa no agreste sombrio,
Me arrasta para o vapor e para o crepúsculo.

Eu parto como o ar, agito minhas mechas brancas
sob o sol fugitivo,
Derramo minha carne em remoinhos e deixo-a à deriva
em saliências rendilhadas.

Lego-me ao pó para crescer da relva que amo,
Se queres me ver novamente, procura-me grudado à sola
de tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Mas hei de ser para ti boa saúde assim mesmo,
E filtrarei e darei fibra ao teu sangue.

Se não puderes me encontrar na primeira vez,
mantém a esperança,
Não me achando em certo lugar, procura em outro,
Fico em alguma parte à tua espera.

Referências:

Em Inglês

WHITMAN, Walt. WHITMAN, Walt. Song of myself: 52. The spotted hawk swoops by and accuses me. In: __________. The portable Walt Whitman. Edited with an introduction by Michael Warner. New York, NY: Penguin Books, 2004. p. 67.

Em Português

WHITMAN, Walt. Canção de mim mesmo: 52. O gavião pintado mergulha e me acusa. Tradução de Luciano Alves Meira. In: __________. Folhas de relva. Texto integral. Tradução e introdução de Luciano Alves Meira. 2. ed. São Paulo (SP): Martin Claret, 2012. p. 107-108. (Série Ouro: Coleção ‘A Obra-Prima de Cada Autor’; n. 42)

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Mario Quintana - O poeta canta a si mesmo

Quase que o associei à faceta heteronímica do poeta lusitano Fernando Pessoa (1888-1935) ao apreender o derradeiro dístico deste poema de Quintana: o vate é de si mesmo diverso! Nele pulsaria um Deus por nascer – e então já a outro grande escritor se poderia concatenar tal ideia, nomeadamente ao francês Victor Hugo (1802-1885), hábil em inter-relacionar, em muitos de seus poemas, o plano das divindades e a esfera das musas do Parnaso.

Mas a qual outra melhor conexão se poderia estender a noção de que “o poeta canta a si mesmo” do que ao proverbial poema “Canção de Mim Mesmo”, do norte-americano Walt Whitman (1819-1892), um congregado, como já se disse, de elementos biográficos e de prédicas, além de pensamentos, sentimentos e estados psicológicos permeados de poesia?!

E o poema propriamente dito de Quintana? Deixo-o à apreciação do internauta, em particular no que respeita à metáfora de que o coração do poeta se comportaria como uma biruta exposta a todos os ventos do universo, permitindo-lhe capturar, num átimo roubado ao mar incessante do tempo, a sua mais elusiva essência.

J.A.R. – H.C.

Mario Quintana
(1906-1994)

O poeta canta a si mesmo

O poeta canta a si esmo
porque nele é que os olhos das amadas
têm esse brilho a um tempo inocente e perverso...

O poeta canta a si mesmo
porque num seu único verso
pende – lúcida, amarga –
uma gota fugida a esse mar incessante do tempo...

Porque o seu coração é uma porta batendo
a todos os ventos do universo.

Porque além de si mesmo ele não sabe nada
ou que Deus por nascer está tentando agora
ansiosamente respirar
neste seu pobre ritmo disperso!

O poeta canta a si mesmo
porque de si mesmo é diverso.

Em: Esconderijos do Tempo (1980)

Veneza
(Oleg Shupliak: pintor ucraniano)

Referência:

QUINTANA, Mario. O poeta canta a si mesmo. In: __________. Quintana de bolso: rua dos cataventos & outros poemas. Seleção de Sergio Faraco. Porto Alegre, RS: L&PM, 2015. p. 119. (Coleção ‘L&PM Pocket’, v. 71)