Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Louise Glück - Neve

A poetisa rememora um momento de genuína revelação, em que seu pai a carrega sobre os ombros e, ambos, olham para frente, na mesma direção, rumo ao “vazio, a neve pesada”, que teima em não decantar, redemoinhando ao redor deles – suma do que, sob a ótica da falante, integrava o “mundo” de seu genitor.

 

Até onde se pode depreender do teor dos versos, a poetisa reteve em sua mente a percepção de um vazio tomando conta do coração ou do espírito de seu pai, um cônscio abstraído, a ponto de renunciar até mesmo a fitar diretamente o semblante da filha – e segurá-la sobre os ombros era uma forma tal que o impedia de vê-la –, robustecendo-lhe a impressão acerca de uma frieza de comportamento, da qual nunca se deixava despojar.

 

J.A.R. – H.C.

 

Louise Glück

(n. 1943)

 

Snow

 

Late December: my father and I

are going to New York, to the circus.

He holds me

on his shoulders in the bitter wind:

scraps of white paper

blow over the railroad ties.

 

My father liked

to stand like this, to hold me

so he couldn’t see me.

I remember

staring straight ahead

into the world my father saw;

I was learning

to absorb its emptiness,

the heavy snow

not falling, whirling around us.

 

In: “Ararat” (1990)

 

Pai e filho na neve invernal

(Irina Sztukowski: artista russo-americana)

 

Neve

 

Fins de dezembro: meu pai e eu

nos dirigimos a Nova Iorque, para o circo.

Ele me sustenta

sobre os seus ombros sob um vento implacável:

pedaços de papel branco

sopram sobre os dormentes da ferrovia.

 

Meu pai gostava

de estar assim, de me segurar

desse jeito, tal que não pudesse me ver.

Lembro-me

de olhar diretamente para a frente,

em direção ao mundo que meu pai via;

eu estava aprendendo

a absorver o seu vazio,

a neve pesada

que não caía, remoinhando à nossa volta.

 

Em: “Ararat” (1990)

 

Referência:

 

GLÜCK, Louise. Snow. In: __________. Poems: 1962-2012. First paperback edition. New York, NY: Farrar, Straus and Giroux, 2013. p. 233.

 


terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Anna Akhmátova - Béjetsk

Akhmátova descreve os dias frios de dezembro na cidade de Béjetsk, localizada na província russa de Tver, durante os quais lua e estrelas metaforizam-se em pedras preciosas, “incrustando de diamantes” a noite russa: em Béjetsk se encontrava o filho Lev Gumilyov (1912-1992), que, à altura, vivia com a avó materna Anna I. Gumilyova (1854-1942).

 

A par do colorido religioso, a dar ênfase ao clima natalino e ao ambiente na casa da matriarca, subentende-se o peso grave dos acontecimentos recentes, levando a poetisa a se recusar adentrar a morada: o poema foi escrito apenas alguns meses após a execução do ex-exposo Nikolai S. Gumilyov (1886-1921), por pretensa conspiração monarquista contra os bolcheviques.

 

J.A.R. – H.C.

 

Anna Akhmátova

(1889-1966)

 

Бежецк

 

Там белые церкви и звонкий, светящийся лед,

Там милого сына цветут васильковые очи.

Над городом древним алмазные русские ночи

И серп поднебесный желтее, чем липовый мед.

 

Там вьюги сухие взлетают с заречных полей,

И люди, как ангелы. Божьему Празднику рады,

Прибрали светлицу, зажгли у киота лампады,

И Книга Благая лежит на дубовом столе.

 

Там строгая память, такая скупая теперь,

Свои терема мне открыла с глубоким поклоном;

Но я не вошла, я захлопнула страшную дверь;

И город был полон веселым рождественским звоном.

 

26 декабря 1921

Из: “Anno Domini MCMXXI”

 

Cidade Chuvosa

(Sergey Smirnov: artista russo)

 

Béjetsk

 

Lá as igrejas são brancas e o gelo brilha e ressoa,

lá florescem os olhos azuis de meu filho querido.

Sobre a cidade, pende a noite russa incrustada

de diamantes

e o crescente no céu é mais dourado que o mel.

 

Lá as tempestades de neve sopram das planícies,

do outro lado do rio

e os homens, como anjos, rejubilam-se a cada dia santo.

Limparam o maior cômodo da casa, junto aos ícones

acenderam as lâmpadas

e as Escrituras repousam numa pesada mesa de carvalho.

 

Lá as lembranças amargas – hoje para mim tão raras –

abriram-me as janelas de seus torreões, com uma

profunda reverência.

Mas não entrei: bati com força a porta assustadora.

E a cidade encheu-se com o alegre bimbalhar

dos sinos de Natal. 

26/12/1921

Em: “Anno Domini MCMXXI”

 

Referências:

 

Em Russo

 

АХМАТОВА, Анна. Бежецк. In: __________. Песня последней встречи. Москва: Рипол Классик, 2021. с. 203-204.

 

Em Português

 

AKHMÁTOVA, Anna. Béjetsk. Tradução de Lauro Machado Coelho. In: __________. Antologia poética. Seleção, tradução, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014. p. 80. (L&PM Pocket; v. 751)

 


segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Cecil Day-Lewis - Um Cântico

O escritor e poeta irlandês transpõe a história bíblica do nascimento de Cristo para cenários quotidianos que demarcam ainda nossa vã contemporaneidade, onde grassa a pobreza em grande parte do planeta: a babá, que se presume ser a falante do poema, dedica-se a fazer o bebê parar de chorar e dormir, cuidando para que nada o desperte, pois que a fome é um impeditivo para voltar a acalmá-lo.

 

Para obter recursos de mantença da família, até o berço do bebê foi dado em penhor, pois o provedor do grupo se encontra desempregado e o que resta de numerário para cobrir as despesas é pouco mais do que dois xelins por semana: esse é o contexto em que vivem milhões de brasileiros, país com uma das piores distribuições de renda do mundo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Cecil Day-Lewis

(1904-1972)

 

A Carol

 

Oh hush thee, my baby,

Thy cradle’s in pawn:

No blankets to cover thee

Cold and forlorn.

The stars in the bright sky

Look down and are dumb

At the heir of the ages

Asleep in a slum.

 

The hooters are blowing,

No heed let him take;

When baby is hungry

’Tis best not to wake.

Thy mother is crying,

Thy dad’s on the dole:

Two shillings a week is

The price of a soul.

 

Natividade

(James B. Janknegt: artista norte-americano)

 

Um Cântico

 

Oh, silencia, meu bebê,

Teu berço foi dado em penhor:

Não há mantas para te proteger

Do frio e do desconsolo.

As estrelas no brilhante céu

Olham para baixo e emudecem

Ante o herdeiro dos séculos

Dormindo numa favela.

 

Estão a soprar as buzinas,

Não o deixes prestar atenção;

Quando o bebê está com fome,

É melhor não o despertar.

Tua mãe está chorando,

Teu pai, desempregado:

Dois xelins por semana é

O preço de uma alma.

 

Referência:

 

DAY-LEWIS, Cecil. A carol. In: HOLLANDER, John; McCLATCHY, J. D. (Sel. & Ed.). Christmas poems. New York, NY: Alfred A. Knopf, 1999. p. 163. (‘Everyman’s Library: Pocket Poets’)

  


domingo, 24 de dezembro de 2023

Joseph Brodsky - 24 de Dezembro de 1971

Brodsky esboça nestes versos os preparativos para as festas invernais, o Natal em primeiro plano, focando o leitor não exatamente na atmosfera calorosa e festiva do feriado cristão, senão nos transtornos dos preparativos para o evento, geralmente associados a uma corrida por produtos para consumo (e presentes): “Cheiro de vodca, bacalhau e pinho, mandarins, canela, maçãs. Um caos de caras, e não se vê o caminho para Belém, devido ao torvelinho”.

 

Na abordagem do poeta, descortina-se um quotidiano em que os incógnitos partícipes, os novos Herodes, tudo fazem em detrimento ao próprio Natal, quando deveriam prestar mais atenção à estrela, esse luminar que acaba de nascer, capaz de lhes preencher o vazio de espírito, resgatando suas faces ao anonimato, para revelar o que os torna humanos por excelência, reaproximando desse modo o transitório ao sagrado, o efêmero ao eterno.

 

J.A.R. – H.C.

 

Joseph Brodsky

(1940-1996)

 

24 Декабря 1971 Года

 

V. S.

 

В Рождество все немного волхвы.

В продовольственных слякоть и давка.

Из-за банки кофейной халвы

производит осаду прилавка

грудой свёртков навьюченный люд:

каждый сам себе царь и верблюд.

 

Сетки, сумки, авоськи, кульки,

шапки, галстуки, сбитые набок.

Запах водки, хвои и трески,

мандаринов, корицы и яблок.

Рисунок1Хаос лиц, и не видно тропы

в Вифлеем из-за снежной крупы.

 

И разносчики скромных даров

в транспорт прыгают, ломятся в двери,

исчезают в провалах дворов,

даже зная, что пусто в пещере:

ни животных, ни яслей, ни Той,

над Которою нимб золотой.

 

Пустота. Но при мысли о ней

видишь вдруг как бы свет ниоткуда.

Знал бы Ирод, что чем он сильней,

тем верней, неизбежнее чудо.

Постоянство такого родства

основной механизм Рождества.

 

То и празднуют ныне везде,

что Его приближенье, сдвигая

все столы. Не потребность в звезде

пусть ещё, но уж воля благая

в человеках видна издали,

и костры пастухи разожгли.

 

Валит снег; не дымят, но трубят

трубы кровель. Все лица, как пятна.

Ирод пьёт. Бабы прячут ребят.

Кто грядёт никому непонятно:

мы не знаем примет, и сердца

могут вдруг не признать пришлеца.

 

Но, когда на дверном сквозняке

из тумана ночного густого

возникает фигура в платке,

и Младенца, и Духа Святого

ощущаешь в себе без стыда;

смотришь в небо и видишь звезда.

 

январь 1972

 

Feira de Natal

(Genrikh M. Manizer: pintor russo)

 

24 de Dezembro de 1971

 

para V. S.

 

Somos todos, no Natal, meio Reis Magos.

Nas mercearias, lama e aglomeração.

Por umas latas de doce com gosto de café

dá-se o assédio a um balcão

por um monte de gente toda empacotada:

cada um é ao mesmo tempo rei e camelo.

 

Redes, sacolas, sacos e saquinhos,

bonés, gravatas enviesadas.

Cheiro de vodca, bacalhau e pinho,

mandarins, canela, maçãs.

Um caos de caras, e não se vê o caminho

para Belém, devido ao torvelinho.

 

E os que carregam presentes não reais

estouram os portões, saltam nos transportes velas vias,

somem nos fossos dos quintais,

mesmo sabendo que a gruta está vazia:

sem animais, sem manjedoura, sem Aquela

sobre Quem paira um nimbo d’ouro.

 

O vazio. Mas ao pensares nele

verás de súbito como que um brilho sem norte.

Soubesse Herodes que quanto mais ele é forte

tanto mais certo e inevitável é o milagre:

a constância dessa afinidade

é o mecanismo básico da Natividade.

 

Então festejam hoje em todo lugar,

juntando as mesas, o Seu chegar.

Não é útil ainda a estrela guia,

mas já de longe dos homens se podia

ver a boa vontade o tempo inteiro,

enquanto os pastores avivavam as fogueiras.

 

A neve cai. Não fumam, mas tocam a chamada

as chaminés. Os vultos todos, manchas.

Herodes bebe. As mulheres escondem os bebês.

De quem chega, ninguém sabe o paradeiro:

não conhecendo os fins, os corações

podem não reconhecer o forasteiro.

 

Mas, quando pela corrente de ar da porta

surgir da espessa névoa dessa noite

um vulto envolto numa echarpe,

sentirás dentro de ti, sem mais aquelas,

o Menino, o Espírito Santo:

e se olhares para o céu verás – a estrela.

 

Janeiro, 1972

 

Referência:

 

BRODKSY, Joseph. 24 декабря 1971 года / 24 de dezembro de 1971. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini. In: __________. Poemas de Natal. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini. Edição bilíngue. 1. ed. Belo Horizonte, MG: Editora Âyiné, nov. 2019. Em russo: p. 66, 68 e 70; em português: p. 67, 69 e 71.