Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Philip Larkin - Seja este o verso

Ainda que não tencionem chegar a tanto, sugere a voz lírica, muitos pais acabam por provocar danos emocionais indeléveis a seus filhos, muitas vezes transmitindo-lhes os próprios traumas e falhas de caráter, perpetuando um estado de coisas que, sob o ponto de vista do falante, só há de se interromper pela recusa a trazer rebentos ao mundo.

 

Para uma abordagem tão pessimista em relação aos legados intergeracionais – afinal, nem sempre a relação ‘pais x filhos’ transcorre de modo perturbador ou excruciante, antes, pode apresentar contornos pacíficos e equilibrados –, seja como for, melhor seria que cada qual não assumisse a condição de vítima, tomando a sua vida nas mãos e tratando de esquecer aqueles que lhe trouxeram marcantes reveses, ainda que sejam os próprios pais.

 

J.A.R. – H.C.

 

Philip Larkin

(1922-1985)

 

This be the verse

 

They fuck you up, your mum and dad.

They may not mean to, but they do.

They fill you with the faults they had

And add some extra, just for you.

 

But they were fucked up in their turn

By fools in old-style hats and coats,

Who half the time were soppy-stern

And half at one another’s throats.

 

Man hands on misery to man.

It deepens like a coastal shelf.

Get out as early as you can.

And don’t have any kids yourself.

 

In: “High Windows” (1974)

 

Os Fatos da Vida

(Norman Rockwell: ilustrador norte-americano)

 

Seja este o verso

 

Eles te fodem, teus queridos pais.

É sem querer, mas a verdade é esta:

Te enchem das culpas que tiveram mais

E dão, só pra você, uma dose extra.

 

Mas eles se foderam com uns néscios

De paletós e de chapéus à antiga,

Durante o dia, piegas e perversos,

De noite, se esganando numa briga.

 

Legamos dor aos nossos semelhantes.

Como um recife, ela se crava fundo.

Por isso, saia dessa o quanto antes

E nunca ponha filhos neste mundo.

 

Em: “Janelas Altas” (1974)

 

Referência:

 

LARKIN, Philip. This be the verse / Seja este o verso. Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. In: Universidade de São Paulo / Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/USP). Cadernos de Literatura em Tradução, São Paulo (SP), n. 9, dez. 2008. Em inglês: p. 281; em português: p. 280. Disponível neste endereço. Acesso em: 18 jul. 2023.

terça-feira, 25 de julho de 2023

Jorge de Sena - Ode aos livros que não posso comprar

Ao constatar que tantos morrem de fome por falta de recursos financeiros, pode parecer até fútil despender dinheiro comprando livros que, tantas vezes, mal serão lidos e, depois, arrumados numa estante como se “inúteis” fossem. Contudo, é a “fome” por informações e por ilustração que mantém a voz lírica em estado de constante exposição aos apelos do mercado editorial, mesmo diante de um cenário de parcos recursos.

 

Menos que valor de troca – tente levá-los até um sebo de volumes usados, para ratificar o quanto serão subavaliados em termos pecuniários! –, os livros apresentam valor de uso, notoriamente de ordem instrucional – enquanto depositários, com certa frequência, de um saber cientificamente construído –, bem assim simbólico, no caso, obviamente relevante para um homem de ideias como Sena, haja vista que enredado durante décadas na vida acadêmica.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge de Sena

(1919-1978)

 

Ode aos livros que não posso comprar

 

Hoje, fiz uma lista de livros,

e não tenho dinheiro para os poder comprar.

 

É ridículo chorar falta de dinheiro

para comprar livros

quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

 

Mas também é certo que eu vivo ainda pior

do que a minha vida difícil,

para comprar alguns livros

– sem eles, também eu morreria de fome,

porque o excesso de dificuldades na vida,

a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,

os lamentos que ouço, os jornais que leio,

tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,

através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,

alguns outros, que se lhes falasse,

destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,

quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,

para que se não perca nas curvas da vida,

onde é tão fácil perdê-las de vista, se a curva é mais rápida.

 

Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,

nem de que, em breve, se morrerá de outra fome maior,

do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,

ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,

capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

 

Por isso, preciso de comprar alguns livros,

uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,

para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,

folheá-lo pensativo, arrumá-lo, como inútil,

e sair de casa, contado os tostões que me restam

a ver se chegam para o carro eléctrico,

até outra porta.

 

Sem perturbações no estúdio

(Kim Jacobs: ilustradora norte-americana)

 

Referência:

 

SENA, Jorge de. Ode aos livros que não posso comprar. In: __________. 40 anos de servidão. Lisboa, PT: Edições 70, 1989. p. 50.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Joan V. Murray - Falais de Arte

Para quem faleceu com pouco menos de 25 anos, o discurso de Murray já apresenta uma entonação algo madura, de inquietação quanto ao que se lhe afigura vazio de sentido, com lastro no histórico – recente ou remoto – legado pelas manifestações artísticas, laborais ou editoriais, tão sobrelevadas pelos de cultura pretensamente refinada.

 

Parece-lhe que os que estão a lhe apontar esse caminho assim o fazem com o objetivo de se manterem ocupados até o pescoço, sugerindo possíveis trilhas a seguir para preservar seus nomes em alta, a despeito da frivolidade em que incorrem: como desagravo, a voz lírica se propõe a dissertar sobre esse nada, cansando à exaustão o maxilar, até que no rosto de cada um desses proponentes se faça estampar um “grande bocejo”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Joan V. Murray

(1917-1942)

 

You Talk of Art

 

You talk of art, of work, of books.

Have you ever sat down, thought all that’s to do?

That book to read, that book to write,

Sat down, stood up, walked back and forth,

Because not an action you could do would

Fill the gap that’s wanting action to the chin?

 

Look. Look into the past one damned moment,

And on that you ask me to work, to dream, to do?

Try it yourself on nothing. I can’t.

 

Every confounded one has had so much of life

That left them gasping in a stinking or a lighter air,

Left out of breath and glad to think at last,

Higher or lower, their there and there and there.

 

And where am I? Where I began, and where I’ll end:

Sitting, sitting, with the last grain of will

Rotting in time, and there’s no time or tide in me.

 

You talk of art, of work, of books.

I’ll talk of nothing in its lowest state,

Talk till my jaw hangs limply at the joint,

And the talk that’s one big yawn in the face of all of you,

Empty as head, empty as mood, and weak.

And I can hear all the watery wells of desolation

Lapping a numbing sleep within the head.

 

Vanitas: natureza-morta

(Maria van Oosterwijck: pintora holandesa)

 

Falais de Arte

 

Falais de arte, de trabalho, de livros:

Alguma vez vos sentastes, pensando em tudo o que há a fazer?

Aquele livro para ler, aquele outro a escrever,

Sentar, levantar, andar para trás e para frente,

Porque nenhuma ação que venhais a realizar haverá

De preencher a lacuna de vos manterdes ocupados até o pescoço?

 

Vede. Olhais no passado um maldito momento,

Acerca do qual me pedis que trabalhe, que sonhe, que aja?

Submetei-o vós mesmos à prova acerca do nada. Não me habilito a tanto.

 

Todos os desorientados usufruíram à farta da vida

Que se puseram a arquejar num ar fétido ou mais leve,

Deixados sem fôlego e felizes para finalmente matutar,

Mais acima ou mais abaixo, sobre o seu lá, ali e acolá.

 

E onde estou? Onde comecei e onde hei de terminar:

Sentada, sentada, com o último grão de vontade

A apodrecer no tempo – e não há tempo nem maré em mim.

 

Falais de arte, de trabalho, de livros.

Falarei do nada em seu mais baixo estado,

Falarei até que meu maxilar penda sem força na articulação,

E a parla se torne, qual um grande bocejo na cara de todos vós,

Vazia como o cérebro, como o estado de ânimo – e débil.

E posso ouvir todos os poços aquosos da desolação

A acalentar um entorpecente sono dentro da cabeça.

 

Nota:

 

(*). A rigor, no original, “até o queixo”.

 

Referência:

 

MURRAY, Joan. You talk of art. In: Lehman, David; Brehm, John (Eds.). The Oxford book of american poetry. 9th print. New York, NY: Oxford University Press, 2006. p. 641.

domingo, 23 de julho de 2023

René Depestre - Um herdeiro de Carlito

Bem mais abreviado que o longo poema “Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin”, de Drummond, esta septilha do poeta, romancista e ensaísta haitiano, nada obstante, finda quase do mesmo modo que aquele, ao enfatizar a ideia de que, por trás da personagem cinematográfica, subjaz uma mensagem de esperança, ainda que a recolha dos dias possa, amiúde, afadigar os olhos com o “pó da estrada” ou suas “cinzas”.

 

Muito provavelmente, o “herdeiro de Carlito” a que alude Depestre é o poeta, que, em outra forma de linguagem – não a do cinema mudo –, projeta conjunturas alternativas ali onde a realidade apresenta tantos desconcertos, erguendo cenários para um mundo melhor – porque sem sonhos, claro está, o ser humano acabaria por se exaurir num ermo infecundo.

 

J.A.R. – H.C.

 

René Depestre

(n. 1926)

 

Un héritier de Charlot

 

Donne à ton lyrisme un ample pantalona

de grands souliers une veste étroite

un bâton une moustache et un chapeau

prodige de la lumière et de la pluie

armé de ces feux descends dans la rue

aider l’espérance et la pâle tendresse

à porter sans flancher leurs sacs de cendres.

 

Dans: “En état de poésie” (1980)

 

Charles Chaplin

em “O Garoto” (1921)

 

Um herdeiro de Carlito

 

Dá a teu lirismo calças largas

grandes sapatos um jaleco estreito

uma bengala um bigode e um chapéu

[prodígio da luz e da chuva] (*)

e armado desses fogos desce à rua

para ajudar a esperança e a pálida ternura

a levar sem recuar seus alforjes de cinza.

 

Em: “Em estado de poesia” (1980)

 

Nota:

 

(*). Este verso, apesar de constar no poema original, em francês, à pág. 174 da obra em referência, deixou de integrar, muito provavelmente por falha da edição, a correspondente versão ao português, à pág. 175. No mais, tal e qual o poema como traduzido.

 

Referência:

 

DEPESTRE, René. Un héritier de Charlot / Um herdeiro de Carlitos. Tradução de Idelma Ribeiro de Faria. In: FARIA, Idelma Ribeiro de (Tradução e ensaios). T. S. Eliot, Emily Dickinson e René Depestre: seleção. São Paulo, SP: Hucitec, 1992. Em francês: p. 174; em português: p. 175. (Coleção ‘Literatura Estrangeira’; v. 1)