Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

P. B. Shelley - Ozimândias

Este famoso soneto de Shelley sumaria a ideia de que nenhum líder, rei, déspota, ditador ou governante mostra-se incólume aos efeitos do tempo: no caso em apreço, tem-se Ozymandias, nome grego de Ramsés II (~1.279 a.C. – ~1.213 a.C.), terceiro faraó da XIX dinastia egípcia, um dos mais longevos governantes do Egito antigo, em cujo reinado o país gozou de prosperidade, sendo dotado de grandes obras públicas e de monumentos.

Os versos do poema condensam o diálogo havido entre o falante e um viajante recentemente retornado daquele país distante, que lhe descreve a situação da grandiosa estátua meio enterrada nas areias do deserto, um antigo monumento a galardoar o sobredito faraó, agora despedaçado e esquecido naquelas paragens.

J.A.R. – H.C.

 

P. B. Shelley

(1792-1822)

Retrato por Mary Katharine Curran

 

Ozymandias

 

I met a traveller from an antique land

Who said: – Two vast and trunkless legs of stone

Stand in the desert. Near them on the sand,

Half sunk, a shatter’d visage lies, whose frown

And wrinkled lip and sneer of cold command

Tell that its sculptor well those passions read

Which yet survive, stamp’d on these lifeless things,

The hand that mock’d them and the heart that fed.

And on the pedestal these words appear:

“My name is Ozymandias, king of kings:

Look on my works, ye mighty, and despair!”

Nothing beside remains: round the decay

Of that colossal wreck, boundless and bare,

The lone and level sands stretch far away.

 

Ozimândias

(Mitry Anderson: pintor norte-americano)

 

Ozimândias

 

Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante:

Duas pernas de pedra, enormes e sem corpo,

Acham-se no deserto. E jaz, pouco distante,

Afundando na areia, um rosto já quebrado,

De lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante:

Mostra esse aspecto que o escultor bem conhecia

Quantas paixões lá sobrevivem, nos fragmentos,

À mão que as imitava e ao peito que as nutria

No pedestal estas palavras notareis:

“Meu nome é Ozimândias, e sou Rei dos Reis:

Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!”

Nada subsiste ali. Em torno à derrocada

Da ruína colossal, a areia ilimitada

Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada.


Referência:

SHELLEY, P. B. Ozymandias / Ozimândias. Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. In: __________. Ode ao vento oeste e outros poemas. Organização e tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. Edição bilíngue: Inglês x Português. 1. ed. São Paulo, SP: Hedra, 2009. Em inglês: p. 42; em português: p. 43.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Múcio Teixeira - Vibrações do Cérebro

Tendo sido um Grão-Mestre da Fraternidade Rosa Cruz, notam-se na poesia de Múcio Teixeira, como já aqui o dissemos, exemplos inúmeros de versos permeados pelas doutrinas do esoterismo, do espiritismo, do ocultismo e da mediunidade – tal como se pode ratificar, por igual, mediante este poema, em cujas linhas o diplomata e poeta gaúcho especula sobre o primado da alma sobre todas as nossas outras realidades.

 

Veja-se que, não sem motivo, a epígrafe aposta ao poema foi transcrita a uma obra ocultista do engenheiro belga Albert van der Naillen (1830-1929), a narrar o que se passou com um ex-capitão e príncipe, a quem uma renúncia amorosa levou-o a tornar-se um frade trapista e, logo após, o nomeado bispo Ângelo – a que faz menção o poeta, logo na primeira estrofe.

 

J.A.R. – H.C.

 

Múcio Teixeira

(1857-1926)

 

Vibrações do Cérebro

 

No vasto laboratório de Deus, o cérebro do homem é o primeiro aparelho que pode converter a matéria em força, em pensamento-força; e esse poder, eterno em seus efeitos, é um fator poderoso na evolução de todas as coisas.

(A. van der Naillen – “Nos Templos do Himalaia”)

 

Ângelo, o Bispo do Catolicismo,

A cismar nos mistérios em que cismo,

Não viu mais do que vi;

Dos atrativos sensuais libertos,

Prosseguimos os dois, de olhos abertos,

Sondando tudo aqui.

 

Ensinam as Sagradas Escrituras

As Sete divisões das criaturas,

Reduzidas a Três:

Corpo, Espírito e Alma, – o transitório;

Que não passa de um simples envoltório,

E a dupla lucidez.

 

O corpo não é mais que o leve manto

Que arrastamos, do berço ao campo-santo,

No lodo das paixões;

Só a Alma é real, pura e sensível:

Só ela vê, nas trevas, o invisível,

Vencendo as amplidões.

 

E a Morte... que é a Morte? – A Liberdade,

O extermínio da Dor; ver a Vontade

Transformada em Poder;

O domínio do Tempo e da Distância;

E Além, da Luz na perenal estância,

Sempre permanecer.

 

Mas não nos será dado, antes da morte,

Desprender a noss’alma num transporte,

Correr no fluido astral?

Na aeronave dos Sonhos viajamos,

E a qualquer hora, em pensamento, vamos

Tanto ao Bem como ao Mal.

 

Conhecendo o poder das leis supremas,

Da matéria quebramos as algemas

Que nos prendem o pé;

Coisas fenomenais, maravilhosas,

Mostraremos às vistas curiosas

Da multidão sem fé.

 

Nasce a Dor dos Desejos não saciados,

Com todo o seu cortejo de cuidados

E de ambições sem fim;

São os nossos maiores inimigos

Nossos próprios deleites, que aos perigos

Nos arrastam assim...

 

Pitágoras não mente: a teoria

Das reencarnações mais irradia

Ao brilho da Razão;

Ela não fere a religião do Cristo;

Até Junqueira Freire encontrou nisto

Sagrada inspiração.

 

O hindu, nela firmado, crê e espera;

Enquanto a alma não se retempera,

Tem de sofrer aqui...

Toda a matéria cósmica obedece

Às mesmas leis: enrosca-se num S

E estende-se num I.

 

Repetem-se na terra os nascimentos

Como se reproduzem pensamentos

Na massa cerebral;

Até que possa a Alma, emancipada,

Entrar enfim na phaira (1) ilimitada

Da zona espiritual.

 

Quem penetrou mais fundo neste abismo,

Cismando nos mistérios em que cismo,

Não foi além de mim...

Nem os loucos, que são os mais libertos,

Em voz alta a pensar, de olhos abertos,

Andaram tanto assim.

 

Quanto maior a nossa inteligência,

Tanto menor será, nesta existência,

O amádigo (*) a transpor;

Na absorção final do eu no todo,

Temos asas: – voemos deste lodo

Para os mundos do Amor!

 

Rio de Janeiro, 1901.

 

Albert van der Naillen

(1830-1929)

 

Elucidário:

 

(1) Phaira – Palavra de origem grega que significa “esfera” – o que faz todo o sentido no contexto do verso em que inclusa.

 

(2) Amádigo – Conjunto de privilégios que se concediam às amas que criavam os filhos legítimos dos reis e dos fidalgos ou aos lugares onde eles eram criados.

 

Referência:

 

TEIXEIRA, Múcio. Vibrações do cérebro. In: __________. Campo-santo: últimas poesias. Edição de luxo, ilustrada. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1902. p. 331-335.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Jules Supervielle - Homenagem à Vida

Tem-se aqui um poema da autoria de Jules Supervielle (1884-1960), poeta franco-uruguaio, traduzido do francês ao inglês por Joseph Stroud (n. 1943) – de onde o verti ao português. De qualquer modo, para que o leitor possa ter contato direto com o original em francês, apresenta-se um correspondente ‘link’, mais abaixo.

Trata-se, como o próprio o título o subentende, de um hino à vida, manifestado por um presumível estado de felicidade e de gratidão com tudo o que transcorreu ao ente lírico até o momento da escrita do poema: fascínio com os encantos da natureza, abertura para novas experiências do espírito, bem-estar físico e mental e palpável satisfação com o contexto familiar.

J.A.R. – H.C.

 

Jules Supervielle

(1884-1960)

 

Homage to Life

 

(Jules Supervielle, Hommage à la Vie)

 

It is good to have chosen

a living home

and harbored time

in a constant heart,

to have seen one’s hands

touch the world

as an apple

in a small garden,

to have loved the earth,

the moon and the sun,

like old friends

beyond any others,

and to have entrusted

the world to memory

like a luminous horseman

to his black steed,

to have given shape

to these words: wife, children,

and to have served as a shore

for roving continents,

to have come upon the soul

with little oarstrokes

for it is frightened

by a sudden approach.

It is good to have known

the shade under the leaves

and to have felt age

steal over the naked body

accompanying the grief

of dark blood in our veins

and glazing its silence

with the star, Patience,

and to have all these words

stirring in the head,

to choose the least beautiful

and make a little feast for them,

to have felt life

rushed and ill-loved,

to have held it

in this poetry.

 

Passeio

(Pierre-Auguste Renoir: pintor francês)

 

Homenagem à Vida

 

Bom é ter escolhido

um lar vivo

e ocupado o tempo

num coração contínuo;

ter visto as próprias mãos

pousarem sobre o mundo

como em uma maçã

num pequeno jardim;

ter amado a terra,

a lua e o sol,

como familiares

sem quem se lhes assemelhe;

e ter confiado

o mundo à sua memória

como um claro cavaleiro

à sua montaria negra;

ter dado feições

a estas palavras: esposa, filhos;

ter servido como um litoral

para continentes errantes;

ter alcançado a alma

com pequenos empuxos de remo,

para não a assustar

com uma repentina aproximação.

Bom é ter conhecido

a sombra sob a folhagem,

ter sentido a idade

a rastejar sobre o corpo nu,

ter acompanhado a dor

do sangue negro em nossas veias,

ter dourado o seu silêncio

com a estrela da Paciência,

e ter todas essas palavras

a revolver na cabeça,

para escolher as menos belas,

fazendo-lhes um pequeno festim;

ter sentido a vida

apressada e mal amada;

tê-la confinado

nesta poesia.

 

Joseph Stroud

(n. 1943)


Referência:

SUPERVIELLE, Jules. Homage to life. Translated from French to English by Joseph Stroud. In: BOLLER, Diane; SELBY, Don; YOST, Chryss (Eds.). Poetry daily: 366 poems from the world’s most popular poetry website. Rita Dove and Dana Gioia: advisory editors. Naperville, IL: Sourcebooks, 2003. p. 328.

domingo, 22 de agosto de 2021

Oscar Wilde - O Túmulo de Keats

Nesta versão, segunda e definitiva, do soneto dedicado por Wilde ao grande poeta romântico inglês John Keats, morto em Roma (IT) ao 26 (vinte e seis) anos, descreve-se o estado em que se encontrava o seu túmulo à altura em que o escritor irlandês o visitou, em 1877, bem assim como a repercussão que suas obras tiveram na Inglaterra, mesmo a despeito de sua curta vida.

Keats é comparado a São Sebastião (256-286) – nome de origem grega que significa ‘divino’, ‘venerável’ –, martirizado mediante flechas em razão de sua fé cristã, assim como qualificado como um dos melhores, senão o melhor, “poeta-pintor inglês” desde os antigos rapsodos gregos.

Wilde alude ainda à inscrição existente na lápide da tumba, vale dizer, “Aqui jaz aquele cujo nome foi escrito em água”, bem assim ao enredo do poema narrativo “Isabela, ou o pote de manjericão” (1818), de autoria de Keats, adaptado a uma história do Decamerão, de Boccaccio: Wilde seria como a jovem, a verter lágrimas sobre o pote da planta para manter viva a sua memória (pois que ali também estava enterrado o crânio de seu amado Lorenzo, morto por seus irmãos).

J.A.R. – H.C.

 

Oscar Wilde

(1854-1900)

 

The Grave of Keats

 

Rid of the world’s injustice, and his pain,

He rests at last beneath God’s veil of blue:

Taken from life when life and love were new

The youngest of the martyrs here is lain,

Fair as Sebastian, and as early slain.

No cypress shades his grave, no funeral yew,

But gentle violets weeping with the dew

Weave on his bones an ever-blossoming chain.

O proudest heart that broke for misery!

O sweetest lips since those of Mitylene!

O poet-painter of our English Land!

Thy name was writ in water – it shall stand:

And tears like mine will keep thy memory green,

As Isabella did her Basil-tree.

 

Rome, 1877

 

In: “Flowers of Gold” (1881)

 

Tumba de John Keats (1795-1821)

em Roma (IT)

 

O Túmulo de Keats

 

Libertado da injustiça do mundo e de sua dor,

repousa por fim sob o céu azul de Deus:

arrebatado da vida, quando a vida e o amor eram novos,

aqui jaz o mais juvenil dos mártires,

belo como Sebastião e tão precocemente assassinado.

Nenhum cipreste sombreia seu túmulo, nenhum teto funeral,

senão suaves violetas chorando com o carvalho,

tecendo sobre seus ossos uma grinalda sempre florida.

Oh! o coração mais altivo que a desgraça partiu!

Oh! os mais doces lábios depois dos de Mitilene!

Oh! poeta-pintor de nossa terra inglesa!

Teu nome foi escrito na água... e perdurará;

e lágrimas como estas minhas manterão verde tua recordação,

como fizeram as de Isabel com sua alfavaca.

 

Roma, 1877

 

Em: “Flores de Ouro” (1881)


Referências:

Em Inglês

WILDE, Oscar. The grave of Keats. In: __________. Poems with the Ballad of Reading Gaol. 21st ed. London, EN: Methuen & Co. Ltd., 1951. p. 79.

Em Português

WILDE, Oscar. O túmulo de Keats. Tradução de Oscar Mendes. In: __________. Obra completa: volume único. 1. ed.; 7. reimp. Tradução de Oscar Mendes. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 2007. p. 911. (“Biblioteca de Autores Universais”)