Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Wlademir Dias-Pino - As Palavras

O quer que seja que exista no mundo pode ser convertido em palavras, em maior ou menor grau de excelência. As palavras são o significado de todas as coisas, condensadas pelo denominador comum da linguagem, a reverberar em nossas mentes diuturnamente.

Mesmo as palavras podem ser objeto de redução a outras palavras, quando então assumem a forma de discurso metalinguístico: é como começa e se mantém em boa porção de versos a primeira parte do poema transcrito a seguir, de autoria do poeta carioca Wlademir Dias-Pino, publicado originalmente em 1951.

J.A.R. – H.C.

Wlademir Dias-Pino
(n. 1927)

As Palavras

Essas palavras são poemas,
Poemas que se repetem
Sobre si mesmas

Palavras e números;
Números de letras,
Número de sílabas.

Essas palavras são poemas
Em que a vida se repete
Sobre si mesma.

Palavras que descansam, gentilmente,
Mil ideias de viagens
– Folhas e para cima, arco-íris,
Principalmente,
Caminhos sobre todos os muros.

Palavras coloridas
Como esse pássaro
Que canta agora,
– Escama de todos os mares,
Cantando em luz
A música das Sereias nadando,
– Pedaço de todos os crepúsculos.
Palavras que ficam, assim, tão perto
– Escama de todos os mares,
De todas as ideias que ainda nadam.

Palavras Suplicadas a esmo?

Palavras... Palavras... Palavras...
Abertas e despetaladas em esquinas,
Mãos pousadas,
Após o gesto

Palavras que Servirão amanhã,
Equilibrando,
Que-nem mastro,
A flâmula da imagem

Palavras pousadas,
Que-nem praia
Sobre as ondas das ideias.

Palavras-pálpebras abertas
Em portas,
Pontes no silêncio de quem espera algo e
No destino do que tem de atravessar
Acontece logo.

... também.
Palavras coloridas
Sorrindo como conchas flutuando,
Eclodidas em desejos.

Palavras aos pares
– Mudos olhos –
Janelas-cais de espelhos
Prendendo pés prontos
Para uma dança que nunca se realizará.
Palavras-grades de ferro de sacadas.

Boca de poços salgada, de sombras
Taças em filas de estradas de vidro,
Raízes arrancadas e flutuando em lagos

Palavras-túnicas vestindo pedras
Teias disfarçando degraus
Peixes – gravado, em folhas verde mar.

Palavras-curvas de montanhas,
(A MORTE está tão perto de nós
Que as coisas vistas de longe
Têm um ar infantil)
Tatuagens pautando cicatrizes,
Línguas inaugurando figuras geométricas,
Pontes de espumas.

– o –

Madrugadas pintadas em máscaras.

– o –

Esfinges de sombras,
E transformadas em pianos,
Chuva e chafariz,
Sombras de distâncias sobre desertos

Fotografia de torres,
De anjos, de sapatos, de parentes
Crucificando outras direções.

Cabelos da amada cantando
Dentro das flautas abandonados.

Fechaduras prendendo mapas sob o vento
Ponteiros feitos de rugas,
Riscos de vinho completando corações,
Violinos descansando,
Separados por dedos arrancados.

Jarras partidas por âncoras,
Velhice das coisas que estão voando,
Caveiras irisadas de sinos silenciosos.

Como o espelho da lança
Refletindo a vítima antes de atingi-la.

A Sereia
(John William Waterhouse: pintor inglês)

Referência:

DIAS-PINO, Wlademir. As palavras. In: PINTO, José Nêumanne (Sel.). Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século. Ilustrações de Tide Hellmeister. 2. ed. São Paulo, SP: Geração Editorial, 2004. p. 168-171.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Arseni Tarkovski - Vida, Vida

O poema que aqui postamos pertence ao genitor do grande cineasta russo Andrei Tarkovski, nomeadamente, Arseni Tarkovski, e consta na obra “Esculpir o Tempo”, de autoria do primeiro, conforme registramos no campo de referência.

Como se nota, ao manipular as palavras, o pai obtém um efeito tão poético em sua criação quanto o filho, neste caso ao empregar as câmeras para obter imagens que sejam capazes de encantar os telespectadores.

Afinal, quem passou pela experiência de assistir a alguns dos filmes de Andrei – como “O Espelho” (1974), “Nostalgia” (1983) ou “O Sacrifício” (1985) –, poderá ratificar a impactante atmosfera de sonho que os perpassa. E haverá atmosfera mais poética que a do sonho?!

J.A.R. – H.C.

Arseni Tarkovski
(1907-1989)

Жизнь, жизнь

I

Предчувствиям не верю и примет
Я не боюсь. Ни клеветы, ни яда
Я не бегу. На свете смерти нет.
Бессмертны все. Бессмертно все. Не надо
Бояться смерти ни в семнадцать лет,
Ни в семьдесят. Есть только явь и свет,
Ни тьмы, ни смерти нет на этом свете.
Мы все уже на берегу морском,
И я из тех, кто выбирает сети,
Когда идет бессмертье косяком.

II

Живите в доме - и не рухнет дом.
Я вызову любое из столетий,
Войду в него и дом построю в нем.
Вот почему со мною ваши дети
И жены ваши за одним столом -
А стол один и прадеду и внуку:
Грядущее свершается сейчас,
И если я приподнимаю руку,
Все пять лучей останутся у вас.
Я каждый день минувшего, как крепью,
Ключицами своими подпирал,
Измерил время землемерной цепью
И сквозь него прошел, как сквозь Урал.

III

Я век себе по росту подбирал.
Мы шли на юг, держали пыль над степью;
Бурьян чадил; кузнечик баловал,
Подковы трогал усом, и пророчил,
И гибелью грозил мне, как монах.
Судьбу свою к седлу я приторочил;
Я и сейчас, в грядущих временах,
Как мальчик, привстаю на стременах.

Мне моего бессмертия довольно,
Чтоб кровь моя из века в век текла.
За верный угол ровного тепла
Я жизнью заплатил бы своевольно,
Когда б ее летучая игла
Меня, как нить, по свету не вела.

(1965)

Morte e Vida
(Gustav Klimt: pintor austríaco)

Vida, vida

I

Não acredito em pressentimentos, e augúrios
Não me amedrontam. Não fujo da calúnia
Nem do veneno. Não há morte na Terra.
Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há por que
Ter medo da morte aos dezessete
Ou mesmo aos setenta. Realidade e luz
Existem, mas morte e trevas, não.
Estamos agora todos na praia,
E eu sou um dos que içam as redes
Quando um cardume de imortalidade nelas entra.

II

Vive na casa – e a casa continua de pé.
Vou aparecer em qualquer século.
Entrar e fazer uma casa para mim.
É por isso que teus filhos estão ao meu lado
E as tuas esposas, todos sentados em uma mesa,
Uma mesa para o avô e o neto.
O futuro é consumado aqui e agora,
E se eu erguer levemente minha mão diante de ti,
Ficarás com cinco feixes de luz.
Com omoplatas como esteios de madeira
Eu ergui todos os dias que fizeram o passado,
Com uma cadeia de agrimensor, eu medi o tempo
E viajei através dele como se viajasse pelos Urais.

III

Escolhi uma era que estivesse à minha altura.
Rumamos para o sul, fizemos a poeira rodopiar na estepe.
Ervaçais cresciam viçosos; um gafanhoto tocava,
Esfregando as pernas, profetizava.
E contou-me, como um monge, que eu pereceria.
Peguei meu destino e amarrei-o na minha sela;
E agora que cheguei ao futuro ficarei
Ereto sobre meus estribos como um garoto.

Só preciso da imortalidade
Para que meu sangue continue a fluir de era para era.
Eu prontamente trocaria a vida
Por um lugar seguro e quente
Se a agulha veloz da vida
Não me puxasse pelo mundo como uma linha.

Referência:

TARKOVSKI, Arseni. Жизнь, жизнь / Vida, vida. In: TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 3. ed. São Paulo. SP: Martins Fontes, 2010. Em russo: p. 301; em português: p. 169.

domingo, 20 de setembro de 2015

Ronald de Carvalho - Interior

Este poema do poeta carioca Ronald de Carvalho é um exemplo de que mesmo as coisas mais simples podem ser objeto de belos poemas. Ronald retrata a cena idílica de um hipotético ambiente interiorano, onde há ainda suficiente integração entre as coisas criadas pelo homem e a natureza à volta.

A descrição das árvores como tendo o poder do canto é antológica: em vez de afirmar que elas estão abarrotadas de aves, cigarras e insetos, o poeta desloca o som desses animais para as folhas, fazendo crer ao leitor que não somos capazes de identificar visualmente os autores do canto, mas apenas assinalar que eles se encontram empoleirados nas árvores. Tudo de um modo muito acessível e sugestivo!

J.A.R. – H.C.

Retrato de Ronald de Carvalho (1893-1935)
Pintura de Vicente do Rego Monteiro

Interior

Poeta dos trópicos, tua sala de jantar
é simples e modesta como um tranquilo pomar;

no aquário transparente, cheio de água limosa,
nadam peixes vermelhos, dourados e cor de rosa;

entra pelas verdes venezianas uma poeira luminosa,
uma poeira de sol, trêmula e silenciosa,

uma poeira de luz que aumenta a solidão.

Abre a tua janela de par em par. Lá fora, sob o céu de verão,
Todas as árvores estão cantando! Cada folha
é um pássaro, cada folha é uma cigarra, cada folha é um som...
O ar das chácaras cheira a capim melado,
a ervas pisadas, a baunilha, a mato quente e abafado.

Poeta dos trópicos,
dá-me no teu copo de vidro colorido um gole d’água.
(Como é linda a paisagem no cristal de um copo d’água!)

(Porto, 1922)
De: “Epigramas Irônicos e Sentimentais”

O Jantar
(Claude Monet: pintor francês)

Referência:

CARVALHO, Ronald. Interior. In: __________. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. (Nossos clássicos, 45). p.34.

sábado, 19 de setembro de 2015

Elizabeth Bishop - Posto de Gasolina

Numa paisagem que incorpora o mais nítido grau de sujeira incrustada nas coisas, nas pessoas e nos animais, a poetisa se surpreende pela presença de uma planta “deslocada” – “uma begônia hirsuta” –, disposta num banquinho decorado, único canto do ambiente do posto de gasolina no qual encontra algum repouso de beleza para os seus olhos, e onde se pressente uma potencial ingerência feminina, afinal não tornada explícita no poema.

O olhar perscrutador de Elizabeth não deixa passar nenhum detalhe do posto gerenciado familiarmente, ou melhor, que serve como própria vivenda para a família que o opera: se a poetisa pintora fosse, suas telas seriam cheias de minúcias a atrair a vista. Não é isso mesmo, leitor?!

J.A.R. – H.C.

Elizabeth Bishop
(1911-1979)

Filling Station

Oh, but it is dirty!
− this little filling station,
oil-soaked, oil-permeated
to a disturbing, over-all
black translucency.
Be careful with that match!

Father wears a dirty,
oil-soaked monkey suit
that cuts him under the arms
and several quick and saucy
and greasy sons assist him
(it’s a family filling station),
all quite thoroughly dirty.

Do they live in the station?
It has a cement porch
behind the pumps, and on it
a set of crushed and grease-
impregnated wickerwork;
on the wicker sofa
a dirty dog, quite comfy.

Some comic books provide
the only note of color −
of certain color. They lie
upon a big dim doily
draping a taboret
(part of the set), beside
a big hirsute begonia.

Why the extraneous plant?
Why the taboret?
Why, oh why, the doily?
(Embroidered in daisy stitch
with marguerites, I think,
and heavy with gray crochet.)

Somebody embroidered the doily.
Somebody waters the plant,
or oils it, maybe. Somebody
arranges the rows of cans
so that they softly say:
ESSO-SO-SO-SO
to high-strung automobiles.
Somebody loves us all.

“Questions of Travel” (1965)

Texaco Filling Station
(Jim Pearson: artista norte-americano)

Posto de Gasolina

Ah, mas como ele é sujo!
– esse posto de gasolina,
impregnado de óleo,
até ficar de um negrume
transluzente, assustador.
Cuidado com esse fósforo!

O pai usa um macacão
sujo, impregnado de óleo,
que o aperta nas axilas,
e o ajudam vários filhos
respondões, rápidos, sujos
(o posto é de uma família),
de graxa, todos imundos.

Será que moram no posto?
Atrás das bombas se vê
uma varanda de cimento,
com mobília de palhinha
amassada e suja de graxa;
no sofá, um cachorro
bem sujo se refestela.

Há revistas em quadrinhos –
o único toque de cor
bem definida – largadas
sobre o caminho de mesa
que enfeita um banquinho (o qual
combina com os outros móveis),
e uma begônia hirsuta.

Por que essa planta deslocada?
Por que o banquinho? Por quê,
por que o caminho de mesa?
(Bordado em ponto de cruz
com margaridas, creio eu,
e um pesado crochê cinzento.)

Alguém bordou esse pano.
Alguém põe água na planta,
ou óleo, sei lá. Alguém
dispõe as latas de modo
a fazê-las sussurrar:
ESSO-SO-SO-SO
pros automóveis nervosos.
Alguém nos ama, a nós todos.

“Questões de Viagem” (1965)

Referência:

BISHOP, Elizabeth. Filling station / Posto de gasolina. Tradução de Paulo Henriques Britto. In: __________. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Edição bilíngue. Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. 1. ed. 2. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2012. Em inglês: p. 288 e 290; em português: p. 289 e 291.