Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 3 de março de 2023

Sophia de Mello Breyner Andresen - Brasil 77

Brasil dos imigrantes, do português silabado, de grandes poetas como Bandeira, Drummond e Melo Neto, da nova arquitetura de Brasília e de Dom Helder Câmara, grande defensor dos direitos humanos durante a ditadura militar em Pindorama – ditadura que as hostes bolsonaristas houveram por bem negar peremptoriamente nos últimos anos, em completo desrespeito aos torturados e mortos lá pelos idos dos 60 a 80 do século passado.

 

No auge da repressão, no ano de 1977, a poetisa portuguesa retrata nesses moldes o país, nem mesmo se esquivando em reprovar o regime de tortura então estabelecido, ao demarcar o final de cada estrofe deste poema, bem situado historicamente, com a anáfora: “Mas ao Brasil que tortura / Só podemos dizer não”. Decerto: tortura nunca mais!

 

J.A.R. – H.C.

 

Sophia de M. B. Andresen

(1919-2004)

 

Brasil 77

 

“Em vosso e meu coração”

Manuel Bandeira

 

Brasil dos Bandeirantes

E das gentes emigradas

Em tuas terras distantes

As palavras portuguesas

Ficaram mais silabadas

Como se nelas houvesse

Desejo de ser cantadas

Brasil espaço e lonjura

Em nossa recordação

Mas ao Brasil que tortura

Só podemos dizer não

 

Brasil de Manuel Bandeira

Que ao franquismo disse não

E cujo verso se inscreve

Neste poema invocado

Em vosso e meu coração

Brasil de Jorge de Lima

Bruma sonho e mutação

Brasil de Murilo Mendes

Novo mundo mas romano

E o Brasil açoriano

De Cecília a tão secreta

Atlântida encoberta

Sob o véu dos olhos verdes

Brasil de Carlos Drummond

Brasil do pernambucano

João Cabral de Melo que

Deu à fala portuguesa

Novo corte e agudeza

Brasil da arquitectura

Com nitidez de coqueiro

Gente que fez da ternura

Nova forma de cultura

País da transformação

Mas ao Brasil que tortura

Só podemos dizer não

 

Brasil de D. Helder Câmara

Que nos mostra e nos ensina

A raiz de ser cristão

Brasil imensa aventura

Em nossa imaginação

Mas ao Brasil que tortura

Só podemos dizer não

 

1977

 

Cocos e Pássaros

(Rose Fernandes: pintora baiana)

 

Referência:

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Brasil 77. In: __________. Obra poética. Prefácio de Maria Andresen Sousa Tavares. 1.ed. Rio de Janeiro, RJ: Tinta-da-china Brasil, 2018. p. 918-919. (Coleção ‘Grandes Escritores Portugueses’)

quinta-feira, 2 de março de 2023

Jane Kenyon - Felicidade

A felicidade é uma eterna interrogação, razão pela qual é tema frequente de ensaios e pesquisas de âmbito científico. Mas por que a poesia não haveria de abordá-la, ela que, por si mesma, também é uma forma de experimentá-la?!: aqui, a poetisa explora algumas situações nas quais, mesmo diante de contratempos, a felicidade ousa chegar àqueles que as vivenciam.

 

Isto porque a felicidade se processa na mente, e mesmo em condições que, para alguns, possam revelar adversidades, reveses ou enfado, para outros, comportam um filão de ventura e de luz. E ainda: podem-se presumir estados felizes nos animais, como gatos e cães, nossos companheiros de longa data. Mas Kenyon vai mais à frente, presumindo-os também em paisagens naturais e mesmo na vida inorgânica, hipótese que nos parece uma cogitação com lastros antropomórficos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jane Kenyon

(1947-1995)

 

Happiness

 

There’s just no accounting for happiness,

or the way it turns up like a prodigal

who comes back to the dust at your feet

having squandered a fortune far away.

 

And how can you not forgive?

You make a feast in honor of what

was lost, and take from its place the finest

garment, which you saved for an occasion

you could not imagine, and you weep night and day

to know that you were not abandoned,

that happiness saved its most extreme form

for you alone.

 

No, happiness is the uncle you never

knew about, who flies a single-engine plane

onto the grassy landing strip, hitchhikes

into town, and inquires at every door

until he finds you asleep midafternoon

as you so often are during the unmerciful

hours of your despair.

 

It comes to the monk in his cell.

It comes to the woman sweeping the street

with a birch broom, to the child

whose mother has passed out from drink.

It comes to the lover, to the dog chewing

a sock, to the pusher, to the basket maker,

and to the clerk stacking cans of carrots

in the night.

It even comes to the boulder

in the perpetual shade of pine barrens,

to rain falling on the open sea,

to the wineglass, weary of holding wine.

 

In: “Otherwise: New & Selected Poems” (1996)

 

O pólen da felicidade

(Nadiia Antoniuk: artista ucraniana)

 

Felicidade

 

Não há nada que possa explicar a felicidade,

nem a forma como ela aparece feito um pródigo

que regressa ao pó aos teus pés,

depois de haver dilapidado uma fortuna no estrangeiro.

 

E como não o vais perdoar?

Fazes um banquete em honra ao que

se havia perdido, e tiras do seu lugar a mais fina

peça do vestuário, que guardaste para uma ocasião

que não poderias imaginar, e choras noite e dia

por saberes que não foste abandonado,

que a felicidade preservou a sua forma mais extrema

somente para ti.

 

Não, a felicidade é o tio que nunca

conheceste, que pilota um avião monomotor

na pista gramada de aterrisagem, pega carona

até a cidade e interpela em cada porta

até te encontrar dormindo no meio da tarte,

como costumas fazer durante as impiedosas

horas do teu desespero.

 

Ela chega ao monge em sua cela.

À mulher que varre a rua

com uma vassoura de bétula, à criança

cuja mãe desmaiou de tanto beber.

Ela chega ao amante, ao cão que mastiga

uma meia, ao empurrador, ao fabricante de cestos,

e ao balconista que empilha latas de cenouras

durante a noite.

Chega mesmo ao rochedo

na sombra perpétua de abrolhosos pinheirais,

à chuva que cai sobre o mar aberto,

à taça com vinho, cansada de o suster.

 

In: “De outro modo: Poemas Novos e Selecionados” (1996)

 

Referência:

 

KENYON, Jane. Happiness. In: BOLLER, Diane; SELBY, Don; YOST, Chryss (Eds.). Poetry daily: 366 poems from the world’s most popular poetry website. Rita Dove and Dana Gioia: advisory editors. Naperville, IL: Sourcebooks, 2003. p. 63.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Gary Snyder - Para Lew Welch Durante uma Nevada

O sujeito lírico põe-se a recordar um certo dia de nevasca em Portland (OR), quando, no ambiente de uma cozinha, há quarenta anos, divertira-se com o amigo – e também poeta – Lew Welch (1926-1971), morto vinte anos antes, cujas vida e obra são objeto de uma tese em debate, por um aluno do falante (que, melhor diríamos, trata-se do próprio Gary Snyder).

 

O verbo empregado para o passamento de Welch – “desapareceu” – mostra-se bastante apropriado para reportar o ocorrido com o amigo: Lew Welch, poeta americano da “Beat Generation”, presumivelmente suicidou-se, depois de deixar uma nota na casa de Gary Snyder, nas montanhas da Califórnia, portando um revólver. Seu corpo, contudo, jamais foi encontrado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gary Snyder

(n. 1930)

 

For Lew Welch in a Snowfall

 

Snowfall in March:

I sit in the white glow reading a thesis

About you. Your poems, your life.

 

The author’s my student,

He even quotes me.

 

Forty years since we joked in a kitchen in Portland

Twenty since you disappeared.

 

All those years and their moments –

Crackling bacon, slamming car doors,

Poems tried out on friends,

Will be one more archive,

One more shaky text.

 

But life continues in the Kitchen

Where we still laugh and cook,

Watching snow.

 

(III 91, Kitkitdizze)

 

In: “No Nature” (1992)

 

Lewis Barrett Welch Jr.

 (1926-1971)

 

Para Lew Welch Durante uma Nevada

 

Neva em março:

Sentado sob a intensa luz branca leio uma tese

Sobre você. Seus poemas, sua vida.

 

O autor é meu aluno,

Ele até cita meu nome.

 

Quarenta anos desde que nos divertimos em uma

cozinha em Portland

Vinte desde que você desapareceu.

 

Todos aqueles anos e seus momentos –

Bacon crocante, portas de carro batendo,

Poemas que amigos avaliavam,

Serão mais um arquivo,

Mais um texto incerto.

 

Mas a vida continua na cozinha

Onde ainda rimos e cozinhamos

Olhando a neve.

 

(Kitkitdizze, março de 91)

 

Em: “Nenhuma Natureza” (1992)

 

Referência:

 

SNYDER, Gary. For Lew Welch in a snowfall / Para Lew Welch durante uma nevada. Tradução de Luci Collin. In: Medusa: revista de poesia e arte. Curitiba (PR), dez-jan 98/99. Em inglês: p. 8; em português: p. 9. Disponível neste endereço. Acesso em: 20 fev. 2023.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Carlito Azevedo - Poesia

Com versos diretos, o poeta declina um rol de possibilidades para o que se poderia entender por poesia – suas adjetivações e atributos, jurisdições e pontos de encontro, tantas as hipóteses por meio das quais resulta abordada –, muito embora ela, realmente, pertença a tão poucos, a julgar pelo arremate de Carlitos no último verso.

 

Com tão limitado número de leitores sobrevive a poesia, em parte porque quase desaparecida da mídia e das livrarias, aqui como alhures; as editoras, por outro lado, não se dispõem a publicá-la pela fragilidade da demanda.

 

Outro ponto, também de notória ocorrência, é que raras são as obras poéticas contemporâneas que ascendem às alturas, ainda que muito se produza, o que teria levado, porventura, a poetisa Muriel Rukeyser (1913-1980) a afirmar em “In our time” (“Em nosso tempo”): “Por agora, dizem que há liberdade de expressão. Que não há pena imputável aos poetas, pois não há pena em se escrever poemas. Isto muito se diz, mas tal é a pena em si.” (RUKEYSER, 2000, p. 123)

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlito Azevedo

(n. 1961)

 

Poesia

 

Descanso para os beletristas

labuta para os concretistas

sã: dizem os árcades

vã: gravam nas lápides

sonho dos surrealistas

fúria dos dadaístas

(recitam ginasianos

a dos parnasianos)

azul para os simbolistas

“azar dos verdamarelistas”

está no Cântico dos Cânticos

absinto dos românticos

brasão dos ufanistas

Brasil dos modernistas

labirinto dos barrocos

 

(eles tantos e ela de tão poucos)

 

Vaidade dos Ancestrais

(Kurt L. Seligmann: pintor suíço-americano)

 

Referências:

 

AZEVEDO, Carlito. Poesia. In: __________. Collapsus linguae. 2. ed. revista. Rio de Janeiro, RJ: Sette Letras, 1998. p. 33.

 

RUKEYSER, Muriel. Out of silence: selected poems. Edited by Kate Daniels. 3rd print. Evanston, IL: TriQuarterly Books; Northwestern University Press, 2000.