Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 7 de março de 2014

Patrick White - O Tema do Envelhecimento


Em livro a retratar as mais candentes preocupações com o avanço da idade, rumo a um estado de selinidade, capturei a seguinte passagem, atribuída pela autora da obra, Sulamita Shahar, ao Nobel de 1973, o escritor australiano Patrick White, de quem li apenas o romance “Voss”, lá pelos idos dos 80. Trata-se de um excerto do ensaio “The Screaming Potato”, inserido na coletânea “Three Uneasy Pieces”:
I would like to believe in the myth that we grow wiser with age. In a sense my disbelief is wisdom. Those of a middle generation, if charitable or sentimental, subscribe to the wisdom myth, while the callous see us as dispensable objects, like broken furniture or dead flowers. For the young we scarcely exist unless we are unavoidable members of the same family, farting, slobbering, perpetually mislaying teeth and bifocals. Some may Christian Science their disgust if they see death as a handout, then if the act is delayed, remember the gouging they have suffered in the past.
Some of us become vegans to atone for the soft cruelties we’ve inflicted on our fellow animals – parents, children, lovers, friends – though our eyes continue to conceal knives ready for strangers we pass in the street if they don’t recognize our right of way.
There is the chopping to be done. Memories rise to the surface as we hear the whimper of a frivolous lettuce, the hoarse-voiced protest of a slivered parsnip, screaming of the naked potato in its pot of tumbled water. So how can an altruist demonstrate his sincerity? Could we perhaps exist on air till the day we are returned to earth, the bed in which potatoes faintly stir as they prepare sightless eyes for birth?
O Lord, dispel our dreams, of murders we did not commit – or did we?
(WHITE apud SHAHAR, 1997, p. 174)
Ofereço, a seguir, uma tradução livre da passagem, por meio da qual se pode constatar o tom irônico e, ao mesmo tempo, desencantado do autor, diga-se, já em idade avançada, aos 75 anos. Informe-se que “Three Uneasy Pieces”, de 1987, mas publicado apenas no ano seguinte, foi o seu derradeiro trabalho antes de expirar em 1990. Nele, White reflete sobre temas como o envelhecimento e a busca da perfeição estética:
Gostaria de acreditar no mito de que nós ficamos mais sábios com o avançar da idade. De certo modo, minha descrença é sabedoria. Aqueles de uma geração intermediária, seja por caridade seja por sentimento, subscrevem o mito da sabedoria, enquanto os mais jovens nos veem como objetos dispensáveis, tais como móveis rotos ou flores mortas. Para os jovens, praticamente não existimos, a menos que sejamos membros inevitáveis da mesma família, emitindo gases, babando, extraviando constantemente a dentadura e os óculos.
Alguns podem expressar o seu desgosto pela ciência cristã, caso vejam a morte como um donativo; se o ato for então protelado, lembram o ludíbrio que sofreram no passado.
Alguns de nós se tornam vegetarianos para reparar as mais leves crueldades que tenhamos infligido aos nossos parceiros animais – pais, filhos, amantes, amigos – apesar de nossos olhos continuarem a ocultar lâminas prontas para estranhos que passam na rua, caso não reconheçam o nosso direito de passagem.
Oração e vegetais devem ajudar no sentido da reparação. Mas não. Há mudança a ser feita. Lembranças emergem à superfície enquanto ouvimos o pranto de uma alface frívola, o protesto roufenho de um tubérculo fatiado, o clamor de uma batata descascada sob a água na panela. Assim, como um altruísta pode manifestar a sua sinceridade? Nós poderíamos talvez existir no ar, até o dia em fôssemos devolvidos à terra, o berço no qual as batatas se agitam tenuemente enquanto preparam os olhos para germinar.
Ó Senhor, dissipai os nossos delírios de delitos que não cometemos – ou os cometemos?
(WHITE apud SHAHAR, 1997, p. 174)
Referência:
SHAHAR, Sulamita. Growing Old in the Middle Ages: winter clothes us in shadow and pain. Translation Yael Lotan. London: Routledge, 1997.

J.A.R.-H.C.
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