Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 18 de março de 2014

O Tédio...


Tenho lido boa parte do debate que se instaurou entre dois renomados economistas pátrios – Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e Samuel Pessoa, da FGV-SP –, sobre a relevância ou não da indústria para o desenvolvimento de um país, ou melhor, se há relação direta entre ser desenvolvido e o nível de participação da indústria no PIB de uma dada economia.

Esse debate, abstraindo-se o narcisismo velado que pode ser constatado nos argumentos de ambas as partes, parece emergir de um universo econômico no qual, entre os seus contrafortes, há monturos de mofo ideológico.

Sustenta-se ele nas vetustas antinomias que, já lá pelos anos 80, colocavam em contraste escolas que se pautavam pela busca renhida de evidências empíricas, capazes de sustentar as relações mais prosaicas, com outras que davam prevalência a explicações econômicas historiográficas. Ou por outra: de um lado, propostas de resgate radical da dimensão humana da Ciência Econômica; e de outro, projetos diversificados voltados a transformá-la em uma lídima ciência exata.

Nesse contexto, os debates até podem ser primorosos sob o ponto de vista do uso do vernáculo, mas navegam num panorama desértico e gélido, que se duvidar, é o porto em que a dita “Ciência Econômica” ousou ancorar já há décadas. Isto se tais debates não forem também extemporâneos: por que dialogar com teses cepalinas, se há tantas outras vertentes e ideias borbulhando nos interstícios da realidade contemporânea?

Belluzzo até busca ampliar o campo de sua visão, lançando mão de associações do econômico com o sociológico, quando não, com o literário. Nomeia, para tanto, Norbert Elias, um mestre no campo da Sociologia – quem ousaria destratar o seu hoje clássico “O Processo Civilizador”? –, e vários escritores de renome – entre eles Balzac e Zola – em cujas obras estão presentes acerbas descrições do processo de mudança por que passaram as sociedades ocidentais, no bojo das transformações patrocinadas pela denominada “Marcha da Industrialização”.

Além disso, concentra-se em rejeitar, não com números senão com descrições exatamente da História Econômica, a tese de Pessoa – esta, sim, mais para suscitar dissonâncias do que para servir como ponto arquimediano inatacável, a partir do qual seja possível erigir qualquer construto intelectivamente defensável –, de que não haveria “[...] evidência empírica de que a indústria seja especial sob algum critério”.

Sob tal cenário, a discussão parece algo bizantina: a dimensão econômica da atividade humana é um correlato humano (que truísmo!) – e não físico ou econométrico –, e o ato de julgar se uma dada ação ou rota de trabalho está correta ou equivocada é um problema de política econômica – e Keynes diria política econômica de curto e médio prazos!

Afinal, qualquer que seja a modelagem que se crie para o longo prazo, abraçará o fado do fracasso: está por aparecer um modelo econométrico que tenha acertado as suas previsões com mirada no horizonte de decênios. Acertos de modelos econômicos para tal fronteira temporal são tão improváveis quanto um “camelo passar no fundo de uma agulha”!

Com efeito, caso se queira mudar algo no plano econômico, no curto ou médio prazos, com um modelo que forneça boa dose de correlação entre variáveis endógenas e exógenas, muda-se o que se quer ou o que se tenha que mudar! Se não se adota a medida, é uma decisão de política, pragmaticamente adotada por quem tem o poder de decidir. E ponto final!

Pobre da Ciência Econômica, tão carente de um repertório mais variegado de políticas! Até mesmo o FMI, que há algumas décadas era o rígido arauto da redução a todo custo do déficit público – mesmo que isso não levasse a economia de um país para onde, efetivamente, o seu governo julgasse que seria o desejável! –, aparece nestes dias, como num poema pessoano, a voltar a face para o lado oposto, quando alerta as nações de que a má distribuição de renda é capaz de afetar o crescimento global, gerando instabilidade política. Surpresa?! Contradição?! Dizer o quê?!

Se um economista está alinhado com as diretrizes levadas a efeito pelo Governo Federal e o outro parece haver aderido a um grupo que lhe faz oposição – com pretensões de ascender ao Palácio do Planalto no início de 2015 –, poderiam eles poupar o grande público. Afinal, apenas este tem o poder de a tudo julgar – economia, ética pública, ações coletivas etc. –, e sempre em última instância: em outubro saberemos para onde o povo espera voltar-se!

A Política nunca morrerá de tédio como a Economia!

J.A.R.-H.C.

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