Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 11 de março de 2014

Bruno Tolentino – No Altar da Ideia

Que o carioca Bruno Tolentino (1940-2007) foi tão grande poeta quanto um ilustre desconhecido da maioria dos leitores brasileiros, não restam dúvidas. Isso não o impediu de ser reconhecido e agraciado com meritórios prêmios literários, entre os quais, três “Jabutis”, talvez a mais importante láurea da literatura brasileira.
Sua obra poética reflete um amplo conhecimento da arte e da filosofia ocidentais, como corolário natural de sua estadia em países europeus, como a França, a Itália e a Inglaterra. E “O Mundo como Ideia”, um apanhado de seus poemas produzidos entre 1959 e 1999, notoriamente, está entre suas obras máximas.
Dele extraí o poema a seguir, “En L’Autel de L’Idée”, que aparece no idioma em que elaborado, ou seja, o francês. Aproveito, por isso mesmo, para apresentar uma versão em português, a padecer, contudo, dos problemas que costumeiramente ocorrem em traduções. Explico-me: quando se pretende ser o mais fiel possível às palavras do autor, tanto menos se incorpora a componente poética  o primado de todo poema! E mais, a tão bela composição das rimas (abba – abba – ccd – ccd), tudo rola por água abaixo. Perdoem-me os internautas e o poeta pela presunção! (rs).
J.A.R. – H.C.


EN L’AUTEL DE L’IDÉE (1959)

Tu entoures le coeur comme um feu minéral,
tel un mercure noir s’emparent d’une artère,
vers un noyau de nuit poussant une onde amère
en mille éclats d’un verre illusoire et létal.

Tu n’aimes pas ce monde où les lèvres font mal,
où l’écorce des yeux doucement s’adultère,
où l’épine du corps écorche son mystère,
où le dormeur grandit à son ombre inégal.

Tu t’enfonces au plus mou, substance livide
conductrice d’un jour où le regard se vide
de tout espoir mortel, ultime cécité.

Tu n’aimes pas ce feu qui infiniment s’achève
ni ce feu qui revient, l’interminable sève,
tu n’es pas de ce monde où s’effeuille l’été.




NO ALTAR DA IDEIA (1959)

Cinges o coração como um fogo mineral,
qual um mercúrio negro se apodera de uma artéria,
até um núcleo de noite impelir uma onda amara
em mil estilhaços de um vidro ilusório e letal.

Não amas este mundo onde os lábios fazem mal,
onde a crosta dos olhos docemente se adultera,
onde a coluna do corpo exulcera seu mistério,
onde o modorrento cresce à sua sombra desigual.

Tu superas a mais tenra, substância lívida
condutora de um dia quando o olhar se esvazia
de toda a esperança mortal, última cegueira.

Não amas o fogo que infinitamente se extingue
nem este fogo que ressurge, a interminável seiva,
tu não és deste mundo onde se desfolha o verão.

Referência:

TOLENTINO, Bruno. O mundo como ideia: 1959-1999. São Paulo: Globo, 2002. p. 200.

Nenhum comentário:

Postar um comentário