Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Robert Frost - Departamental

Ao ler-se este poema de Frost, logo se percebe a sátira que empreende para censurar certas organizações ou instituições que se pautam na mais cabal departamentalização, restringindo-se disciplinadamente tão apenas ao que lhe foi atribuído administrativamente, sem quaisquer chances de conceder arrimo, a quem quer que seja, sobre assunto que não se delimite às suas competências.

 

O falante, de fato, tece considerações acerca do mundo regrado das formigas e o quanto elas obedecem austeramente aos seus instintos naturais de sobrevivência e organização coletiva, rigidamente compartimentalizada, tudo para criar um contraponto em relação à sociedade humana burocratizada, tão impessoal e fria quando, semelhantemente, obedece, sem a necessária razoabilidade, a regulamentos de estandardização e de arregimentação.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Frost

(1874-1963)

 

Departmental

 

An ant on the tablecloth

Ran into a donnant moth

Of many times rus size

He showed not the least surprise.

His business wasn’t with such.

He gave it scarcely a touch,

And was off on rus duty run.

Yet if he encountered one

Of the hive’s enquiry squad

Whose work is to find out God

And the nature of time and space,

He would put him onto the case.

Ants are a curious race;

One crossing with hurried tread

The body of one of their dead

Isn’t given a moment’s arrest –

Seems not even impressed.

But he no doubt reports to any

With whom he crosses antennae,

And they no doubt report

To the higher up at court.

Then word goes forth in Formic:

“Death’s come to Jerry McCormic,

Our selfless forager Jerry.

WiII the special Janizary

Whose office it is to bury

The dead of the commissary

Go bring him home to his people.

Lay him in state on a sepal.

Wrap him for shroud in a petal.

Embalm him with ichor of nettle.

This is the word of your Queen.”

And presently on the scene

Appears a solemn mortician,

And taking formal position

With feelers calmly atwiddle,

Seizes the dead by the middle,

And heaving him high in air,

Carries him out of there.

No one stands round to stare.

It is nobody else’s affair.

 

It couldn’t be called ungentle.

But how thoroughly departmental.

 

Formigas

(Spencer Meagher: pintor norte-americano)

 

Departamental

 

Sobre a mesa, uma formiga

Viu, na toalha estendida,

Mariposa adormecida,

Muitas vezes seu tamanho.

Mas não achou nada estranho:

Tinha um setor diferente.

Só a tocou levemente,

E seguiu em sua missão.

Mas, se alguma do esquadrão

Inquiridor da colmeia

Ao longe se delineia,

Cruzando os caminhos seus,

Ou na procura de Deus

Ou à cata de algum traço

Da essência de tempo e espaço,

Nesse caso não hesita.

Formigas, raça esquisita!

Quando uma avista, apressada,

O corpo de uma finada,

Não se detém um momento, –

Parece que não dá tento.

Mas relata isto às centenas

Com as quais cruza as antenas.

E estas relatam a morte

Às mais altas lá na corte.

E a mensagem passa em fórmico:

“Finou-se Geralda Córmico,

Provedora sem igual.

Que o Janízaro especial,

Que faz o sepultamento

Das mortas do suprimento,

A deite cora sua gente.

Arme-lhe a câmara ardente

Sobre o galho de uma sépala.

Na mortalha de uma pétala

Envolva aquela formiga.

Embalsame-a com urtiga.

Assim a Rainha ordena.”

Logo a seguir, entra em cena

Um agente funerário,

Que, formal e solitário.

Aos sensores dá um volteio,

Pega a morta pelo meio

E, depois de erguê-la no ar,

Leva-a para outro lugar.

Ninguém assiste ao serviço.

Ninguém tem nada com isso.

 

Decerto não é brutal.

Mas quão departamental.

 

Referência:

 

FROST, Robert. Departmental / Departamental. Tradução de Paulo Vizioli. In: VIZIOLI, Paulo (Seleção e Tradução). Poetas norte-americanos. Edição comemorativa do bicentenário da independência dos Estados Unidos da América: 1776-1976. Antologia bilíngue. São Paulo, SP: Editora Lidador, 1974. Em inglês e português: p. 60-61.

domingo, 27 de agosto de 2023

Milton de Godoy Campos - Anti-Antero

Em notória conexão com o soneto “Tormento do Ideal”, do poeta lusitano Antero de Quental (1842-1891) – de onde transcreve parte do primeiro verso –, o autor paulista contrapõe a sua própria visão de uma beleza fugaz, passadiça, presa a determinado instante, consentânea com a solidão em que imerso e com a perspectiva de iminente visita das Parcas.

 

Átimo de eternidade sonhado por uma potestade, a beleza assenhoreada por Campos não se prende a uma ideia algo platônica – como em Quental –, mas se lhe revela contingente em seu subjetivo modo de transmutá-la aos versos, numa poesia “luminosa”, muito embora, por reciprocidade, “frágil e perecível”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Milton de G. Campos

(n. 1927)

 

Anti-Antero

 

Eu não amo

“a beleza que não morre”

mas a frágil a perecível

a que se revela aos homens

apenas um momento

que é profundamente triste

que a luz conhece

apenas um instante

em toda a eternidade

que um deus sonhou

e esqueceu de perpetuar

em suas mãos vazias

que o tempo avassala

e o olvido retém

que ante o meu olhar

se esvai para sempre

e me deixa a sós

mas luminoso

com minha solidão

e minha morte.

 

Beleza Fugaz

(Emilia Milcheva: pintora búlgara)

 

Referência:

 

CAMPOS, Milton de Godoy. Anti-Antero. In: __________. Poemas e elegias. São Paulo, SP: Clube de Poesia; Editora do Escritor, 1977. p. 13.

sábado, 26 de agosto de 2023

Howard Nemerov - As Dependências

A voz lírica demonstra fascínio em relação ao fato de que todas as coisas na natureza se processam no tempo certo, guardando as suas relações de dependência, neste caso, em particular, ao fazer alusão às cadeias alimentares, permitindo, desse modo, que as diversas formas de vida perdurem e evoluam no tempo, sob climas e estações que lhes sejam favoráveis.

 

Vida e morte, periodicidade e renovação: uma escrita “hieroglífica” de incógnitos significados, presente nos encadeamentos espontâneos da natureza, como estímulo mental para a humanidade perceber o quão incompleto ainda está o arsenal de que dispõe para bem explicar as relações de dependência em que imersa (isto sem contar aquelas adjetivadas como “conexões ocultas”, um oceano de insipiência!).

 

J.A.R. – H.C.

 

Howard Nemerov

(1920-1991)

 

The Dependencies

 

This morning, between two branches of a tree

Beside the door, epeira once again

Has spun and signed his tapestry and trap.

I test his early-warning system and

It works, he scrambles forth in sable with

The yellow hieroglyph that no one knows

The meaning of. And I remember now

How yesterday at dusk the nighthawks came

Back as they do about this time each year,

Grey squadrons with the slashes white on wings

Cruising for bugs beneath the bellied cloud.

Now soon the monarchs will be drifting south,

And then the geese will go, and then one day

The little garden birds will not be here.

See how many leaves already have

Withered and turned, a few have fallen, too.

Change is continuous on the seamless web,

Yet moments come like this one, when you feel

Upon your heart a signal to attend

The definite announcement of an end

Where one thing ceases and another starts;

When like the spider waiting on the web

You know the intricate dependencies

Spreading in secret through the fabric vast

Of heaven and earth, sending their messages

Ciphered in chemistry to all the kinds,

The whisper down the bloodstream: it is time.

 

In: “The Western Approaches” (1975)

 

Uma Aranha

(Tayyar Özkan: artista turco)

 

As Dependências

 

Esta manhã, entre dois ramos de uma árvore

Ao lado da porta, a epeira (1) voltou

A tecer e firmar sua tapeçaria e seu ardil.

O seu sistema expedito de alerta funciona

Quando o testo, avançando num fato negro com

O hieróglifo amarelo, do qual ninguém atina

Sobre o seu significado. E agora recordo

Como ontem, ao anoitecer, os curiangos (2)

Regressavam como o fazem todo ano nesta época,

Legiões cinzentas com brancas nesgas nas asas,

Movendo-se à cata de insetos sob a nuvem túmida.

Logo então as monarcas (3) seguirão à deriva para o sul,

Os gansos em seguida e, mais alguns dias,

Aqui já não estarão os pequenos pássaros do jardim.

Veja quantas folhas já se mostram

Ressequidas e retorcidas, algumas até caíram.

A mudança é contínua na rede inconsútil,

Contudo, surgem momentos como este, quando se sente

No coração um sinal para assistir

Ao definitivo anúncio de um epílogo,

Onde uma coisa termina e outra começa;

Quando, como a aranha à espera na teia,

Se conhecem as intricadas dependências

Que se espalham em segredo através do vasto tecido

Do céu e da terra, enviando as suas cifradas

Mensagens em química para todos os tipos,

O sussurro a manar pela corrente sanguínea: está na hora.

 

Em: “Os Enfoques Ocidentais” (1975)

 

Notas:

 

(1). Epeira: pequena aranha que fia grandes teias verticais e regulares em bosques e jardins.

 

(2). Curiango: ave de hábitos migratórios e noturnos, que se alimenta predominantemente de insetos.

 

(3). Monarca: variedade de borboleta dos EUA, do gênero “Danaus Plexippus”.

 

Referência:

 

NEMEROV, Howard. The dependencies. In: McCLATCHY, J. D. (Ed.). The vintage book of contemporary american ‎‎poetry. 2nd ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of Random House ‎‎Inc.), march 2003. p. 120-121.