Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Ruy Espinheira Filho - Notícia da casa

Mais que uma construção, uma vivenda para abrigar os residentes, a casa é um lar a hospedar as histórias das gerações nela domiciliadas, vale dizer, não só a daquela que ali vive no momento, como também a dos que já partiram e a dos que não vieram, deixando de se integrar às suas reminiscências, sejam elas boas ou infaustas.

A casa, em sua imobilidade – paredes, espaços, mobiliário, decoração –, encontra-se entranhada na alma do falante, convertida em ponto para onde convergem todas as linhas de força dos seus sempre mais numerosos habitantes, fazendo-lhe sangrar por dentro – pois que, como se diz naquela melodia, herdamos do sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo, e o coração, ao fechar os olhos, acaba por, sinceramente, deixar fluir seu pranto!

J.A.R. – H.C.

 

Ruy Espinheira Filho

 (n. 1942)

 

Notícia da casa

 

A casa não se descreve:

sente-se. Aqui permanecem

todos: dos que não vieram

àqueles que já partiram.

Na casa jamais se apaga

a luz com que me fitaste

(porém em ti, não: em ti

era só vidro, quebrou-se).

A casa se arquiteta

a si mesma, cada vez

mais habitada, enquanto

sangro paredes e espaços.

E cresce. Até não deixar

sinal no meu peito imóvel.

 

Em: “Julgado do vento” (1979)

 

Ensaio teatral na casa

de um poeta da Roma antiga

(Gustave Boulanger: pintor francês)


Referência:

ESPINHEIRA FILHO, Ruy. Notícia da casa. In: MORAIS, José (Org.). Imagens da casa: antologia poética. Itabirito, MG: Nanaseiro Editorial, 2019. p. 155.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Quinton Duval - Os Melhores Dias

Algo não vai bem no relacionamento entre o falante e a sua companheira, para que este veja as coisas em melhor tom nos dias que já se foram, não exatamente no momento presente. Mas a despeito do que haja ocorrido – não há elementos dos quais se possam deduzir as razões para a dissensão –, vê-se que ainda se dispõe a tentar recompor o convívio.

Os versos fluem sucintos e francos, cotejando o ontem, vividamente pejado de um “rouge” sensual e inebriado, com o hoje de um silêncio atroz, sem “nada para dizer / que não seja demasiado ordinário ou triste”: a sensação de estar perdido e sem apoio é aquela comum a quem um dia, confiando na estabilidade da relação, vê, de um dia para outro, o solo mover-se a seus pés.

J.A.R. – H.C.

 

Quinton Duval

(1948-2010)

 

The Best Days

 

The sun was an old ball

in those days. The moon

was a dish of milk

in a blue night on sheets.

We were always thirsty

then. Wine flowed red

in our hearts. Love

was the way we felt

all over, every minute.

I’m not complaining

about now. I’m just lost

and not getting any help.

No one can break

the time we spent

together. We remember

the pink mud house,

startled cypresses

flickering in rain.

The morning we awoke

to the sound of summer

beating across the desert

driving clouds before it.

There is one half a red kiss

on your cup there

where you left it. It’s still

warm because you just left.

This is a good day, maybe

one of the best. I don’t know

for now. Those good days

are inside us, in heaven,

whatever you want to say.

They are more or less

gone, like you driving

to work, like me sitting here

with nothing to say

that isn’t too ordinary or sad.

 

O café da manhã do casal

(Pietro Longhi: pintor italiano)

 

Os Melhores Dias

 

O sol era uma bola velha

naqueles dias. A lua,

um prato de leite

numa noite azul sobre lençóis.

Estávamos sempre sedentos

então. O vinho fluía vermelho

em nossos corações. O amor

era a forma como nos sentíamos por

toda parte, a cada minuto.

Não estou me queixando

sobre o agora. Apenas estou perdido

e não recebo nenhuma ajuda.

Ninguém pode romper

o tempo que passamos

juntos. Lembremo-nos

da casa de barro cor-de-rosa,

ciprestes sobressaltados

tremeluzindo na chuva.

A manhã em que despertamos

ao som do verão

pulsando através do deserto

movendo nuvens à sua frente.

Há um meio beijo vermelho

em tua xícara lá

onde a deixaste. Ainda está

quente porque acabaste de sair.

Este é um bom dia, talvez

um dos melhores. Não sei

por agora. Aqueles bons dias

estão dentro de nós, no firmamento,

o que quer que tenciones dizer.

Estão mais ou menos

ausentes, como tu dirigindo

para o trabalho, como eu aqui sentado

sem nada a dizer

que não seja demasiado ordinário ou triste.


Referência:

DUVAL, Quinton. The best days. In: MAYES, Frances. The discovery of poetry: a field guide to reading and writing poems. 1st Harvest ed. San Diego, CA: Harvest & Harcout, 2001. p. 133-134.

domingo, 24 de outubro de 2021

Giorgos Seferis - Narração

Estes versos do Nobel grego bem enfatizam o grau de alienação com o qual as sociedades contemporâneas passaram a conviver: a dor e a fraqueza humanas já não se mostram potentes para comover as pessoas, levando-as a sair um pouco de sua zona de conforto, ou mesmo distanciando-as, por um tempo mínimo que seja, de suas diversões ou afazeres, em auxílio ao próximo.

Indiferença e imperturbabilidade são palavras de ordem no quotidiano do “capitalismo selvagem”. E se as dores de terceiros são pesares por amores frustrados, as chances de obtenção de apoio são ínfimas, pois não refletem algo que se passe no domínio público, senão no da vida privada. Em suma: sentimentos à flor da pele não combinam com o ritmo de uma sociedade comandada por máquinas, haja vista que o seu propósito é tornar o homem um seu agente cativo, para que possa mover suas indústrias, até que se lhe esgotem as forças!

J.A.R. – H.C.

 

Giorgos Seferis

(1900-1971)

 

Αφήγηση

 

Αυτός ο άνθρωπος πηγαίνει κλαίγοντας

κανείς δεν ξέρει να πει γιατί

κάποτε νομίζουν πως είναι οι χαμένες αγάπες

σαν αυτές που μας βασανίζουνε τόσο

στην ακροθαλασσιά το καλοκαίρι με τα γραμμόφωνα.

 

Οι άλλοι άνθρωποι φροντίζουν τις δουλειές τους

ατέλειωτα χαρτιά παιδιά που μεγαλώνουν, γυναίκες

που γερνούνε δύσκολα

αυτός έχει δυο μάτια σαν παπαρούνες

σαν ανοιξιάτικες κομμένες παπαρούνες

και δυο βρυσούλες στις κόχες των ματιών.

 

Πηγαίνει μέσα στους δρόμους ποτέ δεν πλαγιάζει

δρασκελώντας μικρά τετράγωνα στη ράχη της γης

μηχανή μιας απέραντης οδύνης

που κατάντησε να μην έχει σημασία.

 

Άλλοι τον άκουσαν να μιλά

μοναχό καθώς περνούσε

για σπασμένους καθρέφτες πριν από χρόνια

για σπασμένες μορφές μέσα στους καθρέφτες

που δεν μπορεί να συναρμολογήσει πια κανείς.

 

Άλλοι τον άκουσαν να λέει για τον ύπνο

εικόνες φρίκης στο κατώφλι του ύπνου

πρόσωπα ανυπόφορα από τη στοργή.

Τον συνηθίσαμε είναι καλοβαλμένος και ήσυχος

μονάχα που πηγαίνει κλαίγοντας ολοένα

σαν τις ιτιές στην ακροποταμιά που βλέπεις απ’ το τρένο

ξυπνώντας άσκημα κάποια συννεφιασμένη αυγή.

 

Τον συνηθίσαμε δεν αντιπροσωπεύει τίποτε

σαν όλα τα πράγματα που έχετε συνηθίσει

και σας μιλώ γι αυτόν γιατί δε βρίσκω

τίποτε που να μην το συνηθίσατε·

προσκυνώ.

 

Lago numa manhã enevoada

(Jackie Sullivan: pintora norte-americana)

 

Narração

 

Esse homem caminha chorando;

Ninguém saberia dizer por quê.

Alguns pensam que ele chora amores perdidos

Como os que nos atormentam tanto,

No verão, junto ao mar, com os fonógrafos.

 

Outros pensam em suas tarefas cotidianas,

Papéis inacabados, filhos que crescem,

Mulheres que envelhecem com dificuldade.

Ele possui dois olhos como papoulas,

Como papoulas colhidas na primavera,

E duas pequenas fontes no canto dos olhos.

 

Ele caminha nas ruas, não se deita nunca,

Transpondo pequenos quadrados sobre o dorso da terra,

Máquina de viver um sofrimento sem limite

Que termina não tendo mais importância.

 

Outros ouviram-no falar

Sozinho, enquanto passava,

De espelhos partidos há muitos anos,

De rostos partidos no âmago dos espelhos,

Que ninguém poderá jamais restaurar.

 

Outros ouviram-no falar do sono,

De visões horríveis nas portas do sono,

De rostos insuportáveis de ternura.

Habituamo-nos a ele, ele é correto, é tranquilo

Só que caminha chorando sem parar,

Como os salgueiros à beira dos rios que percebemos do trem

Numa madrugada enevoada, quando de um despertar

     desagradável.

 

Habituamo-nos a ele – ele nada significa,

Como tudo que se torna um hábito;

E se vos falo dele é que não vejo nada

Que não se tenha tomado um hábito para vós.

Meus respeitos.


Referências:

Em Grego

ΣΕΦΈΡΗΣ, Γιώργος. Αφήγηση. Disponível neste endereço. Acesso em: 31 mai. 2021.

Em Português

SEFERIS, Giorgos. Narração. Tradução de Darcy Damasceno. In: __________. Poemas. Tradução de Darcy Damasceno. Estudo introdutivo de C. Th. Dimaras. Rio de Janeiro, RJ: Opera Mundi, 1971. p. 165-166. (Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura patrocinada pela Academia Sueca e pela Fundação Nobel; Prêmio de 1963: Giorgos Seferis, Grécia)