Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Conde de Monsaraz - Natal



Natal

Natal frio. O vento sopra
            desordenado,
a água gela nos poços,
e o nevoeiro cerrado
cega a vista e emperra os ossos.

O mar esfarrapa as ondas
            nas penedias.
As faias levam açoites:
noites rudes como os dias,
dias negros como as noites.

Pelas gargantas das serras
            encarquilhadas,
tragando muros, lavouras,
gados, troncos, as levadas
despenham-se ameaçadoras.

Mês de Dezembro: horas brancas,
            horas de neve,
as plantas têm arrepios
e o orvalho, muito ao de leve,
chora dos ramos esguios.

Na igreja dá meia-noite,
            repica o sino…
Depois da missa do galo,
beija-se o pé ao menino,
e o povo corre a beijá-lo.

O altar flameja entre flores;
            junto ao bercinho,
sorrindo à gente que passa,
lá está guardando o seu ninho,
a Virgem cheia de graça.

Toca o órgão: que ternura
            nos olhos dela,
vendo o filhinho deitado
dentro da sua capela,
gordinho, branco, rosado!

Pobres e ricos do mundo,
            todos lá vão,
Levar-lhe velas e flores;
caem, fazendo oração,
de joelhos os pastores.

Na rua, meu Deus, que frio
            e que negrume!
Mas nos casebres de aldeia,
se há frio, que lindo lume,
se há fome, que boa ceia!

Crianças, de porta em porta,
            sob as goteiras,
Geladas – que desatino! –
andam cantando as janeiras,
em louvor ao Deus menino.

“Lá vai, lá vai, raparigas,
            já mal podeis
cantar, rouquinhas as vozes,
repletos os saquitéis,
De frutas, passas e nozes!”

Corre que Nossa Senhora
            desce do altar
e vai, em sonhos dourados,
dar o menino a beijar
aos presos e aos entrevados.

Leva-o nas dobras do manto,
            chegado ao peito,
por causa do temporal,
com todo o amor, todo o jeito
dum coração maternal.

Mas como a voz dum profeta,
            o vento norte,
por onde quer que ele passa,
entoa pragas de morte
e lamentos de desgraça.

E a Virgem sente aflitivos
            pressentimentos,
e escuta vozes aziagas:
a dela nesses lamentos,
e as dos judeus nessas pragas.

Referência:
LÍRICA de Natal. São Paulo: Refaga, 1963. p. 33-35.

J.A.R. - H.C.

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