Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Alejandro Romualdo - Razões e Proporções

Neste canto à solidariedade e à força da coletividade para a construção de um povo – entendido este como a soma de indivíduos, sonhos, lutas e esperanças –, o poeta peruano traça um roteiro “matemático” até a unidade e a transformação social, levando em consideração tanto os aspectos físicos quanto espirituais, tanto materiais quanto emocionais, dessa empreitada.

 

A compensar o presente pejado de desafios e de superação, está um futuro compartilhado cheio de possibilidades, no qual as diferenças e os correspondentes esforços sejam os balizadores de uma visão positiva, concorde à afirmação da dignidade da pessoa humana – justamente o princípio motriz segundo o qual o amor, a vida e a paz tornam-se acessíveis a todos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alejandro Romualdo

(1926-2008)

 

Razones y Proporciones

 

Para formar un hombre más un hombre,

más otro hombre, total, en suma, un pueblo,

estoy sumando vértebra más vértebra,

rama más rama, pétalo más pétalo.

 

Estoy sumando gritos, huesos, ansias

de paz. Sumando muerte, noche y vida.

En fin, teniendo en cuenta nuestras deudas,

sigo sumando, sumamente al día.

 

Sigo sumando golpes y martillos

– rayo más rayo, piedra sobre piedra –

Metido hasta los tuétanos. De frente.

Hueso más hueso. Médula más médula.

 

Iremos por la vida y por la muerte

– hombro más hombro, lápida más lágrima –

Como bosque arbolado de esperanzas

– hoja más hoja, ánima más ánima –.

 

De soplo en huracán. De brisa en pájaro.

De viento en tempestad. De ola en ala.

De tiempo en tiempo hacia el amor humano.

De boca en beso hacia la luz del alba.

 

Hombre más hombre, más amor, más vida

común, más

energía, igual:

pueblo más pueblo y paz más alegría.

Suma total del sueño más el ansia.

Suma vital del hombre. En suma,

el pueblo.

 

Manifestação

(Antonio Berni: pintor argentino)

 

Razões e Proporções

 

Para dar forma a um homem mais um homem,

mais outro homem, totalizando em suma um povo,

estou somando vértebra mais vértebra,

ramo mais ramo, pétala mais pétala.

 

Estou somando gritos, ossos, anseios

de paz. Somando morte, noite e vida.

Enfim, levando em conta nossas dívidas,

Continuo somando, sumamente em dia.

 

Continuo somando golpes e martelos

– raio mais raio, pedra sobre pedra –

Enleado até os tutanos. De frente.

Osso mais osso. Alma mais alma.

 

Passaremos pela vida e pela morte

– ombro mais ombro, lápide mais lágrima –

Como bosque arborizado de esperanças

– folha mais folha, alma mais alma –.

 

Do sopro ao furacão. Da brisa ao pássaro.

Do vento à tempestade. Da onda à asa.

Do tempo ao tempo, rumo ao amor humano.

Da boca ao beijo, rumo à luz da alvorada.

 

Homem mais homem, mais amor, mais vida

comum, mais

energia, igual a:

povo mais povo e paz mais alegria.

Soma total do sonho, mais o anseio.

Soma vital do homem. Em suma,

o povo.

 

Referência:

 

ROMUALDO, Alejandro. Razones y proporciones. In: ROMUALDO, Alejandro; BONDY, Sebastián Salazar (Selección, prólogos y notas). Antología general de la poesía peruana. Lima, PE: Librería Internacional del Perú, 1957. p. 885.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Nicolás Guillén - Chegada

Neste poema, Guillén, poeta cubano, explora temas como identidade racial, desigualdade social e resistência cultural, tentando capturar a essência de um povo que reclama o seu lugar no mundo: o direito de ser, de pertencimento sem distinções a esta mesma América e a aspiração de, neste lado do Atlântico, se construir um futuro promissor a partir das raízes mais profundas da identidade negra.

 

Reconciliar-se com o passado de estruturas coloniais e sociais injustas, aceitando as consectárias feridas históricas – sem, no entanto, olvidá-las –, para se dar sentido à luta, à determinação e à vontade de transformar a realidade presente, tornando-a parte inarredável do “perfil definitivo de América”!

 

J.A.R. – H.C.

 

Nicolás Guillén

(1902-1989)

 

Llegada

 

¡Aquí estamos!

La palabra nos viene húmeda de los bosques,

y un sol enérgico nos amanece entre las venas.

El puño es fuerte

y tiene el remo.

 

En el ojo profundo duermen palmeras exorbitantes.

El grito se nos sale como una gota de oro virgen.

 

Nuestro pie,

duro y ancho,

aplasta el polvo en los caminos abandonados

y estrechos para nuestras filas.

Sabemos dónde nacen las aguas,

y las amamos porque empujaron nuestras canoas bajo

los cielos rojos.

 

Nuestro canto

es como un músculo bajo la piel del alma,

nuestro sencillo canto.

 

Traemos el humo en la mañana,

y el fuego sobre la noche,

y el cuchillo, como un duro pedazo de luna,

apto para las pieles bárbaras;

traemos los caimanes en el fango,

y el arco que dispara nuestras ansias,

y el cinturón del trópico,

y el espíritu limpio.

 

Traemos

nuestro rasgo al perfil definitivo de América.

 

¡Eh compañeros, aquí estamos!

La ciudad nos espera con sus palacios, tenues

como panales de abejas silvestres;

sus calles están secas como los ríos cuando

no llueve en la montaña,

y sus casas nos miran con los ojos pávidos

de las ventanas.

 

Los hombres antiguos nos darán leche y miel

y nos coronarán de hojas verdes.

 

¡Eh, compañeros, aquí estamos!

Bajo el sol

nuestra piel sudorosa reflejará los rostros húmedos

de los vencidos,

y en la noche, mientras los astros ardan en la punta

de nuestras llamas,

nuestra risa madrugará sobre los ríos y los pájaros.

 

En: “Sóngoro Cosongo” (1931)

 

Música na Merceria –

Havana Velha, Cuba

(Christina Tarkoff: artista norte-americana)

 

Chegada

 

Aqui estamos!

A palavra nos vem úmida dos bosques,

e um sol enérgico nos amanhece entre as veias.

O punho é forte

e sustenta o remo.

 

No olho profundo dormem palmeiras exorbitantes.

O grito nos sai como uma gota de ouro virgem.

 

Nosso pé,

duro e largo,

amassa o pó nos caminhos abandonados

e estreitos para nossas filas.

Sabemos onde nascem as águas,

e as amamos porque empurraram nossas canoas

sob os céus vermelhos.

 

Nosso canto

é como um músculo debaixo da pele da alma,

nosso singelo canto.

 

Trazemos o fumo pela manhã

e o fogo sobre a noite,

e a faca, como um duro pedaço de lua,

apta para as peles bárbaras;

trazemos os jacarés no lodo,

e o arco que dispara nossas ânsias,

e o cinturão do trópico,

e o espírito limpo.

 

Trazemos

nossas feições ao perfil definitivo da América.

 

Ei, companheiros, aqui estamos!

A cidade nos espera com seus palácios, tênues

como favos de abelhas silvestres;

suas ruas estão secas como os rios quando

não chove na montanha,

e suas casas nos espiam com os olhos assombrados

das janelas.

 

Os homens antigos nos darão leite e mel

e nos coroarão com folhas verdes.

 

Ei, companheiros, aqui estamos!

Debaixo do sol

nossa pele suada refletirá os rostos úmidos

dos vencidos,

e de noite, enquanto os astros ardam na ponta

de nossas chamas,

nosso riso madrugará sobre os rios e os pássaros.

 

Em: “Sôngoro Cosongo” (1931)

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

GUILLÉN, Nicolás. Llegada. In: __________. Man-making words. Selected poems of Nicolás Guillén, translated, annotated, with on ·introduction by Robert Marquez and ·David Arthur McMurray. A bilingual edition: Spanish x English. 1st ed., 1st reprint. La Habana, CU: Editorial de arte y literatura, 1973. p. 142 and 144.

 

Em Português

 

GUILLÉN, Nicolás. Chegada. Tradução de Thiago de Mello. In: __________. Sôngoro cosongo e outros poemas. Seleção do autor, com a participação de Nancy Morejon e Thiago de Mello. Tradução de Thiago de Mello. Rio de Janeiro, RJ: Philobiblion, 1986. p. 46-47. (Coleção “Poesia, sempre”; v. 9)

domingo, 25 de janeiro de 2026

Robert Penn Warren - Falcão Noturno

Empregando o falcão como metáfora, o poeta estadunidense converte-o num símbolo do tempo implacável, que corta o presente e o comuta em passado, numa indiferença cósmica em relação aos nossos erros e preocupações, nossas lutas e fracassos, fixando em perspectiva objetiva a insignificância da humana faina no grande esquema do universo.

 

Sempre estamos em busca de verdades que nos pareçam eternas, que transcendam o caos e a fugacidade da existência terrena, e, nessa jornada que se firma em legados e História, deparamo-nos com juízos de ordem moral circulando em volutas em nossas mentes, num ato quase ritual que, dando cifras finais ao dia, inaugura o ciclo misterioso da noite – em cujas sombras a mirada do falcão solenemente repousa.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Penn Warren

(1905-1989)

 

Evening Hawk

 

From plane of light to plane, wings dipping through

Geometries and orchids that the sunset builds,

Out of the peak's black angularity of shadow, riding

The last tumultuous avalanche of

Light above pines and the guttural gorge,

The hawk comes.

 

  His wing

Scythes down another day, his motion

Is that of the honed steel-edge, we hear

The crashless fall of stalks of Time.

 

The head of each stalk is heavy with the gold of our error.

 

Look! Look! he is climbing the last light

Who knows neither Time nor error, and under

Whose eye, unforgiving, the world, unforgiven, swings

Into shadow.

 

Long now,

The last thrush is still, the last bat

Now cruises in his sharp hieroglyphics. His wisdom

Is ancient, too, and immense. The star

Is steady, like Plato, over the mountain.

 

If there were no wind we might, we think, hear

The earth grind on its axis, or history

Drip in darkness like a leaking pipe in the cellar.

 

Falcão Noturno

(Jai Johnson: artista norte-americana)

 

Falcão Noturno

 

De um plano de luz a outro, em asas que se projetam por entre

Geometrias e orquídeas produzidas pelo pôr do sol,

A partir da negra forma angular da sombra do pico, transpondo

A avalanche derradeira e tumultuosa de

Luz sobre os pinheiros e o desfiladeiro gutural,

Surge o falcão.

 

 Suas asas

Segam mais um dia, seu movimento

É como o de uma afiada lâmina de aço: ouvimos

A queda sem estrépito das hastes do Tempo.

 

O topo de cada haste suporta o peso em ouro de nossos erros.

 

Vede! Vede! está a escalar a última luz

Que não conhece nem o Tempo nem o erro, e sob

Cujo olhar, implacável, o mundo não redimido agita-se

Entre as sombras.

 

  Já há muito

Que o último tordo está quieto, o último morcego

Agora move-se às guinadas em seus agudos hieróglifos.

Sua sabedoria

É também venerável – e imensa. A estrela

Mantém-se firme, como Platão, sobre a montanha.

 

Se não houvesse vento, poderíamos – pensamos nós – ouvir

A Terra a ranger sobre o seu eixo, ou a História

A gotejar na escuridão como um cano vazando no porão.

 

Referência:

 

WARREN, Robert Penn. Evening hawk. In: McCLATCHY, J. D. (Ed.). The vintage book of contemporary american ‎‎poetry. 2nd ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of Random House ‎‎Inc.), march 2003. p. 72.