Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 5 de setembro de 2026

Gabriel Celaya - Sou um péssimo plagiário

Entre mostras de modéstia e despretensão em relação à sua obra e inflexões irônicas diante das expectativas – da crítica ou do público leitor – quanto à originalidade em seus trabalhos, Celaya tenciona nos externar a ideia de que todo escritor se baseia na tradição linguística e literária, do que resulta ser o plágio algo praticamente inevitável, uma vez que a própria linguagem é uma herança coletiva.

 

Ainda que procure evitar certos modos poéticos, o poeta acaba por ser influenciado por eles, haja vista que exposto à influência de outras vidas, cujas vozes e experiências a Lírica tantas vezes absorve – num “roubo” compartilhado –, a exemplo dos versos pejados de intertextualidade, mediante os quais o verbo coletivo aflora como um tesouro artístico e sapiencial.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gabriel Celaya

(1911-1991)

 

Soy un pésimo plagiario

 

Me repiten y explican

que mis versos están llenos de defectos.

Escribo como puedo

y crean que lamento más que nadie

no haber nacido genio.

Escribo de prestado

pues que yo no he inventado el castellano.

Soy ya por eso un plagiario.

Tampoco escribiría como escribo si antes otros

no hubieran agotado ciertos modos.

Soy plagiario, en consecuencia, por rechazo.

Lo cierto es que me invaden otras vidas,

me poseen y hasta fuerzan a que diga

cosas que no son mías.

Soy plagiario pues también de esa manera.

¡Y con tanta riqueza acumulada,

tanta herencia, tanta lengua atesorada,

¿es posible que no logre salvar nada?

Hasta plagiar es difícil, ¡caramba!

 

En: “Operaciones poéticas” (1971)

 

O Escritor

(Rex M. Oppenheimer: artista franco-americano)

 

Sou um péssimo plagiário

 

Repetem-me e explicam-me

que meus versos estão cheios de defeitos.

Escrevo como posso

e eles creem que lamento mais do que ninguém

não ter nascido um gênio.

Escrevo de empréstimo,

pois não inventei o castelhano.

Sou já por isso um plagiário.

Tampouco escreveria como escrevo se antes outros

não tivessem esgotado certos modos.

Sou plagiário, em consequência, por rejeição.

O certo é que invadem-me outras vidas,

possuem-me e até forçam-me a que eu diga

coisas que não são minhas.

Sou plagiário, pois, também dessa maneira.

E com tanta riqueza acumulada,

tanta herança, tanta língua entesourada,

seria possível que nada devesse resgatar?

Até plagiar é difícil, caramba!

 

Em: “Operações poéticas” (1971)

 

Referência:

 

CELAYA, Gabriel. Soy un pésimo plagiário. In: __________. Trayectoria poética: antología. Edición, introducción y notas de José Ángel Ascunde. Madrid, ES: Editorial Castalia, 1993. p. 330-331. (Clásicos “Castalia”)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Melech Ravitch - Doze Linhas sobre a Sarça Ardente

Este exemplar de poesia yiddish pode ser lido mais amplamente do que num contexto circunscrito à sabedoria judaica, uma vez que reflete a angústia maior do homem contemporâneo, herdeiro de tradições religiosas milenares, mas que parece estar à mercê de forças diante das quais não obtém respostas, tampouco revelações como as de outrora recepcionadas.

 

No cerne da condição humana, sente-se a proximidade do ausente. Como reflexo, o problema da fé tornou-se um diálogo entrecortado, em meio ao qual a única teofania possível passou a ser a de uma “Sarça Ardente”, incrustada no coração mesmo da existência: a dor do absentismo divino é tão aguda que não se consegue esquecê-lo nem por um momento; de outra parte, a sua natureza é tão vasta, que redunda incompreensível para toda uma eternidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Melech Ravitch

(1893-1976)

 

Doze Linhas sobre a Sarça Ardente

 

Qual vai ser o fim de nós dois – Deus?

Você vai mesmo deixar que eu morra assim

e não me vai mesmo contar o seu grande segredo?

 

Devo mesmo virar pó, que é cinzento, cinza, que é negro?

E o grande segredo, mais perto de mim que a camisa, que a

pele do corpo,

continuará sempre segredo, embora mais fundo em mim que

o coração mesmo?

 

E foi mesmo em vão que no eito dos dias esperei, no ir das

noites aguardei?

E você continuará mesmo até o último instante divinamente

cruel e duro?

A face surda feito pedra muda, feito cimento, cegamente

obstinada?

 

Não é sem razão que um dos mil nomes seus é – espinho,

espinho é você em meu espírito, na carne, nos ossos,

pungente – não se pode arrancá-lo; ardente – não se pode

apagá-lo,

um momento não é esquecível – uma eternidade não é

compreensível.

 

A Sarça Ardente

(Darius Gilmont: artista inglês)

 

Referência:

 

RAVITCH, Melech. Doze Linhas sobre a Sarça Ardente. Tradução de Jacob Guinsburg. In: GUINSBURG, Jacob; TAVARES, Zulmira Ribeiro (Orgs.). Quatro mil anos de poesia. Desenhos de Paulina Rabinovich. Vários tradutores. São Paulo, SP: Perspectiva, 1969. p. 169. (Coleção “Judaica”)

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Manuel Bandeira - Autorretrato

O poeta se vê com honestidade e autoironia, utilizando o fracasso e a falta como materiais para construir a sua singular identidade poética: ao expor suas próprias limitações com tanta crueza e lucidez, quiçá impremeditadamente, universaliza-se, pois que se converte num espelho da condição humana, sempre contraditória em seus desejos – muitas vezes incumpridos.

 

Sendo o poeta um homem vocacionado à palavra, resta-lhe a linguagem para esquadrinhar despojadamente, embora de modo preciso, os seus próprios paradoxos, falhanços, a sua falta de sofisticação, a sua distância em relação aos centros culturais hegemônicos, nomeando-os como atributos de sua personalidade pacífica, introspectiva, presa a um corpo mórbido que teima em ser amante da arte, a despeito de – a seu ver – mostrar-se inábil ou incompleto para bem expressá-la.

 

De resto, vê-se Bandeira como um ser desprotegido, sem teto, a céu aberto, privado de todas as certezas que, tradicionalmente, tutelam-nos do frio da dúvida existencial, como se náufrago fosse a flutuar num mar de espaventos, sem jangada – uma religião – ou bússola – uma filosofia de vida – a lhe indicarem um rumo, até mesmo sem vínculos sociais que lhe façam as vezes de uma família.

 

J.A.R. – H.C.

 

Manuel Bandeira

(1886-1968)

 

Autorretrato

 

Provinciano que nunca soube

Escolher bem uma gravata;

Pernambucano a quem repugna

A faca do pernambucano;

Poeta ruim que na arte da prosa

Envelheceu na infância da arte,

E até mesmo escrevendo crônicas

Ficou cronista de província;

Arquiteto falhado, músico

Falhado (engoliu um dia

Um piano, mas o teclado

Ficou de fora); sem família,

Religião ou filosofia;

Mal tendo a inquietação de espírito

Que vem do sobrenatural,

E em matéria de profissão

Um tísico profissional.

 

Em: “Mafuá do Malungo” (1948)

 

Retrato do Poeta

(Cândido Portinari: artista paulista)

 

Referência:

 

BANDEIRA, Manuel. Autorretrato. In: __________. Bandeira de bolso. Organização e apresentação de Mara Jardim. 1. ed., 1. reimp. Porto Alegre, RS: L&PM, 2013. p. 149. (L&PM Pocket; v. 675)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Erich Fried - Advertência diante das Concessões

A advertência levada à frente nestas linhas por Erich Fried – poeta e comentarista político austríaco de ascendência judaica – é suficientemente clara e bastante válida para o momento que estamos vivendo em Pindorama e em diversas partes do mundo: as concessões abusivas que se façam a pretexto de defesa ao direito à liberdade são um caminho perigoso que pode levar à sua própria destruição.

 

Veja-se a elocução sublinhada pelo autor, constante na segunda estrofe do infratranscrito poema, aplicável bem mais além das lindes de seu contexto histórico imediato, alusivo à Alemanha: a verdadeira liberdade reside no equilíbrio precário entre a defesa inquebrantável dos próprios direitos (o “para mim”) e o compromisso com o bem comum (o “não somente para mim”), e deve ser exercido com uma urgência implacável (“agora”).

 

J.A.R. – H.C.

 

Erich Fried

(1921-1988)

 

Warnung vor Zugeständnissen

 

Ich habe mich

in Deutschland

gefragt

ob Freiheit

Zugeständnisse machen kann

und gefragt

was aus ihr wird

wenn sie Zugeständnisse macht

und ob die

die Zugeständnisse

von ihr verlangen

sich dann mit ihnen

zufriedengeben und

der Freiheit die Freiheit lassen

die sie sich so

wenn auch nur eingeschränkt

zu bewahren hofft

 

Mir fiel dabei immer

nur Rabbi Hillel ein

der Lehrer der Sanftmut

und der Geduld

der gesagt hat:

“Wenn ich nicht

für mıch bin

wer dann?

Doch wenn ich nur

für mich bin

was bin ich?

Und wenn nicht jetzt

wann sonst?”

 

Liberdade

(Lelaine Liebenberg: artista sul-africana)

 

Advertência diante das Concessões

 

Na Alemanha,

indagava-me

se a liberdade

poderia fazer concessões,

questionando-me

o que seria dela,

caso as fizesse;

se aqueles

que lhe exigissem

tais concessões

se dariam então por satisfeitos,

assegurando-lhe

o correspondente espaço

necessário

para que pudesse preservar

a sua essência,

ainda que de forma limitada.

 

Sempre me vinha à mente

o rabino Hillel,

o mestre da brandura

e da paciência,

que dizia:

“Se eu não for

por mim,

quem o será?

Mas se eu for apenas

por mim,

o que serei?

E se não for agora,

quando então?”

 

Referência:

 

FRIED, Erich. Warnung vor zugeständnissen. In: __________. Liebesgedichte. Berlin, DE: Verlag Klaus Wagenbach, 1995. s. 39.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Rudolf Meyer - O Peregrino do Universo

Nestes versos de rimas emparelhadas, Meyer oferece-nos uma visão esperançosa e dinâmica da existência, na qual a morte consistiria, tão apenas, numa porta a mais, na longa sequência de perpétua evolução espiritual à qual estaríamos devotados: seríamos como que viajantes cósmicos, almas em constante crescimento, purificadas através das experiências e fortalecidas por meio de sucessivos embates espirituais, num ciclo sagrado de partidas e regressos, até alcançarmos a união final com o Eterno.

 

Assoma com ênfase a abordagem antroposófica do autor, presente em seus escritos, um dos quais o poema em questão, todo ele demarcado por simbolismos planetários à volta de ideias como as de inteligência e comunicação, de renovação e rejuvenescimento do espírito, de fortalecimento para a luta, de expansão a planos superiores de sabedoria, até que se venha a alcancar a compreensão acerca da unidade de todos os opostos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Rudolf Meyer

(1896-1985)

 

Der Weltenpilger

 

Tragt ihr mich einst hinaus, sprecht nicht: “Zur ew’gen Ruh” –

Legt mir zum Pilgerkleid ins Grab zwei Wanderschuh!

Drei Tage halt ich Rast. Dann schreit ich meinen Weg.

Hie Gletscher und hie Glut: schmal ist der Geistersteg.

Die Höhenluft ist gut; ich werde bald gesunden.

Mein Schritt steigt erdbefreit durch sieben Sternenrunden.

Ich trug ein Erdgewand; es war nicht fleckenrein.

Im Tau der Mondenflut wird’s bald geläutert sein.

Geh ich den Büßerpfad, getreu der Silberspur –

Leiht meinem Wanderschritt die Flügelschuh Merkur.

Des Weges Müdigkeit weicht frohem Geisterschwung:

Der Venus Gnade strahlt und macht den Pilger jung.

Wie Rosen glutverklärt, wie Lilien kinderrein –

Kehrt durch das Sonnentor die Menschenseele ein.

Der Sonnen-Engel winkt: “Empfange Speer und Schild!

Dich ruft zum Weltenkampf das weite Marsgefild.

Willst Du, ein Menschengeist, zum Weltengeist erwachen –

Am Glanz des Jupiter mußt du dein Licht entfachen!”

Der Tod und Leben eint, Saturn wahrt ew’gen Hort,

Aus Schweigen reift Geburt: “lm Anfang war das Wort.”

Das Weltenwort erklingt aus allen Sternengründen,

Die ew’ge Geistgestalt dem Sterben zu entbinden.

So wächst des Menschen Geist, am Gotteslicht verklärt,

Bis er im Liebesdrang zur Erde wiederkehrt.

Er kennt nicht “ew’ge Ruh” – ihm ziemt das Pilgerkleid,

Dazu zwei Wanderschuh: zum Schicksalsgang bereit!

 

A transformação interior

(Ivan Car: artista croata)

 

O Peregrino do Universo

 

Ao me levarem de vez, não digam “à eterna morada!”:

coloquem, junto à mortalha, sapatos de caminhada!

Três dias descansarei. Depois, seguirei meu destino.

Aqui geleira, ali brasas: árduo é o caminho ao divino.

O ar das alturas faz bem; em breve estarei sem mazelas.

Meu passo liberto ascende por sete cirandas de estrelas.

Veste terrena eu usava, que não era imaculada;

o orvalho, ao plenilúnio, já a fará purificada.

Se eu trilhar a penitência, fiel ao argênteo rastro,

Mercúrio emprestará, a meus pés, áleos sapatos.

O cansaço do caminho recua ao rumor divino:

A graça de Vênus brilha e remoça o peregrino.

Fulgurante como a rosa, como os lírios inocente,

a alma humana transpõe o portal do Sol ardente.

O anjo solar acena: “Escudo e lança maneja!

O campo de Marte chama-te à universal peleja.

P’ra no Espírito do Cosmo, humano espírito, acordares,

teu lume no brilho de Júpiter é preciso inflamares!”

Na morte e na vida cuida Saturno do abrigo eterno;

silêncio matura o nascer: “No princípio era o Verbo”.

De estelares profundezas soa o Verbo Universal

p’ra desenlaçar da morte a eterna forma espiritual.

Assim o espírito humano à luz de Deus vem crescer,

até que o impulso do amor à Terra o reinduza a descer.

“Eterna morada” ignora quem na veste é peregrino,

com sapatos de jornada, apto à trilha do destino!

 

Referências:

 

Em Alemão

 

MEYER, Rudolf. Der weltenpilger. In: BURKHARD, Gudrun. Das leben in die hand nehmen: arbeit an der eigenen biographie. Vorwort von Dr. Michaela Glöckler. 9. aufl. Stuttgart, DE: Verlag Freies Geistesleben. 2002. s. 194. (“Praxis Anthroposophie”; b. 17)

 

Em Português

 

MEYER, Rudolf. O peregrino do universo. Tradução de Jacira Cardoso. In: BURKHARD, Gudrun. Tomar a vida nas próprias mãos: como trabalhar na própria biografia o conhecimento das leis gerais do desenvolvimento humano. 2. ed., 2. reimp. São Paulo, SP: Antroposófica, 2004. p. 168.