Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Véspera de Ano-Novo

Na noite em que a contagem dos anos muda, o poeta reflete sobre a intensidade de um momento íntimo e primordial, algo que se apresenta ao leitor como natural, orgânico, cheio de promessas, e que, na sequência de tercetos, pode ser concebido como um expediente de refúgio frente à imensidão do tempo e das trevas no firmamento celeste.

 

Contrastando com o vasto e insondável fundo escuro dos céus, o resplendor do fogo é uma fonte de luz, núcleo privado a se encarnar como um símbolo de vida, paixão e conexão humana, vale dizer, autêntico manto criador de um espaço seguro onde a nudez física e emocional pode vir à tona sem retraimentos, sem temores que digam respeito à completa entrega entre os amantes, ou melhor, à mais crua das intimidades.

 

J.A.R. – H.C.

 

D. H. Lawrence

(1885-1930)

 

New Year’s Eve

 

There are only two things now.

The great black night scooped out

And this fireglow.

 

This fireglow, the core.

And we the two ripe pips

That are held in store.

 

Listen, the darkness rings

As it circulates round our fire.

Take off your things.

 

Your shoulders, your bruised throat!

Your breasts, your nakedness!

This fiery coat!

 

As the darkness flickers and dips,

As the firelight falls and leaps

From your feet to your lips!

 

Fogos de artifício: esboço para o balé

de Igor Stravinsky

(Giacomo Balla: artista italiano)

 

Véspera de Ano-Novo

 

Eis que agora restam apenas duas coisas.

A cúpula da noite, vasta e negra,

E este ígneo fulgor.

 

Este ígneo fulgor, o cerne.

E nós, os dois grumos maduros

Que nele se preservam.

 

Escuta, a escuridão ressoa

Ao circundar o nosso fogo.

Despe-te de tuas coisas.

 

Teus ombros, tua garganta machucada!

Teus seios, tua nudez!

Este manto abrasador!

 

Enquanto as trevas meneiam e se abismam,

Enquanto a luz do fogo desce e sobe

Dos teus pés aos teus lábios!

 

Referência:

 

LAWRENCE, D. H. New year’s eve. In: __________. The complete poems. Collected and edited with an introduction and notes by Vivian de Sola Pinto and F. Warren Roberts. 7th print. New York, NY: Penguin Books, 1988. p. 238. (“The Penguin Poets”)

  

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Beatriz Alcântara - Reveillon

Entre a esperança e a incerteza do futuro, a voz lírica alude a uma beldade que se entrega à tradição de se desejar aos pares um “feliz ano novo”, capturando a essência de um momento liminar, sustentado, em grande parte, por uma viagem sensorial e simbólica, digo melhor, pejada por imagens surreais, como se imersa estivesse num estado de sonho ou de transe.

 

Apesar dos esforços em abraçar os potenciais caminhos de esperança e de renovação franqueados pelo ano que se inicia, a jovem logo renuncia ao porvir, “contraindo matrimônio” com o passado, com o já findo ano, indicativo de que as promessas, costumeiramente feitas nos umbrais de um novo giro ao redor do sol, rapidamente se esvaem, mantidos, por conseguinte, os mesmos padrões, hábitos e práticas que a detêm exatamente no ponto onde se encontra.

 

J.A.R. – H.C.

 

Beatriz Alcântara

(n. 1943)

 

Reveillon

 

A noite feita de copos

encontrou-a virgem pura

distribuindo uvas

gritando imprudente:

– Feliz Ano Novo!

 

Depois desejou uma nuvem

caminhou na esteira da lua

ouviu o canto da pedra

bebeu o hálito do orvalho

chorou o anil do branco

e ao desprender-se da janela

contraiu núpcias com o ano que findou.

 

Reveillon em Paraty

(Mali Santos: pintora carioca)

 

Referência:

 

ALCÂNTARA, Beatriz. Reveillon. In: __________. Água da pedra. São Paulo, SP: Escrituras Editora, 1997. p. 85. 

 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Odylo Costa, Filho - Soneto de Natal

O poeta se sente perdido, sozinho e desorientado em sua busca espiritual, longe dos guias capazes de conduzi-lo pelas sendas propícias à aproximação com o divino: ainda que perceba estar próximo da fonte de onde emana uma luz que inspira e dá robustez aos bons propósitos, há algo que o embaraça e o distancia desse reencontro com a fé.

 

O falante rememora nostalgicamente dos folguedos de infância, das reisadas que celebram a chegada dos Magos ao lugar onde se encontra o Menino e os seus pais, permitindo entrever, ao amparo desse explícito contexto natalino, o caráter simbólico de sua jornada de reconexão com o sagrado, diga-se de passagem, em tempos nos quais a secularização tende a lançar o seu manto escuro e frio de indiferença sobre o mundo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Odylo Costa, Filho

(1914-1979)

 

Soneto de Natal

 

A Luís Carta

 

Perdi-me dos pastores e sozinho

procuro o rastro do caminho certo.

Há luz no escuro mas não há caminho.

Fica tão longe o que parece perto!

 

Busco o Menino mas não adivinho

como encontrá-lo no meu passo incerto.

O desespero pesa como vinho.

É a dor apenas que me traz desperto.

 

Minhas mãos adormecem na quebrada

da noite, pelo frio da chapada.

A neblina se deita no horizonte.

 

Mas de repente esbarro na lembrança

das reisadas de quando era criança,

e Deus nasce do chão como uma fonte.

 

Em: “Cantiga incompleta” (1971)

 

Folia de Reis

(Rosmarie Reifenrath: artista suíço-brasileira)

 

Referência:

 

COSTA FILHO, Odylo. Soneto de Natal. In: __________. Poesia completa. Edição preparada por Virgílio Costa, com a colaboração do Instituto Odylo Costa, Filho. Rio de Janeiro, RJ: Aeroplano; Fundação Biblioteca Nacional, 2010. p. 441. 

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Po Chü-yi - A Lu-Cheng, na passagem do ano

O fim do ano se aproxima e o poeta sente-se sozinho e desalegre com o fato de ter que tomar os medicamentos que lhe recomendam a idade, em vez de brindar a passagem, para mais um giro à volta do sol, com o seu amigo próximo Lu-Cheng: não estranhe o leitor que o poema sugira uma conexão entre dois homens, pois que semelhantes manifestações de apreço eram bastante comuns na poesia clássica chinesa, ao longo da qual amizades profundas e leais eram intensamente celebradas.

 

Veja-se que já há séculos as pessoas costumam imergir numa mistura complexa de emoções conforme o ano chega a termo, talvez como consequência de fatores psicológicos, sociais ou culturais diversos. E – enfatize-se – tanto mais recentemente, em consequência do modo idealizado como a mídia e a publicidade retratam o trânsito, induzindo a que muitos, por simples comparação, incorram em sentimentos de inadequação ou de tristeza.

 

J.A.R. – H.C.

 

Po Chü-yi

(772-846)

 

A Lu-Cheng, na passagem do ano

 

Esta noite, sentado junto a tochas acesas, levas a taça aos lábios,

Enquanto eu, triste, no leito, tomo os meus remédios, como ceia.

Basta uma noite gemendo sobre o travesseiro para adoecer alguém.

Uma boa festa em casa, seria melhor que qualquer médico.

Amanhã, esteja eu são, esteja eu doente, deixa tua morada,

Vem reunir-te a mim. Sem ti não haverá festa, nem alegria.

 

Retrato de um velho bebendo sozinho

(Lucian Bistreanu: artista romeno)

 

Referência:

 

CHÜ-YI, Po. A Lu-Cheng, na passagem do ano. Tradução de A. B. Mendes Cadaxa. In: CADAXA, A. B. Mendes (Seleção, tradução e notas). Escadaria de jade: antologia de poesia chinesa (século XII a.C. - século XIII). Rio de Janeiro, RJ: Graphia, 1998. p. 80. 

 

sábado, 27 de dezembro de 2025

Carlos Drummond de Andrade - O Rei menino

Drummond tece loas à capacidade humana para reinventar-se e transcender as limitações do plano material, pois que a verdadeira sabedoria e poder não estão na tecnologia, na posse de grandes quantias em dinheiro ou nas ideologias, senão no dom de se trazer luz e ordem a este caótico mundo, cheio de ódios e ambições desmesuradas.

 

Com efeito, o poeta reinterpreta a narrativa do nascimento de Cristo, pelo concerto de uma trama poética cujos temas fundamentais gravitam em torno do mando, da justiça e da redenção, em cujas entrelinhas podem-se também perceber as pautas diagonais suscitadas por conteúdos de ordem mística, filosófica e, até mesmo, social. No corpo do poema, em seu conjunto, a esperança de que, sendo a Terra um lugar de infinitas possibilidades, a ação humana possa convergir para um trato mais justo e fraterno.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Drummond de Andrade

(1902-1987)

 

O Rei menino

 

O estandarte do Rei não é de púrpura e brocado,

é um lírio flutuante sobre o caos

onde ambições se digladiam

e ódios se estraçalham.

O Rei vem cumprir o anúncio de Isaías:

vem para evangelizar os brutos,

consolar os que choram,

exaltar os cobertos de cinza,

desentranhar o sentido exato da paz,

magnificar a justiça.

 

Entre Belém e Judá e Wall Street

no torvelinho de negociações equívocos,

a vergasta de luz deixa atônitos os fariseus.

Cegos distinguem o sinal,

surdos captam a melodia de anjos-cantadores,

mudos descobrem o movimento da palavra.

O Rei sem manto e sem joias,

nu como folha de erva,

distribui riquezas não tituladas.

Oferece a transparência

da alma liberta de cuidados vis.

 

As coisas já não são as antigas coisas

de perecível beleza

e o homem não é mais cativo de sua sombra.

A limitação dos seres foi vencida

por uma alegria não censurada,

graça de reinventar a Terra,

antes castigo e exílio,

hoje flecha em direção infinita.

 

O Rei, criança,

permanecerá criança mesmo sob vestes trágicas

porque assim o vimos e queremos,

assim nos curvamos diante do seu berço

tecido de palha, vento e ar.

 

Seu sangrento destino prefixado não dilui

a luminosidade desta cena.

O menino, apenas um menino,

acima das filosofias, da cibernética e dos dólares,

sustenta o peso do mundo

na palma ingênua das mãos.

 

Em: “Farewell” (1996)

 

A Adoração dos Pastores

(Giorgione: pintor italiano)

 

Referência:

 

ANDRADE, Carlos Drummond. O Rei menino. In: __________. Receita de ano-novo. Concepção e seleção de Pedro Augusto Graña Drummond. Ilustrações de Andrés Sandoval. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2015. p. 20-21.