Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Gilberto Amado - Declaração de princípio

Num mundo polarizado por ideologias que pregam a supremacia do Estado, da classe ou da raça, o diplomata sergipano ergue a bandeira do indivíduo como valor supremo, numa “declaração de princípio” humanista, infensa aos totalitarismos e defensora, em contraposição, da integridade da consciência individual perante as “grandes abusões” da história.

 

Sob tal contexto, rejeita enfaticamente, por meio de sátiras, as figuras políticas dominantes em nosso meio: o comunista coletivista, o fascista manipulador, o liberal reacionário, o “cacique autoritário”, acusando-os de intoxicar e embrutecer a opinião pública com as suas eternas ilusões. E por fim, sendo advogado o autor do poema, não haveria como deixar de evocar a tradição do direito romano, idem, da filosofia estoica e do valor da pessoa humana diante da sociedade, para enfatizar o lastro daquela herança civilizacional, pautada pelos princípios da razão e da lei.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gilberto Amado

(1887-1969)

 

Declaração de princípio

 

Que o homem de classe

Venha de face

Lutar na liça

Pela justiça

Aceito a premissa.

 

Que grite o operário

Seu ódio gregário

E clame vingança

Ou tenha esperança,

 

Que o técnico indique

A indústria fabrique

A máquina construa

A obra que é sua.

 

Mas que tal não implique

Que o operário abdique

No Estado-Patrão

E se estagne num dique

A multidão.

 

Que o político

Intoxique

Mistifique

Bestifique

A opinião

E prolifique

A eterna ilusão.

 

Que o jovem na lista

Do exército fascista

Não saia da pista

Da marcha prevista.

 

O comunista trabalhe

Conspire, atrapalhe

Os regimes vigentes

Nos dois continentes.

 

Que o liberal

Entisique

Retardatário

E de todo se aplique

A formar uma clique

Que o ossifique

Em reacionário.

 

Que o próprio cacique

Autoritário

Atrabiliário

Se ananique

E reivindique

Lugar seguro

Num quarto escuro

Do falanstério

Totalitário.

 

Que mesmo se oblique

E. se arrebique

Sob outra forma

A solução

E se propague

E. tudo alague

A grande abusão:

 

“Morra o individuo

Execrável resíduo!”’

 

Este credo vão

Não o aceito, não.

Inflexível, sereno

Não bebo o veneno.

 

Declaro com calma:

Guardo minha alma

Herdada de Roma

Morro com ela.

Esta parcela

Não entra na soma.

 

Retrato de um homem

(Erich Heckel: pintor alemão)

 

Referência:

 

AMADO, Gilberto. Declaração de princípio. In: __________. Poesias. Rio de Janeiro, RJ: Livraria José Olympio Editora, 1954. p. 223-227.

domingo, 30 de agosto de 2026

Georges Bataille - A experiência interior

Nesta incisiva elocução poética, Bataille esquematiza uma cartografia do terreno que leva até o sagrado, através da “noite escura da alma”, da negação do eu e da repulsão visceral, num processo de dilaceração que se traduz pela embriaguez dos limites, pelo desejo ardente de morte para tudo o que se foi obrigado a ser, visando ao objetivo maior de encontrar vida em sua forma mais vertiginosa e verdadeira.

 

Tem-se aí uma experiência que busca transcender as raias da razão, da linguagem, da lógica e do núcleo da própria identidade, num movimento de libertação que se pretende na mais absoluta imanência, regredindo-se a um estado indiferenciado, dissolvendo-se ao informe e ao que escapa a qualquer controle humano: eis o “espanto desejável” de que, desconcertantemente, nos fala o poema.

 

J.A.R. – H.C.

 

Georges Bataille

(1897-1962)

 

L’expérience intérieure (1) (2)

 

Je ne veux plus, je gémis,

je ne peux plus souf rir

ma prison.

Je dis ceci

amèrement:

mots qui m’étouf ent,

laissez-moi,

lâchez-moi,

j’ai soif

d’autre chose.

Je veux la mort

non admettre

ce règne des mots,

enchaînement

sans ef roi,

tel que l’ef roi

soit désirable;

ce n’est rien

ce moi que je suis,

sinon

lâche acceptation

de ce qui est.

Je hais

cette vie d’instrument,

je cherche une fêlure,

ma fêlure,

pour être brisé.

J’aime la pluie,

la foudre,

la boue,

une vaste étendue d’eau,

le fond de la terre,

mais pas moi.

Dans le fond de la terre,

ô ma tombe,

délivre-moi de moi,

je ne veux plus l’être.

 

Velho adormecido

(Abraham van Dijck: pintor holandês)

 

A experiência interior

 

Eu não quero mais, eu gemo,

eu não posso mais sofrer

minha prisão.

Digo isso

amargamente:

palavras que me sufocam,

deixem-me,

soltem-me,

tenho sede

de outra coisa.

Quero a morte

não admitir

este reino das palavras,

encadeamento

sem medo,

tal como o medo

seja desejado;

isto não é nada

sou o que sou,

caso contrário

aceitação covarde

do que é.

Odeio

esta vida de instrumento,

busco uma fissura,

a minha fissura,

para ser quebrado.

Amo a chuva,

o relâmpago,

a lama,

uma vasta extensão de água,

as profundezas da terra,

mas não a mim.

Nas profundezas da terra,

ó minha sepultura,

liberte-me de mim mesmo,

não quero mais ser.

 

Notas:

 

(1). Georges Bataille deu o subtítulo de “Somme athéologique” (“Suma ateológica” aos três volumes que constituem o centro de sua obra e que aparecem sucessivamente na seguinte ordem: “L’expérience intérieure” (“A experiência interior”), em 1943; “Le coupable” (“O culpado”), em 1944; e “Sur Nietzsche” (“Sobre Nietzsche”), em 1945. (BATTAILE, 2015, p. 13)(N.T.)

 

(2). Este é apenas o primeiro poema que aparece na obra “L’expérience intérieure”, do autor francês.

 

Referência:

 

BATTAILE, Georges. L’expérience intérieure / A experiência interior. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. In: __________. Poemas. Edição bilíngue: francês x português. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG, 2015. Em francês: p. 96 e 98; em português: p. 97 e 99. (“Fora de Série”)

sábado, 29 de agosto de 2026

Olegário Mariano - O Enamorado da Vida

Neste canto vitalista, pejado de um panteísmo sensorial, o poeta, servindo-se do mote anafórico insculpido no título do próprio poema, dá-nos algumas sugestões de como temos de viver, posicionando-nos “entre o mar e a montanha” de nossa própria existência, para possibilitar a expressão de um desejo irrefreável, a toda hora a nos incitar à ação, à liberdade e aos desafios.

Esse amor à vida leva-nos a abrir os pulmões para sorver o êxtase do mundo, a enfrentar as tormentas com a alegria de um potro selvagem, a guardar no olhar toda a beleza com que tivermos a sorte de nos deparar: são os sentidos do coração completamente abertos a uma comunhão total com o universo natural, os terrenos prazeres aí compreendidos.

J.A.R. – H.C.

 

Olegário Mariano

(1889-1958)

 

O Enamorado da Vida

 

Eu sou um enamorado da Vida!

Para sentir melhor o céu na minha casa,

Plantei a minha casa entre o mar e a montanha.

Se as ondas vêm rugir a meus pés, a horas mortas,

A lua desce em mim numa carícia estranha.

 

Bebo as estrelas de mais perto... Abraço

Todo o corpo do céu num simples movimento

E, quando chove, sinto a torrente das chuvas

Trazendo da montanha, em seu penacho de águas,

Frondes, ninhos, calhaus e pássaros ao vento.

 

Eu sou um enamorado da Vida!

Amo-a por tudo quanto ela me pôde dar;

A água fresca da fonte, a carícia da sombra,

E até a calma silenciosa e mansa

Desse crepúsculo que baixa devagar...

 

Em cada mão de folha a minha boca bebe

O orvalho da manhã como um suave licor.

E abro os pulmões, sorvendo em tudo o que me envolve

Essa onda de volúpia e de êxtase e perfume

Que vem do amor e que me leva para o amor.

 

Eu sou um enamorado da Vida!

Tenho ímpetos de voar, de galgar, de vencer

Colinas, penetrar o coração dos vales,

Relinchando feliz como um potro selvagem

Que solta as crinas no ar para melhor correr.

 

Ou retesar as asas brancas de gaivota

E atirar-me na fúria incrível das procelas.

Beber em haustos toda a glória do mar alto,

Rolar no bojo dos batéis desarvorados

Ou as asas enxugar no alvo lenço das velas.

 

Vida! Quero viver todas as tuas horas,

As que prendi na mão e as que nunca alcancei.

Ser um pouco de ti no espelho das paisagens

Para, quando morrer, levar, dentro dos olhos,

A beleza imortal de tudo quanto amei.

 

Em: “O Enamorado da Vida” (1937)

 

Proudhon e suas filhas

(Gustave Courbet: pintor francês)

 

Referência:

 

MARIANO, Olegário. O enamorado da vida. In: __________. Poesia. Organização e prólogo de Herman Lima. Rio de Janeiro, GB: Livraria Agir Editora, 1968. p. 75-76. (Coleção “Nossos Clássicos”; v. 97)

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Alejandra Pizarnik - O desejo da palavra

A palavra desejada, aquela que seria capaz de unir êxtase e vida, revela-se como inalcançável para a falante. E, paradoxalmente, o poema configura o território onde se trava essa batalha perdida, onde a voz poética exprime com requintada precisão linguística, a sua incapacidade de alcançar a dicção perfeita.

 

Vê-se na infratranscrita composição um diálogo interno fragmentado, no qual a autora argentina dá-nos conta do estado claustrofóbico de sua mente, subjugada pelo silêncio dos muros e pelo eco das meninas de papel que foi um dia, apegada às aspirações de um ideal poético de fusão total com a vida – a vida igualar-se ao poema, o poema ser o próprio corpo vivido –, num empenho dubitável para tornar a palavra carne e salvação.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alejandra Pizarnik

(1936-1972)

 

El deseo de la palabra

 

La noche, de nuevo la noche, la magistral sapiencia de lo oscuro, el cálido roce de la muerte, un instante de éxtasis para mí, heredera de todo jardín prohibido.

 

Pasos y voces del lado sombrío del jardín. Risas en el interior de las paredes. No vayas a creer que están vivos. No vayas a creer que no están vivos. En cualquier momento la fisura en la pared y el súbito desbandarse de las niñas que fui.

 

Caen niñas de papel de variados colores. ¿Hablan los colores? ¿Hablan las imágenes de papel? Solamente hablan las doradas y de ésas no hay ninguna por aquí.

 

Voy entre muros que se acercan, que se juntan. Toda la noche hasta la aurora salmodiaba: Si no vino es porque no vino. Pregunto. ¿A quién? Dice que pregunta, quiere saber a quién pregunta. Tú ya no hablas com nadie. Extranjera a muerte está muriéndose. Otro es el lenguaje de los agonizantes.

 

He malgastado el don de transfigurar a los prohibidos (los siento respirar adentro de las paredes). Imposible narrar mi día, mi vía. Pero contempla absolutamente sola la desnudez de estos muros. Ninguna flor crece ni crecerá del milagro. A pan y agua toda la vida.

 

En la cima de la alegría he declarado acerca de una música jamás oída. ¿Y qué? Ojalá pudiera vivir solamente en éxtasis, haciendo el cuerpo del poema con mi cuerpo, rescatando cada frase con mis días y con mis semanas, infundiéndole al poema mi soplo a medida que cada letra de cada palabra haya sido sacrificada en las ceremonias del vivir.

 

En: “El infierno musical” (1971)

 

Moça no bosque

(Teresa Evangeline: artista norte-americana)

 

O desejo da palavra

 

A noite, de novo a noite, a magistral sapiência das trevas, o cálido roçar da morte, um instante de êxtase para mim, herdeira de todos os jardins proibidos.

 

Passos e vozes no lado sombreado do jardim. Risos no interior das paredes. Não vás acreditar que estejam vivos. Não vás acreditar que não estejam vivos. A qualquer momento, a fenda na parede e a repentina dispersão das meninas que eu fui.

 

Caem meninas de papel de várias cores. As cores falam? As imagens de papel falam? Somente falam as douradas e, dessas, não há nenhuma por aqui.

 

Vou entre muros que se aproximam, que se juntam. Durante toda a noite, até a aurora, eu salmodiava: Se não veio, é porque não veio. Pergunto. A quem? Diz que pergunta, quer saber a quem pergunta. Tu já não falas com ninguém. Estrangeira até à morte, está morrendo. Outra é a linguagem dos agonizantes.

 

Desperdicei o dom de transfigurar os banidos (sinto-os a respirar dentro das paredes). Impossível narrar o meu dia, o meu caminho. Mas contempla, absolutamente sozinha, a nudez destes muros. Nenhuma flor cresce nem crescerá do milagre. A pão e água toda a vida.

 

No cume da alegria, dei testemunho acerca de uma música jamais ouvida. E daí? Oxalá pudesse viver somente em êxtase, fazendo o corpo do poema com meu corpo, resgatando cada frase com os meus dias e as minhas semanas, infundindo o meu sopro ao poema, à medida que cada letra de cada palavra fosse sacrificada nas cerimônias do viver.

 

Em: “O inferno musical” (1971)

 

Referência:

 

PIZARNIK, Alejandra. El deseo de la palabra. In: __________. Obras selectas. Selección y compilación de Gustavo Zuluaga Herrera. Medellín, CO: Ediciones Holderlin, 1992. p. 97-102.