Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 25 de janeiro de 2026

Robert Penn Warren - Falcão Noturno

Empregando o falcão como metáfora, o poeta estadunidense converte-o num símbolo do tempo implacável, que corta o presente e o comuta em passado, numa indiferença cósmica em relação aos nossos erros e preocupações, nossas lutas e fracassos, fixando em perspectiva objetiva a insignificância da humana faina no grande esquema do universo.

 

Sempre estamos em busca de verdades que nos pareçam eternas, que transcendam o caos e a fugacidade da existência terrena, e, nessa jornada que se firma em legados e História, deparamo-nos com juízos de ordem moral circulando em volutas em nossas mentes, num ato quase ritual que, dando cifras finais ao dia, inaugura o ciclo misterioso da noite – em cujas sombras a mirada do falcão solenemente repousa.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Penn Warren

(1905-1989)

 

Evening Hawk

 

From plane of light to plane, wings dipping through

Geometries and orchids that the sunset builds,

Out of the peak's black angularity of shadow, riding

The last tumultuous avalanche of

Light above pines and the guttural gorge,

The hawk comes.

 

  His wing

Scythes down another day, his motion

Is that of the honed steel-edge, we hear

The crashless fall of stalks of Time.

 

The head of each stalk is heavy with the gold of our error.

 

Look! Look! he is climbing the last light

Who knows neither Time nor error, and under

Whose eye, unforgiving, the world, unforgiven, swings

Into shadow.

 

Long now,

The last thrush is still, the last bat

Now cruises in his sharp hieroglyphics. His wisdom

Is ancient, too, and immense. The star

Is steady, like Plato, over the mountain.

 

If there were no wind we might, we think, hear

The earth grind on its axis, or history

Drip in darkness like a leaking pipe in the cellar.

 

Falcão Noturno

(Jai Johnson: artista norte-americana)

 

Falcão Noturno

 

De um plano de luz a outro, em asas que se projetam por entre

Geometrias e orquídeas produzidas pelo pôr do sol,

A partir da negra forma angular da sombra do pico, transpondo

A avalanche derradeira e tumultuosa de

Luz sobre os pinheiros e o desfiladeiro gutural,

Surge o falcão.

 

 Suas asas

Segam mais um dia, seu movimento

É como o de uma afiada lâmina de aço: ouvimos

A queda sem estrépito das hastes do Tempo.

 

O topo de cada haste suporta o peso em ouro de nossos erros.

 

Vede! Vede! está a escalar a última luz

Que não conhece nem o Tempo nem o erro, e sob

Cujo olhar, implacável, o mundo não redimido agita-se

Entre as sombras.

 

  Já há muito

Que o último tordo está quieto, o último morcego

Agora move-se às guinadas em seus agudos hieróglifos.

Sua sabedoria

É também venerável – e imensa. A estrela

Mantém-se firme, como Platão, sobre a montanha.

 

Se não houvesse vento, poderíamos – pensamos nós – ouvir

A Terra a ranger sobre o seu eixo, ou a História

A gotejar na escuridão como um cano vazando no porão.

 

Referência:

 

WARREN, Robert Penn. Evening hawk. In: McCLATCHY, J. D. (Ed.). The vintage book of contemporary american ‎‎poetry. 2nd ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of Random House ‎‎Inc.), march 2003. p. 72.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Yehuda Amichai - Vento

Por trás da simplicidade das imagens empregadas pelo poeta em seus versos, há a profundidade da pergunta que procura nos levar à reflexão: o que fazemos com o nosso tempo limitado? Trata-se, realmente, de um “desperdício” ou podemos encontrar alguma beleza e propósito na efemeridade dos elementos naturais e, por extensão, da vida humana?

 

Há quem possa assumir um certo tom estoico no emprego da palavra “desperdício”, interpretando-a não negativamente, mas sob o ponto de vista da temporalidade de todas as coisas: ainda que nossas vidas sejam breves e, talvez, insignificantes no grande esquema do universo, ainda assim têm um valor intrínseco em sua capacidade de perceber e experimentar o mundo – mesmo que seja por um átimo na escala da eternidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Yehuda Amichai

(1924-2000)

 

Vento

 

Vento, que desperdício de vento

és tu. Transferir areia para areia,

de mim para ti, cheiro para cheiro.

Vento, que desperdício!

 

Nuvens, que desperdício de nuvens,

não para chover, apenas mudar

um pouco as cores da Galileia Ocidental

para nós.

 

Minha vida, que desperdício de vida

é isso. Só para esses dias. Aqui.

 

Nuvens e Água

(Arthur Dove: artista norte-americano)

 

Referência:

 

AMICHAI, Yehuda. Vento. Tradução de Moacir Amâncio. In: __________. Terra e paz: antologia poética. Organização e tradução de Moacir Amâncio. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Bazar do Tempo, 2018. p. 133.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Saúl Dias - Um poema

O poeta estrutura uma tentativa de conceituação do que seja o poema, esse compósito multifacético capaz de albergar o espiritual, o doloroso, o contraditório, o suplicante, até mesmo o pedagógico, sob a forma de um objeto verbal que aspira a deixar marcas indeléveis, ainda que notoriamente delimitado por sua fragilidade e natureza provisional.

 

Certas vezes como um gesto de fé ou de desespero, outras tantas como um ensaio a perscrutar o incompreensível, o poema pode deixar transparecer os seus próprios paradoxos, pois que, sem respostas claras nem soluções definitivas, acaba por hospedar em seu cosmos verdades e incertezas, a elocução e o silêncio – ou mais incisivamente, levas de pesares humanos, quer reais quer fictícios.

 

J.A.R. – H.C.

 

Saúl Dias

(1902-1983)

 

Um poema

 

Um poema

é a reza dum rosário

imaginário.

Um esquema

dorido.

Um teorema

que se contradiz.

Uma súplica.

Uma esmola.

 

Dores,

vividas umas, sonhadas outras...

(Inútil destrinçar.)

 

Um poema

é a pedra duma escola

com palavras a giz

para a gente apagar ou guardar...

 

Imagem sem créditos

 

Referência:

 

DIAS, Saúl. Um poema. In: __________. Obra poética. 2. ed. aumentada. Prefácio de David Mourão-Ferreira. Desenhos de Júlio. Porto, PT: Brasília Editora, jan. 1980. p. 186.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ernesto Cardenal - Salmo 57

Num discurso com tom de súplica e de justiça divina similar ao dos salmos bíblicos, o teólogo e escritor nicaraguense tece ostensivas críticas às estruturas de poder nas sociedades ditas capitalistas – diga-se melhor, às suas instituições político-jurídicas –, vezes sem conta fomentadoras de desigualdades sociais, o que outorga à ode um nítido matiz revolucionário e marxista.

 

A invocação de Deus em tal contexto não é religiosa no sentido tradicional, senão que se a utiliza como um chamado à justiça social e à eliminação radical do status quo das elites, em favor de quem se perpetuam estruturas opressivas, a partir do que se espera o compartilhamento dos meios de produção com o povo, erradicando assim a ideia de “liberdade” como um conceito tão apenas favorável ao capital.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ernesto Cardenal

(1925-2020)

 

Salmo 57

 

Señores defensores de Ley y Orden:

¿Acaso el derecho de ustedes no es clasista?

el Civil para proteger la propiedad privada

el Penal para aplicarlo a las clases dominadas

La libertad de que hablan es la libertad del capital

su “mundo libre” es la libre explotación

Su ley es de fusiles y su orden el de los gorilas

de ustedes es la policía

de ustedes son los jueces

No hay latifundistas ni banqueros en la cárcel

 

Se extravían los burgueses desde el seno materno

tienen prejuicios de clase desde que nacen

como la cascabel nace con sus glándulas venenosas

como el tiburón-tigre nace comedor de gente

 

Oh Dios acaba con el statu quo

arranca los colmillos a los oligarcas

Que se escurran como el agua de los inodoros

se marchiten como la hierba bajo el hierbicida

 

Ellos son los “gusanos” cuando llega la Revolución

No son células del cuerpo sino que son microbios

Abortos del hombre nuevo que hay que botar

Antes de que echen espinas que los arranque el tractor

El pueblo se divertirá en los clubs exclusivos

tomará posesión de las empresas privadas

el justo se alegrará con los Tribunales Populares

Celebraremos en grandes plazas el aniversario de la Revolución

El Dios que existe es el de los proletarios

 

Opressão

(Olga Guarch: artista espanhola)

 

Salmo 57

 

Defensores da Lei e da Ordem:

Porventura não seria classista o vosso Direito?

o Civil para proteger a propriedade privada

o Penal para ser aplicado às classes dominadas?

A liberdade de que falais é a liberdade do capital

o vosso “mundo livre” é o da livre exploração

A vossa lei é a dos fuzis e a vossa ordem é a dos gorilas

vossa é a polícia

vossos são os juízes

Não há latifundiários nem banqueiros na cadeia

 

Desencaminham-se os burgueses desde o seio materno

têm preconceitos de classe desde o nascimento

tal como a cascavel que nasce com suas glândulas venenosas

tal como o tubarão-tigre que nasce comedor de gente

 

Ó Deus, eliminai o status quo

arrancai os caninos da boca dos oligarcas

Que sejam drenados como a água dos vasos sanitários

murchem como a relva sob o efeito do herbicida

 

À chegada da Revolução são eles os “vermes”

Não são células do corpo senão micróbios

Abortos do homem novo que devem ser descartados

Que o trator os arranque antes que criem espinhos

O povo se divertirá nos clubes exclusivos

se apossará das empresas privadas

o justo se alegrará com os Tribunais Populares

Celebraremos o aniversário da Revolução em grandes praças

O Deus que existe é o dos proletários

 

Referência:

 

CARDENAL, Ernesto. Salmo 57. In: __________. Poesía escogida. 1. ed. Barcelona, ES: Barral Editores, abr. 1975. p. 49. (“Insulae Poetarum”)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Friedrich Hölderlin - Lembrança

Num mundo marcado pela ausência e pelo exílio, o sujeito lírico assume o seu papel de custodiante ou de tecedor da eternidade, enfatizando que, a despeito da mudança dos ventos ou da partida dos amigos, as palavras permanecem, pois que há na arte – na Lírica, muito especificamente – algo de transcendente, de perdurável.

 

É que a arte, a seu ver, teria o dom de transformar o transitório – paisagens, emoções, viagens – num legado resistente ao esquecimento, motivo por que empenha-se o poeta – autêntico mediador entre o divino e o mortal – em fixar numa súmula perene todo o acervo de memórias compendiadoras das “belezas da terra”, dotando-a de uma aura simbólica, lábil entre o sagrado e o quase místico.

 

J.A.R. – H.C.

 

Friedrich Hölderlin

(1770-1843)

(Pastel de Franz Karl Hiemer)

 

Andenken

 

Der Nordost wehet,

Der liebste unter den Winden

Mir, weil er feurigen Geist

Und gute Fahrt verheißet den Schiffern.

Geh aber nun und grüße

Die schöne Garonne,

Und die Gärten von Bourdeaux

Dort, wo am scharfen Ufer

Hingehet der Steg und in den Strom

Tief fällt der Bach, darüber aber

Hinschauet ein edel Paar

Von Eichen und Silberpappeln;

 

Noch denket das mir wohl und wie

Die breiten Gipfel neiget

Der Ulmwald, über die Mühl,

Im Hofe aber wächset ein Feigenbaum.

An Feiertagen gehn

Die braunen Frauen daselbst

Auf seidnen Boden,

Zur Märzenzeit,

Wenn gleich ist Nacht und Tag,

Und über langsamen Stegen,

Von goldenen Träumen schwer,

Einwiegende Lüfte ziehen.

 

Es reiche aber,

Des dunkeln Lichtes voll,

Mir einer den duftenden Becher,

Damit ich ruhen möge; denn süß

Wär unter Schatten der Schlummer.

Nicht ist es gut,

Seellos von sterblichen

Gedanken zu sein. Doch gut

Ist ein Gespräch und zu sagen

Des Herzens Meinung, zu hören viel

Von Tagen der Lieb,

Und Taten, welche geschehen.

 

Wo aber sind die Freunde? Bellarmin

Mit dem Gefährten? Mancher

Trägt Scheue, an die Quelle zu gehn;

Es beginnet nämlich der Reichtum

Im Meere. Sie,

Wie Maler, bringen zusammen

Das Schöne der Erd und verschmähn

Den geflügelten Krieg nicht, und

Zu wohnen einsam, jahrlang, unter

Dem entlaubten Mast, wo nicht

die Nacht durchglänzen

Die Feiertage der Stadt,

Und Saitenspiel und eingeborener Tanz nicht.

 

Nun aber sind zu Indiern

Die Männer gegangen,

Dort an der luftigen Spitz

An Traubenbergen, wo herab

Die Dordogne kommt,

Und zusammen mit der prächtgen

Garonne meerbreit

Ausgehet der Strom. Es nehmet aber

Und gibt Gedächtnis die See,

Und die Lieb auch heftet fleißig die Augen,

Was bleibet aber, stiften die Dichter.

 

Homem e mulher contemplando a lua

(Caspar David Friedrich: pintor alemão)

 

Lembrança

 

Sopra o vento nordeste,

Meu vento preferido,

Porque promete aos navegantes

Boa viagem e espírito ardente.

Agora vai porém,

Vai saudar o belo Garona

E os jardins de Bordéus

Onde, ao longo da riba abrupta.

Corre o caminho e o riacho

Tomba fundo no rio vigiado

Do alto por um nobre par

De carvalhos e álamos brancos;

 

Lembro-me ainda bem de como inclina

O bosque de olmos

Suas largas copas sobre o moinho;

No pátio cresce uma figueira.

De lá se vão, em dias de festa,

Pisando um chão de seda,

As mulheres morenas

Pelos tempos de março

Quando dia e noite igualam-se

E as brisas embalam

Preguiçosas veredas

Repletas de sonhos dourados.

 

Que me passem, porém,

Cheia de luz sombria,

Uma das taças perfumosas

Com que eu possa repousar: seria

Doce adormecer sob as sombras.

Pois não é bom

Estar sem alma, sem

Pensamentos mortais. Bom é

Deixar que o coração

Fale e converse, ouvir

Histórias de amor

E feitos passados.

 

Mas onde estão os amigos? Belarmino

Com o companheiro? Muitos

Têm pudor de ir até a fonte,

Pois a riqueza começa

No mar. Como

Pintores, eles recolhem

As belezas da terra sem

Desdenhar a guerra alada nem

A solidão, anos a fio, sob

O mastro sem folhas onde não transluzem

Na noite as festas da cidade

Com harpas e danças.

 

Mas agora, rumo à Índia,

Eis que os homens partiram.

Lá, no promontório ventoso,

Junto ao monte das vinhas, onde

Desce o Dordonha

E se une ao esplêndido Garona,

Ganhando largura de mar, o mar

Que dá a memória e a tira, assim

Como o amor detém os olhos diligentes.

O que fica, porém, é o que os poetas fundam.

 

Referência:

 

HÖLDERLIN, Friedrich. Andenken / Lembrança. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1991. Em alemão: p. 128 e 130; em português: p. 129 e 131.