Empregando o falcão
como metáfora, o poeta estadunidense converte-o num símbolo do tempo
implacável, que corta o presente e o comuta em passado, numa indiferença
cósmica em relação aos nossos erros e preocupações, nossas lutas e fracassos, fixando
em perspectiva objetiva a insignificância da humana faina no grande esquema do universo.
Sempre estamos em busca
de verdades que nos pareçam eternas, que transcendam o caos e a fugacidade da
existência terrena, e, nessa jornada que se firma em legados e História,
deparamo-nos com juízos de ordem moral circulando em volutas em nossas mentes, num
ato quase ritual que, dando cifras finais ao dia, inaugura o ciclo misterioso
da noite – em cujas sombras a mirada do falcão solenemente repousa.
J.A.R. – H.C.
Robert Penn Warren
(1905-1989)
Evening Hawk
From plane of light
to plane, wings dipping through
Geometries and
orchids that the sunset builds,
Out of the peak's
black angularity of shadow, riding
The last tumultuous
avalanche of
Light above pines and
the guttural gorge,
The hawk comes.
His wing
Scythes down another
day, his motion
Is that of the honed
steel-edge, we hear
The crashless fall of
stalks of Time.
The head of each
stalk is heavy with the gold of our error.
Look! Look! he is
climbing the last light
Who knows neither
Time nor error, and under
Whose eye,
unforgiving, the world, unforgiven, swings
Into shadow.
Long now,
The last thrush is
still, the last bat
Now cruises in his
sharp hieroglyphics. His wisdom
Is ancient, too, and
immense. The star
Is steady, like
Plato, over the mountain.
If there were no wind
we might, we think, hear
The earth grind on
its axis, or history
Drip in darkness like
a leaking pipe in the cellar.
Falcão Noturno
(Jai Johnson: artista
norte-americana)
Falcão Noturno
De um plano de luz a
outro, em asas que se projetam por entre
Geometrias e
orquídeas produzidas pelo pôr do sol,
A partir da negra
forma angular da sombra do pico, transpondo
A avalanche derradeira
e tumultuosa de
Luz sobre os
pinheiros e o desfiladeiro gutural,
Surge o falcão.
Suas asas
Segam mais um dia,
seu movimento
É como o de uma
afiada lâmina de aço: ouvimos
A queda sem estrépito
das hastes do Tempo.
O topo de cada haste
suporta o peso em ouro de nossos erros.
Vede! Vede! está a escalar
a última luz
Que não conhece nem o
Tempo nem o erro, e sob
Cujo olhar,
implacável, o mundo não redimido agita-se
Entre as sombras.
Já há muito
Que o último tordo
está quieto, o último morcego
Agora move-se às
guinadas em seus agudos hieróglifos.
Sua sabedoria
É também venerável –
e imensa. A estrela
Mantém-se firme, como
Platão, sobre a montanha.
Se não houvesse vento,
poderíamos – pensamos nós – ouvir
A Terra a ranger
sobre o seu eixo, ou a História
A gotejar na
escuridão como um cano vazando no porão.
Referência:
WARREN, Robert Penn.
Evening hawk. In: McCLATCHY, J. D. (Ed.). The vintage book of contemporary
american poetry. 2nd ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of Random House Inc.), march 2003. p.
72.
❁









