Este poema de
Garrison, entrecruzado por elementos ao mesmo tempo sombrios e edificantes,
pode ser lido como uma reflexão do falante sobre a passagem do tempo, os
efeitos de sua ceifa inapelável, suavizada pela presença luminosa e inspiradora
da pessoa amada, trazendo esperança para o novo ano, num autêntico ato de fé e
de disposição resiliente frente ao desconhecido.
O poeta contrapõe ao
peso da idade e à inevitabilidade da morte os antídotos do amor, da
cumplicidade e do desfrute de uma vida plena, apesar das cicatrizes: a “dança”
e a “ária” reportados nos derradeiros versos do soneto evocam arte e celebração,
no exato momento em que todos desejamos um futuro melhor – a virada do Ano-Novo
–, a despeito de que somente em retrospectiva sejamos capazes de compreender o
que realmente importa de tudo por que passamos.
J.A.R. – H.C.
Garrison Keillor
(n. 1942)
January
Another year gone and
the old man with the scythe
Is mowing closer. He
hasn’t been subtle, has he.
Too many good people
gone, and I could sit and cry
For them – except
that you look exceptionally snazzy
And sexy despite the
miles on your odometer,
As if you have a few
more aces up your sleeve.
Maybe you were born
under a lucky comet or
Maybe it’s just the
delirium of New Year’s Eve.
I gaze in your face
and take your hand – you’re
Positively glowing.
Maybe we’ve been sorry a
Long enough time and
now we get some grandeur
And do our dance and
sing our aria.
May the New Year bring
us before it has flown
All we would have
wished for had we only known.
Dança no campo
(Pierre-Auguste
Renoir: pintor francês)
Janeiro
Mais um ano se passou
e o velho com a foice
Está segando mais
perto. Ele não tem sido sutil, pois não?
Muitas pessoas boas
se foram, e poderia agora sentar e chorar
Por elas – se não
fosse por teu porte excepcionalmente elegante
E sexy, apesar da
quilometragem em teu hodômetro,
Como se tivesses
alguns trunfos a mais sob a manga.
Talvez tenhas nascido
sob os auspícios de um cometa da sorte
Ou quem sabe não se
trate de um delírio da noite de Ano-Novo.
Olho para o teu rosto
e pego tua mão – estás
Positivamente radiante.
Talvez tenhamos estado pesarosos
Por tempo bastante e
agora nos alcance alguma grandeza:
Coreografemos nossa
dança, cantemos nossa ária.
Que o Ano Novo nos
traga, antes que se esvaia,
Tudo o que
desejaríamos, se o soubéssemos.
Referência:
KEILLOR, Garrison.
January. In: __________. 77 love sonnets. St. Paul (MN): Common Good
Books, 2009. p. 107.








