Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Joaquim Cardozo - Canção elegíaca

Nestes versos em redondilha maior, Cardozo evoca o encontro com o ocaso, pleno de uma beleza melancólica que se integra ao ciclo eterno do viver e do morrer, digo melhor, ao constante vaivém entre a criação, a decadência e a transformação final do corpo físico em regresso ao primigênio, numa fusão holística e reintegradora com a terra que o viu nascer.

 

Essa beleza se faz acompanhada pela dor; a ternura – a permear o lado mais sensitivo da existência – convive com a perda (enfatizada, no poema, pela anáfora alusiva ao cerrar dos olhos da amada); e todas as vicissitudes assimiláveis como passagem necessária para que o corpo humano possa recuperar a pureza de suas origens junto à mãe natureza – inelutável depositária de nossos sonhos, nostalgias e despedidas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Joaquim Cardozo

(1897-1978)

 

Canção elegíaca

 

Quando os teus olhos fecharem

Para o esplendor deste mundo,

Num chão de cinza e fadigas

Hei de ficar de joelhos;

Quando os teus olhos fecharem

Hão de murchar as espigas,

Hão de cegar os espelhos.

 

Quando os teus olhos fecharem

E as tuas mãos repousarem

No peito frio e deserto,

Hão de morrer as cantigas;

Irá ficar desde e sempre,

Entre ilusões inimigas,

Meu coração descoberto.

 

Ondas do mar – traiçoeiras –

A mim virão, de tão mansas,

Lamber os dedos da mão;

Serenas e comovidas

As águas regressarão

Ao seio das cordilheiras;

Quando os teus olhos fecharem

Hão de sofrer ternamente

Todas as coisas vencidas,

Profundas e prisioneiras;

Hão de cansar as distâncias,

Hão de fugir as bandeiras.

Sopro da vida sem margens,

Fase de impulsos extremos,

O teu hálito irá indo,

Longe e além reproduzindo,

Como um vento que passasse

Em paisagens que não vemos;

Nas paisagens dos pintores

Comovendo os girassóis

Perturbando os crisântemos.

 

O teu ventre será terra

Erma, dormente e tranquila

De savana e de paul;

Tua nudez será fonte,

Cingida de aurora verde,

A cantar saudade pura

De abril, de sonho, de azul

Fechados no anoitecer.

 

Em: “Signo Estrelado” (1960)

 

Elegia

(William-Adolphe Bouguereau: pintor francês)

 

Referência:

 

CARDOZO, Joaquim. Canção elegíaca. In: __________. Poesias completas. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira; Instituto Nacional do Livro, 1971. p. 81-82. (Coleção “Poesia Hoje”; v. 20)

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Shauna Darling Robertson - Dançando com a Vida

A poetisa inglesa oferece-nos uma expressiva e poética receita para a autoaceitação radical, permitindo-nos aumentar a capacidade de encontrar alegria e agito na vida, inclusive em nossos momentos menos “arcos do triunfo”: diante dos golpes do destino, não fiques paralisado; convida-os a dançar. E quando dançares até com os teus piores demônios, faze-o com a elegância dos passos de uma valsa!

 

Afinal, é inevitável que nos deparemos com reveses, fracassos e imperfeições ao longo dos anos, a par com o que há de mais negativo, frustrante e doloroso na experiência humana, levando-nos, por decorrência, a mal-estares e a temores que se enraízam no mais profundo d’alma.

 

Por isso a sugestão da autora para que enfrentemos galhardamente os contratempos suscitados pela consectária insegurança, convertendo esse limão numa limonada, com o que se há de irrigar a fonte de nossa dignidade, bem assim o horto de nossas belezas interiores.

 

J.A.R. – H.C.

 

Shauna Darling Robertson

(n. 1968)

 

Dancing with Life

 

I beckoned to the floor

missed buses and lost races.

We body-popped till sore.

 

I held out my hand

to every failed exam.

We lindy-hopped. We can-canned.

 

I slipped my arm around the waist

of chicken, loser, nerd.

We skip-jived at a pace.

 

I chose the longest, dullest week

and pressed it to my chest

as we cha-cha’d cheek to cheek.

 

I tipped and doffed my hat

to a hundred horrid haircuts.

We mambo’d, tango’d, tapped.

 

Feeling bold, I turned to face

my darkest, rawest faults.

I took them in my arms, we bowed

and broke into a waltz.

 

A Dança

(Henri Matisse: pintor francês)

 

Dançando com a Vida

 

Atraí para a pista

ônibus perdidos e corridas malogradas.

Dançamos body-pop até a exaustão. (1)

 

Estendi minha mão

a todas as provas falidas.

Rodopiamos no lindy-hop, esbanjamo-nos no cancã. (2)

 

Passei o braço pela cintura

da medrosa, da fracassada, da desajustada.

Saracoteamos num jive enérgico e acelerado. (3)

 

Escolhi a semana mais longa e tediosa

e, apertando-a ao peito,

executamos um chá-chá-chá de faces coladas.

 

Curvei-me e tirei o chapéu

a cem medonhos cortes de cabelo.

Giramos ao som de mambo, tango e sapateado.

 

Num ímpeto de audácia, virei-me para encarar

minhas falhas mais sombrias e cruéis.

Tomei-as nos braços, demo-nos vênias

e folgamos ao ritmo de uma valsa.

 

Notas:

 

(1). Body-pop: trata-se de um estilo de dança (“popping”) caracterizado por movimentos rápidos e bruscos criados pela contração e liberação repentinas dos músculos, seguidos de “batidas” ou “estalos” em diferentes partes do corpo ao ritmo da música.

 

(2). Lindy-hop: dança de casal, de natureza improvisada, dançada ao som de swing, jazz ou blues.

 

(3). Jive: dança cuja marcha – saltitante, alegre e vibrante –, com foco na elevação de joelhos, flexão e balanço de quadris, evolui em passos triplos e agitos básicos de vai e vem, ao som de músicas animadas, como swing ou jazz.

 

Referência:

 

ROBERTSON, Shauna Darling. Dancing with life. In: ESIRI, Allie (Ed.). A poem for every day of the year. Illustrated by Zanna Goldhawk. 1st publ. London, EN: Macmillan Children’s Books, 2017. p. 177.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Aurobindo Akroyd Ghosh - O Chamamento de Prata

Bastante característico da visão evolutiva e suprarracional do iogue e poeta indiano, o poema abaixo explora a tensão fundamental entre a realidade material percebida pelos sentidos – assente na insuficiência da “escória acumulada” pela humanidade em séculos de existência –, e uma outra realidade divina, transcendente e ainda no porvir.

 

O poeta preconiza a renúncia aos apegos e aos valores puramente terrenais, para que se possa galgar o nível de mente vocacionada ao conhecimento “daquelas harmonias ainda não imaginadas”, e daí seguir em progressão espiritual conjunta com os pares. Nesse plano, não se trata, por óbvio, de predicar-se uma forma de escapar ao mundo, mas sim de transformá-lo radicalmente – e à própria consciência humana.

 

Ter-se-ia, então, um futuro onde a Terra passaria deste lugar de dificuldades, sofrimentos e aparente fealdade, a um outro de sublime beleza, estremado por fenômenos muito mais portentosos do que o do lodo que dá vida à rosa, a revelarem os milagres da divindade plenamente realizada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Aurobindo Akroyd Ghosh

(1872-1950)

 

The Silver Call

 

There is a godhead of unrealised things

To which Time’s splendid gains are hoarded dross;

A cry seems near, a rustle of silver wings

Calling to heavenly joy by earthly loss.

 

All eye has seen and all the ear has heard

Is a pale illusion by some greater voice

And mightier vision; no sweet sound or word,

No passion of hues that make the heart rejoice

 

Can equal those diviner ecstasies.

A Mind beyond our mind has sole the ken

Of those yet unimagined harmonies,

The fate and privilege of unborn men.

 

As rain-thrashed mire the marvel of the rose,

Earth waits that distant marvel to disclose.

 

From: “Sonnets” (1930-1950)

 

O alvorecer da iluminação

(John Pitre: pintor norte-americano)

 

O Chamamento de Prata

 

Divinas coisas há não realizadas

Em sublimes ganhos de tempo acumulado;

Um grito parece próximo, um bater de asas prateado

Chamando alegrias celestes pela terra arruinadas.

 

Todos os olhos viram e todo o ouvido escutou

É uma pálida ilusão por alguma voz elevada

Nenhum som ou doce palavra e visão tão empossada,

Nem paixão de cores no coração se alegrou.

 

Podem estes divinos êxtases igualar.

Uma Mente além da nossa com o único saber

Dessas harmonias ainda por ver,

O destino e privilégio dos que estão por se formar.

 

Enquanto a chuva se esbate na esplêndida rosa,

A terra espera aquela longínqua maravilha para revelar.

 

Em: “Sonetos” (1930-1950)

 

Referências:

 

Em Inglês

 

AUROBINDO, Sri. The silver call. In: __________. Collected poems. 1. ed., 1st impr. Pondicherry, IN: Sri Aurobindo Ashram Press, 1994. p. 135.

 

Em Português

 

GHOSH, Aurobindo Akroyd. O chamamento de prata. Tradução de José Carlos Calazans. In: BUESCU, Helena Carvalhão; VALENTE, Simão (Coords.). Literatura-mundo comparada: perspectivas em português. Parte III - Pelo Tejo vai-se pelo mundo (vol. 6). 1. ed. Lisboa, PT: Edições tinta-da-china, mai. 2020. p. 78.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Clara Baccarin - Missão

Sem depreciar o ato de redigir poemas, a voz lírica nos dá conta de que o verdadeiro desafio a ser assumido no quotidiano, como autêntica obra de arte, é a própria vida, usufruindo-a com assombro, consciência corpóreo-espiritual e radical autenticidade, numa espécie de deserção às inúmeras máscaras sociais que costumamos assumir, mediante o enfrentamento honesto de nossas próprias feridas e vulnerabilidades.

 

Baccarin nos exorta a resistirmos ativamente à tentação de passarmos pela vida de um modo automático, superficial ou inautêntico, propondo-nos, em vez disso, a adoção de uma “revolução permanente”, explico-me melhor, a reinvenção diária, com o objetivo de sacudirmos o marasmo das rotinas e dos caminhos trilhados mecanicamente e, dessa maneira, fixarmos nossa existência no cânone das supremas obras poéticas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Clara Baccarin

(n. 1982)

 

Missão

 

É fácil escrever um poema

difícil é

– pelas décadas que se agregam

pelos vícios que me pegam

pelos sonhos que se quebram

– não deixar morrer

o olhar de encantamento

 

É fácil escrever um poema

difícil é fazer do corpo templo

capturar na veia e no verso

os ritmos do silêncio

 

É fácil escrever um poema

talvez leve alguns minutos apenas

talvez surja num sonho

numa alvorada do peito

numa madrugada embriagada

 

Difícil é deixar a fenda aberta

despir as máscaras

desconstruir os passos

reinventar a existência

cotidianamente

 

É fácil sentar e escrever um poema

difícil é resistir

e fazer da vida

poesia

 

A poesia da vida

(Anastasia Mily: artista australiana)

 

Referência:

 

BACCARIN, Clara. Missão. In: JARDIM, Rubens (Pesquisa, seleção e organização). As mulheres poetas na literatura brasileira: antologia poética. v. 3. São Paulo, SP: Edição do autor, 2018. p. 102.