Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 25 de março de 2026

Walt Whitman - Uma mulher espera por mim

Neste autêntico canto ao poder generativo do sexo, à igualdade entre homens e mulheres, bem assim à conexão entre o amor carnal e a criação artística e social, Whitman eleva o sensual ao sagrado, desafiando tabus que até hoje teimam em remanescer e proclamando uma visão francamente expansiva da humanidade, um “modus vivendi” mais livre e exuberante.

 

O poeta norte-americano funde o físico e o espiritual ao vislumbrar a procriação como um ato cósmico – e até mesmo patriótico –, no qual podem os amantes reivindicar a libido de seus corpos sem vergonha, sem assunção de culpas desarrazoadas, e as mulheres, longe de serem vistas como um passivo objeto de desejo, passam a ser apreciadas por suas potencialidades ativas, como a independência, a vivacidade e demais predicados.

 

J.A.R. – H.C.

 

Walt Whitman

(1819-1892)

 

A woman waits for me

 

A woman waits for me, she contains all, nothing is lacking.

Yet all were lacking if sex were lacking, or if the moisture

of the right man were lacking.

 

Sex contains all, bodies, souls,

Meanings, proofs, purities, delicacies, results, promulgations,

Songs, commands, health, pride, the maternal mistery, the

seminal milk,

All hopes, benefactions, bestowals, all the passions, loves,

beauties, delights of the earth,

All the governments, judges, gods, follow’d persons of the earth,

These are contain’d in sex as parts of itself and justifications of itself.

 

Without shame the man I like knows and avows the deliciousness

of his sex,

Without shame the woman I like knows and avows hers.

 

Now I will dismiss myself from impassive women,

I will go stay with her who waits for me, and with those women

that are warm-blooded and suficient for me.

I see that they understand me and do not deny me,

I see that they are worthy of me, I will be the robust husband of

those women.

 

They are not one jot less than I am,

They are tann’d in the face by shining suns and blowing winds,

Their flash has the old divine suppleness and strenght,

They know how to swim, row, ride, wrestle, shoot, run, strike,

retreat, advance, resist, defend themselves,

They are ultimate in their own right – they are calm, clear,

well-possess’d of themselves.

 

I draw you close to me, you women,

I cannot let you go, I would do you good,

I am for you, and you are for me, not only for our own sake,

but for other’sakes,

Envelop’d in you sleep greater heroes and bards,

They refuse to awake at the touch of any man but me.

 

It is I, you women, I make my way,

I am stern, acrid, large, undissuadable, but I love you,

I do not hurt you any more than is necessary for you,

I pour the stuff to start sons and daughters fit for these States,

I press with slow rude muscle,

I brace myself efectually, I listen to no entreaties,

I dare not withdraw till I deposit what has so long accumulated

within me.

 

Through you I drain the pent-up rivers of myself,

In you I wrap a thousand onward years,

On you I graft the grafts of the best-beloved of me and America,

The drops I distil upon you shall grow fierce and athletic girls,

new artists, musicians, and singers,

The babes I beget upon you are beget babes in their turn,

I shall demand perfect men and women out

of my love-spendings,

I shall expect them to interpenetrate with others, as I and you

interpenetrate now,

I shall count on the fruits of the gushing showers of them, as I

count on the fruits of the gushing showers I give now,

I shall look for loving crops froam the birth, life, death, immortality,

I plain to lovingly now.

 

Homem e Mulher

(Paul Ygartua: pintor anglo-canadense)

 

Uma mulher espera por mim

 

Uma mulher espera por mim, nela tudo se contém, não falta nada,

No entanto faltaria tudo se lhe faltasse o sexo ou a umidade

do homem certo.

 

Tudo se contém no sexo, corpos, almas,

Significados, provas, purezas, delicadezas, proclamações, efeitos,

Ordens, canções, higidez, orgulho, o mistério materno, o leite

seminal,

As esperanças todas, bens, outorgas, todas as paixões, belezas,

amores, os deleites da terra,

Todos os governos, juízes, deuses, o cortejo de pessoas da terra,

Tudo se contém no sexo como partes de si e justificações de si.

 

Sem pejo o homem de quem gosto sabe e confessa as delícias

do sexo,

Sem pejo a mulher de quem eu gosto sabe e confessa as do sexo

dela.

 

Pois eu me afasto das mulheres insensíveis,

Para ficar com a que espera por mim, e com as mulheres

de sangue quente que me satisfazem,

Eu vejo que elas me compreendem e não me repudiam,

Vejo que são dignas de mim e eu serei delas o marido vigoroso.

 

Essas mulheres não são em nada inferiores a mim,

Têm o rosto tisnado pelo brilho dos sóis e pelo sopro dos ventos.

Há na carne delas, antigas e divinas, agilidade, força,

Elas sabem nadar, remas, montar, lutar, atirar, correr, bater,

recuar, avançar, resistir, defender-se sozinhas,

São supremas por direito próprio – são calmas, límpidas, donas

de si mesmas.

 

Puxo vocês para junto de mim, mulheres,

Não as posso deixar ir, vou lhes fazer bem,

Existo para você e vocês para mim, não apenas para o nosso bem,

mas para o bem dos outros,

Envoltos em você dormem grandes heróis e bardos,

Eles se recusam a acordar pelo toque de outro homem que não eu.

 

Sou eu, mulheres, abro o meu caminho,

Sou severo, cáustico, indissuadível, mas amo vocês,

Não as machuco mais que o necessário a vocês mesmas,

Derramo a substância geradora de filhos e filhas dignos destes

Estados, assedio com músculo pausado e rude,

Me firmo eficazmente, não dou ouvido a rogos,

Não ouso retirar-me sem depositar o que há de muito acumulei

dentro de mim.

 

Através de você eu dreno os rios enclausurados de mim mesmo,

Em vocês concentro mil anos de futuro,

Em vocês faço enxerto dos tão amados por mim e pela América,

As gotas que em vocês destilo farão medrar moças atléticas e

ardentes, novos artistas, músicos, cantores,

As crianças que em vocês procrio vão procriar, por sua vez,

outras crianças,

Exigirei, dos meus dispêndios amorosos, homens e mulheres

perfeitos,

Eles irão se interpenetrar, espero, como eu e você agora nos

interpenetramos,

Contarei com os frutos dos generosos aguaceiros deles, como

conto com os frutos dos aguaceiros que ora entorno.

Vou ficar à espera das ternas colheitas do nascimento, vida,

morte, imortalidade,

Que tão amorosamente planto agora.

 

Referência:

 

WHITMAN, Walt. A woman waits for me / Uma mulher espera por mim. Tradução de José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo Paes (Seleção, tradução, introdução e notas). Poesia erótica em tradução. 1. ed. Companhia de Bolso. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2006. Em inglês: p. 146, 148 e 150; em português: p. 147, 149 e 151.

terça-feira, 24 de março de 2026

Jorge Gomes Miranda - De um só trago

Somos seres em cuja estrutura coexistem, em precário equilíbrio, o amor e a dor, partes inseparáveis da condição humana: para fazer frente à solidão, que nos derrota de forma insidiosa, apostamos reiteradas vezes no amor, somente para que, fortuitamente, este se nos revele como mais uma ilusão vazia, exibindo, então, a sua natureza paradoxal – uma espécie de “chama que nos alenta”, mas que nos pode minguar as forças.

 

Beber essa dor “de um só trago”, com valentia e dignidade, ainda que em silêncio e em solidão, implica aceitá-la sem diluí-la nem prolongá-la desnecessariamente, assumindo-a individualmente, sem testemunhas ou consolo externo, com o que a alma vai aos poucos se tornando resiliente aos desenganos da vida, ou melhor, às cruciantes ironias perpetradas pelo amor.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge Gomes Miranda

(n. 1965)

 

De um só trago

 

De todas as maneiras que a solidão

escolhe para nos derrotar

nenhuma tão lenta e cruel

como a que nos faz acreditar

de novo no amor, ao mesmo tempo

que nos retira as forças para injuriá-lo

quando as promessas se revelam vãs

e percebemos que a chama que nos alenta

é a mesma que nos extingue.

 

E de nada serve pelos restantes dias

mostrarmo-nos compassivos

de nós mesmos, com a certeza de que

em todas as praças há um corpo apedrejado,

em todas as casas uma janela opaca,

em todos os quartos uma boca sem voz,

em todas as palavras a lembrança de outras

mais amadas e que um dia nos pertencerão.

 

A dor deve ser bebida em silêncio

de um só trago, ao balcão de um bar,

depois de todos haverem já partido.

 

Homem num bar

(Fabián Pérez: artista argentino)

 

Referência:

 

MIRANDA, Jorge Gomes. De um só trago. In: __________. Este mundo, sem abrigo. Lisboa, PT: Relógio d’Água, nov. 2003. p. 44.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Pablo Neruda - Ao pé desde a sua tenra idade

O infratranscrito poema de Neruda trata, de fato, do ciclo de vida do ser humano, mediante o emprego da metáfora do pé de uma criança, refletindo a antinomia entre os sonhos puros da infância e as firmes imposições da realidade, quando não a coação sistemática empregada como forma de modelar o ser humano na sociedade.

 

De um desejo de liberdade e de plenitude natural, típico da fase de meninice, passa-se a um processo de repressão social, ao longo do qual a imposição de normas de conduta acaba por limitar a espontaneidade infantil, tal que, um pouco mais tarde, já na idade adulta, o terno e o lhano resultam substituídos por algo áspero e padecente.

 

Com a entrada no mundo do trabalho, o ciclo atinge o seu ápice, quando o pé obriga-se a assumir os papéis que lhe são impostos pelo sistema, muitas vezes de modo desumanizante, haja vista que reduzido a uma ferramenta de produção, mal tendo tempo para o descanso e uma vida privada sadia.

 

Como um ser fragmentado, submetido a rotinas sem sentido, desce o pé, por fim, à sepultura, regressando ao pó primordial, sem entender muito bem o seu destino, à maneira de muitos daqueles que partem sem saber quais os verdadeiros sentidos de suas existências: se única e tão somente plasmados no sofrimento e na dor ou se, porventura, integrados a algum transcendente propósito.

 

J.A.R. – H.C.

 

Pablo Neruda

(1904-1973)

 

Al pie desde su niño

 

El pie del niño aún no sabe que es pie,

y quiere ser mariposa o manzana.

 

Pero luego los vidrios y las piedras,

las calles, las escaleras,

y los caminos de la tierra dura

van enseñando al pie que no puede volar,

que no puede ser fruto redondo en una rama.

El pie del niño entonces

fue derrotado, cayó

en la batalla,

fue prisionero,

condenado a vivir en un zapato.

 

Poco a poco sin luz

fue conociendo el mundo a su manera,

sin conocer el otro pie, encerrado,

explorando la vida como un ciego.

 

A quellas suaves uñas

de cuarzo, de racimo,

se endurecieron, se mudaron

en opaca substancia, en cuerno duro,

y los pequeños pétalos del niño

se aplastaron, se desequilibraron,

tomaron formas de reptil sin ojos,

cabezas triangulares de gusano.

Y luego encallecieron,

se cubrieron

con mínimos volcanes de la muerte,

inaceptables endurecimientos.

 

Pero este ciego anduvo

sin tregua, sin parar

hora tras hora,

el pie y el otro pie,

ahora de hombre

o de mujer,

arriba,

abajo,

por los campos, las minas,

los almacenes y los ministerios,

atrás,

afuera, adentro,

adelante,

este pie trabajó con su zapato,

apenas tuvo tiempo

de estar desnudo en el amor o el sueño,

caminó, caminaron

hasta que el hombre entero se detuvo.

 

Y entonces a la tierra

bajó y no supo nada,

porque allí todo y todo estaba oscuro,

no supo que había dejado de ser pie,

si lo enterraban para que volara

o para que pudiera

ser manzana.

 

En: “Estravagario” (1958)

 

Primeiros passos

(ao modo de Millet)

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Ao pé desde a sua tenra idade

 

O pé da criança ainda não sabe que é pé,

e quer ser borboleta ou maçã.

 

Mas logo as pedras e os cacos de vidro,

as ruas, as escadas,

e os caminhos da terra dura

ensinam ao pé que ele não pode voar,

que não pode ser fruto redondo num ramo.

O pé da criança viu-se

então derrotado, vencido

na batalha,

tornando-se prisioneiro,

condenado a viver num sapato.

 

Pouco a pouco, sem luz,

foi descobrindo o mundo à sua maneira,

sem conhecer o outro pé, enclausurado,

explorando a vida como um cego.

 

Aquelas unhas macias

de quartzo, agrupadas,

endureceram, transformaram-se

em substância opaca, em rija guampa,

e as pequenas pétalas da criança

achataram-se, desequilibraram-se,

tomando formas reptilianas sem olhos,

cabeças triangulares de vermes.

Sem tardar, tornaram-se calejadas,

cobriram-se

com diminutos vulcões da morte,

endurecimentos inaceitáveis.

 

Nada obstante, esse cego pôs-se a caminhar

sem trégua, sem parar,

hora após hora,

em marcha alternada com o outro pé,

ora como pé de homem,

ora como de mulher,

para cima,

para baixo,

pelos campos, pelas minas,

pelos armazéns e pelos ministérios,

para trás,

para fora, para dentro,

para frente;

esse pé trabalhou com seu sapato,

mal tendo tempo

para ficar nu no amor ou durante o sono;

caminhou, caminharam,

até que o homem inteiro estacou.

 

E então desceu

à terra e não soube de nada,

porque a escuridão cobria a tudo e a todos;

não soube que havia deixado de ser pé,

se o enterravam para que voasse

ou para que pudesse

ser maçã.

 

Em: “Extravagário” (1958)

 

Referência:

 

NERUDA, Pablo. Al pie desde su niño. In: __________. Antología poética. Edición de Rafael Alberti. 3. ed. Buenos Aires, AR: Planeta, may. 1998. p. 296-297. (“Planeta Bolsillo”)