Num discurso com tom
de súplica e de justiça divina similar ao dos salmos bíblicos, o teólogo e
escritor nicaraguense tece ostensivas críticas às estruturas de poder nas
sociedades ditas capitalistas – diga-se melhor, às suas instituições
político-jurídicas –, vezes sem conta fomentadoras de desigualdades sociais, o
que outorga à ode um nítido matiz revolucionário e marxista.
A invocação de Deus
em tal contexto não é religiosa no sentido tradicional, senão que se a utiliza
como um chamado à justiça social e à eliminação radical do status quo das
elites, em favor de quem se perpetuam estruturas opressivas, a partir do que se
espera o compartilhamento dos meios de produção com o povo, erradicando assim a
ideia de “liberdade” como um conceito tão apenas favorável ao capital.
J.A.R. – H.C.
Ernesto Cardenal
(1925-2020)
Salmo 57
Señores defensores de
Ley y Orden:
¿Acaso el derecho de
ustedes no es clasista?
el Civil para
proteger la propiedad privada
el Penal para
aplicarlo a las clases dominadas
La libertad de que
hablan es la libertad del capital
su “mundo libre” es
la libre explotación
Su ley es de fusiles
y su orden el de los gorilas
de ustedes es la
policía
de ustedes son los
jueces
No hay latifundistas
ni banqueros en la cárcel
Se extravían los
burgueses desde el seno materno
tienen prejuicios de
clase desde que nacen
como la cascabel nace
con sus glándulas venenosas
como el tiburón-tigre
nace comedor de gente
Oh Dios acaba con el
statu quo
arranca los colmillos
a los oligarcas
Que se escurran como
el agua de los inodoros
se marchiten como la
hierba bajo el hierbicida
Ellos son los “gusanos”
cuando llega la Revolución
No son células del
cuerpo sino que son microbios
Abortos del hombre nuevo
que hay que botar
Antes de que echen
espinas que los arranque el tractor
El pueblo se
divertirá en los clubs exclusivos
tomará posesión de
las empresas privadas
el justo se alegrará
con los Tribunales Populares
Celebraremos en
grandes plazas el aniversario de la Revolución
El Dios que existe es el de los proletarios
Opressão
(Olga Guarch: artista
espanhola)
Salmo 57
Defensores da Lei e
da Ordem:
Porventura não seria
classista o vosso Direito?
o Civil para proteger
a propriedade privada
o Penal para ser
aplicado às classes dominadas?
A liberdade de que falais
é a liberdade do capital
o vosso “mundo livre”
é o da livre exploração
A vossa lei é a dos
fuzis e a vossa ordem é a dos gorilas
vossa é a polícia
vossos são os juízes
Não há latifundiários
nem banqueiros na cadeia
Desencaminham-se os
burgueses desde o seio materno
têm preconceitos de
classe desde o nascimento
tal como a cascavel
que nasce com suas glândulas venenosas
tal como o
tubarão-tigre que nasce comedor de gente
Ó Deus, eliminai o
status quo
arrancai os caninos
da boca dos oligarcas
Que sejam drenados
como a água dos vasos sanitários
murchem como a relva
sob o efeito do herbicida
À chegada da
Revolução são eles os “vermes”
Não são células do
corpo senão micróbios
Abortos do homem novo
que devem ser descartados
Que o trator os
arranque antes que criem espinhos
O povo se divertirá nos
clubes exclusivos
se apossará das
empresas privadas
o justo se alegrará
com os Tribunais Populares
Celebraremos o
aniversário da Revolução em grandes praças
O Deus que existe é o
dos proletários
Referência:
CARDENAL, Ernesto.
Salmo 57. In: __________. Poesía escogida. 1. ed. Barcelona, ES: Barral
Editores, abr. 1975. p. 49. (“Insulae Poetarum”)
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