A citação do poeta e
filósofo alemão Friedrich Schiller (1759-1805) – “Qual, dentre todas as filosofias,
permanece? Não sei.” –, no topo deste soneto, evoca bem o tom questionador de
Lima sobre os logros do progresso humano, ou melhor, sobre a capacidade dessa
marcha da tecnologia e da técnica trazer consigo algo de uma verdadeira
evolução espiritual – incerteza que, diga-se de passagem, expressa a crise existencial
tão em voga na dita modernidade.
Entre o avanço
científico e o desvanecimento das crenças religiosas, as lucubrações do poeta
denotam certo desencanto com o ser humano, sobretudo em vista das deduções evolucionistas
de Darwin (1809-1882) e Hæckel (1834-1919), as quais retiram-no do pedestal de
domínio absoluto sobre o mundo, para confrontá-lo à incômoda mirada de suas
inarredáveis limitações.
J.A.R. – H.C.
Jorge de Lima
(1893-1953)
Dia Um de Janeiro
Welche wohls bleibt
von alIen den Philosophieen?
Ich weiss nicht.
Schiller
Dia Um de Janeiro. E
passa um ano mais.
A Ciência é mais
nova. O símio é mais humano.
Se fez-lhe alguém, de
barro os neurônios mentais,
Hæckel tirou-lhe o
cetro ao reinado mundano.
(Cousa mesma de símio)
ele fez dos missais
Granadas contra o
Papa apostólico romano
Que lhe andara
dizendo: Adão e Eva seus pais
E inventara o
Evangelho, o céu e o Vaticano...
Tanta crença se foi e
a saudade inda vive!
Tem carícias de mãe,
tem um candor divino.
A Saudade! A Saudade!
E uma ilusão revive...
Tua infância revive:
eras tão pequenino
E tua mãe dizia: o
céu era um conforto
Onde irias viver se
ela te visse morto.
1º de janeiro de 1912
Em: “XIV
Alexandrinos” (1914)
Lua de janeiro
(Denise J. Herman: artista
norte-americana)
Referência:
LIMA, Jorge de. Dia
um de janeiro. In: __________. Poesia completa: em um volume.
Organização de Alexei Bueno. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1997. p.
196-197. (Biblioteca Luso-brasileira; Série brasileira)


