Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 4 de março de 2026

Edith Södergran - Beleza

A escritora e poetisa finlandesa, numa escrita em sueco, discorre vividamente sobre a natureza multifacética da beleza, ampliando o seu conceito para abarcar uma gama de experiências humanas e fenômenos naturais, desde o sublime até o trágico, pois que lhe parece não se tratar de algo linear ou superficial, senão de uma expressão dinâmica e, em determinados sentidos, até mesmo paradoxal.

 

Digo isto porque ela não radica unicamente no que se nos apresenta como agradável ou harmonioso, mas também no que se nos revela pungente ou doloroso, haja vista que mesmo na tristeza pode haver uma forma de beleza com potencial para comover e engrandecer o espírito – o que, de alguma forma, revela outro de seus atributos, a saber, a capacidade para reconciliar opostos.

 

Södergran sugere, ademais, que a verdadeira beleza surge quando alguém ousa se tornar autêntico, único, irrepetível, forjando um selo de autenticidade a tudo o que cursa pela via de seus pensamentos, falas e ações – característica inconfundível de uma existência humana em seu estado mais puro, especifique-se melhor, sem máscaras, sem afetações.

 

J.A.R. – H.C.

 

Edith Södergran

(1892-1923)

 

Skönhet

 

Vad är skönhet? Fråga alla själar –

skönhet är varje överflöd, varje glöd, varje överfyllnad

och varje stort armod;

skönhet är att vara sommaren trogen och naken intill

hösten;

skönhet är papegojans fjäderskrud eller solnedgången

som bebådar storm;

skönhet är ett skarpt drag och ett eget tonfall: det är jag,

skönhet är en stor förlust och ett tigande sorgetåg,

skönhet är solfjäderns lätta slag som väcker ödets fläkt;

skönhet är att vara vällustig som rosen eller att förlåta

allting för att solen skiner;

skönhet är korset munken valt eller pärlbandet damen

får av sin älskare,

skönhet är icke den tunna såsen i vilken diktare servera

sig själva,

skönhet är att föra krig och söka lycka,

skönhet är att tjäna högre makter.

 

Från: “Samlade dikter” (1949)

 

Mulher com um leque

(Jean D. A. Metzinger: pintor francês)

 

Beleza

 

O que é beleza? Pergunta a todas as almas –

beleza é toda abundância, toda brasa, todo excesso

e toda grande pobreza;

beleza é ser fiel ao verão e estar nu para o outono;

beleza é a veste emplumada do papagaio

ou o pôr-do-sol pressentindo tempestades;

beleza é um traço marcado e um tom próprio: sou eu,

beleza é uma grande perda e um cortejo silente,

beleza é o pulsar leve do leque despertando o sopro

do destino;

beleza é ser prazeroso como a rosa ou tudo perdoar

porque brilha o sol;

beleza é a escolha monástica da cruz ou

o colar de pérolas que a mulher recebe do amado,

beleza não é o molho ralo com que o poeta serve

a si mesmo,

beleza é declarar guerra e buscar felicidade,

beleza é servir aos poderes do alto.

 

Em: “Poemas coligidos” (1949)

 

Referências:

 

Em Sueco

 

SÖDERGRAN, Edith. Skönhet. In: __________. Dikter. Helsingfors / Borgå, FI: Holger Schildts Förlag, 1916. s. 87-88.

 

Em Português

 

SÖDERGRAN, Edith. Beleza. Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback. Poesia sempre: revista trimestral de poesia. Suécia. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (RJ), ano 13, n. 25, p. 148, 2006.

terça-feira, 3 de março de 2026

Adília Lopes - Eu quero foder foder

Numa voz singular e provocativa, Adília combina nestes versos elementos de crítica sócio-política, feminismo e perscrutação psicológica, utilizando o ato sexual quer como metáfora para a aspiração libertadora que tem em mente, quer como lente para pôr em evidência o modo como as estruturas de poder penetram os espaços íntimos ou privados – onde, a seu ver, há de ocorrer a verdadeira “revolução”, com o objetivo de se atender às mais imediatas necessidades humanas.

 

Em busca de plenitude e de autenticidade, a poetisa propõe a insurgência contra as estruturas opressoras do modo de produção capitalista, sistema que a tudo submete e coloniza tendo em vista os seus interesses, inclusive, claro está, a expressão do sexo e a definição dos papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres, alentando-as com falsas expectativas, as quais, ao fim e ao cabo, sujeitam-as a uma cultura de otimismo obrigatório ou de felicidade forçada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Adília Lopes

(1960-2024)

 

Eu quero foder foder

 

Eu quero foder foder

achadamente

se esta revolução

não me deixa

foder até morrer

é porque

não é revolução

nenhuma

a revolução

não se faz

nas praças

nem nos palácios

(essa é a revolução

dos fariseus)

a revolução

faz-se na casa de banho

de casa

da escola

do trabalho

a relação entre

as pessoas

deve ser uma troca

hoje é uma relação de poder

(mesmo no foder)

a ceifeira ceifa

contente

ceifa nos tempos livres

(semana de 24 x 7 horas já!)

a gestora avalia

a empresa

pela casa de banho

e canta

contente

porque há alegria

no trabalho

o choro da bebé

não impede a mãe

de se vir

a galinha brinca

com a raposa

eu tenho o direito

de estar triste

 

Em: “Florbela Espanca espanca” (1999)

 

Imagem sem créditos

 

Referência:

 

LOPES, Adília. Eu quero foder foder. In: __________. Dobra: poesia reunida (1983-2021). Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 2021. p. 374.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Gerardo Diego - Em metade de um verso

Vislumbrando o que há de mais eterno na arte, o autor espanhol tece loas à conexão indissolúvel entre o poeta e sua criação, oferecendo-nos uma visão otimista e quase mística da morte, apresentada nestes versos não como um termo categórico, um portal por onde se tem acesso ao nada, mas como uma continuidade dentro do fluxo incessante da palavra poética ou, ainda, uma via por onde se entra em comunhão com o divino.

 

O ato de escrever poemas, com o objetivo de se capturar o que há de poesia no entorno ou em seu universo mental, define a vida daquele que se entrega à Lírica, integrando o seu ser à correspondente expressão artística, tornando-a eloquente mesmo a despeito de sua eventual incompletude pelo advento da morte, porquanto sempre suscetível de ser reinterpretada ou expandida por seus seguidores.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gerardo Diego

(1896-1987)

 

En mitad de um verso

 

Murió en mitad de un verso,

cantándolo, floreciéndole,

y quedó el verso abierto, disponible

para la eternidad,

mecido por la brisa,

la brisa que jamás concluye,

verso sin terminar, poeta eterno.

 

Quién muriera así

al aire de una sílaba.

Y al conocer esa muerte de poeta,

recordé otra de mis oraciones.

“Quiero vivir, morir, siempre cantando

y no quiero saber por qué ni cuándo.” (*)

Sí, en el seno del verso,

que le concluya y me concluya Dios.

 

A caminhada do poeta

(Lael Har: pintora norte-americana)

 

Em metade de um verso

 

Morreu no meio de um verso,

cantando-o, fazendo-o florescer,

e o verso ficou aberto, disponível

para a eternidade,

embalado pela brisa,

a brisa que jamais cessa,

verso inacabado, poeta eterno.

 

Quem morreria assim,

ao sopro de uma sílaba.

E ao conhecer essa morte de poeta,

lembrei-me de outra das minhas orações:

Quero viver, morrer, sempre cantando

e não quero saber por quê nem quando.”

Sim, no seio do verso,

que Deus o conclua e me conclua.

 

Nota do Editor:

 

(*). Versos pertencentes ao soneto “El ciprés de Silos (Ausente)”, recolhido em seu livro “Alondra de verdad” (1941). (GAOS, 2015, p. 111, n.r.)

 

Referência:

 

DIEGO, Gerardo. En mitad de um verso. In: GAOS, Vicente (Ed.). Antología del grupo poético de 1927. Actualizada por Carlos Sahagún. 29. ed. Madrid, ES: Cátedra, 2015. p. 111. (“Letras Hispánicas”)

domingo, 1 de março de 2026

Cecília Meireles - Canção

Nesta melancólica canção, a poetisa carioca dá-nos conta de sua experiência de desencanto relacionada, decerto, aos muitos sonhos a que teve que renunciar, mediante um processo consciente e doloroso de deixá-los naufragar em meio às águas do mar da vida, restando subentendido no discurso certo esgotamento emocional para nutrir e sustentar algum sentido diante de um presumível vazio existencial.

 

A bem dizer, o poema permite múltiplos níveis de leitura: por um lado, pode-se interpretá-lo como uma exploração pessoal de algum desengano afetivo ou profissional; por outro, como uma reflexão mais ampla sobre a fragilidade dos desejos humanos, seus ideais e aspirações, frente ao inevitável sobrevir de algum nível de frustração por tudo quanto se deixou à margem ao longo do fluxo inexorável dos dias.

 

J.A.R. – H.C.

 

Cecília Meireles

(1901-1964)

 

Canção

 

Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre dos meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio...

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito:

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

 

Em: “Viagem” (1939)

 

O barco de papel

(Kerry Darlington: artista galesa)

 

Referência:

 

MEIRELES, Cecília. Canção. In: __________. Antologia poética. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2001. p. 19.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Ángel González - Às vezes

O poeta espanhol emprega o erotismo como lente para examinar a complexidade do ato de se escrever poemas: implicaria ele desnudar a alma, expor-se intimamente através das palavras, muito embora isso não garanta ao próprio poeta (ou ao seu leitor) que venha a atingir o clímax do orgasmo emocional que tanto persegue.

 

Ainda que o poeta empregue toda a paixão e energia possível, as palavras – como amantes – podem resistir e negar-se à entrega por completo, deixando o criador em um estado de incompletude, longe de alcançar a culminação desejada, quer emocional, quer criativa, quer – e até mesmo! – física. Enfatiza-se, por conseguinte, a distância entre o intento e a realização propriamente dita, entre o pensamento expressado e a satisfação que deveria acompanhá-lo.

 

Mas veja o internauta: ao afirmar que Vallejo “estava a dissimular”, González adiciona uma camada de ironia ao poema, sugerindo que o poeta peruano – como muitos artistas – pode, em certos momentos, haver ocultado a sua própria satisfação com seus poemas, sob a máscara de uma aparente frustração, com o que se aventa a possibilidade de que, mesmo sob os efeitos do desapontamento, existam processos internos e subterrâneos no ato de escrever que escapam à consciência imediata.

 

Explico-me melhor: poderia haver por trás do poema, por exemplo, uma busca silenciosa por autoconhecimento, cura ou assimilação/compreensão de sentimentos complexos – o que se refletiria em ressonâncias emocionais ou imagéticas plasmadas, direta ou indiretamente, em seus versos –, tornando-o, a despeito de sua pressuposta incompletude, um eixo de onde se podem empreender múltiplas interpretações válidas ou mesmo tentativas de se colimar as lacunas deixadas em suas entrelinhas, num exercício especulativo tantas vezes levado a efeito pela crítica especializada ou por diletantes de determinados poetas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ángel González

(1925-2008)

 

A veces

 

Escribir un poema se parece a un orgasmo:

mancha la tinta tanto como el semen,

empreña también más, en ocasiones.

Tardes hay, sin embargo,

en las que manoseo las palabras,

muerdo sus senos y sus piernas ágiles,

les levanto las faldas con mis dedos,

las miro desde abajo,

les hago lo de siempre

y, pese a todo, ved:

no pasa nada.

 

Lo expresaba muy bien César Vallejo:

“Lo digo, y no me corro”.

 

Pero él disimulaba.

 

En: “Breves acotaciones para una biografía” (1971)

 

Convergência

(Ben Bell: artista inglês)

 

Às vezes

 

Escrever um poema se parece a um orgasmo:

a tinta impregna tanto quanto o sêmen

e, às vezes, fecunda também mais.

Tardes há, no entanto,

em que apalpo as palavras,

mordiscando-lhes os seios e suas pernas ágeis,

levanto-lhes as saias com os dedos,

vejo-lhes o que há por baixo,

faço-lhes as coisas de costume

e, apesar de tudo, creiam-me:

nada acontece.

 

César Vallejo expressou-o muito bem:

“Dou-lhe vazão, mas não chego ao clímax”.

 

Mas estava a dissimular.

 

Em: “Breves anotações para uma biografia” (1971)

 

Referência:

 

GONZÁLEZ, Ángel. A veces. In: __________. Palabra sobre palabra. Obra completa: 1956-2001. Barcelona, ES: Seix Barral, 2004. p. 259. (“Los Tres Mundos”)