Neste autêntico canto
ao poder generativo do sexo, à igualdade entre homens e mulheres, bem assim à
conexão entre o amor carnal e a criação artística e social, Whitman eleva o
sensual ao sagrado, desafiando tabus que até hoje teimam em remanescer e
proclamando uma visão francamente expansiva da humanidade, um “modus vivendi”
mais livre e exuberante.
O poeta
norte-americano funde o físico e o espiritual ao vislumbrar a procriação como
um ato cósmico – e até mesmo patriótico –, no qual podem os amantes reivindicar
a libido de seus corpos sem vergonha, sem assunção de culpas desarrazoadas, e as
mulheres, longe de serem vistas como um passivo objeto de desejo, passam a ser
apreciadas por suas potencialidades ativas, como a independência, a vivacidade
e demais predicados.
J.A.R. – H.C.
Walt Whitman
(1819-1892)
A woman waits for me
A woman waits for me,
she contains all, nothing is lacking.
Yet all were lacking
if sex were lacking, or if the moisture
of the right man were
lacking.
Sex contains all,
bodies, souls,
Meanings, proofs, purities,
delicacies, results, promulgations,
Songs, commands,
health, pride, the maternal mistery, the
seminal milk,
All hopes,
benefactions, bestowals, all the passions, loves,
beauties, delights of
the earth,
All the governments,
judges, gods, follow’d persons of the earth,
These are contain’d in sex as parts of itself and justifications of itself.
Without shame the man
I like knows and avows the deliciousness
of his sex,
Without shame the woman
I like knows and avows hers.
Now I will dismiss
myself from impassive women,
I will go stay with
her who waits for me, and with those women
that are warm-blooded
and suficient for me.
I see that they understand
me and do not deny me,
I see that they are worthy
of me, I will be the robust husband of
those women.
They are not one jot
less than I am,
They are tann’d in
the face by shining suns and blowing winds,
Their flash has the
old divine suppleness and strenght,
They know how to swim,
row, ride, wrestle, shoot, run, strike,
retreat, advance,
resist, defend themselves,
They are ultimate in
their own right – they are calm, clear,
well-possess’d of
themselves.
I draw you close to
me, you women,
I cannot let you go,
I would do you good,
I am for you, and you
are for me, not only for our own sake,
but for other’sakes,
Envelop’d in you
sleep greater heroes and bards,
They refuse to awake
at the touch of any man but me.
It is I, you women, I
make my way,
I am stern, acrid,
large, undissuadable, but I love you,
I do not hurt you any
more than is necessary for you,
I pour the stuff to
start sons and daughters fit for these States,
I press with slow
rude muscle,
I brace myself
efectually, I listen to no entreaties,
I dare not withdraw
till I deposit what has so long accumulated
within me.
Through you I drain
the pent-up rivers of myself,
In you I wrap a thousand
onward years,
On you I graft the
grafts of the best-beloved of me and America,
The drops I distil
upon you shall grow fierce and athletic girls,
new artists,
musicians, and singers,
The babes I beget
upon you are beget babes in their turn,
I shall demand
perfect men and women out
of my love-spendings,
I shall expect them
to interpenetrate with others, as I and you
interpenetrate now,
I shall count on the
fruits of the gushing showers of them, as I
count on the fruits
of the gushing showers I give now,
I shall look for loving crops froam the birth, life, death, immortality,
I plain to lovingly
now.
Homem e Mulher
(Paul Ygartua: pintor
anglo-canadense)
Uma mulher espera por
mim
Uma mulher espera por
mim, nela tudo se contém, não falta nada,
No entanto faltaria
tudo se lhe faltasse o sexo ou a umidade
do homem certo.
Tudo se contém no
sexo, corpos, almas,
Significados, provas,
purezas, delicadezas, proclamações, efeitos,
Ordens, canções,
higidez, orgulho, o mistério materno, o leite
seminal,
As esperanças todas,
bens, outorgas, todas as paixões, belezas,
amores, os deleites
da terra,
Todos os governos,
juízes, deuses, o cortejo de pessoas da terra,
Tudo se contém no
sexo como partes de si e justificações de si.
Sem pejo o homem de
quem gosto sabe e confessa as delícias
do sexo,
Sem pejo a mulher de
quem eu gosto sabe e confessa as do sexo
dela.
Pois eu me afasto das
mulheres insensíveis,
Para ficar com a que
espera por mim, e com as mulheres
de sangue quente que
me satisfazem,
Eu vejo que elas me
compreendem e não me repudiam,
Vejo que são dignas
de mim e eu serei delas o marido vigoroso.
Essas mulheres não
são em nada inferiores a mim,
Têm o rosto tisnado
pelo brilho dos sóis e pelo sopro dos ventos.
Há na carne delas,
antigas e divinas, agilidade, força,
Elas sabem nadar,
remas, montar, lutar, atirar, correr, bater,
recuar, avançar,
resistir, defender-se sozinhas,
São supremas por
direito próprio – são calmas, límpidas, donas
de si mesmas.
Puxo vocês para junto
de mim, mulheres,
Não as posso deixar
ir, vou lhes fazer bem,
Existo para você e
vocês para mim, não apenas para o nosso bem,
mas para o bem dos
outros,
Envoltos em você
dormem grandes heróis e bardos,
Eles se recusam a
acordar pelo toque de outro homem que não eu.
Sou eu, mulheres,
abro o meu caminho,
Sou severo, cáustico,
indissuadível, mas amo vocês,
Não as machuco mais
que o necessário a vocês mesmas,
Derramo a substância
geradora de filhos e filhas dignos destes
Estados, assedio com
músculo pausado e rude,
Me firmo eficazmente,
não dou ouvido a rogos,
Não ouso retirar-me
sem depositar o que há de muito acumulei
dentro de mim.
Através de você eu
dreno os rios enclausurados de mim mesmo,
Em vocês concentro
mil anos de futuro,
Em vocês faço enxerto
dos tão amados por mim e pela América,
As gotas que em vocês
destilo farão medrar moças atléticas e
ardentes, novos
artistas, músicos, cantores,
As crianças que em
vocês procrio vão procriar, por sua vez,
outras crianças,
Exigirei, dos meus
dispêndios amorosos, homens e mulheres
perfeitos,
Eles irão se
interpenetrar, espero, como eu e você agora nos
interpenetramos,
Contarei com os
frutos dos generosos aguaceiros deles, como
conto com os frutos
dos aguaceiros que ora entorno.
Vou ficar à espera
das ternas colheitas do nascimento, vida,
morte, imortalidade,
Que tão amorosamente
planto agora.
Referência:
WHITMAN, Walt. A woman waits for me / Uma mulher espera por mim. Tradução de José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo Paes (Seleção, tradução, introdução e notas). Poesia erótica em tradução. 1. ed. Companhia de Bolso. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2006. Em inglês: p. 146, 148 e 150; em português: p. 147, 149 e 151.
❁





