A sugerir que a
verdadeira conexão com o divino não provém exatamente de palavras ou rituais,
senão de uma observação atenta e maravilhada da natureza, Merton propõe que nos
abramos a uma experiência transcendente capaz de nos transformar a partir de
nosso interior, tal que a Luz resultante dessa conexão espiritual se nos
apresente como uma metáfora para a Paz e a Unidade que devemos expressar, ante a
sublime presença de Deus dentro de nós mesmos.
Trata-se de um
despertar epifânico a indicar certa sintonia com as simbologias orientais, para
as quais Deus é uma presença que se manifesta quer na natureza quer no interior
do próprio ser humano, distintamente das escrituras ocidentais, muito mais
devotadas a ver o Eterno no inefável orbe de transcendência, a não confundir a
figura do sujeito que contempla com a do objeto de seu conhecimento ou veneração.
J.A.R. – H.C.
Thomas Merton
(1915-1968)
When no one listens
To the quiet trees
When no one notices
The sun in the pool
Where no one feels
The first drop of rain
Or sees the last star
Or hails the first morning
Of a giant world
Where peace begins
And rages end:
One bird sits still
Watching the work of God:
One turning leaf,
Two falling blossoms,
Ten circles upon the pond.
One cloud upon the hillside,
Two shadows in the valley
And the light strikes home.
Now dawn commands the capture
Of the tallest fortune.
The surrender
Of no less marvelous prize!
Closer and clearer
Than any wordy master,
Thou inward Stranger
Whom I have never seen,
Deeper and cleaner
Than the clamorous ocean,
Seize up my silence
Hold me in Thy Hand!
Now act is waste
And suffering undone
Laws become prodigals
Limits are torn down
For envy has no property
And passion is none.
Look, the vast Light stands still
Our cleanest Light is One!
In: “Figures for an
Apocalypse” (1947)
Nenúfares à luz do
amanhecer
(Ken Moroney: pintor
inglês)
Estranho
Quando ninguém escuta
O silêncio das
árvores
Quando ninguém
percebe
O sol sobre o remanso
Onde ninguém sente
A primeira gota de
chuva
Ou vê a derradeira
estrela
Nem saúda o alvorecer
De um mundo grandioso
Onde a paz começa
E findam as agressões:
Um pássaro queda-se
tranquilo
A observar a obra de
Deus:
Uma folha que se
estiola,
Duas flores que caem,
Dez círculos à tona na
lagoa.
Uma nuvem sobre a
encosta,
Duas sombras no vale
E a luz a lograr o
seu efeito.
Agora o amanhecer
ordena a captura
Da mais alta fortuna,
A rendição
De um prêmio não
menos maravilhoso!
Mais perto e mais
claro
Do que qualquer
palavroso mestre,
Tu, Estranho imo,
A quem meus olhos
jamais divisaram.
Mais profundo e mais límpido
Do que o clamoroso
oceano,
Apodera-te do meu
silêncio
Segura-me em Tua Mão!
Agora, prescinde-se do
agir
Desfaz-se o
sofrimento
As leis tornam-se
pródigas
Os limites são derrubados
Pois a inveja não tem
domínio
E a paixão é nenhuma.
Vejam, a vasta Luz
permanece imóvel,
Eis que Una é a nossa
mais pura Luz!
Em: “Figuras para um
Apocalipse” (1947)
Referência:
MERTON, Thomas.
Stranger. In: __________. The collected poems of Thomas Merton. 1st.
publ., 6th. print. New York, NY: New Directions, 1977. p. 189-190.
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